Quaest mostra que Lula deve vencer mas está, perigosamente, perdendo apoios em sua própria base

‘O Auxílio Brasil pode aumentar o número dos brasileiros sensibilizados pela medida – ainda que sabidamente eleitoreira’, analisa o colunista Ricardo Bruno

www.brasil247.com - Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Ricardo Stuckert | ABr)
 

Por Ricardo Bruno

A julgar pelas pesquisas e pelo desejo incontrastável da maioria dos brasileiros, especialmente os democratas, os pobres, os pretos, os nordestinos e as mulheres, Lula deverá vencer as próximas eleições. É majoritário o desejo de se colocar fim ao desastre da gestão de Jair Bolsonaro. Por consciência democrática e ou pela simples constatação fática dos efeitos perversos da atual crise governamental, há forte convicção de que a volta do ex-presidente é benfazeja ao país.

A dois meses do pleito, entretanto, não se deve menosprezar sinais relevantes detectados pelas pesquisas eleitorais, como a divulgada nesta quarta-feira pela Quaest. Mais do que os números totais, que reiteram a consistente vantagem do líder petista, o levantamento revela aspectos inquietantes da movimentação subterrânea da preferência do eleitorado nacional.

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Há tendências e oscilações que mostram nitidamente dois fenômenos eleitorais preocupantes: Lula perde apoio entre jovens e pobres, dois contingentes em que a supremacia petista tem sido determinante para a alavancagem da candidatura presidencial. Em sentido contrário, Bolsonaro avança nos grupos que configuram a essência de sua base: os mais bem remunerados e os evangélicos.

Em resumo, Lula perde sustentação em sua base e, em oposto, Bolsonaro ganha ainda mais consistência entre os que, de modo geral, já lhe eram favoráveis.

Neste momento, os números ainda não são expressivos, mas podem estar a revelar uma tendência extremamente preocupante. Entre os que ganham até dois salários mínimos, grupo que representa 45% do eleitorado, Lula perdeu 3 pontos no último mês (de 55% para 52%), enquanto Bolsonaro subiu 3 (de 22% para 25%).

Entre os jovens, uma das principais fortalezas do PT, o ex-presidente despencou de 53% para 44%, uma queda abrupta e inquietante, a despeito do declarado apoio da estrela de maior grandeza do universo pop brasileiro, Anitta. Em sentido contrário, Bolsonaro avançou seis posições (de 25% a 31%).

Bolsonaro se robustece onde já era majoritário; fortifica o alicerce da candidatura a partir da consolidação de sua própria base. Entre os que ganham acima de 5 salários mínimos – topo da pirâmide amostral – escala 7 pontos percentuais (de 38% para 45%) ao passo que Lula perde dois (de 34% para 32%). Entre os mais ricos, portanto, a vitória de Bolsonaro se alargou, passando de 4% para 13% a vantagem sobre Lula.

Também entre os evangélicos, outro pilar de sustentação do bolsonarismo, o atual presidente cresceu, passando de 45% para 48%. Lula, que já experimentava restrições neste eleitorado, desceu de 31% para 29%. Hoje, a diferença pró-Bolsonaro no meio evangélico chega a 19%. Era 14%. No universo  católico, reduto majoritariamente simpático ao candidato do PT, a situação é absolutamente estável: 51% a 27% a favor de Lula – rigorosamente igual ao mês passado.

Há outros sinais a indicar o avanço de Bolsonaro sobre a base de Lula, decorrência imediata do pacote de bondades da PEC emergencial. É enganosa a conclusão de que seria tranquilizadora a constatação de que 76% dos beneficiários do Auxílio Brasil não se mostram dispostos a votar em Bolsonaro após o aumento do benefício de R$ 400 para R$ 600.  Os 24% que se dizem inclinados a votar no atual presidente por conta do acréscimo já são suficientes para influenciar o resultado e, provavelmente, impedir a vitória no primeiro turno.

Vão receber o benefício 19 milhões de famílias, algo próximo a 66 milhões de brasileiros. Ainda que que nem todos seja eleitores, é significativo e impactante o contingente votante: aproximadamente 45 milhões de pessoas.

Neste universo, segundo a Quaest, Lula experimentou uma queda expressiva. Sua intenção de voto desceu de 62% para 52% entre os recebedores do auxílio. E isto ocorreu exclusivamente pelo efeito psicológico do aumento. A grana chega, de fato, ao bolso dos brasileiros a partir do dia 9. É de se esperar que a concretude do pagamento faça aumentar o número dos brasileiros que se sentirão sensibilizados pela medida – ainda que sabidamente eleitoreira.

A troca de posição desses estratos do eleitorado, mais sensíveis às benesses concedidas pelo atual presidente, mostra-se lenta e possivelmente não será suficiente para alterar o quadro geral, a dois meses das eleições. Contudo, merece atenção. A dinâmica da campanha, a dialética discursiva do marketing eleitoral e a abordagem assertiva dos temas em debate poderão ajudar a desnudar os objetivos rasos e eleitoreiros de Bolsonaro. A conferir.

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