Vice-governador de Alagoas vira alvo de Renan em guerra contra candidatura em Arapiraca

Aliado histórico de Renan, Luciano Barbosa teve chapa barrada no 2º maior colégio eleitoral do estado

Acostumado a articular junto a caciques partidários nacionais intervenções em partidos nanicos que desafiam seus interesses em Alagoas, o senador Renan Calheiros (MDB) lançou mão da mesma estratégia em sua própria cozinha, ao destituir o diretório municipal do MDB de Arapiraca, com o objetivo de impedir a candidatura do vice-governador Luciano Barbosa a prefeito, no segundo maior colégio eleitoral do estado.

O problema central da crise interna é a possibilidade de renúncia do aliado histórico de Renan para reassumir a Prefeitura de Arapiraca, em 2021, retirando do domínio do clã Calheiros a linha sucessória do governador Renan Filho (MDB), assumida pelo presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Victor (SDD-AL), símbolo da resistência dos deputados à tentativa dos Calheiros de mandar no voto de aliados na eleição para a Mesa Diretora do Legislativo, em 2019.

Presidente do MDB em Alagoas, o senador Renan instaurou processo de dissolução do Diretório Municipal do partido em Arapiraca, no último dia 17. Fato que ocorreu após o presidente nacional do MDB Baleia Rossi invalidar a convenção realizada pelo diretório municipal, no dia 15, por descumprimento das “diretrizes político-partidárias estabelecidas pelo MDB Estadual” e escolher a chapa encabeçada por Luciano Barbosa.

Antes, a Executiva Estadual ainda convocou e realizou convenção no dia 16 para concluir em ata por não ter candidato em Arapiraca, mas não contou com o contra-ataque dos emedebistas arapiraquenses, que fizeram uma segunda ata reforçando a candidatura do vice-governador.

Após medir forças na tentativa frustrada de impor como candidato uma chapa com o deputado arapiraquense Ricardo Nezinho e o filho de Luciano, Daniel Barbosa, o MDB de Alagoas publicou nota no dia 16, culpando o diretório municipal de ser responsável pelo fato de o partido não ter candidatos majoritários e proporcionais pela primeira vez na história política de Arapiraca. E acusando os membros do diretório municipal de romperem as relações democráticas e respeitosas entre as instâncias do partido, violarem o Estatuto da legenda e mancharem a própria história do MDB em Arapiraca e em todo o Estado de Alagoas.

Renan deu ao presidente municipal do MDB, José de Macedo, a oportunidade de apresentar defesa até hoje (22) e de fazer defesa oral na sessão de julgamento marcada para sexta-feira (25), no diretório estadual dominado pelos aliados dos Calheiros.

 

Governador de Alagoas Renan Filho com seu pai e senador Renan Calheiros. Foto: Agência Alagoas/Arquivo
Planos de poder

A interferência de Renan em Arapiraca, com apoio de Baleia Rossi, tem como pano de fundo as consequências políticas dos planos do vice-governador. Porque a candidatura de Luciano Barbosa fortalece Marcelo Victor, que foi eleito presidente do Legislativo em 2019, contrariando os interesses de Renan Filho em eleger seu tio Olavo Calheiros (MDB-AL), após uma intervenção frustrada do governador no voto dos deputados.

Apoiado pela maioria absoluta da Assembleia, Marcelo Victor deve assumir o governo em 2022, quando Renan Filho deve disputar uma vaga no Senado. O Diário do Poder apurou que o vice-governador esperava há meses de Renan Filho uma definição sobre se o governador disputará ou não um mandato de senador.

Diante da indefinição, tomou a decisão de arriscar ser prefeito, com a garantia de, se perder, retornar ao cargo de vice-governador e poder disputar uma reeleição ao governo, em 2022. Decisão que irritou profundamente os Calheiros, ainda mais pela possibilidade de, com a guerra travada, Luciano converter rivais de Renan como aliados, no segundo maior colégio eleitoral de Alagoas.

Luciano Barbosa registrou sua candidatura, tendo como vice a irmã do deputado Ricardo Nezinho, Rute Nezinho (PL). E aguarda julgamento da Justiça Eleitoral.

Deputado estadual Bruno Toledo. Foto: Ascom ALE
Fidelidade de ocasião

Na Assembleia Legislativa, o sentimento maior é de perplexidade com a exibição de força do comandante do MDB em Alagoas, como relata o deputado estadual Bruno Toledo (Pros-AL).

“Na verdade o sentimento maior é de perplexidade. Acredito na política do convencimento, esse tipo de ação praticada é absurda. O MDB abre uma jurisprudência impossível de ser apagada. Deixa de ser partido e passa a ter um dono, que ao ser vencido no que quer, simplesmente acaba com o partido”, disse o parlamentar.

Toledo deixa uma reflexão, sobre a fidelidade de ocasião exigida agora do vice-governador por Renan, mas dispensada no passado político do filho governador Renan Filho.

“O MDB acusa em nota o vice de fugir da função pública, ou seja, o acusa de covarde e, porque não dizer, traidor do povo. O então prefeito Renan Filho renunciou o cargo de prefeito em 06 de abril de 2010, após um ano e quatro meses de mandato, faltando, portanto, dois anos e oito meses de um mandato concedido pelo povo de Murici. Ele também fugiu da função pública? Ele também foi covarde e traidor? O diretório de Murici foi dissolvido? Ele foi expulso do partido?”, questiona Bruno Toledo.

Questionado sobre a crise aberta no MDB contra a candidatura de Luciano Barbosa, que deve elevá-lo ao topo da linha sucessória em Alagoas, o presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Victos, afirmou o seguinte: “A disputa eleitoral em Arapiraca, como nos demais municípios de alagoas, incluindo a capital, não passa por um tratamento institucional do Poder Legislativo do Estado. Quanto ao colegiado, cada parlamentar possui legitimidade democrática para se posicionar em suas bases, adotando rumos distintos. São absolutamente autônomos para traçar seus destinos no processo sucessório municipal. Fora desse campo, há muitas conjecturas e ilações que não cabem ao presidente do Legislativo ajuizar valor, porque não ajuda ao Estado”.

 

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