A Globo (com Guedes) pede ajuda ao PT

Neste sábado dia 11.07.2020 o jornal O Globo através de importante colunista de seu time, Ascânio Seleme, realizou importante movimento político, aceno, ainda bastante tímido, mas significativo, o que é devido ao incessante avanço da extrema-direita sobre os interesses do grupo com potencial de colocar em causa a sua relevância empresarial e, no limite, a sua existência. O aceno do importante colunista que já ocupou cargo diretivo no jornal ocorreu abertamente na direção do Partido dos Trabalhadores (PT), destacando ser interlocutor válido e necessário, reconhecendo-o como representante legítimo de, ao menos, 30% da sociedade brasileira. Mesmo rápida e pontual análise do texto permite observar gravíssimas deficiências nas posições sustentadas no artigo.

À partida, não é possível desconhecer que o artigo de Ascânio Seleme deve ser reconhecido como expressão do grupo Globo, posto tratar-se de matéria tão delicada, posto que não apenas envolve como “reabilita” o PT como legítimo interlocutor político e que, portanto, deve ser novamente trazido para o espaço político. Neste sentido devemos compreender que o artigo é de dupla autoria, a saber, “Ascânio-Globo”, e assim o retrataremos daqui em frente.

Importa recordar que este é, no mínimo, o terceiro movimento do grupo Globo em aceno ao PT. O primeiro deles foi o convite do próprio jornal O Globo para que Lula concedesse entrevista ao jornalista e colunista Bernardo Mello Franco, que foi negada pelo Presidente que, como declarou recentemente, não costuma subir no “primeiro ônibus que passa”. Passo seguinte, neste dia 09.07.2020, Lula concedeu entrevista a uma das afiliadas do Grupo Globo, a Rádio Gaúcha, do Grupo RBS, que historicamente mantém linha ideológica absolutamente afinada com a Globo, mas que, sem embargo, à diferença do artigo de Ascânio, prestou-se para realizar entrevista-linchamento com Lula, personalidade altamente representativa da sociedade brasileira. Isto sugere que, ao menos até então não havia sintonia fina entre a empresa gaúcha e a linha da matriz, não tinha ainda ecoado aos ouvidos dos entrevistadores Mattos, Potter e Coimbra o claro aviso de Ascânio-Globo de que “A gritaria contra a roubalheira já cansou, não porque se queira permitir roubalheiras, mas porque é oportunista politicamente”. Fomos assim avisados formalmente pela empresa de que vivíamos sob o reino do oportunismo político.

Podemos questionar o que motiva o artigo neste momento, e sugiro tratar-se de que a empresa começa a vislumbrar por quem dobrarão os sinos a tempo próximo e, ao que parece, não lhe apraz o que antecipa. A empresa parece antecipar o cenário de real ameaça a sua posição de poder, e que esteja em risco o principal aspecto que mantém o seu apoio ao regime, vale dizer, os ganhos econômicos que vêm auferindo até aqui sob a égide da política econômica do neoliberalismo de Guedes-Pinochet. O artigo não faz qualquer referência a este motivo subterrâneo, e principal.

Ascânio-Globo faz arrancar o artigo destacando que 30% da população brasileira não pode ser rejeitada, apontando ser este o núcleo de petistas no país, militantes e apoiadores do partido. Contudo, Ascânio-Globo fazem tal referência como se pudessem permitir-se realizar a análise desde um ponto observação do mundo exterior, vale dizer, como se a Globo pudesse olhar para esta enorme parcela da população brasileira e, repentinamente, notar que a organização política do país não pode prescindir dela, que algum obscuro mecanismo até aqui a excluiu e isto já não mais é possível de ser mantido. Esta posição habilmente distante do texto permite conduzir ao equívoco de que Ascânio-Globo nada tem a ver com o tema.

Rigorosamente, Ascânio-Globo tem tudo a ver com o problema detectado da exclusão desta vasta parcela da população brasileira, de sua interdição do debate público, com isto bastando observar a ausência de lideranças petistas nos veículos da empresa Globo. A empresa não apenas participou deste processo de exclusão dos 30% da população como, definitivamente, foi decisiva para que isto tenha sido mantido hermeticamente até aqui mas, reiteremos, o texto é redigido como se a empresa estivesse a observar realidade desde perspectiva neutra, na qual nunca interveio. Nada mais falso, e disto é prova toda a história da empresa desde a sua constituição com financiamento norte-americano para consolidar o movimento golpista antinacionalista, antisoberano e antidemocrático que veio sendo aplicado contra o Brasil desde 1964 sob o beneplácito da família Marinho, passando, mais recentemente pela fracassada tentativa de fraude (“caso Proconsult”) na eleição de Leonel Brizola para o Governo do Rio de Janeiro (1983-1987), e também pela manipulação na eleição de Fernando Collor de Melo, assim como na de Fernando Henrique Cardoso, e mais recentemente no golpe contra o Brasil que concedeu mandato a Dilma Rousseff, mas não menos intensamente em seu nefasto papel na perseguição obstinada ao Presidente Lula e, por fim, manipulando para favorecer a eleição de Jair Bolsonaro em desfavor de Fernando Haddad. Pode a democracia conviver com este modelo empresarial que recorda o valor dos fundamentos da democracia tão somente quando a existência da empresa e seus resultados econômico-financeiros estão ameaçados?

