Salman Rushdie: “Vivemos na cultura da ignorância agressiva”

‘The Golden House’, o novo romance do autor de ‘Os Versos Satânicos’, é uma história de imigrantes indianos nos EUA governados por um extravagante magnata imobiliário

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O romancista anglo-indiano Salman Rushdie. ERIC GARAULT GETTY IMAGES

Salman Rushdie (Bombaim, 1947) viu um dia como um senhor de franja laranja entrava com maus modos em seu novo romance. The Golden House (ainda sem edição em português) estava centrado na vida de uma opulente família da Índia que chega a Nova York escapando de um destino fatal. Em tom de tragédia grega, a história para a qual o escritor havia pausadamente pesquisado escondia lúcidas metáforas sobre a inversão de valores e a natureza do mal. Mas a realidade foi mais rápida, acompanhava bem demais o retrato alegórico da decadência moral, e o autor de Os Filhos da Meia Noite se viu obrigado a reagir como se fosse uma agência de notícias, dando lugar a um magnata imobiliário chamado Joker, que chega à Casa Branca com seu topete verde dólar. Rushdie se aborrece quando vê que as perguntas sobre Donald Trump acabam dominando a divulgação de sua aclamada obra. Mas se rende quando, até nas perguntas que não são sobre ele, suas repostas passam inevitavelmente pelo mesmo lugar.

 

PERGUNTA. Realismo com um toque de quadrinhos?

RESPOSTA. A realidade das pessoas comuns, a dos personagens do livro, é complicada e tridimensional. Mas quando chegamos às esferas do poder, tudo se transformou em uma caricatura. Somos governados pelo grotesco. Em um momento, um dos personagens diz que os quadrinhos da [editora] DC estão tomando Washington DC.

P. Um quadrinho velho ou novo?

R. O que é novo é essa decadência de uma ideia compartilhada da realidade. Uma sociedade forte se apoia em um acordo entre as pessoas sobre qual é a natureza da sociedade, e nos EUA sabíamos o que era ser norte-americano. Quando esse consenso começa a se perder ocorre uma fragmentação perigosa. E não só por Trump. De fato, o Joker é um personagem secundário porque é mais uma consequência do que um artífice do mundo de hoje.

Salman Rushdie: “Vivemos na cultura da ignorância agressiva”

P. Em seu romance, um personagem diz que a verdade é algo do século XX. Que papel resta à ficção?

R. São tempos de uma cultura da ignorância agressiva [risos]. Na Internet coexistem no mesmo nível de autoridade as verdades e as mentiras. Ali há um trabalho para os romancistas, porque o que a arte pode fazer é recriar esse sentimento do real. A reconstrução desse acordo sobre a natureza do real é agora, paradoxalmente, uma tarefa da ficção.

P. Mas tudo o que significa poder passa pelo abuso. Isso não acontece também na indústria do cinema, que tanta importância tem no romance, com casos como o de Harvey Weinstein?

R. Agora a máscara está caindo. Veja esse destacado grupo de homens poderosos que foram predadores sexuais durante décadas nas quais conseguiram controlar a história. Mas agora existe uma fenda na represa. Em Hollywood todo mundo agora corre como frangos sem cabeças.

P. Dizem que seu livro explica como chegamos até aqui. Como Hillary Clinton em seu livro, o senhor se pergunta What Happened (O que Aconteceu, livro da ex-candidata)? Chegou a lê-lo?

R. Não. Todos sabemos o que aconteceu, não preciso ler um livro para isso.

P. Mas, por outro lado, cita dezenas de volumes para entender o mundo de hoje. A Época da Inocência, por exemplo.

“Falei com gente que votou em Trump e que nada tem em comum com esse clichê da classe operária ignorante branca. Nem todos são racistas e ignorantes”

R. Sim, um dos pontos essenciais do mundo de Edith Wharton é que as forças conservadoras são imensamente poderosas. O ato de rebelião contra elas é muito, muito difícil e pode ser derrotado por alguém que sabe como manejar o sistema.

P. Mas outra de suas referências, G.K. Chesterton, buscou um modelo alternativo ao capitalismo e ao comunismo. Também nos cabe procurar uma identidade política nova?

R. O que é preciso fazer é deixar para trás velhas batalhas. É necessário ocorrer uma mudança geracional real. Também uma mudança geracional mental. No Canadá e na França está chegando uma nova geração. Eu tenho 70 anos; Trump,72; Hillary Clinton, 70, e Bernie Sanders, 147 anos [risos]. Já deu.

P. Com Obama, a mudança parecia possível.

R. Tivemos oito anos de Obama pela chamada coalizão que ele criava e que Hillary Clinton não pôde reter. Você certamente irá ganhar se puder juntar as minorias, as mulheres, os jovens que votam pela primeira vez e os brancos com formação. Mas a esquerda se dissolveu. O que penso todos os dias sobre essas eleições é que 90 milhões de pessoas não votaram em um país de 300 milhões.

P. Mas e os milhões de pessoas que votaram em Trump respondem ao arquétipo de ignorantes e racistas?

R. Falei com gente que votou em Trump e que nada tem em comum com esse clichê da classe operária ignorante branca. Nem todos são racistas e ignorantes. Mas nos Estados mais industriais ocorreu um ódio à política por tê-los ignorado. Surgiu então esse tipo que disse que dinamitaria o estabelecido e disseram: “Sim, por favor”. Por isso sua base continua sendo fiel, porque ele está fazendo o que prometeu: destruir tudo.

P. Seu poder divinatório no livro, para além de Trump, chega a assustar. Acerta até o atentado no Halloween em Nova York que ocorreu nessa mesma semana. Como pode ser?

R. No romance também acontece um tiroteio no desfile de Halloween, sim, mas não é um islamista louco, é uma pessoa com uma pistola. Não podemos nos esquecer que as coisas mais loucas que acontecem nesse país são feitas por homens brancos com armas nas mãos.

P. Suponho que o senhor recebeu ligações quando aconteceu o ataque, como tantas vezes, por seu conhecimento das complexidades do islamismo.

R. Não quero ser o Senhor Atentado Terrorista. Não tenho nada especial a dizer… O Estado Islâmico está prestes a ser derrotado militarmente e isso provavelmente significa que coisas como essas (lobos solitários) proliferarão. Mas não sei se durarão muito tempo, porque o EI já não pode oferecer apoio.

P. Se precisamos conviver com o horror e a morte, o que o senhor pode nos ensinar, que após a publicação em 1989 de Os Versos Satânicos foi perseguido por Khomeini?

R. É preciso fazer as pazes com o fato de que ninguém sairá daqui com vida. Mas realmente acredito que precisamos ser a cultura que somos. Temos que manter a confiança em nosso modelo e lutar contra isso. É a batalha de nosso tempo.

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