A Globo admite a inocência de Lula. E agora?

(Foto: RICARDO STUCKERT)

Por: Roberto Bueno

No penúltimo golpe de Estado assestado contra o povo brasileiro quando foram utilizados tanques nas ruas e torturas sanguinárias em dependências oficiais, por vezes, da caserna, a Rede Globo apoiou ferrenhamente o movimento antidemocrático que acabou com uma geração inteira e frustrou o desenvolvimento do Brasil e dos rumos democráticos que a geração de João Goulart propusera para o país. Tardaram décadas, várias delas, e muito sangrentas, além de alienadoras das riquezas nacionais e sufocamento de casos de corrupção praticados pelo establishment devidamente ocultados pela grande mídia corporativa da época, a Rede Globo, uma usina potentíssima de mentiras que criou um denso manto de fantasias que encobriu o povo brasileiro com chacrinhas e falsos documentários, reportagens fantasiosas e noticiários perpassados por elogios magníficos ao regime ditatorial. Farda, farsa e tragédia.

A Rede Globo conduziu o indispensável braço midiático para que o golpe de Estado de 2016 fosse possível assim como a ascensão do atual regime militar tivesse êxito pelo processo eleitoral de 2018, realizando manobras diversas, até mesmo ocultando o terrível histórico parlamentar e pessoal do atual Presidente e de seus sucessivos elogios a foras da lei, assim como as ligações de sua família com milicianos, pavimentando a via para personagem cuja então autodeclarada especialidade é “matar”, mas também toda a sorte de violências contra indivíduos, mentor intelectual de explosão de todo um quartel do Exército que causaria morte em massa, e emérito cultuador da tortura elogiando o reconhecido torturador, o Coronel Brilhante Ustra. A Rede Globo apoiou o grupo que organizou a ascensão ao poder deste indivíduo. Tudo isto foi ocultado assim como metade do país representado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) também sumiu da editoria da Rede Globo que, paralelamente, empenhava esforços para manter Lula preso durante quinhentos e oitenta dias.

Hoje, passados quase cinco anos de assestar segundo golpe de Estado contra o povo brasileiro, com a subsequente alienação de riquezas nacionais que ora continua a pleno curso, entremeado por uma fantasiosa e manipulada eleição presidencial de 2018 que levou ao poder um conjunto de indivíduos comprometido com a transgressão aos fundamentos da República explicitados na Constituição de 1988, eis que, 100 mil mortos depois de todas as distorções e ofensas ao regime constitucional é que a Rede Globo emerge através da pluma de Ascânio Seleme, ex-diretor de O Globo e seu atual colunista, no qual seu conteúdo encontra importante expressão no título (“Lula inocente”) e na imagem que lhe serve de ilustração. Este artigo, contudo, precisa ser considerado em contexto mais amplo, no mínimo, englobando o seu anterior artigo publicado no dia 11.07.2020 e o mais recentemente publicado por Merval Pereira no dia 06.08.2020, todos no jornal O Globo.

O título do artigo de Seleme possui discrepância com o conteúdo, mas o título exerce tremenda função de transmissão de conteúdo político ao afirmar a inocência de Lula, enquanto o corpo do texto aponta para a possibilidade do Supremo Tribunal Federal (STF) decidir neste sentido. O corpo do artigo deve ser compreendido à luz de precedente texto assinado por Seleme publicado dia 11.07.2020, no qual alertava no título de que “É hora de perdoar o PT”. O artigo publicado neste dia 08.08.2020 aponta para a “possibilidade” de que Lula venha a ser inocentado e a partir da concretização desta decisão Seleme extrai breves consequências político-eleitorais para o cenário de 2022. É notável que o título do artigo e a imagem de ilustração que o acompanha são compatíveis com a interpretação do renascimento das pretensões petistas de alcançar o poder em 2022, mas o corpo do texto que não será lido por tantos que acessam o título da matéria contém uma série de matizações.

