{"id":103527,"date":"2015-12-28T09:17:07","date_gmt":"2015-12-28T12:17:07","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=103527"},"modified":"2015-12-28T09:17:07","modified_gmt":"2015-12-28T12:17:07","slug":"crise-e-ideologia-levam-familias-de-classe-media-de-volta-a-escola-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/crise-e-ideologia-levam-familias-de-classe-media-de-volta-a-escola-publica\/","title":{"rendered":"Crise e ideologia levam fam\u00edlias de classe m\u00e9dia de volta \u00e0 escola p\u00fablica"},"content":{"rendered":"<section id=\"manchete\">\n<div id=\"noticia-titulo\">\n<h1 id=\"noticia-titulo-h1\"><\/h1>\n<\/div>\n<\/section>\n<section id=\"conteudo\" class=\"\">\n<h2 id=\"noticia-olho\"><em>Ambiente escolar diverso e inclusivo e o peso da mensalidade no or\u00e7amento estariam entre as motiva\u00e7\u00f5es da mudan\u00e7a<\/em><\/h2>\n<div id=\"noticia\" class=\"noticia\">\n<p id=\"selo-agencia\"><a href=\"http:\/\/www.bbcbrasil.com\/\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/i0.statig.com.br\/selos-agencias\/bbc.gif\" alt=\"BBC\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\" \">Quando sua filha tinha quatro anos, a funcion\u00e1ria p\u00fablica carioca Julia Sant&#8217;Anna tomou uma decis\u00e3o que alguns integrantes de sua fam\u00edlia e c\u00edrculo de amigos viram com estranhamento: tirou a menina de uma escolinha particular para coloc\u00e1-la em uma p\u00fablica.\u00a0A decis\u00e3o foi motivada por uma combina\u00e7\u00e3o de fatores.<\/p>\n<figure class=\"foto-legenda gd12\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/i0.statig.com.br\/bancodeimagens\/4y\/jf\/f5\/4yjff5jx3s8jrizyx0xbnhntx.jpg\" alt=\"Sala de aula de uma escola p\u00fablica no Paran\u00e1\" \/><\/figure>\n<figure class=\"foto-legenda gd12\"><figcaption class=\"undefined\">\n<div class=\"undefined\">Sala de aula de uma escola p\u00fablica no Paran\u00e1<\/div>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p>Por trabalhar na \u00e1rea de gest\u00e3o escolar, Julia sabia que, apesar do sistema de ensino p\u00fablico brasileiro ainda ter in\u00fameros problemas, algumas escolas est\u00e3o h\u00e1 algum tempo avan\u00e7ando na quest\u00e3o da qualidade &#8211; e que, perto da sua casa, em um bairro de classe m\u00e9dia do Rio de Janeiro, havia vagas sobrando em uma institui\u00e7\u00e3o municipal com notas altas no \u00cdndice de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica (Ideb, criado em 2007 para medir a qualidade do ensino da rede p\u00fablica).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Julia queria que a filha fosse educada em um ambiente mais inclusivo e de mais diversidade. &#8220;Queria que ela desenvolvesse um senso de justi\u00e7a, igualdade e cidadania&#8221;, diz.<\/p>\n<p class=\" \">Dois anos mais tarde, a carioca diz estar t\u00e3o satisfeita com a decis\u00e3o que tamb\u00e9m pretende matricular seu filho mais novo, hoje em uma creche privada, em uma escola p\u00fablica.<\/p>\n<p class=\" \">&#8220;At\u00e9 por trabalhar nessa \u00e1rea, h\u00e1 algum tempo eu j\u00e1 havia entendido que n\u00e3o \u00e9 porque uma escola \u00e9 p\u00fablica que ela \u00e9 ruim \u2013 e n\u00e3o \u00e9 porque \u00e9 privada que \u00e9 boa&#8221;, diz Julia.<\/p>\n<p class=\" \">E esse n\u00e3o parece ser um caso isolado.\u00a0Seja em fun\u00e7\u00e3o da crise econ\u00f4mica ou por, digamos, quest\u00f5es ideol\u00f3gicas ligadas a convic\u00e7\u00f5es pessoais \u2013 como essa busca por um ambiente educacional mais inclusivo e diverso \u2013, est\u00e1 cada vez mais comum encontrar fam\u00edlias de classe m\u00e9dia que colocam os filhos em escolas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Segundo a Secretaria Estadual de Educa\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro, de 2010 a 2015 a participa\u00e7\u00e3o de estudantes provenientes de escolas privadas na rede p\u00fablica do Rio subiu de 5,15% para 11,12%.