O cristofascismo golpista

Temos vivido tempos terrivelmente fundamentalistas, nos últimos meses são incontáveis as interferências de lideranças religiosas no cenário político brasileiro.

Imagem: Aizar Raldes / AFP  – Arte: Gabriel Pedroza / Justificando

Do Justificando

A última ocasião na qual evidenciou-se o uso político dos fiéis realizado por muitas igrejas, aconteceu no processo de eleição dos conselhos tutelares, haja vista o frete de ônibus para levar os fiéis para os colégios eleitorais, a propaganda e apoio das igrejas a conselheiros que representariam “a vontade de Deus” nos Conselhos Tutelares.

Essas igrejas estão disputando as mentes e corações das pessoas mais pobres, marginalizadas na sociedade e sem acesso aos direitos. Ao se colocarem como as salvadoras dos males da sociedade e em defesa da família, apelando diretamente para o senso de autoproteção das pessoas, essas igrejas conquistam apoio político de uma massa que se vê acolhida pelas religiões populares, como o catolicismo e o neopentecostalismo.

E essa não é uma realidade brasileira, apenas. Esse é um cenário da América Latina, de modo geral. E temos que entender que essa entrada das religiões cristãs no poder e na formação do imaginário social latino-americano, se deve ao fato de o Catolicismo ter sido esteio do processo de colonização de todos esses países. O Imaginário cristão que dá sustentação para os evangélicos fundamentalistas, hoje, vem sendo forjado há 500 anos em nossas terras, e isso se reflete no alto número de políticos que ostentam a bandeira da religião. A Guatemala, por exemplo, é governada por um pastor evangélico, o Jimmy Morales. A Costa rica é governada por um cantor e pastor evangélico chamado Fabrício Alvarado. Na Colômbia, até 2017, haviam 750 colégios públicos e 3500 igrejas neopentecostais.

E esse avanço dos políticos religiosos, é potencializado pelo poder dos inúmeros meios de comunicação religiosos que constroem heróis baseados na fé e moralidade cristãos. Há de se convir, que se tratam de países com pessoas extremamente empobrecidas que têm uma dependência social da igreja e do seu assistencialismo. Uma prática que se converte em um dos maiores trunfos do capitalismo exploratório que acomete a América Latina, ensinar as pessoas a dependerem da caridade. Postura que forma cidadãos que  não exigem seus direitos do Estado, dando todo poder para que as religiões mais populares mantenham a estabilidade social de uma sociedade extremamente desigual. Nesse contexto, o colapso que a Bolívia enfrenta está diretamente ligado a alguns grupos fundamentalistas católicos e evangélicos, que mobilizaram as pessoas com a disseminação de pânico entre os fiéis.

Dentre as notícias e imagens que têm circulado na mídia, eu gostaria de evidenciar duas imagens que são muito efetivas para conquistar corações e mentes de um povo extremamente cristianizado:  Luis Fernando Camacho ajoelhado em frente a uma bíblia e a presidente interina Jeanine Añez com a faixa presidencial e uma pequena bíblia na mão.  Antes disso, se faz necessário pontuar que esse golpe vem sendo preparado desde a forte resistência de alguns grupos católicos e evangélicos ao novo Código Penal Boliviano sob a pecha de que o Código Penal criminalizaria a evangelização no país, quando na verdade a lei estabelecia que “a condenação de 7 a 12 anos aconteceria no caso de tráfico de pessoas realizado dentro do contexto de grupos religiosos”.

Mesmo que essa resistência tenha se potencializado após a discussão do Código Penal, que inclusive foi revogado, ela se estabeleceu desde 2006, quando Evo Morales assumiu a presidência da Bolívia. Desde o início do governo, Morales enfrentou uma série de fakenews, muitas delas dizendo que seu governo fecharia igrejas, que os prédios das igrejas seriam desapropriados e que a entrada de bíblias seria proibida no país, coisas que nunca aconteceram nesses 12 anos. Assim, a tática da construção do pânico moral como forma de angariar apoiadores vem sendo utilizada na Bolívia desde o início do governo Morales, a mesma tática utilizada na campanha do Jair Bolsonaro ao disseminar o medo e o pânico da “ideologia de gênero” em suas campanhas.

Pois bem, nesse contexto de pânico moral que se instaurou na Bolívia, algumas mensagens passadas pela estética que se articulou nesse movimento golpista, são muito eficientes para trazer legitimidade aos opositores do governo. Ao ajoelharem em frente à bíblia sobreposta à bandeira da Bolívia, o empresário Luis Fernando Camacho, católico fervoroso, empresário e presidente do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz, e Carlos Mesa, segundo colocado nas eleições de 20 de outubro, passam uma mensagem de submissão à vontade de Deus, a mensagem de que não existem interesses outros a não ser o de restaurar a Bolívia pela Fé e não pelo poder, como declarou Camacho.

Assim como a imagem da presidente interina Janine Añez portando a faixa presidencial e com uma pequena bíblia cor de rosa na mão, passa para as massas cristãs a impressão de “mulher virtuosa”. Essa bíblia rosa é denominada A Bíblia da Mulher, uma edição bíblica famosa e muito querida entre as mulheres evangélicas. Suas edições são publicadas sempre em tons de rosa, com flores estampadas e letras de contornos rebuscados, que reforçam a mensagem da mulher virtuosa, que é boa mãe, dedicada aos filhos e que se submete à vontade de Deus –  tudo o que a Bolívia precisa, não? Alguém que cuide do povo como uma boa mãe. Além de toda essa estética construída em torno da mulher devota, ela anuncia para os apoiadores do golpe: ‘A Bíblia volta ao palácio’, sendo aclamada por uma massa que acredita que a moralidade cristã é a mais correta e adequada para o governo.

E para que se reforce essa imagem da “mulher virtuosa”, é necessário que se repudie a imagem da mulher que não segue o padrão cristão de feminilidade. E nesse jogo estético, a humilhação da prefeita Patrícia Arce cumpre o papel de exibir em praça pública o que não é desejado: uma mulher que não esteja no padrão da “mulher virtuosa”, que não ostente uma bíblia rosa e que não reforce a moralidade cristã. É medonho, mas é a realidade. Temos que ter em mente que esse teatro armado conversa com a subjetividade de um povo submetido a uma religiosidade opressora, que rege corações e mentes, direcionando os fiéis a acreditarem que o Estado deve ser cristão.

Há de se convir, que essa postura que execra os opositores, que tortura uma mulher em praça pública, que exalta a devoção em detrimento dos direitos, é diretamente oposto ao exemplo dado por Jesus, no caso da Maria Madalena. Enquanto os fundamentalistas queriam apedrejá-la, Jesus a acolheu. Que fervor cristão é esse, senão o fervor do mau-caratismo de uma elite que usa a religião como modo de normatizar a exploração de um povo? Enquanto a religião preencher o espaço da educação e dos direitos sociais, assistiremos cenas como estas. A questão, então, não se trata de o povo ser religioso, se trata do povo não ser educado e atendido em suas demandas sociais, sendo entregues ao assistencialismo interessado dessas elites religiosas. Sigamos na luta, pelo Estado Laico, pela educação de qualidade e pelos direitos humanos!

Simony dos Anjos é graduada em Ciências Sociais (Unifesp), mestranda em Educação (USP) e tem estudado a relação entre antropologia, educação e a diversidade.

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