Malgrado as matizações realizadas no corpo do texto, há grande e notável viragem explicitada pela matéria, pois a abordagem empregada pela Rede Globo à possível decisão do STF deixa de ser de enfrentamento. A Rede Globo abre mão de tom crítico à possível decisão da corte favorável à Lula e ao PT, abandona parcialmente sua tentativa de reforçar o fantasioso cenário que construiu ao longo dos anos, passando a operar sobre o plano da realidade da inocência de Lula e projetar a sua inserção no jogo político, muito embora sem realizar salto duplo twist carpado, posto que todavia mantém o pé em sua construção narrativa da “corrupção” dos governos petistas ao tempo em que põe o outro no reconhecimento da legitimidade da intervenção política do petismo. Digno de atenção é que até há pouco tempo, em face de tal “ameaça”, a Rede Globo não hesitaria abrir imediata campanha contra tal decisão e, passo seguinte, pressionar os ministros, logo acionando amplas e sucessivas entrevistas nos seus mais prestigiosos espaços informativos com Luís Roberto Barroso, Luiz Fux etc. Desta vez isto não ocorrerá.

Em face da centralidade do tema para os rumos da própria empresa de mídia carioca, soa óbvio que a publicação consentiu com a publicação de texto de Seleme que articula o regresso de Lula ao jogo político ao reconhecer a sua inocência. Seleme-Globo já publicaram artigo no dia 11.07.2020 cuja orientação central era a concessão de “perdão” ao PT, algo que, como era de supor, não foi bem acolhido pelas fileiras do campo progressista. Seleme-Globo voltam à carga com aceno para o PT neste artigo do dia 08.08.2020, que dialoga com a publicação do dia 06.08.2020 no jornal O Globo, espaço em que Merval Pereira indicava a possibilidade de Lula candidatar-se em 2022 em face de decisão do STF reconhecendo a suspeição do ex-juiz Moro na condução do processo de Lula.

O artigo de Seleme-Globo dialoga com a recente publicação de Merval quanto à lógica de admissão de Lula no tabuleiro eleitoral de 2022, malgrado adote tom contido de que “Caberá ao Supremo decidir”. Para Merval a análise da presença de Lula no jogo político é “situação é mais do que retórica, é real, a começar pela possibilidade, cada vez mais concreta, de o ex-juiz Sérgio Moro ser considerado parcial nos julgamentos em que o ex-presidente Lula foi condenado”, mas a empresa ainda não desembarca completamente Moro de seus projetos, mantendo-o no texto de Merval como possível competidor nas eleições presidenciais de 2022, embora mantenha aberta a janela de sua interdição pela vida da emergente legislação de quarentena para egressos do Poder Judiciário, desde que prevaleça interpretação das normas eleitorais de aplicação retroativa das normas. É sabido que a empresa não tem obstáculos para acessar informações sensíveis dentro do STF, e este movimento de análise de dois de seus principais colunistas que inclui Lula no cenário de 2022 aponta para um horizonte que parece estar sendo desenhado.

O que está sob juízo neste momento no STF é se o ex-magistrado Moro foi parcial ou não no julgamento do ex-Presidente Lula no caso do tríplex do Guarujá. Em seu artigo do dia 06.08.2020 Merval-Globo já admitem algo até então impensável, a saber, que “Moro divulgou o depoimento de Palocci dias antes do primeiro turno da eleição presidencial de 2018 com o fim de prejudicar Lula, favorecendo assim Bolsonaro, de quem viria a ser ministro da Justiça”. Indiscutivelmente, trata-se de correção de rumos por absoluta imposição de interesses econômicos que colocam em risco a sobrevivência da empresa carioca. A extensão da correção hoje reiterada no artigo de Seleme, malgrado as matizações no corpo de seu texto, devem ser entendidas em conexão com o recente texto de Merval afirmando que eventual decisão do STF favorável a Lula no caso da suspeição, isto imporá realidade que “provavelmente levará à anulação de outros dois processos, o do sítio de Atibaia, em que Lula foi condenado pela Juíza Gabriel Hardt, e o do Instituto Lula, que está em andamento com o Juiz Luiz Antonio Bonat”.

