Polícia descobriu esconderijo de Zé de Lessa 24 horas após tentativa de roubo

Mário Bittencourt
Chácara onde Zé de Lessa foi morto (Divulgação)

Quadrilha queria explodir carro-forte no Mato Grosso do Sul

Centenas de homicídios e tentativas do mesmo crime, extorsão mediante sequestro, roubos a bancos, carros-fortes e transportadora de valores, tráficos de drogas, armas e munições, associação ao tráfico, falsidade ideológica e corrupção de menores.

Por esses crimes e pela violência que empregava à frente da facção Bonde do Maluco (BDM), cuja base é em Salvador e Região Metropolitana, com ramificações no interior do estado, que o baiano José Francisco Lumes, o Zé de Lessa, era considerado pelas autoridades públicas como o maior criminoso em atuação na Bahia.

Nascido em Carfanaum, cidade do centro-norte do estado, ele foi morto pela Polícia Militar na manhã desta quarta-feira, 04, junto com mais quatro comparsas, numa área rural do estado do Mato Grosso do Sul, após ter seu esconderijo descoberto pelos policiais.

Há um ano que Zé de Lessa estava numa chácara numa área de fronteira com o Paraguai muito frequentada por traficantes, entre as cidades de Aral Moreira e Coronel Sapucaia, no sul do Mato Grosso do Sul.

Os policiais chegaram até o local após Zé de Lessa e seu bando tentarem explodir um carro-forte da empresa Brink’s na manhã de segunda-feira, 02.

O crime foi realizado na rodovia MS-156, entre as cidades de Caarapó e Amambai, mas os bandidos fugiram sem levar nada porque os explosivos não foram capazes de abrir a porta do veículo blindado. A polícia suspeita que tenha havido alguma falha durante a explosão.

De acordo com a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, Zé de Lessa e seu bando, em 2017, já tinham cometido o mesmo crime e contra a mesma empresa. Não foi informado se naquela ocasião alguma quantia foi levada.

Desta vez, não demorou nem 24 horas para o esconderijo de Zé de Lessa ser localizado pela polícia, que desde terça-feira, 03, já observava o local, aguardando o momento certo para entrar na chácara.

A propriedade rural pertencente a Alcindo Oliveira Coinete, funcionário público da Prefeitura de Coronel Sapucaia e que foi preso. Segundo a polícia, ele dava suporte logístico ao bando de Zé de Lessa e tem participação direta na tentativa de explosão ao carro-forte da Brink’, na segunda.

Muitos tiros

Com mandados de busca e apreensão, a polícia invadiu a chácara nas primeiras horas da manhã e, segundo relata o delegado Fábio Peró, titular da Delegacia de Repressão a Roubo a Banco, Assaltos e Sequestros (Garras), eles foram recebidos a tiros.

“Foi muito tiro trocado”, ele disse. “Vieram tiros tanto dos criminosos que estavam na chácara quanto de traficantes do Paraguai, pois lá é divisa com o Brasil, muitos foragidos da Justiça ficam naquela região e também nos atacaram”.

A chácara tem estrutura simples, com paredes de bloco sem reboco, telhados de zinco na frente, de chão batido ao redor e próximo a ela há mais dois casebres de madeira. Dentro dela havia poucos móveis, todos simples, sem luxo algum.

Após a troca de tiros, Zé de Lessa foi encontrado com duas escopetas calibre 12 e uma pistola 9 mm perto dele. Os outros bandidos não foram identificados.

Na casa morava também uma índia cujo nome a polícia não informou. Ela era mulher de Zé de Lessa e disse em depoimento que eles estavam na chácara há mais de um ano. A mulher, basicamente, era responsável por fazer a comida dos bandidos e cuidar da casa. Ela foi liberada após prestar depoimento.

Durante a troca de tiros, um bandido conseguiu fugir pelo matagal, mas acabou sendo localizado pelo Grupo de Patrulhamento Aéreo da Secretaria de Segurança Pública do Mato Grosso do Sul.

O bandido, também não identificado, estava com fuzis e uma metralhadora ponto 50, que, segundo a polícia, tem capacidade de perfurar carros-fortes e helicópteros. Segundo o delegado Fábio Peró, o criminoso foi perseguido tanto por via aérea quando por equipes que estavam em terra. “Quando nos aproximamos, fomos recebidos à bala e ele atirou inclusive no helicóptero”, disse.

Próximo ao local onde o bandido estava, a polícia encontrou diversas armas de grosso calibre, como dois fuzis 556, um fuzil AK46 calibre 762, duas escopetas calibre 12 e uma pistola 9 milímetros, além de farta munição para essas armas e coletes a prova de bala. O bandido morreu no local. O armamento, segundo a polícia, foi usado na ação criminosa de segunda-feira passada contra o carro-forte da Brink’s.

Repercussão

O secretário de Segurança Pública da Bahia, Maurício Barbosa, ao comentar a morte de Zé de Lessa, deu um “graças a Deus” pelo fato de a polícia do Mato Grosso do Sul ter tirado o bandido de circulação.

“Estávamos há alguns anos trocando informações com a Polícia Federal e inclusive com a Polícia do Paraguai. Sabíamos que ele estava lá, trazendo droga para abastecer o BDM aqui no nosso estado e por algumas oportunidades nós tivemos quase próximos de pegá-lo”, declarou.

“Graças a Deus, a polícia do Mato Grosso do Sul nessa ação conseguiu tirar ele de circulação”, celebrou Barbosa, em áudio enviado ao CORREIO. O secretário está na Aústria, onde participa de viagem institucional para compra de novos armamentos.

