Como a educação severa de meus pais me tornou uma adulta solitária e tímida

 

Ilustração de fotos da família
Os pais dela sempre foram muito autoritários e superprotetores

Quando uma jovem pediu conselhos em um fórum na internet, recebeu mensagens de apoio do mundo inteiro. Sua história é contada no depoimento abaixo, feito à repórter Elaine Chong.

Nunca pensei que postar sobre o quão sozinha eu me sentia nas redes sociais faria com que eu recebesse respostas de todas as partes do mundo. De repente, as pessoas estavam me dando conselhos, se oferecendo para serem minhas amigas – e muitas dizendo que, de vez em quando, também se sentiam como eu.

Eu estava muito perdida quando escrevi um texto anônimo em um grupo do Facebook chamado “Subtle Asian Traits”. Achei que as pessoas do grupo poderiam me entender, uma vez que os integrantes têm uma origem cultural semelhante.

Começava assim:

Ei, colegas asiáticos.

Estou precisando muito de um conselho de vida! Estou bem perdida sobre o que devo fazer.

A situação é que meus pais foram autoritários + superprotetores a maior parte da minha vida, lembro de não ter permissão para ir até a casa de amigos quando era criança…

Sou australiana-chinesa, e sinto que há algo em ser de origem imigrante que faz com que nossos pais sejam realmente rigorosos na nossa criação, especialmente com as meninas.

Eu os amo, mas acho que isso realmente influenciou a pessoa que me tornei. Sou tímida, introvertida e não consigo manter amizades por muito tempo.

Sentia-me sozinha durante a adolescência e diria que me sinto ainda mais só agora, porque é muito mais difícil fazer amigos quando somos adultos, quando todo mundo já tem seus círculos de amizade fortes.

Adoraria ter amigos.

Eu saí da casa dos meus pais no ano passado, mas não sei quase nada sobre o mundo e como ele realmente funciona – sobre como me comportar no trabalho, em relacionamentos amorosos e na vida social.

Sinto que mentalmente tenho cinco anos a menos.

Vou fazer 25 anos em breve e acho que ainda estou saindo da minha concha. Quero mudar, mas não sei por onde começar.

‘Volte antes das 21h ou vou chamar a polícia’

Até sair da casa dos meus pais, precisava obedecer um toque de recolher às 21h. Havia sempre perguntas como: “Com quem você vai sair? Como você vai chegar lá? Quem vem te buscar?”

Ilustração da mãe do lado de fora de casa
A mãe controlava cada passo da filha com medo que fosse sequestrada

Minha mãe se despedia na porta dizendo: “Volte antes das 21h ou vou chamar a polícia”.

Quando chegava perto da hora do toque de recolher, ela me enviava várias mensagens de texto. Meu pai mandava e-mails ao mesmo tempo. Mas ninguém checa e-mail quando está fora, então só via no dia seguinte na minha caixa de entrada.

Meu pai escrevia coisas como: “Por que você não voltou ainda!” Quando ele usava ponto de exclamação, eu sabia que ele estava com raiva. Às vezes, adotava uma abordagem mais suave: “O jantar está pronto”, para me persuadir.

Quando eu estava com 21 anos, eles realmente chamaram a polícia. Eu tinha me mudado de Canberra para Sydney para fazer um estágio de três meses. Meus pais me fizeram ficar hospedada na casa de amigos da família, que monitoravam minhas idas e vindas.

No fim do estágio, teve uma festa no trabalho – os amigos da família ficaram acordados esperando eu voltar e avisaram meus pais.

Meu pai e minha mãe mandavam mensagens sem parar. “Por que você não está em casa? Você deveria voltar agora”. Enviei uma mensagem para eles dizendo que estava em uma festa do trabalho e que estava muito barulho, mas minha mãe não parou de ligar.

Finalmente atendi o telefone e ouvi minha mãe aos berros: “Como vamos saber que você não está sendo mantida refém e o sequestrador que está digitando para você?” Mesmo que eu tenha dito que estava bem, ela continuava histérica, gritando: “Alguém fez você de refém!”

Foi quando eu vi minha mãe mais irritada. Meus pais cumpriram a ameaça e chamaram a polícia – mas os policiais disseram que não podiam fazer nada porque eu tinha 21 anos!

Eternas crianças

Estou velha demais para isso ainda estar acontecendo.

Acho que o comportamento dos meus pais contribuiu definitivamente para impedir que eu cultivasse boas amizades.

Eles não me deixavam ir à casa de amigos na escola primária porque tinham a ideia de que meninas não deveriam ficar fora de casa – isso “poderia passar a ideia errada”.

E as amizades só podiam ser do sexo feminino.

Ilustração de grupo de meninas
Na infância e adolescência, ela só podia ter amigas do sexo feminino

Quando eu tinha 13 anos, eles monitoravam todas as minhas conversas online. Uma vez, vasculharam minha caixa de entrada de e-mail, excluindo centenas de mensagens.