<\/p>\n<figure class=\"foto-legenda gd12\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/i0.statig.com.br\/bancodeimagens\/7e\/4a\/7o\/7e4a7oahar4wtw3ock7lhc838.jpg\" alt=\"Julia queria um ambiente escolar com maior diversidade para a filha\" \/><\/figure>\n<figure class=\"foto-legenda gd12\"><figcaption class=\"undefined\">\n<div class=\"undefined\">Julia queria um ambiente escolar com maior diversidade para a filha<\/div>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\" \">E s\u00f3 em 2015 o n\u00famero de matr\u00edculas desses egressos da rede particular \u2013 em geral crian\u00e7as de classe m\u00e9dia &#8211; teria crescido 11,6%.<\/p>\n<p class=\" \">Em S\u00e3o Paulo, nos \u00faltimos cinco anos o n\u00famero de alunos que passam da rede particular para a p\u00fablica aumentou cerca de 30%, segundo a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o, com o total de matr\u00edculas de crian\u00e7as provenientes de escolas privadas saltando de 151,2 mil, em 2011, para 195,7 mil em 2015 (at\u00e9 agosto).<\/p>\n<p><strong>Estat\u00edsticas<\/strong><\/p>\n<p>Mas isso quer dizer que existe um fen\u00f4meno massivo de migra\u00e7\u00e3o da rede privada para a p\u00fablica? N\u00e3o necessariamente.<\/p>\n<p>Na realidade, como ressaltou recentemente um estudo de pesquisadores da UFRJ, dados do Censo Escolar do Inep (\u00f3rg\u00e3o de pesquisas ligado ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o &#8211; MEC) sugerem que, ao menos at\u00e9 2014, ocorreu o contr\u00e1rio. Ou seja, o n\u00famero de matr\u00edculas na rede privada aumentou mais que o da rede p\u00fablica no Brasil e em Estados como Rio e S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&#8220;De fato n\u00e3o temos o controle sobre quantos alunos fizeram o caminho contr\u00e1rio, indo da escola p\u00fablica para a privada&#8221;, admite Andrea Grecco, respons\u00e1vel pelo Departamento de Matr\u00edculas da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O estudo da UFRJ n\u00e3o capta os efeitos da crise econ\u00f4mica e do aumento do desemprego de 2015, que fizeram com que se tornasse mais dif\u00edcil para muitas fam\u00edlias continuar pagando o boleto das escolas no fim do m\u00eas. &#8220;Mas ele mostra que \u00e9 preciso uma an\u00e1lise mais detalhada do fen\u00f4meno de migra\u00e7\u00e3o de matr\u00edculas, para que possamos entender o que est\u00e1 acontecendo e o perfil de quem est\u00e1 saindo e entrando em cada rede&#8221;, diz a pesquisadora Karina Carrasqueira, coautora do estudo junto com Tiago Bartholo, professor do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o da UFRJ. Carrasqueira ressalta que n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o entre esses dados e os das secretarias estaduais.<\/p>\n<p>&#8220;Mas a quest\u00e3o \u00e9 que, se houve uma maior migra\u00e7\u00e3o de alunos de escolas privadas para as p\u00fablicas, ao menos at\u00e9 2014, o fluxo no sentido inverso foi ainda maior. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m \u00e9 preciso entender como as tend\u00eancias demogr\u00e1ficas afetam a distribui\u00e7\u00e3o dos alunos. Uma das hip\u00f3teses \u00e9 que a taxa de natalidade tenha ca\u00eddo mais rapidamente entre fam\u00edlias mais pobres.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Explica\u00e7\u00f5es poss\u00edveis<\/strong><\/p>\n<p>Uma das explica\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para a hist\u00f3ria de J\u00falia e outros brasileiros de classe m\u00e9dia que teriam optado por trocar a escola particular pela p\u00fablica seria uma lenta e gradual mudan\u00e7a nas percep\u00e7\u00f5es sobre o ensino p\u00fablico, que h\u00e1 algumas d\u00e9cadas vinham se deteriorando.<\/p>\n<p>&#8220;De fato muitos aspectos do dia a dia da escola p\u00fablica me surpreenderam positivamente&#8221;, diz Julia. &#8220;Em algumas, h\u00e1 um grande engajamento da comunidade na tomada de decis\u00f5es e solu\u00e7\u00e3o de problemas. Ajudamos a definir como ser\u00e1 a festa de fim de ano, por exemplo, e se houver algum desentendimento pedag\u00f3gico interno voc\u00ea logo fica sabendo, ao contr\u00e1rio do que ocorreria em uma escola privada.