O texto de Merval admite que a consequência direta do STF reconhecer a obviedade da transgressão e violência legal praticada por Moro será a reabilitação de Lula para o cenário eleitoral. Convergindo com Merval o artigo de Seleme do dia 08.08.2020 limpidamente reconhece que se “Lula terá sua condenação suspensa, seus direitos políticos restabelecidos e poderá disputar a eleição presidencial de 2022”. A aparente obviedade deve ser destacada, pois até então a empresa carioca veio aplicando enfoque encobridor da realidade e empregando toda a sua influência para torcer eventuais decisões favoráveis à Lula e ao PT. Por conseguinte, o colunista aponta para o horizonte petista: “o que até outro dia parecia ser apenas um sonho dos petistas de raiz, hoje soa como possibilidade real”. Podemos estar assistindo o ocaso da Lava Jato e da assunção pública da parcialidade de seus principais agentes.

Após a admissão da possível configuração de novo cenário político, a Rede Globo ensaia admitir que Lula afirmar que não é candidato viável, embora não desconheça sua força eleitoral à partida. Mais próximo do sonho da Rede Globo é Haddad, que encarna a “parte” do PT (minoritária no partido) que compartilha seus interesses. Praticamente dando por certa a decisão do STF em favor de Lula, Seleme-Globo passam a opor o PT “de” Lula, representado politicamente por Gleisi Hoffmann e José Dirceu, às virtudes do PT “de” Haddad, “até” mais à esquerda do que o grupo classificável como “populista”, e que não quer ouvir falar de entendimento político contra o inimigo comum que tem com a empresa carioca. Para Seleme-Marinho, os extremistas componentes do grupo de Lula “Apostam na ruptura como única forma de retomar o poder. Entendem que um alinhamento com as demais forças do campo democrático pode resultar na eleição de um não petista”. Raríssimo, aliás, o suposto extremismo do grupo político petista de Lula, posto que durante o seu governo salvou economicamente a Rede Globo que agora o acusa de radical. A reclamação global deve ser compreendida por estar só e sem a força econômica de antanho em face de suas escolhas políticas e econômicas, então eficientes para abrir caminho para o golpe de Estado e a ascensão do fascismo que agora leva a Rede Globo a dar sucessivos passos em direção a grupos mais centristas dentro das fileiras do PT à busca de alguma espécie de convergência.

A Rede Globo através da pluma de Seleme atribui responsabilidades políticas à Lula por não “criar pontes”, por desejar seguir solitariamente o seu projeto político, o que equivale, na prática, à reprimenda por não aderir ao seu movimento centrista, algo que o artigo assevera equivaler a pavimentar o caminho para o segundo mandato do que classificamos como fascismo militar bolsonarista.

Retomando argumento reiteradamente brandido por Ciro Gomes, o artigo de Seleme-Globo sugere a inviabilidade de Lula como candidato, embora implicitamente admita a sua força como apoiador de nomes como o de Haddad, talvez secundado por alguém da confiança da empresa cariosa, dupla que poderia contar com o aval e ser capaz de atrair o “centro” político. Parece ser que a criação do centro por parte dos interesses da Globo parte da fragmentação do PT e atração de setores da esquerda em geral enfrentados com o partido.

Este movimento leva a Rede Globo a reforçar tentativas de aproximação com segmento do PT encarnado em Haddad, que reputa dispor do melhor e mais fidedigno verniz do falecido PSDB com o qual sabidamente a empresa manteve relação carnal durante décadas. É a esquerda mais próxima ao PSDB de sempre, conciliadora in extremis, disposta a arrumar-se com a banca e acomodar-se com a mídia corporativa, todas eles setores conduzidos por forças que historicamente demonstraram o seu absoluto ódio pelas políticas conducentes a verticalizar a soberania nacional e promover o desenvolvimento social do povo brasileiro. Para a Rede Globo, Lula e seu grupo majoritário são “populistas”, entenda-se como tal, na prática, o fato de que estão demasiado orientados pela preocupação em alocar recursos em proveito do povo. Alocar recursos para combater a miséria e a pobreza é o desenho bem acabado do que a elite concentradora de rendas qualifica como “populismo”, e o texto de Seleme-Globo dedica quase metade do espaço à crítica de internacionalmente premiados programas sociais como o Bolsa Família hoje rebatizado de Renda Família, qualificando estes investimentos sociais como “gastança”, mas ocultando por completo o significado da entrega para a iniciativa privada das riquezas e de empresas nacionais capazes de financiar estes investimentos. O artigo de Seleme-Globo destaca preocupação com o processo eleitoral marcado pela influência da política de bolsas, sugerindo que o PT já desfrutou do retorno eleitoral que ela pode oferecer, mas que agora terá de enfrentar-se com ela na condição de oposição.

