Obra bilionária entre Bahia e Pernambuco marca nova etapa na transição econômica para deixar Brasil ‘mais nordestino’
Consórcio 116 Sertões vence leilão para expandir trecho da rota cerca de 502 quilômetros
Por Luiz Dias, da Agência Correio

Processo ocorreu nesta quinta-feira (28), na B3, em São Paulo Crédito: Marinelson Almeida / Wikimedia Commons
A nova concessão da BR-116 entre Feira de Santana, na Bahia, e Salgueiro, em Pernambuco, pode ser vista como mais do que uma obra de infraestrutura. A chamada Rota dos Sertões entra em um movimento maior de reorganização econômica em direção ao Nordeste.
Essa é uma tendência lenta de retorno após décadas de transição econômica em direção ao sudeste. Segundo as Contas Regionais do IBGE, o Sudeste tem perdido lentamente seu monopólio, com uma queda de 4,4% entre 2002 e 2023 de participação no PIB nacional, em detrimento de regiões como o Norte e Nordeste.
O que é que há?
A concessão da Rota dos Sertões foi definida em leilão da ANTT na B3, em São Paulo. O Consórcio 116 Sertões venceu a disputa ao oferecer desconto de 19,60% na tarifa básica de pedágio e ficará responsável por operar o trecho pelos próximos 30 anos no Nordeste.
O contrato envolve 502 quilômetros das BRs 116 e 324, entre Salgueiro, em Pernambuco, e o anel rodoviário de Feira de Santana, na Bahia. Ao todo, estão previstos R$ 8,5 bilhões ao longo da concessão, sendo R$ 4,1 bilhões destinados a obras e modernização.

A BR-116 é a principal ligação logística entre o Sudeste e o Nordeste. Ela corta o interior do país, conectando estados estratégicos como São Paulo e Minas Gerais ao sertão nordestino e chegando até Fortaleza Crédito: Agencia CNT de Noticias / Wikimedia Commons
O pacote inclui 108,2 km de duplicações, vias marginais, acostamentos, passarelas, paradas de ônibus, bases de atendimento e ponto de descanso para caminhoneiros. A promessa é reduzir gargalos, aumentar a segurança e melhorar a logística regional no sertão.
Pontos fortes que puxam essa nova transição
Mapitoba: O avanço da nova fronteira agrícola em direção aos estados do Norte e Nordeste (Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia), em especial devido à transposição do rio São Francisco.
Indústria fruticultura: estudos ligados à Transnordestina avaliam custos e traçados de um ramal ferroviário até Petrolina. A proposta é fortalecer o escoamento da fruticultura irrigada do Vale do São Francisco.
Energia: A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apontou um aumento considerável na participação da energia eólica e solar na matriz energética brasileira. Um aumento de 3,7% em 2015 para 23,7% em 2024. Sendo a região nordeste uma potência nessas modalidades de geração energética.
Brasil já foi mais nordestino
Para entender essa tendência econômica no Nordeste, é preciso voltar ao início da formação econômica do país. Durante o período colonial, a região foi o primeiro grande centro de riqueza da América portuguesa. Principalmente pela indústria do açúcar pernambucana e baiana.

A mudança começou no século XVIII. Com a mineração em Minas Gerais, o eixo econômico se deslocou para o Centro-Sul, segundo estudo da UFRJ. A transferência da capital de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763, foi o principal marco dessa transição.
Além do já citado, a pesquisa também aponta três fatores principais para a mudança: os conflitos no extremo sul da colônia, a reorganização econômica provocada pelo ouro e a importância crescente do Rio de Janeiro no tráfico de escravizados.
Café, indústria e a força do Sudeste
No século XIX, o café aprofundou a mudança. O Rio de Janeiro e, depois, São Paulo se tornaram centros da principal atividade exportadora do país. O café acumulou capital, estimulou ferrovias, atraiu imigração, fortaleceu bancos e criou mercado consumidor.
Esse processo ajudou São Paulo a se transformar no principal polo industrial do Brasil. A obra “Raízes da concentração industrial em São Paulo”, de Wilson Cano, analisa justamente a relação entre economia cafeeira e a formação da Grande São Paulo.
No século XX, utilizando o capital do café, o Sudeste começou a mover sua industrialização e a criar empregos formais e urbanização acelerada. Enquanto isso, a antiga central do Brasil começou a ser tratada como um estorvo.
O Ipea lembra que, a partir das contribuições de Celso Furtado no Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste, o chamado GTDN, a região ganhou status de problema nacional. A discussão deixou de ser apenas sobre seca e passou a envolver subdesenvolvimento, estrutura produtiva, concentração fundiária e política regional.
Rota humana
Essa concentração econômica no Sudeste também criou uma rota humana. Durante décadas, milhões de nordestinos migraram para São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais em busca de trabalho e melhores condições de vida.

Um dos principais indicadores desse movimento que ocorreu nos últimos dois séculos foi o Censo 2022. Segundo o IBGE, 19,2 milhões de pessoas viviam fora da região onde nasceram. Desse total, 10,4 milhões nasceram no Nordeste.

Entre os nordestinos que viviam fora de sua região de nascimento, 6,8 milhões estavam no Sudeste, cerca de 65,38% do total Crédito: Prefeitura de Itapevi / Wikimedia Commons
Efeito rebote
Porém, com uma transição econômica em ação, parte dessa população que não habita seus estados de origem, ou seus descendentes, tende a retornar para sua terra natal. Os dados mais recentes indicam uma mudança, mas não uma virada completa.
O Sudeste deixou de ser a região que mais concentra migrantes entre 2017 e 2022. Segundo o IBGE, a região recebeu 859 mil imigrantes e perdeu 980 mil emigrantes, saldo negativo de 121 mil pessoas.

No Nordeste, o processo ainda está em andamento; a região continuou com saldo migratório negativo, mas a perda diminuiu bastante. O saldo passou de mais de 700 mil pessoas no Censo 2010 para cerca de 249 mil no Censo 2022. Uma queda de 451 mil pessoas em doze anos.


























