Do chicote ao camarote: como Carnaval foi de festa reprimida a megaespetáculo

Águia azul gigante à frente de foliões com fantasias douradas no sambódromo do RioApresentação da Portela no desfile das campeãs, em 2017 (crédito: Fernando Grilli – Riotur)

Quase cem anos antes das tensões no Rio de Janeiro entre as escolas de samba e o atual prefeito (e ex-bispo da Igreja Universal) Marcelo Crivella, a autoridade máxima da República assistiu a uma apresentação carnavalesca que tinha como enredo “A corte de Belzebu”.

Nos festejos de 1911, o grupo Ameno Resedá exibiu ao presidente Hermes da Fonseca uma alegoria do inferno ilustrada por demônios, chifres, rabos e tridentes.

“O presidente, segundo os testemunhos, gostou do que viu e julgou a experiência nas profundas do capeta como algo mais tranquilo do que o exercício do poder federal”, narram o historiador Luiz Antônio Simas e o jornalista Fábio Fabato em “Para tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos“.

Os governantes do passado podiam se divertir no Carnaval, mas desde os primórdios da tradição no Brasil já se revelavam atritos e tentativas de disciplinar a festa. E foram africanos e seus descendentes – justamente os principais responsáveis pela originalidade do Carnaval brasileiro – que mais sofreram com o ímpeto controlador.

Cadeia ou chibatada

Desde o século 18, escravos produziam no Rio bolas de cera usadas no entrudo, festa europeia dos tempos pré-Cristianismo e considerada uma das precursoras do Carnaval.

Em “100 anos de Carnaval no Rio de Janeiro“, o sambista e escritor Haroldo Costa conta que os limões-de-cheiro, como se chamavam os artefatos, eram enchidos com água ou urina e atirados pelos foliões uns nos outros.

Autoridades imperiais proibiram a prática e reservaram as penas mais severas para escravos infratores: em 1857, um delegado determinou que eles deveriam sofrer cem chibatadas ou passar oito dias na cadeia se violassem a regra.

Negros com rostos pintados brincam no Rio de Janeiro
Pintor francês Jean-Baptiste Debret retratou o entrudo nas ruas do Rio no início do século 19

Mesmo assim, o entrudo sobreviveu e foi se misturando com outras tradições, como as procissões católicas portuguesas, e práticas que chegavam ao Rio vindas principalmente do Nordeste, entre as quais as congadas, os autos de Natal, os afoxés e as lapinhas. O Carnaval carioca estava sendo gestado.

Inovação do samba

Depois da abolição da escravatura, em 1888, e da proclamação da República, no ano seguinte, a então capital federal inchava com levas de migrantes – muitos deles ex-escravos em busca de trabalho.

Moradores novos e antigos paravam nos primeiros carnavais do século 20 para assistir aos ranchos, primeiros grupos a desfilar com mestre-sala e porta-estandarte.

Até então, diz o historiador Luiz Antônio Simas, “não havia nada de verdadeiramente original no Carnaval do Rio, um amálgama de manifestações de várias culturas”.

O pulo do gato ocorreu nos anos 1930 com as primeiras competições entre grupos de sambistas que surgiam em morros e subúrbios de maioria negra. A partir dali adotava-se como trilha sonora principal da festa o samba urbano, nascido no Rio décadas antes.

Centralidade dos subúrbios

As escolas de samba transformaram a música do Carnaval e a geografia do Rio de Janeiro.

Segundo Simas, as escolas colocaram os morros e subúrbios no mapa quando o discurso oficial associava o Rio apenas à orla e ao Centro. Ele exemplifica com o caso da Mangueira, morro na zona norte do Rio e sede de uma das escolas de samba mais populares da cidade, a Estação Primeira de Mangueira. “A identidade da Mangueira é a escola, é ela quem define a maneira de pertencimento ao morro.”

Foliões vestidos de diabo para a apresentação de 1911
Integrantes do rancho Ameno Resedá na apresentação “A corte de Belzebu”, em 1911 (crédito: UFF)

O mesmo, afirma o historiador, se aplica aos bairros suburbanos de Oswaldo Cruz, onde nasceu a escola Portela, de Madureira, berço da Império Serrano, e de Padre Miguel, sede da Mocidade e da Unidos de Padre Miguel.

Simas diz que, mais do que grupos artísticos e musicais, as agremiações eram instituições comunitárias, que reforçavam os laços entre os moradores e provinham um rede de proteção social a pessoas subalternizadas. “As escolas de samba não existiam para desfilar, elas desfilavam porque existiam”, afirma.

O momento não parecia propício ao surgimento das escolas. Na ditadura do Estado Novo (1937-1946), o governo Getúlio Vargas reavivara o projeto de embranquecimento físico e cultural da população promovido por D. Pedro 2°, desta vez barrando imigrantes negros, judeus e japoneses.

Para Simas, o nascimento das escolas de samba nesse contexto foi “um milagre”. Ele atribui a sobrevivência dos grupos à “cultura da malandragem”, que sempre soube negociar com o Estado e com a contravenção simbolizada pelo jogo do bicho, tradicional fonte de recursos das escolas.

