Times nordestinos dão exemplo de gestão e já peitam clubes mais ricos do país

A “Lampions League” apresenta audiências regionais de dar inveja a paulistas e cariocas e é, de longe, o regional mais bem-sucedido do futebol brasileiro — lembrando que iniciativas como a Primeira Liga, com clubes do Rio de Janeiro, Minas Gerais e da região sul, naufragou.

Por Marcello de Vico, do UOL 

Bahia, Ceará e Fortaleza têm em comum, além de serem três dos quatro clubes nordestinos da Série A do Brasileirão de 2020, três elementos consistentes em suas gestões: profissionalismo, transparência e o compromisso com os pagamentos em dia. Fossem empresas, não seria mais do que o esperado. Mas no cenário capenga do futebol brasileiro, combinar esses fatores é uma façanha que transforma o trio em algo raro.

Em campo, um grande título ainda não veio e a missão principal ainda é manter-se na Série A, mas o caminho parece adequado para que, a médio ou longo prazo, o cenário mude. Bahia e Fortaleza já mostraram que é possível. No ano passado, os baianos flertaram com a classificação à Libertadores —mas acabaram em 11º após uma reta final de competição complicada. Já o Fortaleza terminou em nono lugar, a uma posição (e apenas três pontos) da vaga na principal competição continental.

Some essa consistência à Copa do Nordeste. O torneio cuja decisão de 2020 começa neste sábado, opondo Bahia e Ceará, também ajuda a impulsionar o trio. Assim como vai crescendo junto com eles. A “Lampions League” apresenta audiências regionais de dar inveja a paulistas e cariocas e é, de longe, o regional mais bem-sucedido do futebol brasileiro — lembrando que iniciativas como a Primeira Liga, com clubes do Rio de Janeiro, Minas Gerais e da região sul, naufragou.

A revolução começou pelo Bahia, que renegociou dívidas, aumentou sua transparência e democracia para mudar de rumo.

Rodrigo Mattos: receita do sucesso é controle de dívidas

Longe do eixo Rio-SP, os clubes do Nordeste como Bahia, Ceará e Fortaleza se aproximaram de alguns times do centro financeiro do país graças a gestões mais responsáveis e acertadas. As dívidas baixas e o crescimento de receitas paulatino têm permitido a montagem de elencos competitivos para a Série A, ainda que afastados da disputa título.

A revolução começou pelo Bahia, que renegociou dívidas, aumentou sua transparência e democracia para mudar de rumo. Atualmente, o salto foi nas receitas, que atingiram R$ 176 milhões em 2019 com iniciativas como sócio-torcedor e camisa própria. Esse é um patamar que deixa o clube próximo de equipes como Botafogo, Fluminense e Vasco. Com um detalhe: a dívida está na casa dos R$ 170 milhões e pesa menos do que a do trio carioca — todos superam os R$ 600 milhões. Como consequência, o time é um porto atrativo para atletas — o que pode obrigar o Bahia, inclusive, a ficar de olho em custos crescentes.

Na sequência, o Fortaleza segue caminho parecido: o clube já atingiu R$ 120 milhões de receita com a ascensão à Série A bem aproveitada com projetos de sócio-torcedor e aumento de bilheteria. A renda mais do que dobrou e a dívida, de R$ 37 milhões, não pesa. Tudo isso dá espaço para investimentos no time.

O modelo é parecido com o do Ceará, com receita de R$ 98 milhões em 2019. Os custos ficaram em R$ 86 milhões, o que só é possível por conta da dívida bem baixa, de R$ 16 milhões.

O que esses clubes demonstram é que tão importante quanto ter dinheiro é ter esses recursos disponíveis para o clube após controlar a própria dívida.

Roger Machado, do Bahia, recusou proposta do Internacional em outubro do ano passado.

Fincando bandeiras no mercado da bola

O “novo patamar” ajuda Bahia, Ceará e Fortaleza a fazer algo que nunca foi muito fácil para eles: manter um elenco sólido a cada temporada. Se no passado os nordestinos trocavam de elenco duas vezes por ano, sem força para manter quem era assediado pelo mercado da bola, agora é recorrente ver jogadores e técnicos de renome preterirem centros como Rio de Janeiro, Sul e Minas Gerais para trabalhar no Nordeste.

Roger Machado, do Bahia, recusou proposta do Internacional em outubro do ano passado. Rogério Ceni, do Fortaleza, depois de uma frustrada passagem pelo Cruzeiro, disse não ao Athletico Paranaense, campeão da Copa do Brasil.

Entre jogadores acontece o mesmo. O Bahia contratou Rossi (que disse não para a permanência no Vasco) e Rodriguinho (que tinha propostas de outros clubes do Brasil ao deixar o conturbado Cruzeiro). O Ceará se reforçou com Fernando Prass e Rafael Sóbis, ídolos em seus antigos clubes.

