Franklin Martins: Se a Globo quiser ‘se entender’ com o PT, ela tem que acabar com a censura ao PT e a Lula

(Foto: Brasil247 | Reprodução)

O jornalista Franklin Martins fez uma análise dos bastidores que podem definir os próximos passos de dois gigantes políticos: PT e Globo (na visão dele, os dois maiores partidos políticos do país). Franklin diz que a Globo tem de acabar com a censura ao PT se quiser ‘derrotar’ Bolsonaro.

Em entrevista ao editor do Brasil 247, Gustavo Conde, o ex-ministro de Lula destaca que Globo e Bolsonaro têm em comum a política econômica de Paulo Guedes, mas que há também muitas zonas de litígio, como a questão ambiental e a compreensão da democracia.

Franklin fala também sobre o comportamento presente do conjunto da sociedade brasileira acerca do choque que foi eleger uma figura notadamente autoritária como Bolsonaro. Ele diz: “o Brasil é muito complexo e generoso para se submeter a essa escória que está no governo.”

Ele ainda faz uma leitura do papel das forças democráticas e progressistas no bojo da catástrofe sanitária e política que transcorre no país. Para Franklin, há erros na condução do enfrentamento político de Bolsonaro e da pandemia e o erro não é de comunicação: é político. Ele diz: “o mais importante em um processo de autoritarismo é a insubmissão”

Franklin reitera que o Brasil é um país muito mais complexo do que parece e que essa diversidade e essa riqueza são insubmissas a processos autoritários de governo. Para Franklin, isso foi demonstrado na prática com a derrota da ditadura militar

Franklin não poupou palavras nas críticas direcionadas ao conjunto da sociedade brasileira, mas não esqueceu de celebrar o fato de que o Brasil é mais “interessante” e responsivo do que a mídia corporativa ou setores mais sistêmicos pode fazer acreditar. Sobre a comunicação da campanha eleitoral-digital de Haddad em 2018, por exemplo, o ex-ministro foi direto: “foi um dos maiores desastres que já vi.”

Franklin diz ainda que é preciso fazer o enfrentamento político com Bolsonaro e à pandemia e que as forças progressistas têm condições de sair das cordas e virar o jogo.

Para o jornalista, o inimigo não está devidamente enquadrado pela oposição – e isso, segundo o ele, é crucial para que se possa traçar qualquer estratégia de enfrentamento.

Confira trechos da entrevista com Franklin Martins:

“Os dois maiores partidos políticos do Brasil são o PT e a Rede Globo.”

“Embora o PT seja um partido que construiu, a partir dos mecanismos que constroem os partidos, que é a luta política, a luta social, o voto nas urnas etc e a TV Globo se construiu a partir de uma posição quase monopolista dentro dos meios de comunicação, especialmente na comunicação eletrônica que, explico, é uma concessão do Estado.”

“Esses dois agentes políticos podem se entender? Pode, mas, evidentemente, não é uma coisa simples, porque a Globo passou os últimos 10 anos querendo destruir o PT e não conseguindo.”

“E quando conseguiu derrotar o PT, derrotou montada na garupa do cavalo do capitão Bolsonaro. Esse é que é o problema. A dúvida é se ela estava numa garupa ou se estava segurando as rédeas.”

“A Globo está numa entalada.”

“O PT e a Globo tem que se entender? Se a Globo quer se entender com o PT (e eu acho que ela faria muito bem de se entender e se entender não quer dizer pensar igual) e quer combater um inimigo comum, quer defender ideias comuns, a primeira coisa que ela tem que fazer é acabar com a censura ao PT e acabar com a censura ao maior líder político do Brasil que é o presidente Lula.”

“É intolerável que Globo, em meio a essa crise monumental da Educação, jamais tenha ido entrevistar o Haddad, que é o ministro da Educação mais longevo que o Brasil já teve (e ao meu ver, um dos melhores). Por quê? Porque ela não quer dar espaço para ele.”

“Na questão da pandemia, ela não foi entrevistar um monte de gente… O Temporão, o Chioro… Na questão do “Renda Brasil” [programa anunciado por Bolsonaro para substituir o Bolsa Família], por que ela não foi entrevistar as pessoas que construíram o Bolsa Família? E na questão da democracia, por que ela não vai entrevistar pessoas como Lula, como Haddad?”