Algo repentinamente é que Ascânio-Globo apresentam surpresa com a massa de petistas excluídos do debate político, mas esquecendo que Lula saiu do Governo com 87% de aprovação popular, como nenhum outro governante logrou, e neste sentido o grupo de cidadãos brasileiros que a Globo excluiu são muitos mais do que o grupo de 30% que apoiam o PT, agora, tardiamente, reconhecido como, “Talvez o mais forte e sustentável da história partidária brasileira tem que ser readmitido no debate nacional”. Sem embargo, após este primeiro movimento de apoio ao diálogo e reincorporação ao cenário político da grande força popular petista, Ascânio-Globo continuam a manter restrições, e sobressai o caso da corrupção, para logo realizar o movimento de “perdoar”, eis que, sustentam, “Ninguém tem dúvida de que os malfeitos cometidos já foram amplamente punidos”. Notável o argumento. Redigem como se fosse a própria empresa ocupante de posição alheia a flagrantes casos que colocam em dúvida certos aspectos, digamos assim, de sua higidez em matéria de tesouraria. Resta evidente o sentimento de como ainda podem sentir-se à vontade os signatários do artigo para impor condições para que o PT volte a ocupar o seu natural espaço político, senão à luz da velha arrogância que habita o núcleo duro do que ainda restar de músculo cardíaco na elite brasileira.

Ascânio-Globo criticam a suposta tentativa do PT de censurar a imprensa, como se em algum recanto deste planeta, sobretudo nos tão admirados países anglófonos, não existissem normas regulamentadoras da mídia corporativa, assim como também na Alemanha e na França. Mas a Globo oculta o fato, como sempre, e como nunca, quando o debate foi trazido à público durante a administração petista. Contradição em termos, foi apenas a extrema liberdade de que dispôs a Globo, contra todos os mais altos interesses do Brasil e de sua gente, o que permitiu que ela desfrutasse de completa liberdade para chegar ao extremo de alimentar o golpe de Estado contra o Brasil em 2016.

Ascânio-Globo não sentem qualquer espécie de constrangimento em abrir espaço no texto para assestar crítica ao PT por abrir espaços para a discussão e solução de conflitos através de mediações e conselhos populares. Parecem manter condição arredia a tudo quanto diga respeito às ruas, à busca de conciliação nas ruas e praças, nas vilas e nos bairros, ali onde vive e pulsa o coração do povo, para além, exclusivamente, dos tribunais, onde apenas acessa em posição de poder um conjunto limitado da aristocracia, invariavelmente composta de privilegiados homens brancos de classe média e alta que dispõe de recursos para longo período de preparação para os concursos públicos aliados aos seus “sobrenomes de família”, fenômeno que não sofre maior alteração histórica senão pela progressiva incorporação de mulheres, mas todas elas da mesma classe social.

Ascânio-Globo reconhecem que “Passou da hora de os petistas serem reintegrados”, mas logo apresentam o bastão para não hesitar em destacar que o PT precisa abrir mão da tentativa de regular a mídia e da proximidade das forças populares para que receba novamente o beneplácito do grupo de poder midiático para postular o poder, como se os reais problemas do Brasil não contivessem, dentre eles, o do controle do poder midiático por mãos privadas que sucessivamente abortam os melhores projetos de desenvolvimento nacional e de aprofundamento da democracia, e isto nós o sabemos, de Vargas a Jango, de Lula a Dilma, como a Globo esteve ao lado dos coturnos para vazar o sangue da gente brasileira.

O artigo de Ascânio-Globo aparenta repelir as posições de violência e ódio, justamente os valores que estimularam e que hoje comprometem o futuro da empresa, e que precisam desarmá-los com o objetivo e potência com que direcionaram os seus canhões, dia após dia, noite após noite, contra o PT. Esta é a única alternativa de reconstrução de penetração para uma empresa que perdeu capilaridade em face do notável avanço da extrema-direita casada ao fenômeno evangélico. Lapidares, Ascânio-Globo afirmam: “O fato é que o ódio dirigido ao PT não faz mais sentido e precisa ser reconsiderado se o país quiser mesmo seguir o seu destino de nação soberana, democrática e tolerante”. Quase soa um “sejamos pragmáticos”, “deixa para lá”. É relevantíssimo sublinhar que nenhum destes valores anunciados pela empresa como superiores para orientar o futuro do Brasil foram historicamente praticados por ela de forma congruente bastando checar o seu contínuo esforço por dinamitar as políticas orientadas a garantir a soberania nacional, prestando apoio incondicional à oligarquia nacional ao arrepio da recepção dos mais profundos interesses do povo brasileiro. A tolerância é fenômeno recente tão somente na esfera dos costumes, mas em nenhum caso se faz presente em sua versão econômica traduzível na solidariedade econômica para a construção de sociedade equitativa, com aceitáveis níveis de igualdade, senão o contrário, e neste artigo a Globo continua a apontar para rumo de condescendência com a concentração de riquezas e de poder político. Nem sequer um passo atrás.

