‘Como descobri que o regime de Fidel Castro conservou o corpo do meu pai por 18 anos’

Janet RayJanet Ray buscou seu pai durante 18 anos, até descobrir que governo de Cuba conservava o corpo dele em um necrotério

Quando o avião da Força Aérea dos Estados Unidos aterrisou no aeroporto municipal de Birmingham, no Alabama (EUA), em 1979, Janet Ray Weininger sentiu ter chegado ao fim um ciclo trágico que durou 18 anos.

Foi por essa mesma pista que seu pai, Thomas “Pete” Ray, decolou rumo à fracassada invasão de Cuba que levou à sua morte e a passar quase duas décadas congelado em um necrotério em Havana.

Naquela manhã de dezembro, que completou 40 anos nesta quinta-feira (5), o corpo voltou ao solo americano, coberto de estrelas e listras, nos braços de soldados uniformizados.

De certo modo macabro, Ray teve “sorte”.

Das centenas de pessoas que morreram tentando derrubar Fidel Castro na invasão da Baía dos Porcos, ele foi o único cujos restos mortais retornaram aos Estados Unidos para ser enterrado.

Ao contrário do que aconteceu no Vietnã, ou mesmo na Coreia do Norte, Washington nunca reivindicou os corpos dos soldados que enviou a Cuba, muitos dos quais acabaram em valas comuns ou foram jogados em pântanos do sul da ilha caribenha.

Ray também foi o único dos invasores mortos que, por alguma estranha razão, o governo Castro nunca deixou “apodrecer”: ele decidiu manter seu cadáver intacto, mesmo que apagões e falta de verba sufocassem o necrotério do Instituto de Medicina Legal de Havana.

“O cadáver de meu pai era uma espécie de troféu para Fidel Castro. Como os EUA negaram por décadas que haviam organizado a operação da Baía dos Porcos, Cuba encontrou nele, que era americano, a prova que de a invasão foi orquestrada aqui”, relata a filha do militar morto em entrevista à BBC News Mundo (serviço da BBC em espanhol).

Cerimônia fúnebre de Thomas RayCorpo de Thomas Ray foi devolvido aos EUA e enterrado com honras militares em dezembro de 1979

Por mais de quatro décadas, a CIA (agência de inteligência americana) negou sua participação na tentativa frustrada de derrubar o regime castrista.

A versão oficial dos Estados Unidos afirmava que se tratava de um grupo de cubanos ricos que, a partir do sul da Flórida, tentaram libertar o país da ameaça comunista da ainda recente Revolução Cubana.

Reconhecer que Thomas Ray, piloto respeitado da Força Nacional Aérea no Alabama, era um dos seus seria não apenas uma admissão de culpa pela invasão, mas também da derrota vergonhosa.

“Fidel sempre soube que ele era americano”, disse Tomás Ten Acosta, pesquisador do Instituto de História de Cuba e guerrilheiro da Revolução Cubana, à BBC News Mundo. “O piloto ianque foi a prova direta da participação dos Estados Unidos.”

‘Não me lembro da voz do meu pai’

Não me lembro da voz do meu pai.

Eu me lembro do cheiro dele, me lembro dos gestos que fazia quando comia, como ele olhava para mim… mas não como sua voz soava. Por mais que tentasse, não me lembro de como era.

Eu tinha 6 anos quando ele morreu.

Eu nunca consegui esquecer aquele dia: eu estava em um recreio na escola, do outro lado da rua onde meus avós moravam no Alabama. Vi um carro escuro e brilhante que parou em frente à casa e três homens de terno escuro saíram.

Janet Ray
Janet Ray tinha seis anos quando seu pai morreu na tentativa de invasão

Quando cheguei em casa mais tarde, todo mundo parecia estranho.

Saí para brincar e minha mãe me disse para não sair, porque tínhamos algo para conversar.

Pouco depois me disse: aqueles homens vieram informá-la que meu pai havia morrido, que ele havia se afogado: um avião de carga no qual ele estava com outros três pilotos havia caído e eles não conseguiram localizar seus corpos.

Disseram à minha mãe para contar à família, porque logo as notícias apareceriam na imprensa e nós deveríamos estar preparados.

KennedyGoverno de Kennedy negou qualquer ligação com a operação frustrada

No dia seguinte surgiram as primeiras reportagens, mas ninguém em minha casa conseguia entender: diziam que meu pai havia morrido trabalhando para cubanos endinheirados em uma invasão de Cuba.

Disseram que era um mercenário. Inclusive colocaram uma foto de meu pai com uma “confissão”: “Fiz isso para ganhar bastante dinheiro”.

Minha família sabia que isso não era verdade. Meu pai não faria algo assim por dinheiro. Era um militar honrado.

