Câmaras (só) de lordes: 90 cidades baianas não elegeram mulheres para o legislativo; Pilão Acardo faz parte da triste lista

Mais uma vez Pilão Arcado faz parte de uma triste história
Em 21,5% dos municípios do Estado, apenas homens vão representar, nos próximos quatro anos, os cidadãos e uma maioria de cidadãs

Elas tentaram estimular. O primeiro turno das eleições municipais de 2020 já se aproximava quando um grupo de mulheres em Teixeira de Freitas, no Extremo-Sul da Bahia, criou uma conta no Instagram, a @votenelastx. O objetivo era estimular o voto e a eleição, é claro, de mulheres na cidade, onde a maior parte da população é feminina. Mas não surtiu efeito. Teixeira, que é o 10º maior colégio eleitoral do estado, é também um dos 90 municípios baianos que não elegeram, no último domingo (15), uma única mulher ao legislativo municipal.

Em oitenta destas cidades, isso significa dizer que, pelos próximos quatro anos, não haverá por lá nenhuma representação política feminina. No caso das outras dez cidades, a situação é um pouco diferente: apesar das Câmaras Municipais inteiramente masculinas, os moradores elegeram mulheres para a prefeitura.

Se, em Teixeira, não faltou estímulo para que mulheres fossem eleitas, no restante da Bahia também não faltou opção. Segundo dados da plataforma DivulgaCand, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Bahia teve, este ano, 13.196 mulheres candidatas a vereadoras nos 417 municípios, quase 2 mil a mais do que em 2016. Mesmo assim, 21,5% dos municípios não conseguiram eleger mulheres.

E mesmo onde elas foram eleitas, não representam a maioria das casas legislativas, salvo raríssimas exceções (leia mais ao lado). A ausência de mulheres vereadoras, aliás, não se resume a cidades menores. Outros dois municípios entre os maiores colégios eleitorais da Bahia também seguirão sem representação feminina: Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), e Valença, no Sul da Bahia. As duas, assim como Teixeira de Freitas, elegeram homens para a prefeitura.

O resultado está longe de ser uma realidade exclusivamente baiana. É o que explica a pesquisadora Denise Paiva, doutora em Ciência Política pela USP e professora da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás (UFG). “Essa situação da Bahia espelha o que aconteceu no âmbito nacional. Nós tivemos 12,2% de prefeitas eleitas no primeiro turno e 16% de vereadoras. Não obstante alguns incentivos nacionais, como as cotas partidárias, esse déficit de gênero continua”, avalia.

Condições diferentes
Para Denise Paiva, é possível enxergar algum avanço. O número de vereadoras eleitas na Bahia este ano – 609 – é maior do que as 552 de 2016.

“A gente percebe um número maior de pessoas trans, negras sendo eleitas, mas isso tem acontecido de forma ainda muito tímida. Por um lado, mostra que não necessariamente há uma rejeição do eleitorado em votar em mulheres. Mas, os partidos, além de indicar candidatas, precisam criar condições para que elas sejam igualmente competitivas”, diz Denise Paiva.

E isso pode vir num gesto relativamente simples, como possibilitar que uma candidata tenha um número de urna fácil de memorizar, por exemplo. Ou, como afirmaa cientista política Teresa Sacchet, professora da Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares em Mulheres, Gêneroe Feminismo da Ufba (PPGNeim), ditribuindo de maneira justo os recursos para as campanhas.

No ano passado, uma resolução do TSE estabeleceu que os partidos deveriam destinar ao menos 30% do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) para mulheres. Mas muitas candidatas se queixaram que, já bem próximo do 1º turno, o dinheiro não tinha chegado.

“Se isso de fato aconteceu, se as mulheres não receberam dinheiro ou se só receberam no final da campanha, você tem um problema sério”, explica a pesquisadora, que coordenou este ano, no Neim/Ufba, um curso chamado ‘Represente: Mais Mulheres na Política’.

Talvez, por isso, o resultado deste ano seja, para ela, desolador, ainda que enxergue algum avanço a passos lentos.