Do artigo de Ascânio-Globo deflui com relativa clareza a preocupação de reconfigurar o seu bloco político para enfrentar ofensiva que parecem reputar estar a ameaçar a empresa. Para a reconfiguração deste bloco de forças explicitam não contar com a “boa vontade dos que carregam faixas pedindo intervenção militar e fechamento do Supremo e do Congresso”, imediatamente classificados pela vontade que firma o artigo como nada menos do que um “grupelho ideológico, burro e pequeno que faz parte da base do presidente”. Nada como um dia após o outro, pois foram estes os burros com quem até ontem a Globo este abraçada em regozijo malfezejo, pornograficamente atentatório aos soberanos interesses do país, Petrobrás que o diga, dezenas de milhares de cadáveres que o confirmam.

Ascânio-Globo avaliam que a burricada se perfila exclusivamente ao redor de seu hipnotizador de finais de semana, e equivocamente supõe que estes também não se encontram entre aqueles que compõem o centro, centro-direita e direita. Junto a este coletivo Ascânio-Globo acreditam poder obter apoios relevantes, avaliação conducente a erro ao mistificar o fato de que o real centro no espectro político nacional é ocupado pelo PT, enquanto que a centro-direita e a direita, ademais da falecida social-democracia representada pelo PSDB, todos eles, hoje, não passam de meros apêndices da extrema-direita através de seu apoio indisfarçável à política econômica de Guedes sob o guarda-chuva bolsonarista-militarista.

A Globo está apenas levantando o braço pela primeira vez de forma decidida para pedir socorro, mas não apresentou até aqui sequer pista de pedido de desculpas por sua intervenção autoritária na vida política do país, ferindo de morte a democracia e colocando as condições de possibilidades para que continue sendo lançada ao lixo a Constituição brasileira, o pacto político básico sob o qual a cidadania se reconhece e orienta os rumos da vida nacional. A elite que Ascânio-Globo representam não tem esta perspectiva de respeito ao pacto constitucional, mas supõe que podem lançar pedido de auxílio à esquerda constitucionalista, e ao PT em particular: “Hoje, respeitadas as suas idiossincrasias naturais, homens e mulheres de esquerda devem ser convidados a participar da discussão sobre o futuro do país. Têm muito a oferecer e a acrescentar”. Em nenhum momento do artigo há sequer remota indicação ou menção oculta a arrependimento. Nada.

Ascânio-Globo tampouco sugerem qualquer sentimento pelo irresponsável abismo neofascista em que o país foi lançado com sua decisiva colaboração, e mais distante não precisamos ir do que às manipulações realizadas durante o processo eleitoral de 2018. Nada. O artigo de Ascânio-Globo também emudece quanto a tragédia nacional derivada da aplicação do projeto econômico de Guedes que abalroa o presente e impede o futuro da nação. Nesta medida parece claro que o artigo de Ascânio-Globo apenas acena para a esquerda para tentar construir uma estreita ponte apta para salvar a existência da empresa, mas não abre perspectivas para alteração na política econômica que permita desconstruir as condições de objetivação do genocídio da população brasileira.

Neste artigo a Globo apresenta, novamente, exclusiva preocupação com os seus interesses econômicos, mas em nenhum caso com o país, nada. A empresa se arroga a posição pública de conclamar “perdão” para o PT pois, assim, sugere, seria possível “pavimentar caminhos pelos quais se chegar ao objetivo comum de paz e prosperidade”. Perderam completamente a noção, indubitavelmente, perderam, pois enquanto não ocorrer travamento definitivo e substituição da política genocida de Paulo Guedes sustentada pelo bolsonarismo-militarista, então, não será possível nem remotos sinais de paz nem de prosperidade, tal como aponta o artigo da Globo em seu desfecho. O artigo dos Marinho é aceno à esquerda que vem recheado com subliminar pedido de socorro, mas também acompanhado da arrogância típica da elite brasileira, que mesmo quando está sob extremo risco, não quer comportar-se relativamente ao outro, o povo, como um igual. Lula não tem o hábito de subir no primeiro ônibus que passa. A Globo terá de apresentar-se outras tantas vezes, e se é que realmente aspira sobreviver, precisará realizar movimentos profundos, conhecer atos de genuflexão inusitados, incluindo abrir mão de Guedes e qualquer sucedâneo de mesma estirpe. Acaso não o faça será triturada à luz do meio-dia.

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