Os objetos sagrados de religiões afrobrasileiras ‘libertados’ mais de 100 anos após serem apreendidos

Camilla Veras Mota

Funcionários de transportadora embalam atabaque
Há três décadas lideranças do candomblé e da umbanda iniciaram movimento para recuperar coleção com mais de 500 peças

Atabaques, colares, chapéus, roupas, animais taxidermizados, cruzes, imagens de santos.

Entre a Primeira República e a Era Vargas, de 1889 e 1945, quando a intolerância religiosa era institucionalizada no Brasil por um Código Penal que definia como crime a “prática do espiritismo, da magia e seus sortilégios”, pelo menos 519 peças de religiões de matriz africana foram apreendidas pela Polícia em terreiros de candomblé e umbanda no Rio de Janeiro.

Essa era uma época em que o samba e a capoeira também davam cadeia no Brasil.

Os objetos foram parar no Museu da Polícia Civil do Rio, onde compunham uma coleção pejorativamente batizada de “magia negra”, e lá ficaram quase 100 anos esquecidos — mas não por seus donos.

“A população de terreiro sempre soube dessas peças, sequestradas a partir das violência do Estado. É uma história muito dura que a gente viveu”, diz o babalorixá Adailton Moreira.

Ele está à frente do terreiro Ilê Omiojuarô, em Nova Iguaçu, na baixada fluminense, um espaço fundado há mais de 35 anos por sua mãe, a respeitada ialorixá Mãe Beata de Iemanjá, falecida em 2017.

A história, ele diz, sempre foi contada, “com muita tristeza”, pelos ialorixás e babalorixás.

Mas foi há 30 anos que a Mãe Meninazinha de Oxum, à frente do terreiro Ilê Omolu e Oxum, em São João de Meriti, município na região metropolitana do Rio, deu início a um movimento para que as peças fossem recuperadas.

“Começamos a nos organizar pra ir atrás disso, buscamos parlamentares, instituições de direitos humanos, pesquisadores”, conta Babá Adailton.

Mãe Meninazinha de Oxum no dia da chegada das peças ao Museu da República
Mãe Meninazinha de Oxum no dia da chegada das peças ao Museu da República: data foi marcada com evento simbólico por conta da pandemia

Em 2017 nasceu então a campanha Liberte o Nosso Sagrado, com apoio de entidades como as comissões de direitos humanos da Assembleia Legislativa do Rio, da OAB-RJ e do gabinete do deputado estadual Flavio Serafini (PSOL-RJ), e o lançamento do documentário Nosso Sagrado, da Quiprocó Filmes, que conta a história do movimento.

Foram três longos anos até que, no último dia 21 de setembro, as 519 peças chegaram, em 77 caixas, ao Museu da República.

Segundo o Ministério Público Federal no Rio de Janeiro (MPF-RJ), que intermediou as negociações, as peças estavam armazenadas de forma inadequada no Museu da Polícia Civil — o primeiro contato que Babá Adailton teve com elas, aliás, foi em uma inspeção feita pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) durante esse processo.

“Foi um momento de muita emoção e muita tristeza ver como aquelas peças estavam acondicionadas.”

O acesso aos objetos sagrados pelos povos de terreiro, além permitir-lhes uma manutenção adequada, representa ainda uma “reparação histórica pelas violações de direitos”, “em contexto de valorização da cultura de matriz africana”, como definiu o MPF-RJ após a assinatura do termo de transferência, no último dia 7 de agosto.

Objeto do acervo 'Nosso Sagrado'
Imagens do acervo estão sendo registradas pelo fotógrafo do Iphan Oscar Liberal

A nova casa

O Museu da República não estava entre os candidatos a receber a coleção, conta seu diretor, Mário Chagas.

Ele foi procurado em novembro de 2018 por lideranças religiosas, filhas e filhos de santos, ialorixás e babalorixás, que lhe perguntaram se o museu receberia as peças.

“A resposta imediata foi que sim.”

Chagas acredita que o lugar pode ter sido escolhido também por sua simbologia, já que o Palácio do Catete, onde funciona o museu, foi sede de Presidência entre 1897 e 1960, quando foi inaugurada Brasília e a cidade do Rio deixou de ser capital do país.

Quem estava entre aquelas paredes comandando o Brasil durante essas décadas “tinha no mínimo conhecimento de que essas apreensões aconteciam, ou deu aval ou emitiu as ordens”, diz ele.Objeto do acervo 'Nosso Sagrado'

Acervo está sendo fotografado e será posteriormente catalogado

Depois de um longo trâmite burocrático, que envolveu o departamento jurídico do museu, do Instituto Brasileiro de Museus e da Polícia, Chagas deu a notícia ao povo de santo de que a negociação havia sido concluída em 23 de junho.

No dia 7 de agosto o termo de cessão foi assinado. “E fomos em busca de apoio para fazer o seguro e o transporte do acervo.”

No início de setembro, cada uma das peças foi vistoriada, recebeu um laudo técnico, e teve início o trabalho de preparação das embalagens. Tudo ficou pronto na noite da sexta-feira do dia 18.

“Liguei para Mãe Nilce (de Iansã) e ela disse: ‘Não, meu filho, vamos tirar na luz do dia’.”

E assim, segunda-feira pela manhã do dia 21 de setembro, as peças passaram pelos portões do Palácio do Catete.

Lideranças religiosas entram no Museu da República em cerimônia simbólica no dia da transferência do acervo
Lideranças religiosas entram no Museu da República em cerimônia simbólica no dia da transferência do acervo

Quarentena

Chagas conta que a diversidade de materiais é grande, vai do tecido ao ferro, passando por pedras e cerâmica. Os objetos incluem peças de indumentária feminina e masculina ligada aos orixás e aos santos, ferrarias “próprias do sagrado”, objetos de uso pessoal dos praticantes, como guias (colares) e adereços para a cabeça, objetos de altar — como cruzes e santos católicos, referências a caboclos — e até um galo taxidermizado.