Fundadores do Cordão da Bola Preta com instrumentos musicais
Fundadores do Cordão da Bola Preta, um dos grupos carnavalescos mais tradicionais do Rio, em 1918 (crédito: Acervo Bola Preta)

Bandeiras nacionalistas

O Carnaval crescia, e cresciam os esforços do governo para discipliná-lo. Em 1948, em meio à Guerra Fria, passa-se a exigir que as escolas adotassem bandeiras nacionalistas.

Na época, o Brasil presidido pelo marechal Eurico Dutra se alinhava aos Estados Unidos na disputa com a União Soviética. A determinação foi uma provável reação ao Carnaval anterior, quando 22 escolas desfilaram patrocinadas pelo Partido Comunista Brasileiro.

“Para os homens do poder, as agremiações funcionavam como livros didáticos para uma população sem livros didáticos”, afirmam Simas e Fabato.

Tornam-se comuns apresentações que exaltam figuras como o Duque de Caxias, a princesa Isabel e o jurista Rui Barbosa, e eventos históricos como a proclamação da Independência e a Guerra do Paraguai.

Obrigadas a exaltar a história oficial em seus enredos, as escolas acharam brechas para também contar nos desfiles outras histórias, que valorizassem suas referências. Para isso, valiam-se do que Simas batizou de “gramática dos tambores”.

Ele conta que muitas escolas baseavam nas batidas dos orixás o toque de suas caixas de guerra, instrumentos que dão constância rítmica a uma bateria.

Multidão na orla do Rio de Janeiro
Carnaval de rua do Rio tem atraído multidões nos últimos anos (crédito: Riotur)

O batuque que anunciava a bateria da Mocidade Independente era o mesmo que, nos terreiros de candomblé e umbanda, convocava o orixá Oxóssi. As entradas da Portela, do Império Serrano e da Manguera eram marcadas pelas batidas associadas a Iansã.

Enquanto os enredos das escolas celebravam heróis nacionais, as baterias evocavam – para os ouvidos entendidos – concepções de mundo afrobrasileiras.

Foi só nos anos 1960 que as escolas passaram a exaltar os orixás e a cultura negra também nas letras, num momento em que intelectuais e escritores propunham um projeto de país que incorporasse tradições populares.

Em 1974, porém, quando a Unidos de Vila Isabel elaborou uma apresentação que exaltava os índios carajás e criticava o progresso desenfreado, a ditadura militar fez a escola transformar o enredo numa apologia à rodovia Transamazônica.

Decadência e ressurreição

Enquanto as escolas de samba atraíam a classe média, o Carnaval de rua dos blocos e cordões se esvaziava. Com a inauguração do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, em 1984, as agremiações viviam seu auge. O Carnaval carioca se tornava um espetáculo televisivo turbinado por recursos de empresas e governos.

A elitização dos desfiles, porém, fez com que os grupos fossem se afastando de suas bases comunitárias. E conforme o entusiasmo da classe média pelas escolas esfriou, o Carnaval de rua ressurgiu.

Hoje, diz Simas, o Carnaval das escolas de samba cariocas perdeu muito da importância que já teve para o resto do país.

Foliões com roupas com lantejoulas
Maracatu é um dos principais gêneros do Carnaval em Olinda e no Recife (crédito: Costa Neto – Secult-PE)

Popularizado junto da música e do futebol cariocas nos tempos em que o Rio era capital e a Rádio Nacional era o principal meio de comunicação do Brasil, ele foi cedendo espaço para outras expressões.

Muitas cidades voltaram-se às disputas entre escolas de samba locais. No Recife e em Olinda, o frevo e o maracatu se firmaram como os principais gêneros carnavalescos. Nas cidades históricas mineiras, blocos centenários revigoraram os desfiles com marchinhas.

Em Salvador, a invenção do trio elétrico abriu o caminho para o nascimento do axé, que se tornaria a trilha dominante nos festejos de várias regiões do país, até ser destronado recentemente pelo funk. E, nos últimos anos, capitais como São Paulo e Belo Horizonte vêm experimentando um forte crescimento do Carnaval de rua, com blocos, trios elétricos e palcos fixos.

Lógica empresarial

Para Simas, o Carnaval de rua do Rio e de outras grandes cidades hoje corre o mesmo risco que as escolas de samba correram: “elitizar-se e ser capturado por uma lógica empresarial que tire sua espontaneidade”.

Multidão à frente de trio elétrico em São Paulo
Carnaval de rua em São Paulo vem crescendo com blocos, trios elétricos e palcos fixos (crédito: Monica Silveira – SPturis)

Para atender aos públicos cada vez maiores, muitos megablocos têm recorrido a patrocínios e se submetido a regras rígidas, como horários para o início e fim dos festejos.

Em contrapartida, os patrocinadores – muitas vezes marcas de cerveja – costumam exigir que só se vendam seus produtos no bloco e que possam criar áreas VIPs.

O modelo, diz Simas, já capturou o Carnaval da zona sul e do Centro do Rio, que vai perdendo suas características populares. Segundo ele, hoje o Carnaval “mais pujante” da cidade sobrevive fora das áreas turísticas, nos subúrbios da zona oeste e em bairros da zona norte, como a Tijuca.

O Estado tentou, mas quem parece estar tendo mais sucesso em disciplinar o Carnaval são as empresas.

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