“É um cenário muito desoldor. Imagina você não ter nenhuma mulher na Câmara em 21% das cidades, é muita coisa. Eu vi essas eleições com um olhar muito positivo, então a gente esperava mais. O que tivemos foi um ganho muito grande em termos de retórica pró-mulher e pró-negros. MasTtm muita desigualdade no processo de disputa pelo voto”, afirma Teresa Sacchet.

Denise Paiva ainda chama a atenção para a desiguldade de condições de competir. As mulheres pouco ocupam cargos de direção nos partidos e ainda têm outros desafios.

“Elas são profissionais, têm que cuidar dos filhos, do trabalho. É um desafio. Quando um homem decide se candidatar, ele vai se dedicar full time a isso. A mulher, não”, pontua.

Saída de cena
É, provavelmente, isso que explica a percepção da estudante Paula Luana Freitas, 30, que mora há 13 anos em Simões Filho e viu, em 2020, a Câmara sem uma única representante feminina. Para ela, as mulheres não são conhecidas.

“Tem uma mulher que sempre se candidatou e se elegeu, mas este ano ela não disputou porque já é deputada estadual. Outras também se candidatavam, mas a quantidade de mulheres candidatas aqui sempre foi pouca. Falta oportunidade”, afirma.

Das 383 candidaturas este ano ao legislativo de Simões Filho – 15º maior colégio eleitoral da Bahia -, 132 eram mulheres, quase três vezes menos do que os homens.

A ausência feminina na representação política de Valença é uma frustração para a estudante Júlia Silva dos Santos, que tem 17 anos, mora lá desde que nasceu, mas ainda não tirou o título eleitoral – por isso, não pôde votar em nenhuma das 109 candidatas a vereadoras por lá.

Se pudesse, teria levado o gênero em conta:

“Esse ano, aprendi muito sobre representatividade. Um dos critérios seria esse, além dos planos para a estrutura da cidade”, afirma Júlia.

Em 2016, três mulheres se elegeram lá, mas elas ‘sumiram’ do cenário este ano.

Representatividade
Aos 27 anos, a estudante e militante pelos direitos das mulheres Thalita Nascimento da Silva vive a falta de representatividade em dois lugares: Teixeira de Freitas, onde mora, e Mucuri, cidade a 99 quilômetros da primeira, onde vota.

“As duas cidades se enquadram num perfil muito parecido, de uma política de coronelismo, antiga, ultrapassada. Apesar de a gente ver grandes avanços na pauta das mulheres, na pauta feminista, nessas cidades do interior isso ainda é muito distante”, afirma.

Para Thalita, os eleitos são sempre os mesmos.

“A nossa cidade passa a visão de que político é um homem branco. A gente não consegue enxergar e pensar em colocar mulheres para ocupar esses cargos. É uma cultura muito amarrada ainda no machismo”, diz Thalita.

Na eleição passada, Teixeira de Freitas também elegeu uma mulher. Este ano, teve 126 candidatas, mas não elegeu nenhuma. O mesmo aconteceu com Mucuri, que teve 80 candidatas este ano.

O número de vereadores em cada cidade varia de acordo com a população. Por isso, não é possível dizer que uma cidade, apenas por ter um número maior de vereadoras, tem mais representatividade.

Salvador, por exemplo, tem 43 vagas na Câmara Municipal. Este ano, elegeu nove mulheres – o maior número em um único município do estado. Mas, isso representa apenas 20,9% do total. Feira de Santana e Lauro de Freitas, com 21 vagas, elegeram  três vereadoras cada uma – 14,2%.

Vitória da Conquista terá apenas duas vereadoras (9,5%), enquanto Itabuna e Juazeiro, apenas uma (4,7%).

No ano passado, a Bahia lançou o manifesto Mais Mulheres na Política, proposto pelo Parlamento Feminista da Bahia, aprovado na Assembleia Legislativa do Estado (Alba). Um dos objetivos é justamente fortalecer a participação feminina na política.

Vitória da Conquista terá apenas duas vereadoras (9,5%), enquanto Itabuna e Juazeiro, apenas uma (4,7%).

No ano passado, a Bahia lançou o manifesto Mais Mulheres na Política, proposto pelo Parlamento Feminista da Bahia, aprovado na Assembleia Legislativa do Estado (Alba). Um dos objetivos é justamente fortalecer a participação feminina na política.

