‘Me senti uma carne no açougue’, diz acusada de fraude em cota

“Fiquei com a cabeça baixa a maior parte do tempo porque tive que assinar vários papeis. Durou mais ou menos um minuto e meio. Depois me disseram que a banca estava satisfeita. Me senti como uma carne em um açougue”, contou a estudante à reportagem. Ela, que preferiu não se identificar, se autodeclarou parda e diz que tem antepassados negros.

A avaliação dos alunos convocados após denúncias de grupos de estudantes negros foi silenciosa, sem perguntas. Mesmo aqueles que se declararam pardos precisam apresentar fenótipos que os identifiquem como negros, como nariz achatado, lábios grossos e cabelo crespo. São esses traços, além da cor da pele, que distinguem quem sofrerá racismo ao longo da vida, defendem os movimentos negros.

A advogada da estudante, Wanda Gomes Siqueira, diz que a convocação é um “tribunal racial”. Por outro lado, o especialista em direito público Gleidison Renato Martins, da coordenação nacional do Movimento Negro Unificado, defende a comissão porque os alunos convocados são “brancos que ocupam indevidamente as vagas dos cotistas”.

A UFRGS iniciou a entrega dos pareceres aos alunos avaliados na última segunda-feira. “Passaram pessoas rindo da gente como se fossemos criminosos. Não estou conseguindo ter sossego, estou abatida. Não me sinto branca. Tenho consciência de que não sou negra nem branca. Minha pele é parda. Tenho cabelo preto e liso, no mais tenho traços negroides”, contou a aluna.

Martins aponta pelo menos dois fatores que atrapalham a discussão sobre as cotas e as possíveis fraudes. Um deles é a falta de compreensão sobre o termo “pardo”. “Pardo, para efeito de ações afirmativas em concurso público e vestibular, é a cor clara da pessoa negra. É a possibilidade de um negro, por miscigenação, ter outros fenótipos que não aquele negroide acentuado”, explicou. Ou seja, pardos são negros com traços miscigenados e não pessoas brancas com a pele ou cabelo mais escuros.

Outro fator que atrapalha a discussão é a ideia de que há uma raça brasileira e essa raça é miscigenada, como postulava o intelectual Gilberto Freyre, na obra “Casa-grande e senzala”. “Se não existe nem negro nem branco, apenas miscigenados, não existe racismo. Se não existe racismo, não existe política contra o racismo. Só que a realidade não é essa e não podemos fechar os olhos”, disse.

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