“O Ceará é um clube que está crescendo e fazendo o processo certo para se diferenciar. O presidente [Robinson de Castro] fez o saneamento financeiro primeiro. Tem clubes que querem o contrário, resultados dentro de campo para aí arrumar o financeiro. Só que no Brasil, pelo equilíbrio que tem, tu não pode contar com o resultado dentro de campo. Mas esse é o caminho. Fez uma base financeira, organizacional, para ter capacidade real, não fictícia, de investir no futebol”, diz Prass.

Isso ajuda a imagem dos clubes nordestinos no mercado, segundo o presidente do Fortaleza, Marcelo Paz. “É algo que se adquire com o tempo, por meio de ações, de credibilidade, de ser um clube que paga em dia, que respeita os seus profissionais, que valoriza quem tá na casa, que investe em estrutura, que investe em imagem, em marketing. Qualquer trabalhador, qualquer profissional em qualquer área, quer estar em empresas modernas, empresas sólidas, empresas transparentes, empresas que tenham um trabalho social também”, diz. “O Fortaleza busca ser isso no mercado.”

“Eu, que acompanho o clube de muito tempo, desde 2015, vivi, como dirigente, a Série C, a Série B e a Série A. Às vezes, os jogadores que a gente queria trazer em determinados anos, que não quiseram vir pra cá porque tava na Série C, ou até mesmo na Série B, hoje, gostariam muito de tá aqui, pedem pros seus representantes pra oferecer de novo: ‘Será que eles não me querem?’”, afirma Paz. “Então, isso é uma mostra de como a imagem do clube pra atrair talentos, pra atrair profissionais mudou ao longo desses anos.”

Entre Bahia, Ceará e Fortaleza, é o último quem acaba de sair de um mergulho no abismo do futebol brasileiro. Foram oito anos consecutivos na Série C (2010 a 2017) até os acessos em sequência para as Séries B e A, em 2017 e 18.

Do abismo à elite

Entre Bahia, Ceará e Fortaleza, é o último quem acaba de sair de um mergulho no abismo do futebol brasileiro. Foram oito anos consecutivos na Série C (2010 a 2017) até os acessos em sequência para as Séries B e A, em 2017 e 18.

“Eu acho que alguns pilares foram importantes nessa trajetória de três anos até aqui. O primeiro passo foi profissionalizar o clube. Hoje, os dirigentes são remunerados e contratamos uma empresa pra fazer o planejamento estratégico. A partir daí, a gente traça objetivos pra todos os setores, não só o futebol. E profissionalizar também significa escolher pessoas competentes nas suas áreas de atuação pra dirigir os clubes nas suas diversas diretorias”, diz Marcelo Paz, presidente do Fortaleza.

O Bahia, por sua vez, viveu sua última temporada na Série C em 2007. Desde então, são cinco anos na Série B e, agora, o oitavo na Série A. “A mudança se origina a partir de uma abertura do clube, quando os sócios passam a poder votar, escolher livremente quem vai cuidar do clube, sem filtro no conselho deliberativo, de forma democrática, ampla, sem nenhuma artimanha de estruturação eleitoral. A partir daí, por circunstâncias do sofrimento que a gente já havia tido, a gente tomou a decisão de virar o clube ao contrário”, diz Bellintani.

Já o Ceará está na elite pela terceira temporada consecutiva, algo que ainda não tinha conseguido na era dos pontos corridos. E nada como começar o ano — apesar do atraso pela pandemia do coronavírus — com uma vitória sobre o rival nas semifinais e a briga pelo título da Copa do Nordeste, competição que só conquistou em 2015.

Já o Ceará está na elite pela terceira temporada consecutiva, algo que ainda não tinha conseguido na era dos pontos corridos.

Salários em dia. Um deles, há dez anos

“Compromisso com pagamento é o nosso carro-chefe, a responsabilidade financeira, com superávits consecutivos, patrimônio líquido positivo, menor endividamento da Série A…”, vai elencando o presidente do Ceará, Robinson de Castro. A frase resume muito bem a imagem que hoje os três clubes nordestinos têm em relação ao aspecto financeiro.

O Bahia, por exemplo, não atrasa salários desde 2015. O Fortaleza, desde maio de 2017, enquanto o rival alvinegro —que costuma pagar os vencimentos até com antecedência — está com tudo em dia há mais de dez anos. Os três, aliás, estão entre os clubes com menor grau de endividamento no país, segundo levantamento segundo a Value, empresa especialista em marketing esportivo, braning, patrocínios/ativações, avaliação de marcas e de propriedades esportivas.

O comportamento das agremiações ao longo da pandemia, aliás, reforçou a importância de trabalhar com gestão responsável. Ceará e Fortaleza, ainda em março, lideraram os acertos de novas minutas contratuais com os seus jogadores e treinadores. “Atravessamos bem essa crise. Chegou na gente, mas sobrevivemos. A gente não pode culpar a pandemia por problemas financeiros que aparecem hoje”, diz o presidente do Ceará.

Agora, a recessão causada pela pandemia não deixou de causar estragos. No Fortaleza, Rogério Ceni aceitou o pedido do presidente Marcelo Paz por um atraso de um mês de remuneração, com o objetivo de conseguir manter a folha salarial dos demais funcionários do clube em dia.