“Acho que nós estamos vivendo um dos momentos mais dramáticos da nossa história e infelizmente acho que nós estamos (e quando eu digo nós, eu digo o ‘povo brasileiro’, todo mundo, a esquerda, o centro, a direita) batendo cabeça, não estamos conseguindo entender a gravidade da situação e acertar uma resposta para ela.”

“Nós não temos nenhuma ação coordenada, com base científica, que possa enfrentar essa situação.”

“As pessoas vão ficando muito tensas, exasperadas, e se não tiver um comando muito claro, muito firme, a crise sanitária não será debelada.”

“As forças políticas progressistas deveriam colocar no centro a defesa da vida, a defesa da vida das pessoas, isso é que o mais importante agora. E quem estiver do lado da defesa da vida das pessoas devem estar junto, independente das divergências políticas.”

“O povo brasileiro dará em 2020 e em 2022 uma resposta política, eleitoral, de acordo com o que ele viu no enfrentamento desse principal problema [a pandemia].”

“Bolsonaro está achando que vai surfar na onda… Eu não acho que vai surfar na onda.”

“As forças democráticas e progressistas deveriam estar colocando a questão do enfrentamento da pandemia, da defesa da vida, no centro e um programa emergencial de defesa da economia, especialmente dos mais pobres, especialmente dos trabalhadores, especialmente de quem tem micro e pequena empresa, especialmente dos precarizados, que são os mais afetados por essa situação.”

“Está faltando um discurso sistemático, um discurso frontal [por parte das forças progressistas] com relação ao combate à pandemia.”

“Não é um problema de comunicação só. Eu acho que as forças progressistas tiveram uma política de comunicação, a meu ver, bastante criativa, inteligente, primeiro no segundo mandato do presidente Lula e depois na campanha da Dilma de 2014, que teve experiências extraordinárias de disputa política na internet, sem fake news. O Muda Mais foi uma coisa extremamente importante naquele momento. Eu não entendo por quê (aliás, eu entendo, é que eu prefiro não dizer) o PT preferiu botar aquilo na gaveta. No fundo, é o seguinte: como ninguém controlava e ninguém entendia muito daquilo, eles tinham medo do desconhecido (o ser humano tem medo do desconhecido, os partidos políticos têm um medo monumental do desconhecido, as lideranças, a burocracia [partidária]) e não mantiveram [o Muda Mais]. Com isso, jogaram fora um acúmulo [uma expertise] e não conseguiram chegar em 2018 com uma experiência de disputa política na internet adequada aos novos momentos, às novas ferramentas, em especial, ao WhatsApp.”

“A comunicação de 2018 da campanha do Haddad foi um dos maiores desastres que eu já vi. Porque, simplesmente botava um meme, botava outro, fazia uma brincaderinha etc e tal, mas não fazia a disputa política, não fazia um monitoramento capaz de entender o que acontecia no WhatsApp. E aí, vinha aquele discurso: “Ah, mas o WhatsApp não pode ser monitorado por algoritmo”. Ora, não pode ser por Algoritmo, mas pode ser politicamente! Você é capaz de perceber da onde estão vindo certas coisas, ainda mais no setor político, com uma base social política amplíssima como é o caso do PT e dos partidos que integravam a frente que apoiou o Haddad.”

“Então, tem um problema de comunicação. Mas eu não acho que o nosso principal problema seja de comunicação. O nosso principal problema, hoje em dia, é político.”

“Não vai ter comunicação boa se o político não estiver enfrentando os problemas. E qual é o problema central: é a pandemia, é a luta pela vida.”

“Eu não entendo por que, até hoje, o PT não aprovou, não soltou e não publicou o seu programa emergencial sobre isso [o combate à pandemia], porque discutiram isso em diversas instâncias.”

“No fundo, eu acho que as pessoas não encarnaram a essência da política, hoje em dia. A essência da política é defender a vida, é defender as pessoas e é defender os mais humildes, porque o coronavírus afeta mais o povão.”

“Tem que ter o inimigo principal, tem que apontar quem é o inimigo [a pandemia, Bolsonaro]. Eu olho, às vezes [para a oposição] e parece que a gente está olhando para o teto.”

“O mais importante em um processo de autoritarismo é a insubmissão.”

“O Brasil é um país muito generoso para poder se submeter a essa escória que está governando o país.”

Assista a entrevista de Franklin Martins na íntegra:

 

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