Ilha de Maré é território quilombola e bairro mais negro de Salvador

Fernanda Santana
Quase 90% dos moradores se autodeclaram negros na região explorada pelos engenhos de açúcar

À frente da comunidade de Bananeiras, do outro lado da Baía de Todos os Santos, o Museu Wanderley Pinho, antigo engenho de açúcar, relembra o passado de violência escravocrata na Ilha de Maré. Hoje, 364 anos depois da morte de Zumbi dos Palmares, dia da Consciência Negra, o preto da pele é motivo de reafirmação de força. A ilha, segunda maior da Baía, é também o bairro mais negro de Salvador.

Uma pequena embarcação leva ao ponto mais central do nordeste da Baía de Todos os Santos. Quando, em 2010, funcionários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desembarcaram na ilha para o último censo demográfico, 88,9% dos 4.864 moradores se autodeclaram negros –  os bairros de Alto das Pombas e Chapada do Rio Vermelho aparecem em seguida.

Todas as vezes que Eliete Paraguassu, nativa da Ilha da Maré, precisa fazer um pronunciamento ou simplesmente se apresentar, a mesma fala vem sempre primeiro: “Sou uma mulher negra, quilombola e marisqueira”. “Além disso, digo que sou solteira. Neste país racista, é muito difícil, mas importante, falar isso”, acredita a líder do movimento do Conselho Quilombola de Ilha de Maré.

Desde o final da década 90, Eliete faz parte de uma luta pela defesa e autoafirmação dos nativos de ilha de Maré. O objetivo é que os discursos atinjam também os mais jovens.

“Venho de uma família escravizada de Ilha de Maré, como muitos outros. Mas antes, não sabíamos que eram vários os racismos”, comenta Eliete.

Viver na Ilha de Maré, entre maioria negra, significa, para ela, combater o racismo diariamente. Também no último censo, por exemplo, o IBGE calculou que os moradores de Ilha de Maré ganhavam, em média, R$ 257 – o quarto menor valor em toda Salvador.

Foto: Arquivo CORREIO

O passado
Os primeiros negros chegaram na Ilha de Maré à força, ainda no século 16, para servirem ao modelo escravocrata dos senhores de engenho, que viam na terra de massapê uma oportunidade para suas plantações. Nas 11 comunidades que formam a ilha, ainda é possível enxergar os vestígios do passado.

O Museu, por exemplo, era o Engenho Freguesia, no município de Candeias. Dentro da ilha, estão a Igreja de Nossa Senhora das Neves, uma das mais antigas do Brasil e a primeira construída na ilha, anexada a um antigo engenho.

Desde 2017, quando Ilha de Maré foi reconhecida como bairro de Salvador, cinco das 11 comunidades que formam o local passaram a constituir o Território Quilombola da Ilha de Maré, de acordo com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). As referências culturais afro-brasileiras são sempre mencionadas pelos moradores, principalmente pescadores e marisqueiras.

“As falas em relação a resgate de família, de memória, remetem à questão negra, ao período de escravidão, às fugas. Eles se apresentam como quilombolas”, explica Jussara Rêgo, que analisou, em sua tese de doutorado, o território da Ilha de Maré e especificamente na região de Bananeiras.

Os negros escravizados habitavam, principalmente, a parte central da ilha, num local conhecido como Paciência, explica Jussara. É uma das hipóteses contadas para os moradores que tentam justificar como, numa ilha onde havia duas engenhos de açúcar, foi possível organizar territórios quilombolas. Alguns deles teriam fugido a nado, do Engenho de Freguesias, para a ilha vizinha. Longe da costa, a agricultura era a principal forma de sustento.

Somente a conquista da liberdade começa a incentivar os negros a migrarem, aos poucos, para as bordas. O mar e os mangues começam a entrar na rotina. “Eles passam a se identificar com essas atividades. A agricultura continua, mas a pesca se torna muito forte”, conta Jussara.

A renda e a produção de doces de banana, heranças do passado, também marcam profundamente a cultura local. “São coisas que aprendemos com nossas mães, com nossas avós, é nossa tradição”, comenta Conceição Aquino, 66.

Foto: Arquivo CORREIO

Tranquilidade e beleza 
O clima na ilha é de completa tranquilidade nas ruas. Os carros não entram e o transporte – entre as comunidades ou em direção a Salvador – é feito por meio de embarcações, bicicletas ou animais.

Na última década, os moradores acreditam ter aumentado a chegada de turistas, que desembarcam ou no píer da comunidade de Santana ou de Botelho, depois de embarcarem no terminal de São Tomé de Paripe. A travessia dura em média 20 minutos e começa entre 4h30 e 5h. A última embarcação sai de Botelho, quando a maré permite, às 19h.

As praias de Botelho, das Neves e de Itamoabo são as preferidas dos turistas, pelas águas geralmente cristalinas e tranquilas. “As praias ficam lotadas nos finais de semana. É muito bonito, a gente cresceu vendo isso aqui. A gente aproveita para lucrar”, diz Raimunda Neves, 65, dona de uma barraca em Itamoabo. Ela própria é uma mulher negra, descendente de escravos e marisqueira.

Nativa da Ilha, marisqueira desde a adolescência, Lene Arquino diz: “Ilha de Maré é um paraíso”. Não sem desconhecer os problemas estruturais e, principalmente, o racismo ao qual ainda estão sujeitos. Não há, por exemplo, saneamento básico na ilha. Segundo a Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia (Coelba), a previsão para a conclusão de um projeto de esgotamento sanitário é dezembro deste ano.

No caminho para Ilha de Maré, o aposentado Hamilton Moreira do Bonfim, 59, aponta para o local onde vive desde a infância. “Todo mundo ama isso aqui, mesmo com as dificuldades”, comenta. A torcidade é para que os problemas melhorem e que as tradições, memórias e referências permaneçam como estão.

Comunidades da Ilha de Maré 
Ilha de Maré é dividida entre as comunidades de Oratório, Botelho, Engenho de Maré, Nossa Senhora das Neves, Itamoabo, Santana, Praia Grande, Mata Atlântica, Martelo, Maracanã e Bananeiras.

Veja ranking dos bairros mais negros de Salvador, de acordo com o último censo:

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