Muitos anos depois, passei a ver essas notícias como se eles dissessem: “Vamos caluniar este homem para limparmos nossa barra.”

Não havia qualquer sinal de simpatia por meu pai.

Thomas Ray
Thomas Ray era piloto da Força Aérea americana

A partir daquele momento, mesmo que inocentemente, ficou claro para mim que eles haviam quebrado o código de lealdade com meu pai. Mas eu não tinha o direito de fazer o mesmo.

Acho que foi ali que começou minha luta contra Fidel Castro e contra meu próprio governo pela memória de Pete Ray.

Foi assim que comecei uma missão que duraria 18 anos e sete meses: achar a verdade, trazer seus restos mortais e garantir que ele fosse honrado em seu país.

Estratégia da CIA

Em 15 de abril de 1961, ao amanhecer, um “enxame” de aviões cruzou o céu ainda escuro de Havana.

A linha de frente, formada por bombardeiros saídos da Nicarágua, começou a lançar explosivos sobre aeroportos militares e pontos estratégicos da capital e da cidade de Santiago de Cuba.

Enquanto isso, barcos com mais de mil cubanos, com pouco treinamento, mas bastante motivação para derrotar Castro, seguiam pelas águas do Caribe.

Castro e outros guerrilheirosTropas de Castro conseguiram derrotar tentativa de invasão em menos de 65 horas

A invasão, orquestrada pela CIA durante o governo do presidente Dwight D. Eisenhower, pretendia tomar uma cidade na costa sul de Cuba, criar um governo de transição e promover uma guerra de guerrilha que se moveria lenta, mas de forma esmagadora, até os últimos redutos de Castro.

O ataque, segundo documentos que deixaram de ser sigilosos em 1998, deveria parecer que foi organizado apenas por cubanos insatisfeitos que se exilaram no sul da Flórida.

Um contingente de reforços militares dos Estados Unidos os apoiaria assim que a invasão começasse: e disseram-lhes que não havia possibilidade de derrota.

Mas no último minuto, John F. Kennedy, um jovem democrata que herdou com relutância o plano de seu antecessor republicano, se arrependeu no último minuto e não quis que seus militares participassem desses planos.

CubaKennedy retirou de última hora o apoio militar aos anticastristas

Das centenas de fuzileiros navais e tropas dos EUA que estavam programadas para participar da invasão, apenas quatro pilotos e dois aviões decolaram para Cuba naquela manhã de 19 de abril.

Nunca se soube por que de fato eles voaram.

Horas antes, Kennedy enviou para o Exército ordens para não ajudar os anti-castristas. Assim, os últimos invasores foram derrotados sem muito esforço nos pântanos repletos de mosquitos e jacarés no sul de Matanzas.

Os dois aviões foram abatidos: um caiu no mar; o outro, pilotado por Pete Ray e Leo Baker, aterrissou de emergência perto da Austrália Central, no oeste de Cuba.

Eles sobreviveram.

Pelo menos à queda do avião.

‘Você sabe que não precisa ir, Pete?’

Acampamento Happy Valley, Porto Cabezas, Nicarágua. 18 de abril de 1961

Antes de ir dormir, o engenheiro de rádio Bobby Whitley saiu uma última vez para checar os aviões que decolariam no dia seguinte em direção a Cuba.

AviõesAs tropas anticastristas usaram aviões com a bandeira de Cuba para despistar os soldados de Fidel

Segundo contaria anos depois, ele se encontrou com Pete Ray encostado ao lado de um B-26.

– Você sabe que não precisa ir, Pete?

O colega assentiu.

– Você sabe que provavelmente não vai voltar?

– Eu sei, Bobby, mas só porque meu presidente decidiu esquecer esses caras não me dá o direito de fazer o mesmo. Não posso fazer isso.

‘Esforço para capturá-los vivos’

“O comandante Fernández Mell, que liderou a operação de busca, fez o máximo de esforço para capturá-los vivos. Não foi possível. Um dos pilotos descobertos, escondido perto da pequena pista do centro, disparou seu revólver curto de 38 canos, sendo morto imediatamente por um tiro de fuzil. O outro, quando descoberto, tentou lançar uma granada de mão, morrendo instantaneamente devido a vários impactos no peito e no olho direito. O nome deste último era Thomas Willard Ray, o mesmo que 18 anos depois seria oficialmente reivindicado pelo governo dos Estados Unidos a pedido de seus parentes. O outro piloto foi chamado Frank Leo Baker.”

