Por delação, Lava Jato teria ‘poupado’ donos da Odebrecht

Foto: Cicero Rodrigues/ World Economic Forum
Foto: Cicero Rodrigues/ World Economic Forum

Procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato teriam desistido de medidas como obrigar os donos da Odebrecht a vender suas ações na empreiteira ou impedir que eles se responsabilizassem pelas multas impostas aos executivos da empresa.

A informação foi publicada pela Folha de S. Paulo neste domingo (22), com base nas mensagens obtidas pelo The Intercept Brasil.

O objetivo, segundo o jornal, teria sido de viabilizar os acordos de colaboração premiada, que ficaram conhecidos como “delação do fim do mundo“.

Os termos foram os maiores firmados no âmbito da Lava Jato, com 77 executivos e a Odebrecht, que aceitou pagar multa R$ 3,8 bilhões para que pudesse voltar a negociar com o setor público. Segundo a Folha, inicialmente, Deltan Dallagnol sugeriu aos negociadores que pedissem R$ 12 bilhões, enquanto a empresa informou que não poderia pagar mais do que R$ 3,3 bilhões.

Multas

Um dos pontos que geraram críticas dos procuradores foi a decisão da empresa de pagar as multas dos executivos que assinaram o acordo, valor que, ao todo, chegou a R$ 515 milhões.

“Executivos devem arcar, na minha opinião”, disse Deltan Dallagnol a outros procuradores, segundo a Folha.

Outros discordaram da medida. “Alerto: a ode não deve quebrar. Se quebrar, vamos nos deslegitimar”, disse Marcelo Miller, de acordo com o jornal.

O procurador Antônio Carlos Welter teria defendido que “ninguém quer quebrar a Ode. Mas a pena tem que ser adequada e proporcional”. “Tá com peninha do MO, leva para casa”, afirmou, em referência a Marcelo Odebrecht, apontou a Folha.

Em resposta ao jornal, a força-tarefa negou interferência e afirmou que “a decisão ocorre entre empresa e executivos, em discussão interna”.

Família Odebrecht

Marcelo ficou preso em Curitiba (PR) por dois anos, antes da delação. Hoje, está em prisão domiciliar.

Segundo o jornal, o pai dele, Emílio Odebrecht, hesitou em se tornar um delator na Lava Jato. Após o acordo, ele conseguiu ficar à frente do conselho de administração da empreiteira, deixando a presidência no ano passado.

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De acordo com a Folha, foi cogitado também exigir a venda das ações, ideia que foi descartada na delação. “Vamos tentar alavancar falando de perda das ações das famílias que são donas (ideia do CF)”, teria dito Deltan Dallagnol em um grupo no Telegram. “CF” é uma referência ao procurador Carlos Fernando dos Santos Lima.

As mensagens teriam apontado que, antes da delação, os investigadores já sabiam da existência do Setor de Operações Estruturadas e tinham recebido da Suíça informações sobre contas no exterior.

A Folha afirmou que havia legalizado ativos avaliados em R$ 280 milhões. Porém, no início das negociações, ele teria se disponibilizado a devolver uma fração disso, US$ 300 mil. “Perdeu totalmente o senso do ridículo!!!”, diz uma mensagem atribuída à procuradora Laura Tessler.

Desde junho, o The Intercept e a Folha de S. Paulo vêm publicando o conteúdo de mensagens vazadas atribuídas a procuradores da Lava Jato e ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, quando era juiz à frente da 13ª Vara Federal de Curitiba, responsável por julgar os casos da operação.

 

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