Dentro e fora de campo, Rogério Ceni e Roger Machado dialogam em sintonia com a presidência, ao menos na maioria das vezes. Essa relação faz de ambos peças que somam — e muito — para o processo de reestruturação dos clubes.

Ceni e Roger, “chefes do campo”

Dentro e fora de campo, Rogério Ceni e Roger Machado dialogam em sintonia com a presidência, ao menos na maioria das vezes. Essa relação faz de ambos peças que somam — e muito — para o processo de reestruturação dos clubes. Jogadores vitoriosos ainda em busca de uma carreira sólida como técnicos, eles encontram em Fortaleza e Bahia clubes que dão uma oportunidade única de não ser só treinador à beira do campo.

Roger Machado está há mais de um ano no cargo, com um Campeonato Baiano no currículo. Ceni tem um estadual, a Série B de 2018 e a Copa do Nordeste de 2019 e está há quase três anos — não fosse a repentina passagem pelo Cruzeiro no ano passado.

“Eu não me senti em nenhum momento ameaçado. Pela segurança de saber que o trabalho estava sendo avaliado não só pelos resultados, mas por tudo o que envolve o futebol, a qualidade do treino, o nosso envolvimento com o trabalho, o nosso envolvimento com o clube, com a cidade, com o estado, com a torcida”, explicou Roger ao falar sobre a sequência ruim de resultados ao longo do Brasileiro do ano passado — o time chegou a ser sexto colocado, mas acabou em 11º lugar.

O Ceará se movimentou mais no mercado de treinadores, especialmente na temporada passada, enfrentando a ameaça de rebaixamento. Agora, vai crescendo sob o comando de Guto Ferreira, que chegou ao clube em março, para substituir Enderson Moreira.

Na televisão e no streaming, a competição é um sucesso. O clássico entre Ceará x Fortaleza, na última terça (28), bateu recorde de visualizações do torneio no YouTube, atingindo 477 mil telespectadores únicos na live.

A Copa do Nordeste cresce junto

A Copa do Nordeste é mais valorizada pelos clubes da região porque paga bem mais que os Estaduais — alguns mal conseguem gerar arrecadação. O valor total em premiações da competição previsto é de R$ 34,4 milhões, o recorde desde que o torneio voltou a ser disputado regularmente em 2013. A ideia é aumentar esse valor para R$ 40 milhões no ano que vem, mesmo com o impacto gerado pela pandemia. Bahia e Ceará ganham R$ 2,2 milhões pela participação, numa cota fixa, enquanto o Fortaleza embolsa R$ 1,7 milhão.

Na televisão e no streaming, a competição é um sucesso. O clássico entre Ceará x Fortaleza, na última terça (28), bateu recorde de visualizações do torneio no YouTube, atingindo 477 mil telespectadores únicos na live. Já a TV Jangadeiro, afiliada do SBT no Ceará, marcou 28 pontos de média, com picos de 34 na Grande Fortaleza exibindo a partida. No mesmo horário, a Globo mostrava a novela da 9 “Fina Estampa”, com 21 pontos na região. Na TV paga, o Fox Sports atingiu 2,4 pontos de Ibope no PNT, liderando os números gerais da TV paga.

O SBT Nordeste, consórcio de afiliadas da emissora de Silvio Santos na região, paga R$ 5 milhões por ano pelos direitos de TV aberta — por rodada, são dois jogos para a região, com escolhas priorizando Recife, Fortaleza e Salvador. Esse contrato vai até 2022. Já a LiveFC, serviço de streaming que transmite a competição, paga um mínimo de R$ 3 milhões para distribuição aos clubes. O restante depende de assinaturas feitas por torcedores para assistirem aos jogos.

Já o Ceará, outro finalista, tenta faturar o torneio pela segunda vez — a primeira foi recente, em 2015.

A decisão de 2020

Organizada oficialmente pela primeira vez em 1994, a Copa do Nordeste acumulou idas e vindas até 2013, quando retornou de vez ao calendário do futebol brasileiro. Na atual edição, a 17ª, o Bahia, dono de três conquistas, busca o título para igualar o arquirrival Vitória, maior vencedor da competição, com quatro taças. Já o Ceará, outro finalista, tenta faturar o torneio pela segunda vez — a primeira foi recente, em 2015.

Vice-líderes de seus grupos na primeira fase, Bahia e Ceará somam o mesmo número de gols (17) em dez jogos. Já a consistente defesa tricolor leva a melhor em tentos sofridos: apenas seis, contra nove do Alvinegro.

Nos mata-matas, que vem sendo disputados com sede única na Bahia, o Bahia venceu o Botafogo-PB nas quartas e o Confiança na semi. O Ceará bateu Vitória e Fortaleza. Ao contrário das quartas e semifinais, a decisão da Copa do Nordeste será em dois jogos. O primeiro será amanhã (1), às 16h, e o segundo na terça (4), às 21h30 — ambos em Pituaçu.

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