Pilão Arcado: Estradas intransitáveis, mercado vazio

Da Redação

Pilão Arcado é uma cidade no norte da Bahia, à margem esquerda do Rio São Francisco, deslocada em 1974 pela construção da Barragem de Sobradinho, com população estimada pelo IBGE em 2019 de 35.048 pessoas e extensão territorial de 11.626 quilômetros, é assim um Estado de Sergipe, quinze Singapuras, um dos países mais ricos do mundo; quase duas vezes o território da Palestina e um terço da Bélgica, meio Sergipe e um dos municípios mais pobres do Brasil: é o 5.510 em uma lista de 5.565 municípios brasileiros.

Comerciantes não se dão nem ao trabalho de abrir boxes

Areia e sol compõem a maior parte do território de Pilão Arcado, que, dizem os antigos, areia que guarda segredos e tesouros, entre eles o cobiçadíssimo e raríssimo urânio e nióbio, que já foi propagandeado até pelo Presidente Bolsonaro como um dos tesouros de nosso subsolo capazes de alavancar nosso desenvolvimento.

Mercado Municipal as 6 da manha o carro e do funcionário da Prefeitura

A cidade, diferente de suas coirmãs, Remanso, Sento Sé e Casa Nova, também relocadas, ainda mantém dezenas de casas com o mesmo aspecto, tamanho e pintura descascada das casas construídas pela CHESF e doadas a quem era morador da Pilão Velha.

Quinta feira seis horas da manhã Mercado Municipal de Pilão Arcado

E esse é outro aspecto interessante: Todas as outras cidades relocadas estão submersas e só aparecem quando o lago fica bem abaixo de seu nível normal. Pilão Velha não. Está lá. Casas e a igreja desafiantes, rodeadas pela caatinga, exalando dor e saudade. Há quem diga, destes velhos que de lá nunca arredaram pé, que ainda hoje se ouve cânticos em dia do padroeiro e choros perto do cemitério antigo.

Na Pilão de hoje a realidade também comporta choro, revolta e reclamação. Foi a água, ainda esta semana, cor, gosto e cheiro de lama nas torneiras. Deixou de escorrer e voltou a faltar. Nesta manhã de quinta-feira (23/01/2020), seis horas, depois sete horas e até as 10 horas da manhã, sem chuva, o Mercado Municipal vazio.

Dois funcionários conversam no portão principal, poucos comerciantes ainda resistem até as 10 horas. Nenhum, nenhum comprador em toda extensão do mercado. Perguntamos a razão e para espanto, a chuva é apontada como o motivo da ausência de compradores e de vendedores.

“Nenhuma estrada foi patrolada, nenhuma estrada vicinal, que liga as comunidades mais próximas que fornecem verduras, peixe e legumes, está em condições de tráfego. Nem tem como vir à cidade” – explica um dos funcionários e logo após se arrepende e quer a nossa identificação e não se identifica.

Na prefeitura, onde tentamos uma informação com alguém responsável por obras ou urbanismo não há ninguém além das recepcionistas e copeiras: “Não, não podemos fornecer o telefone do secretário. O prefeito? Está em campanha no interior”.

Se vender e comprar depender de patrolamento das estradas vicinais e ruas dos bairros periféricos, o mercado vai continuar às moscas.

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