(Do artigo Praia Girón, As operações aéreas da CIA, de José M. Miyar Barruecos. Revista Verde Olivo, 20 d abril de 1980, pp: 26-38)

Branco de olhos azuis

“O outro, Leo Baker, não foi conservado porque se pensava que era cubano, por ser mulato, de pele escura. Mas sobre ele (Ray) não havia dúvida de que era americano, por ser bastante branco, de olhos azuis, alto. Então, acredita-se que foi por ordem do comandante que se decidiu congelar seu corpo”.

(Tomás Diez Acosta, pesquisador do Instituto de História de Cuba e combatente da Revolução Cubana).

Em busca de pistas

A medida que fui crescendo, fiquei obcecada em procurar qualquer informação que pudesse me levar a meu pai: tirei papéis do lixo que minha mãe jogou fora, fui a bibliotecas, li arquivos, documentos, livros, tudo o que poderia me dar alguma pista.

Lembro que no ano em que John Kennedy foi morto, minha mãe me perguntou: o que você quer no Natal?

Pedi um gravador, que coloquei embaixo do sofá para ativar com uma mola quando eles vieram visitar minha mãe e nos tiraram da sala.

Quando cresci, comecei a contatar a Força Aérea no Alabama e outras pessoas que conheciam meu pai. A maioria deles não falou comigo, mas alguém finalmente me disse: “Ah, ele caiu em Cuba quando foi à Baía dos Porcos”.

Isso foi como uma primeira pista, uma dica de que eles sabiam outra coisa.

familiaFilha diz não se recordar da voz de seu pai

Na televisão, algum tempo depois, ouvi dizer que Castro libertaria alguns prisioneiros que capturaram na Baía dos Porcos. Quando voltaram para os Estados Unidos, pensei que meu pai também estaria entre eles.

Lembro-me de assistir à TV olhando para ver se eu via o rosto dele no grupo de homens que Kennedy recebeu na Flórida. Fiquei rente à tela tentando encontrar o rosto dele entre os de outros.

Mas papai nunca chegou.

Quando eu tinha 15 anos, em 1970, comecei a escrever cartas mensais para Fidel Castro para perguntar sobre meu pai. Escrevi mais de 200 cartas por nove anos.

Eu nunca recebi uma resposta.

Nas férias de verão, quando eu estava na faculdade, viajei com meus amigos para Miami.

Quando eles foram à praia, fui a Little Havana (bairro histórico de cubanos da cidade) em busca de pistas sobre pessoas que conheceram meu pai.

Little HavanaJanet Ray fez diversas viagens a Miami em busca de informações sobre seu pai

Mas ninguém queria falar comigo. A única coisa que eu consegui foi alguém me dizer que ele havia sido um bom piloto.

Eu nunca entendi por que tanto segredo, por que meu governo fez o que foi possível para que eu não soubesse onde meu pai estava.

Sabia que em Miami eles tinham informações, que sabiam alguma coisa. Então, eu continuava voltando ali.

Foi em uma dessas viagens que alguém me disse que havia rumores de que em um necrotério em Havana havia um corpo de americano, que havia um cadáver e fotografias dele feitas após sua morte.

Heroísmo e napalm

– Você enxerga seu pai como um herói, mas como avalia o fato de que ele invadiu um país estrangeiro, o bombardeou e até lançou bomba de Napalm?

– Acredito que, no final, meu pai cumpriu seu dever como militar, a serviço de seu país.

O envelope

Em uma certa manhã, em abril de 1979, no 18º aniversário do desaparecimento de seu pai, Janet Ray ouviu baterem à porta da casa em que morava, na base aérea de Hahn, na Alemanha.

Ela se mudou para lá anos antes depois de se casar com um piloto militar.

Quando abriu a porta, encontrou um envelope de Peter Wyden, jornalista com quem havia falado meses antes e que estava escrevendo um livro sobre a invasão da Baía dos Porcos.

Janet caminhou até a rua, procurando a luz mais próxima para ver o que havia dentro.

Monumento em MiamiHomenagem em Miami aos mortos na invasão à Baía dos Porcos

Abriu o pacote numa mistura de medo e dúvida.

“Lembro-me de entrar em casa e ligar para um amigo. Pedi que ele me levasse com urgência ao aeroporto. Quando chegamos, o último voo para os Estados Unidos estava cheio. Pedi para falar com o piloto e implorei que ele me levasse de volta para casa, que meu pai também era piloto, que ele morreu na Baía dos Porcos e que seu corpo estava em Cuba.”

“Como não havia espaço, os dois pilotos concordaram em me levar com eles em sua cabine. Viajei com apenas US$ 10 no bolso”.

Carregava o envelope que havia recebido à noite.

Eles eram fotos de seu pai morto.

Como obter o corpo de volta

Os sete meses seguintes foram decisivos: por caminhos distintos, Janet Ray tentou se comunicar com o governo de Cuba.