A insatisfação com as políticas públicas do PT, portanto, não foram “arquivadas” pelo artigo de Seleme na condição de porta-voz da família Marinho, hoje acuada financeiramente pelo regime militar cuja ameaça alcança extremos de cassação de sua concessão. O artigo mantém a tradicional retórica da empresa sobre a corrupção dos governos petistas de Lula e Dilma, e, apesar de tudo, mantém o argumento de voltar à “estaca zero” o julgamento de Lula, desenhando cenário em que a espada de Dâmocles deve continuar pendente sobre a cabeça do ex-presidente e do PT em sua condição de representantes dos trabalhadores(as), pois a elite, ao fim e ao cabo, não termina de sentir-se à vontade sem dispor da ameaça de culpar e julgar a Lula e o PT. A tal ponto alcança o artigo de Seleme-Globo que transgride velozmente as fronteiras do Estado democrático de direito ao advertir os advogados de Lula de que ele terão o encargo de comprovar que seu cliente é inocente após eventual decisão favorável a Lula pelo STF, em suas palavras, que “Isso não significa que o ex-presidente não tem culpa, o que terá de ser comprovado pelos seus advogados no tribunal”. Mesmo neste radical momento de ameaça ao país e risco a sobrevivência de sua empresa, a família Marinho continua operando sob os signos do direito penal de exceção, desprezando o princípio da presunção de inocência e de que cabe à acusação a comprovação da culpa.

O Brasil foi levado a níveis de incivilidade e danos irreparáveis, a começar pelas cem mil vidas até aqui oficialmente reconhecidas como perdidas. Moro e a Lava Jato foram os instrumentos utilizados pelos articuladores e verdadeiros responsáveis pela debacle que hipotecou a soberania nacional e entregou o país a intendentes dos interesses norte-americanos. Quando a Rede Globo publica a coluna de Seleme está apenas a dar os primeiros passos no sentido de expor o grupo de indivíduos e a operação que pretende responsabilizar por tudo que vivemos. Não são. Efetivamente, Moro e a Lava Jato são a todas luzes incapazes para conceber, perpetrar e continuar operando a sofisticada máquina que acionou o golpe de Estado. São instrumentos do golpe de Estado concebido nos EUA e conduzidos internamente por seus associados, dentre os quais a Rede Globo, a centro-direita e os ultraconservadores, indivíduos espalhados por diversos setores da sociedade, do mundo da toga aos militares, dos religiosos à banca e ao empresariado. A Rede Globo apoiou a ascensão de novo regime militar e agora ensaia passo atrás, mas não por arrependimento “teórico”, senão tão somente porque foi “desembarcada” da partilha dos benefícios econômicos do regime hoje operativo em proveito de suas concorrentes em franco crescimento.

O artigo de Seleme-Globo chama a atenção menos pela articulação no corpo do texto do que por alguns de seus aspectos que são reforçados pela evidente conexão com a linha editorial que vem sendo adotada pela empresa e que encontra reflexo em textos como os publicados nos dias 11.07.2020 por Ascânio Seleme, o do dia 06.08.2020 de Merval Pereira, outro ícone da empresa. No último texto de Seleme deste dia 08.08.2020 o desenho que o acompanha é bastante ilustrativo: uma estrela vermelha petista ascendendo em fundo branco radiante, apresentando emersão mais contida, mas remetendo a processo de decolagem que recorda o celebrizado Cristo na famosa capa da The Economist em 2009. A ascensão da estrela vermelha talvez represente a única esperança para o Brasil e, paradoxalmente, se ainda houver uma, para a sobrevivência da Rede Globo.

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