Ele disse ainda que é um “alívio” saber da morte e que agora a polícia baiana vai verificar se há informações sobre a passagem de Zé da Lessa no MS que indique alguma nova criminalidade na Bahia.

“Para nós, é um alívio e agora é trabalhar em cima das informações que eles detém lá. Já pedimos para a inteligência [da SSP-BA]  averiguar o que tinha com ele, quem estava andando com ele para ver se tem a informação de prática de outros crimes aqui no estado”, declarou.

Roubo de R$ 100 milhões

Um dos maiores roubos a banco do Brasil foi comandado por Zé de Lessa. O crime ocorreu no dia 25 de novembro de 2018, em Bacaba, no Maranhão. Um grupo de 30 a 35 bandidos levou R$ 100 milhões do Banco do Brasil.

Na ação criminosa, morreram três bandidos, um deles Edielson Francisco Lumes, irmão de Zé de Lessa, atingido após sair de um veículo blindado e trocar tiros com a polícia.

Edielson, segundo a polícia, tinha a função de subchefe do grupo e repassava as ordens de Zé de Lessa à quadrilha.

Zé de Lessa era o Ás de ouro do Baralho do Crime da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, um arquivo que reúne os principais criminosos do estado. Ele começou na vida do crime fazendo assalto a instituições financeiras.

Foi preso algumas vezes e a última vez que saiu da prisão, em 2014, foi para terminar de cumprir a pena no regime domiciliar. De Coronel Sapucaia, enviava carregamentos de drogas para abastecer sua quadrilha na Bahia.

Ele criou o BDM dentro da cadeia e logo sua facção passou a ganhar destaque. Tornou-se o principal rival da facção Katiara, comandada por Roceirinho, e passou a disputar pontos de droga com o rival. Ele tem entre seus principias comparsas alguns parentes.

Ninguém sabe, ao certo, quando José Francisco Lumes virou Zé de Lessa. A alcunha, para o delegado Fábio Marques, da Polícia Federal, em entrevista ao CORREIO em dezembro do ano passado, pode estar ligada a um possível apelido do pai de Zé de Lessa – Idalécio, o genitor, seria o Lessa.

“Geralmente, o apelido é relacionado ao pai, principalmente com o pessoal do interior”, declarou o delegado, que investiga o BDM. Um exemplo desse tipo de apelido, segundo ele, é o de Paulo de Magnólia, alcunha de Paulo Pereira Amorim, preso em 2015 e acusado de assalto a banco em quatro estados.

Em 2015, o delegado Jorge Figueiredo chegou a dizer que ele era o maior assaltante de bancos e carros-fortes da Bahia.

Mas seus cinco processos encontrados pelo CORREIO no Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), todavia, são relacionados ao tráfico de drogas. Nos processos, a quadrilha comandada por ele é descrita como de “extrema periculosidade”.

Por tráfico, Zé de Lessa foi preso provisoriamente em 28 de março de 2001, na Penitenciária Lemos de Brito (PLB). Em janeiro de 2002, foi condenado a cinco anos de prisão pela 1ª Vara de Tóxicos.

Em 2005, teve progressão de pena para o regime semiaberto, mas já em fevereiro daquele ano, fugiu da prisão. Meses depois, em outubro, foi preso em flagrante.

Passou pela Unidade Especial Disciplinar (UED) e, mais tarde, pela mesma PLB. Em novembro de 2006, recebeu outra condenação – dessa vez, por porte de arma.

Foram anos de idas e vindas entre as unidades prisionais da Região Metropolitana (RMS), com notícia de faltas disciplinares enquanto estava na UED. Em 2013 e em 2014, de acordo com o Ministério Público do Estado (MP-BA), foram encontrados, no presídio, materiais ilícitos atribuídos a ele: eram dispositivos de comunicação, como chips e telefones celulares.

Naquele mesmo ano de 2014, Zé de Lessa sofreu uma tentativa de homicídio na prisão. “Ele sofreu várias pauladas. Vários presos tentaram matá-lo lá dentro, exatamente porque tinha essa questão de liderança dele, pela representatividade”, lembrou ao CORREIO, em 2018, o promotor Pedro Araújo Castro, titular da 2ª Vara de Execuções Penais desde 2013.

É justamente em 2014 que ocorre o episódio mais controverso da trajetória de Zé de Lessa com a Justiça: em 15 de julho daquele ano, o desembargador Aliomar Silva Britto autorizou que ele tivesse prisão convertida em prisão domiciliar.

Na decisão, o desembargador cita que a defesa do então detento explica que Zé de Lessa estava com “uma doença degenerativa, necessitando urgentemente de realizar uma cirurgia, sob pena do seu membro superior esquerdo, o qual se encontra atrofiado, ficar com degradação irreversível”.

Pelo estado de saúde dele, o advogado Paulo César Pires alegou que havia necessidade de tratamento urgente para solução da enfermidade.

Com base em princípios como da dignidade humana, o desembargador afirma que o requerimento para realizar uma cirurgia vem sido feito “há muito tempo” e não havia nenhuma solução até o momento.

Ele conclui que o presídio não tinha as condições necessárias para prestar assistência ao estado de Zé de Lessa e que não seria “de bom alvitre” que um paciente com quadro de saúde grave ficasse a mercê da própria sorte.

Mesmo tendo decidido em favor da defesa, o desembargador avisa que não se deve “descuidar do alto grau de periculosidade” do preso. Zé de Lessa saiu e não voltou mais.

Questionado se notou algum problema numa das mãos de Zé de Lessa, o delegado Fábio Peró, que comandou a ação que culminou na more do criminoso, disse não ter notado nada de anormal. E ao que parece, Zé de Lessa atirava com as duas mãos.

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