Por meio de um primo jornalista e de sua avó, passou a procurar a ajuda de políticos locais.

“Era como estar entre dois incêndios: por um lado, o governo cubano sempre me dava novas condições para me dar o corpo, que eu teria que pagar, que eu teria que ir, que eu teria que dizer isso ou aquilo”.

“Por outro lado, a CIA me negava todas as informações. Eles não queriam me dar as impressões digitais do meu pai. Eu tive que encontrar registros de sua arcada dentária para que o corpo pudesse ser identificado.”

Janet RayJanet Ray (dir.), com primo e a avó, fez várias campanhas para obter informações sobre o pai

Finalmente, análises independentes de Cuba e do FBI (polícia federal americana) com impressões digitais e arcada dentária corroboraram a identidade.

O homem que estava no necrotério do Instituto de Medicina Legal em Havana por 18 anos era Thomas Ray.

Em meio a esforços do governo do democrata Jimmy Carter, o corpo só seria devolvido a seus familiares em 5 de dezembro de 1979.

O governo cubano enviou o corpo com uma conta de mais de US$ 30 mil: as “despesas com a conservação do corpo” por tanto tempo.

Janet Ray
Janet Ray reuniu durante 18 anos recortes de jornais, mapas, depoimentos e documentos em busca de pistas

Janet Ray nunca acreditou na versão que recebeu e afirma que seu pai foi capturado, torturado e baleado na cabeça à queima-roupa, algo que Havana nega.

“Thomas Willard Ray, conhecido como ‘Pete’, voou para Cuba para atacar um país estrangeiro. Ele nunca foi preso, nunca foi tratado por nenhum médico e se sua família deveria agradecer por alguma coisa, é que, diante da atitude desumana do governo dos Estados Unidos, as autoridades cubanas preservaram e protegeram seu corpo, para que em algum momento ele pudesse ser entregue a seus parentes”, escreveu o portal oficial Cubadebate, em 2004.

Dois anos depois, Janet Ray venceu uma ação contra Fidel Castro de US$ 23,9 milhões em um tribunal de Miami pela “morte ilícita” de seu pai e recebeu o dinheiro dos fundos congelados do governo de Cuba no início da Revolução liderada por Castro.

O governo cubano renegou o julgamento e o chamou de “luxúria” e “busca de dinheiro” pela filha do piloto.

A BBC News Mundo pediu a versão atual das autoridades da ilha sobre o caso, mas não obteve resposta.

‘Ninguém me impediria’ de ver meu pai

Quando trouxeram de volta o corpo de meu pai, eu estava grávida e me sentia muito mal naquele dia.

Estava resfriada ou algo assim. Minha família decidiu que não me deixariam ver o cadáver. Mas naquele momento, era algo que ninguém me impediria de fazer.

Janet Ray
Janet Ray estava grávida quando o corpo de seu pai foi levado de volta aos EUA

Eu sabia que teria que abrir mão da imagem de meu pai que tinha desde a infância e vê-lo dessa maneira. Eu devia isso a ele.

Além disso, a essa altura, tantas pessoas mentiram para mim, tantas pessoas foram desonestas comigo, que se eu não tivesse visto pessoalmente, não teria acreditado que era ele.

Eu entrei e vi a boca dele estava aberta. Vi os dentes que haviam se partido quando ele era jovem em um jogo de futebol, as feridas de quando ele morreu. Eu não tinha dúvida de que era ele, que meu pai estava perto de mim novamente.

Eles finalmente vestiram um uniforme militar. Ele tinha ido a Cuba em roupas civis, para que não pudessem identificá-lo como integrante das Forças Armadas dos Estados Unidos.

Escrevi uma longa carta para ele quando voltei da Alemanha e a coloquei no bolso, sobre seu coração.

Eu disse: ‘Quero que você saiba que sempre precisei de você e que, se tivesse que procurá-lo novamente por mais 18 anos, faria tudo de novo, porque você me deu tanto que me ensinou o verdadeiro significado da liberdade. Sempre te amarei”.

XII

Em 1974, a CIA entregou a Cruz da Inteligência, sua distinção máxima, para Thomas Ray. Sua família só soube disso muitos anos depois.

Carta da CIA
Em 1994, mais de 30 anos depois da invasão, a CIA continuou negando participação

Em 1994, Janet Ray escreveu à agência de inteligência americana depois de descobrir que uma das estrelas na entrada do Pentágono (em homenagem aos militares mortos em serviço) era dedicada ao seu pai. A CIA afirmou que a informação era verdadeira, mas no caso de Pete Ray, tratava-se de uma “exceção”.

A CIA só reconheceria sua participação na invasão da Baía dos Porcos, e que Thomas Ray era um dos seus, em 1998.

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