Quando eu tinha 15 anos, minha mãe ainda segurava minha mão na hora de atravessar a rua.

De todos nós, meu irmão mais velho foi o mais afetado pelo comportamento dos meus pais. Ele tem quase 30 anos e nunca teve um emprego. Nunca sai de casa, passa o dia todo jogando videogame.

Ele culpa meus pais porque, como primogênito, carregou todo o peso das expectativas deles. Tirava 96/100 na prova e era repreendido por não ser bom o suficiente. Frequentou uma boa universidade e fez mestrado, mas é orgulhoso demais para aceitar um trabalho mal remunerado na área de administração, e nossa mãe encoraja essa atitude.

Ele não é capaz de aceitar rejeição e não tem capacidade emocional ou habilidades de comunicação para transitar no mundo.

É ridículo, se meus pais fazem um cruzeiro, simplesmente levam ele também. É uma eterna criança.

Meu segundo irmão tirava notas ruins na escola, então havia menos pressão sobre ele. Não foi para a universidade, começou a trabalhar com 16 anos e agora tem um salário acima da média como analista financeiro. Tem 27 anos hoje e não é próximo dos nossos pais.

Minha irmã é a mais nova e sabe como levar meus pais na conversa. Ela aprendeu a mentir bem para poder ter alguma liberdade. E se tornou hábil em manipulá-los porque observou como nossos pais tratavam o resto de nós.

Uma vez perguntei diretamente para minha mãe: “Até quando você vai me policiar?”

A resposta dela foi: “Mesmo que você tenha mais de 40 anos, ainda vou fazer isso”. Ela estava falando totalmente sério. Ela parte do princípio que serei solteira o resto da minha vida.

Rede de apoio

Nos filmes, vejo que as meninas têm grupos de apoio para conversar sobre trabalho, relacionamento e dar conselhos. Se eu tivesse amigas assim, acho que não teria cometido tantos erros nas tentativas de relacionamentos amorosos.

Desde que publiquei meu post, muita gente escreveu para mim e respondi o mais rápido que pude. Não sei nem como começar a descrever como essa sensação é maravilhosa.

Um cara me contou que os pais dele eram severos também, e ele se rebelou. Saiu e experimentou de tudo – drogas, álcool, sexo casual. Conversamos sobre como é não ter esperança. Falamos duas horas no telefone. Acho que ele vai ser um mentor.

As pessoas recomendaram livros – de autoajuda e romances. Tenho muitos pôsteres na parede do meu quarto, decidi que vou pregar as recomendações junto com algumas outras dicas.

Teve uma mensagem que achei bastante útil, consultar um psiquiatra e ignorar o estigma de falar com alguém sobre sua saúde mental.

Outro conselho foi achar um hobby, que os amigos vão aparecer naturalmente. Faz sentido, embora não seja tão simples quanto parece.

Quando eu era criança, tocava piano e me interessava por arte, gostava de bordado… mas essas são atividades solitárias em sua maioria.

Ilustração de menina tocando piano
Na infância, ela tocava piano, atividade que pode ser solitária

Também adoro jogos de tabuleiro – mas essa é uma atividade que você precisa ter outras pessoas até mesmo para começar.

Há muitas coisas que eu gostaria de experimentar, como pingue-pongue e badminton.

Queria poder fazer caminhadas e ir à praia com alguém. Adoraria viajar para o exterior.

Eu sei que preciso sair da minha zona de conforto. Minha meta, em última análise, é a felicidade, mas isso é meio abstrato e difícil de definir. Mas se a minha meta for superar um desafio, o subproduto pode ser a felicidade – e amigos. Isso é mais fácil de alcançar.


Algumas dicas úteis que Karen recebeu:

– Se você gosta de séries de TV, não hesite em entrar em contato com comunidades de fãs! Eles são amigáveis, ​​e o fato de você ser obcecada pela mesma série que eles vai te ajudar a criar conexões.

– Um truque psicológico é fazer as coisas sempre com uma frase de confirmação. Eu usava “confie em mim” para meus pais, então quando for contar algo a eles, adicione “confie em mim” no final. Também tente assentir com a cabeça quando pedir algo e sorrir ao perguntar.

– Seja voluntária em uma instituição de caridade, junte-se a um clube do livro, coral, grupo de frisbee – o que for! Tente muitas coisas diferentes, mesmo que a princípio você não ache que vai adorar. Quanto mais você se expor ao mundo, mais vai aprender e crescer como pessoa.

– Seja corajosa e convide as pessoas para sair. Se recusarem, não leve para o lado pessoal e siga em frente.

– Se você não era extrovertida, vai se esgotar. Vá devagar, deixe a proximidade (local de trabalho / grupos de interesse / clubes / aulas) e o tempo fazerem seu papel.

– Descubra quem você realmente é. Marque encontros, mime-se. Quanto mais confiante e confortável você estiver, mais vai atrair pessoas que pensam como você.

Ilustrações de Katie Horwich.

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