Mulheres são maioria nas Câmaras de três cidades do interior da Bahia
Três cidades do interior da Bahia, todas com menos de 30 mil habitantes, conseguiram um feito raro nesta eleição: eleger mais mulheres do que homens nas Câmaras Municipais. É o caso de Rodelas, no Vale do São Francisco, João Dourado, no Centro-Norte, e Palmas de Monte Alto, no Centro-Sul da Bahia.

Rodelas tem menos de 10 mil habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e apenas nove vagas na Câmara Municipal. Destas, cinco serão ocupadas por mulheres a partir do ano que vem.

João Dourado, cidade com nome de homem, também elegeu mais mulheres – elas ocupam seis das 11 vagas no legislativo municipal. É uma mulher a mais votada: Kel do Riacho teve 1.135 votos.

Já em Palmas de Monte Alto, o feito foi ainda maior: a cidade tem a maioria da população masculina, mas três mulheres foram as mais votadas este ano – Patrícia do Rancho, Selma de Leotério e Rose da Barriguda somam 2.140 votos. A cidade tem 11 vereadores – seis mulheres eleitas.

Para a cientista polícia Denise Paiva, doutora pela USP e professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), alguns estudos mostram que é mesmo a política local a porta de entrada das mulheres.

“Algumas são ex-primeiras-damas, vêm de famílias tradicionais, o que facilita para que consigam se eleger. Com os homens também é assim e não há nenhum demérito nisso. Mas é importante que elas consigam avançar na carreira”, aponta a pesquisadora.

Um próximo passo é, quem sabe, crescer o número de prefeitas eleitas. Em 2016,  Bahia elegeu 56 mulheres, segundo o TRE-BA. Este ano foram 53. “É preciso ter uma mudança cultural na sociedade, avançar mais para que na próxima geração a gente não precise perguntar mais pelas mulheres na política, para que elas estejam lá e isso seja naturalizado”, defende Denise.

Veja a lista das cidades que não elegeram mulheres para as Câmaras Municipais no último domingo (15):

Acajutiba
Alcobaça
Barra do Rocha
Barro Alto
Bom Jesus da Lapa
Boquira
Botuporã
Caatiba
Cairu
Candeal
Candiba
Cansanção
Capela do Alto Alegre
Capim Grosso
Cardeal da Silva
Carinhanha
Cetanos
Cocos
Conde
Cordeiros
Cravolândia
Dário Meira
Entre Rios
Filadélfia
Gavião
Gentio do Ouro
Gongogi
Iaçu
Ibirataia
Iguaí
Inhambupe
Ipecaetá
Iramaia
Iraquara
Irecê
Itaberaba
Itacaré
Itaeté
Itagibá
Itamari
Itanagra
Itanhém
Itarantim
Itiruçu
Jaguarari
Jiquiriçá
Jussara
Lafaiete Coutinho
Livramento de Nossa Senhora
Malhada de Pedras
Manoel Vitorino
Matina
Mucuri
Muquém de São Francisco
Nova Soure
Oliveira dos Brejinhos
Ouriçangas
Palmeiras
Pé de Serra
Pedro Alexandre
Pilão Arcado
Pindobaçu
Piritiba
Planalto
Ponto Novo
Potiguará
Quixabeira
Remanso
Riachão do Jacuípe
Santa Inês
Santa Luzia
Santaluz
Santana
São Desidério
São Domingos
São José do Jacuípe
Sapeaçu
Sento Sé
Simões Filho
Sobradinho
Tanhaçu
Teixeira de Freitas
Ubaíra
Urandi
Utinga
Valença
Valente
Várzea Nova
Vereda
Wanderley

Veja as cidades com maior percentual feminino nas Câmaras*

1º Rodelas 55,5%
2º João Dourado  54,5%
3º Palmas de Monte Alto  54,5%
4º São Francisco do Conde  46,1%
5º Coaraci  45,4%
6º Cotegipe  44,4%
7º Elísio Medrado  44,4%
8º Ichu  44,4%
9º Itagi  44,4%
10º Riacho de Santana  38,4%

*Razão entre total de vagas em cada município e número de mulheres eleitas nestes locais

Fonte: Correio

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