&#8221;<\/p>\n<p>Ela admite que, para matricular os filhos em uma escola p\u00fablica, os pais de crian\u00e7as provenientes de escola particular precisam flexibilizar algumas exig\u00eancias. &#8220;H\u00e1 pouco espa\u00e7o para frescuras e alguns tipos de demanda. Vai ser dif\u00edcil se voc\u00ea quiser que seu filho s\u00f3 tome suco de polpa de fruta ou org\u00e2nico, por exemplo.&#8221;<\/p>\n<p>Mas, para ela, as vantagens v\u00e3o muito al\u00e9m do al\u00edvio que \u00e9 n\u00e3o ter de pagar mensalidade no fim do m\u00eas.<\/p>\n<p>&#8220;Minha filha passou a conviver com uma diversidade maior de pessoas, tem colegas de todos os espectros sociais. Tamb\u00e9m nos livramos de alguns &#8216;tem que&#8217; das escolas de classe m\u00e9dia: &#8216;tem que&#8217; ter a cole\u00e7\u00e3o de figurinha do personagem tal, ou &#8216;tem que&#8217; fazer anivers\u00e1rio em sal\u00e3o de festa caro&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Para Carrasqueira, a poss\u00edvel mudan\u00e7a de percep\u00e7\u00f5es sobre o ensino p\u00fablico tamb\u00e9m \u00e9 algo que ainda precisa ser investigado.<\/p>\n<p>&#8220;Mas de fato algumas pessoas podem estar se dando conta de que, se seus filhos n\u00e3o est\u00e3o em uma escola particular excelente, talvez possa fazer sentido buscar uma escola p\u00fablica bem avaliada &#8211; ainda mais agora, quando muitos t\u00eam a renda familiar atingida pela crise&#8221;, diz ela. O secretario de Educa\u00e7\u00e3o do Rio, Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Vieira Neto, atribui essa poss\u00edvel redu\u00e7\u00e3o da &#8220;resist\u00eancia&#8221; da classe m\u00e9dia \u00e0 escola p\u00fablica em parte a uma melhora da qualidade do ensino na rede. &#8220;H\u00e1 uma revolu\u00e7\u00e3o na escola p\u00fablica&#8221;, defende, embora tamb\u00e9m haja quem refute que tenha ocorrido qualquer &#8220;salto de qualidade&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Escolas refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>A maioria das fam\u00edlias de classe m\u00e9dia busca, como era de se esperar, escolas de refer\u00eancia ou que tenham altas notas nos sistemas de avalia\u00e7\u00e3o da rede p\u00fablica.\u00a0Em algumas, como na escola municipal em que est\u00e1 a filha de Julia, sobram vagas. Em outras, a disputa \u00e9 acirrad\u00edssima.<\/p>\n<p>No \u00faltimo processo de sele\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o da UFRJ, por exemplo, cerca de 3 mil candidatos disputaram menos de 90 vagas. Houve sorteio para decidir quem ficaria com as vagas em um audit\u00f3rio repleto de pais, que choravam emocionados se o nome do filho fosse anunciado.<\/p>\n<p>Para 2016, o Col\u00e9gio Estadual Chico Anysio, uma escola de refer\u00eancia carioca, recebeu 1.582 inscri\u00e7\u00f5es para suas 96 vagas, sendo 911 de alunos oriundos da rede particular.\u00a0Na compara\u00e7\u00e3o com o ano passado, a porcentagem de inscritos vindos de escolas privadas saltou de 23% para 58%.<\/p>\n<p class=\" \">Durante duas semanas, a BBC Brasil entrevistou alguns integrantes de fam\u00edlias de classe m\u00e9dia que colocaram os filhos em escolas p\u00fablicas recentemente.<\/p>\n<p>E um dado interessante \u00e9 que boa parte dos entrevistados tamb\u00e9m disseram que ter morado no exterior &#8211; em pa\u00edses onde a classe m\u00e9dia frequenta escolas p\u00fablicas \u2013 teria lhes ajudado a &#8220;abrir a cabe\u00e7a&#8221; para essa possibilidade.