Rio tem 35.712 crianças e adolescentes na fila do Sisreg; 1.945 são casos de emergência

Davy Lukas e a mãe, Bruna Grassano: menino precisa de cirurgia de adenoide
Davy Lukas e a mãe, Bruna Grassano: menino precisa de cirurgia de adenoide Foto: Fábio Guimarães
Flávia Junqueira

Há dois anos, Pablo Davi, de 9, espera por uma consulta com neurologista. Guilherme, de 16 anos, aguarda há um ano e dez meses para operar fimose. E Davy Lukas, de 5 anos, está na fila desde junho à espera de uma cirurgia para retirar adenoide e, enfim, poder respirar e brincar normalmente, mas a luta da mãe dele para conseguir essa inscrição já se arrasta há dois anos. São apenas três das 35.712 crianças que ganharam códigos e viraram uma linha na tabela dos pacientes “pendentes” do Sistema de Regulação da Secretaria municipal de Saúde (Sisreg). Uma tabela cada vez mais extensa. Só a fila de espera para consultas em cirurgia pediátrica mais que triplicou nos últimos três anos.

Em janeiro de 2017, 2.455 crianças e adolescentes esperavam por consulta em cirurgia pediátrica. Atualmente, são 8.606. Já a fila para consulta em oftalmologia pediátrica tinha 3.886 crianças, em 2017. Hoje, são 6.513.

Números da fila de espera
Números da fila de espera Foto: Editoria de Arte

 

O cenário é ainda mais dramático quando se constata que 1.945 menores de idade que estão hoje na fila são pacientes com classificação de risco vermelho. São casos de emergência, que necessitam de atendimento imediato. No entanto, 417 estão inscritos no Sisreg há mais de um ano.

— Assim como acontece com um adulto, um paciente pediátrico com classificação de risco vermelho não pode esperar. A diferença é que, a longo prazo, há uma perda também para a sociedade. Essas crianças vão crescer sem saúde, muitas vezes com doenças crônicas, que podem deixar sequelas. Individualmente, é terrível para a criança e sua família. Em termos de sociedade, teremos uma leva de adultos com deficiências, onerando ainda mais o SUS — diz Katia Telles Nogueira, presidente da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio.

Segundo ela, a ausência de pediatras nas clínicas da família ou mesmo nas equipes dos núcleos de apoio aos médicos generalistas, os chamados NASFs, são uma falha na cadeia de atendimento a crianças e adolescentes no SUS:

— Se ao menos houvesse pediatra para apoiar as equipes de saúde da família, muitos casos já seriam resolvidos sem necessidade de encaminhamento para especialistas. Muitas vezes, esse referenciamento acontece por insegurança da equipe.

Com a espera, crianças viram adolescentes

Entre os 35.712 menores de 17 anos que aguardam da fila do Sisreg, 11.295 esperam há mais de um ano por consulta em especialidades médicas, odontológicas, fisioterápicas, fonoaudiológicas, em reabilitação, em saúde mental, bem como exames de imagem, endoscopias e biópsias. Marcações para cirurgia cardíaca, neurocirurgia, ortopedia e oncologia são feitas por outros sistemas de regulação.

A demora faz com que muitos entrem na fila durante a infância e só sejam atendidos já na adolescência. Guilherme Duarte precisa de cirurgia de fimose e foi inserido pela primeira vez no Sisreg em janeiro do ano passado, aos 14 anos. A classificação de risco era azul, a mais baixa. O pedido foi negado duas vezes e agora, aos 16 anos, está na escala mais alta de risco, a vermelha.

— Meu filho tem dificuldade para urinar e há toda uma situação que vem causando grave transtorno emocional. Primeiro, cadastraram errado no Sisreg. Agora, ele está na fila de consulta em cirurgia pediátrica. Depois, ainda tem a fila para cirurgia. Essa demora é um absurdo — diz Danielle dos Santos, de 41 anos.

Segundo Kátia Telles Nogueira, grande parte da fila é formada por adolescentes.

— Algumas especialidades pediátricas vão até 15 anos, e os critérios de agendamento excluem o adolescente em quase todas as especialidades médicas. O burocrata do Sisreg, que não é médico, não tem para onde mandar o adolescente.

Para o Cremerj, há déficit de especialistas

O crescimento da fila para especialidades pediátricas é um reflexo da redução no quadro de especialistas na rede pública, segundo Rafaella Leal, responsável pela Câmara Técnica de Pediatria do Cremerj:

— Nos últimos anos, as políticas públicas incentivaram a formação de generalistas. Nossos especialistas estão se aposentando e não há concursos nos hospitais universitários e federais, que eram os maiores centros de especialidades.

Essa carência tira o sono de Davy Lukas, de 5 anos, e sua mãe, Bruna Grassano, de 32, todos os dias. Há dois anos, o médico recomendou que o menino retirasse a adenoide, tecido que fica atrás das cavidades nasais e cresceu mais que o normal, dificultando a respiração.

— Davy vive à base de remédio no nariz e nebulização. Não pode correr porque se cansa e tem falta de ar. Ele reclama e diz que está sufocado. Qualquer resfriado complica, e ele se engasga com facilidade — conta Bruna. — Recebi encaminhamento para o Hospital Nossa Senhora do Loreto, mas até hoje, nada.

Davy está na posição 734 na fila para otorrinolaringologia cirúrgica pediátrica, com tempo de espera estimado para atendimento de 388 dias, mais de um ano, de acordo com o site do Sisreg.

— É vergonhoso — resume Bruna.

A luta da mãe de Pablo Davi Ramos, de 9 anos, por atendimento em neurologia para o filho também vai completar dois anos. Ele já recebeu três encaminhamentos, mas só em maio foi inserido no Sisreg.

— Ele é hiperativo e, quando fica agitado, se agride. A escola me chamou para pedir que investigue também autismo. Como? Precisamos dessa consulta — diz Tatiana Camila Ramos, de 33 anos, que há seis anos se mudou de Queimados para a Pavuna. — Em Queimados, ele recebia atendimento, mas acabaram cancelando a matrícula dele lá porque nos mudamos para o Rio.

Ao ser consultada, a Secretaria municipal de Saúde (SMS) informou que Pablo está agendado para ser atendido pelo neurologista no dia 2 de janeiro. Sobre Guilherme, afirmou que a cirurgia será marcada até o fim do ano. A direção do Hospital Nossa Senhora do Loreto informou que vai avaliar a queixa da mãe de Davy Lukas.

A SMS afirma que 429 mil pessoas aguardam atendimento na fila geral do Sisreg e 67% das solicitações foram inseridas no sistema este anos, indicando que a fila é nova.

A SMS, que publicou em janeiro de 2017, no Diário Oficial, que a fila geral do Sisreg tinha 134 mil solicitações, alega que outras 536 mil haviam sido devolvidas pela gestão anterior às unidades solicitantes, com pedidos de confirmação. Dessa forma, segundo a secretaria, o número real de pessoas aguardando atendimento naquele momento era de 670 mil.

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