“Alguns objetos são muito curiosos, vão demandar pesquisas”, diz Chagas.

Esse é um trabalho que envolverá ainda o resgate das histórias das peças, que acabaram se perdendo com o tempo e diante da dificuldade que pesquisadores tinham quando tentavam ter acesso à coleção no Museu da Polícia.

A primeira vez em que a equipe do documentário Nosso Sagrado tentou ter acesso a elas, conta o diretor Fernando Sousa, eles não apenas foram surpreendidos com um catálogo — o mais perto de que chegariam aos objetos naquele momento —, como também tiveram de assinar uma espécie de contrato com o museu que expressava como eles poderiam se referir ao acervo.

A equipe só conseguiria filmar as peças posteriormente, quando acompanhou uma ação de diligência da Comissão de Direitos Humanos da Alerj.

Objeto do acervo 'Nosso Sagrado'
Acervo é ‘caldeirão de africanidade’, diz pesquisadora do Museu da República

Os profissionais do Museu da República, que vão trabalhar em conjunto com representantes de mais de uma dezena de casas de santo, já conseguiu localizar algumas dessas histórias em jornais da época, em relatos sobre as “batidas” nos terreiros que viraram notícia.

A etapa de pesquisa propriamente dita, entretanto, ainda não começou.

Após a chegada, os objetos passaram por nova vistoria, para verificar o estado de cada um deles após o transporte.

A prática é comum no mundo da museologia, assim como a “quarentena” das peças, isoladas dos demais acervos para garantir que eventuais fungos ou outros micro-organismos que elas carreguem não contaminem outras, e vice-versa.

É um trabalho de observação, que envolve “tratamento” e uma “higienização fina”, diz Maria Helena Versiani, pesquisadora do Museu da República e responsável pela documentação histórica da coleção, que será feita no contexto da gestão compartilhada com as lideranças religiosas.

“Passa um produto, espera secar, depois passa outro… é um trabalho de artesão.”

Objetos do acervo 'Nosso Sagrado'
Após ‘quarentena’, começa período de pesquisa e documentação dos objetos

Para ela, a importância do acervo é multidimensional, um ponto de partida para diversas discussões.

A primeira delas é a questão da africanidade, “essa cultura africana que se transformou em cultura afrobrasileira”.

“O acervo é um caldeirão de africanidade — aqueles que vieram para o Brasil eram de diferentes regiões, tinham diferentes culturas, e se encontram aqui nesse caldeirão da diáspora.”

“A religião é um modo de pertencimento que resiste à escravidão. Ela foi construída por pessoas que foram escravizadas, mas que buscavam sentidos de existência para além de serem escravizadas. Quem limita o africano a escravizado é o colonizador, é o branco”, ela pontua.

Um outro ponto de reflexão a partir da coleção, para ela, é a existência no país de um “racismo como projeto de Estado, de branqueamento”, e que vai muito além da cor da pele — se manifesta também na tentativa de apagamento da história e da cultura negra.

“Nós temos vários locais históricos preservados no Rio de Janeiro. Por que nós não temos um terreiro da tia Ciata preservado, a casa da Yá Davina?”, questiona.

Tia Ciata é considerada figura central no surgimento da samba carioca no início do século 20. Já Yá Davina era avó de Mãe Meninazinha de Oxum, migrou da Bahia para o Rio de Janeiro em 1920. Sua casa no Bairro da Saúde virou referência para o “fluxo de afrodescendentes” que vinha do Nordeste naquela época e buscava algum acolhimento, a ponto de ficar conhecida como “consulado baiano”.

Objeto do acervo 'Nosso Sagrado'
Reconstrução das histórias dos objetos será feito a partir do cotejamento de diversas fontes

Intolerância e racismo religioso

Apesar de o Código Penal brasileiro não criminalizar mais as religiões de matriz africana, o racismo religioso institucionalizado ainda existe, diz o babalorixá Adailton Moreira.

Isso se manifesta, ele exemplifica, quando alunos portando adereços do candomblé — como a guia — são barrados em escolas municipais no Rio. Ou quando sacerdotes são impedidos de entrar em espaços do Sistema Único de Saúde, mesmo quando sua presença é requisitada por aqueles que estão em tratamento, e nos espaços prisionais.

“Mas os louvores acontecem”, diz ele. “Isso soa como racismo religioso, intolerância religiosa. Impedir de professar nossa tradição virou algo naturalizado.”

O documentário que conta a história do acervo chegou a ter a exibição cancelada no ano passado no Centro Cultural da Justiça Federal no Rio de Janeiro.

“O filme foi censurado”, diz o diretor Fernando Sousa. Para ele, a onda de cancelamento de peças, filmes e mostras que marcou o primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro não arrefeceu, mas apenas ficou em suspenso no contexto da pandemia, que limitou os eventos presenciais.

“Não arriscaria dizer que houve trégua. Talvez a pandemia tenha subvertido essa ordem.”

Neste 20 de novembro, dia da Consciência Negra, a produtora divulgou imagens da transferência e chegada das relíquias em formato de curta metragem:

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O Ilê Omiojuarô, conta Babá Adailton, segue sendo constantemente alvo de ataques, com depredações e agressões físicas.

E, ainda que alguns dos responsáveis pela violência sejam traficantes que dominam a região de Nova Iguaçu, a culpa, para ele, não é do tráfico.

“É falta de uma cultura, de uma educação, de trabalhar com uma diversidade religiosa. É como se religião de preto fosse uma religião endemoniada. É um preconceito estrutural.”

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