Autor recompõe história de seus antepassados a partir da descoberta de documentos de família

Rubem Barros
Autor recompõe história de seus antepassados a partir da descoberta de documentos de família

Crédito: Divulgação

Numa suntuosa mansão berlinense, os elegantes convidados desfilam sorrisos, fama e sobrenomes. O ano é 1930, e estamos em plena República de Weimar. Os donos da requintada casa atendem pelos nomes de Hugo e Gertrud Simon. Ele é banqueiro, ministro das Finanças da Prússia, então o estado que correspondia a 60% do território nacional. É, também, um conhecido colecionador de arte.

Entre os convidados estão o escultor Aristide Maillol, homenageado do dia, aproveitando sua passagem por Berlim; o físico Albert Einstein, em torno de quem se avolumam curiosidades relativas à sua ideia de religiosidade; o conde Harry Kessler, diplomata, editor, incentivador de diversas artes e um dos primeiros a vislumbrar a ideia de uma Europa unificada.

A cena desse almoço, composta quase como se fosse a sequência de abertura de um longa-metragem, compõe o primeiro capítulo de O remanescente – O tempo no exílio, volume um do romance de estreia do historiador da arte Rafael Cardoso. Na descrição da cena, parece que as palavras evocam o clima e suas variantes, da tensão da anfitriã para que tudo dê certo, passando pelo arranjo da mesa (como não lembrar de O leopardo, de Luchino Visconti?), ao silêncio nervoso após os questionamentos a Einstein.

Como Maillol e Einstein, Simon foi um personagem verídico, bisavô do autor. Ao revirar antigos documentos de família, Cardoso foi puxando os fios da história dos seus, que começou a mudar pouco tempo depois desse fatídico almoço. Nos anos seguintes, a tensão foi crescente, explodiu com a ascensão de Hitler, o que obrigou Simon, a mulher, as duas filhas e o genro a fugirem, primeiro para a França, depois para o Brasil, não sem viver as incertezas do embarque e uma rota de desencontros.

Para trás, havia ficado a fortuna da família, não só em dinheiro mas também em obras de arte. Assim como Cardoso, muitos outros membros de famílias escorraçadas da Alemanha e de outros países europeus durante a guerra, então donos legítimos de obras de arte tungadas pelo nazismo e por oportunistas de plantão, vão surgindo e contando suas histórias, como Simon Goodman (DegasRenoir e o Relógio de Orfeu, ver ao fim do texto) ou Maria Altmann, vivida por Helen Mirren em A dama dourada (2015, de Simon Curtis).

Mais de 70 anos depois do final da Segunda Guerra, são histórias que continuam a sair dos escombros reais e simbólicos que marcaram a vida de tanta gente. Ainda que hoje em dia pareçam não ter força suficiente para evitar que se produzam novas catástrofes, permitem, como em O remanescente, que se conte boa parte da história do século 20. No livro de Cardoso, temos ainda muito da luta contra o nazismo na América do Sul. Nem sempre com a mesma força da sequência inicial, mas sempre mantendo o interesse vivo na história. Ou melhor, nas histórias: a pessoal e a coletiva.

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