<\/p>\n<figure class=\"foto-legenda gd6\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/i0.statig.com.br\/bancodeimagens\/56\/mi\/kx\/56mikxlygad6dfgzorgdchqpw.jpg\" alt=\"Designer gr\u00e1fica  Suye Okubo  e seus dois filhos \" \/><\/figure>\n<figure class=\"foto-legenda gd6\"><figcaption class=\"undefined\">\n<div class=\"undefined\">Designer gr\u00e1fica Suye Okubo e seus dois filhos<\/div>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\" \">A professora universit\u00e1ria Renata Wassermann \u00e9 um exemplo. &#8220;Como morei na Europa, sempre achei estranho essa hist\u00f3ria de que muita gente no Brasil nem cogita escola p\u00fablica, mesmo se a escola tem uma boa avalia\u00e7\u00e3o&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p class=\" \">H\u00e1 dois anos, Renata tirou seu casal de filhos, de 9 e 11 anos, de uma escola particular em S\u00e3o Paulo para coloc\u00e1-los na Escola Municipal Desembargador Amorim Lima, no Butant\u00e3, porque &#8220;achou a filosofia da escola incr\u00edvel&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ela cobre o curr\u00edculo nacional a partir de roteiros tem\u00e1ticos que perpassam todas as mat\u00e9rias. Cada crian\u00e7a escolhe a ordem dos temas que vai tratar e n\u00e3o h\u00e1 provas tradicionais. O professor corrige as fichas que s\u00e3o produzidas pelos alunos no fim de cada &#8216;roteiro'&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pesou na decis\u00e3o de Renata o fato de ela ter se mudado com a fam\u00edlia para uma casa perto da Amorim Lima e n\u00e3o estar muito satisfeita com a escola particular em que os filhos estavam.\u00a0Ela conta que, no in\u00edcio, seus filhos acharam a escola &#8220;meio bagun\u00e7ada&#8221;. &#8220;Mas logo eles se adaptaram&#8221;, diz.<\/p>\n<p><strong>Crise<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 claro que h\u00e1 muitos pais de classe m\u00e9dia colocando os filhos em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas basicamente porque, por um motivo ou outro, precisam se livrar da mensalidade escolar.<\/p>\n<p>Segundo Grecco, da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, por exemplo, em 2015 teriam aumentado muito as transfer\u00eancias de alunos da rede privada no meio do ano, provavelmente em fun\u00e7\u00e3o da crise econ\u00f4mica.\u00a0&#8220;Algumas fam\u00edlias est\u00e3o ficando sem condi\u00e7\u00f5es de pagar a mensalidade&#8221;, avalia.<\/p>\n<p>Para Mozart Ramos, diretor de articula\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o do Instituto Ayrton Senna (institui\u00e7\u00e3o que ajudou a desenvolver o modelo educacional do Col\u00e9gio Chico Anysio), isso j\u00e1 era esperado.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje h\u00e1 escolas p\u00fablicas excelentes, mas o desafio \u00e9 expandir essa qualidade para a rede, ou seja, fazer as ilhas virarem arquip\u00e9lagos&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;Por isso, n\u00e3o h\u00e1 como negar que, na m\u00e9dia, a percep\u00e7\u00e3o geral ainda \u00e9 de que a escola particular oferece melhor curr\u00edculo, o que cria um movimento pendular nas matr\u00edculas: quando a popula\u00e7\u00e3o tem ganhos econ\u00f4micos tende a levar os filhos para institui\u00e7\u00f5es privadas. Com a crise e o aumento do desemprego, o movimento \u00e9 o contr\u00e1rio.&#8221;<\/p>\n<p>A designer gr\u00e1fica Suye Okubo est\u00e1 entre os que matricularam os filhos na rede p\u00fablica por quest\u00f5es econ\u00f4micas.\u00a0Suye tinha um filho em escola particular, mas quando a filha nasceu, em meio a um processo de div\u00f3rcio, n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de pagar uma segunda mensalidade.\u00a0Foi quando ela ouviu de uma amiga a recomenda\u00e7\u00e3o de uma creche p\u00fablica nas proximidades da escola do filho e foi conferir.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje tenho uma filha em creche p\u00fablica e um filho em escola particular, mas como as contas da fam\u00edlia est\u00e3o apertadas, penso em mud\u00e1-lo para a rede p\u00fablica pelo menos por um ano para quitar d\u00edvidas e ter um al\u00edvio financeiro&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Para Suye, os dois sistemas de ensino t\u00eam suas vantagens e desvantagens. No geral, por\u00e9m, ela considera a institui\u00e7\u00e3o em que est\u00e1 o filho, particular, melhor que a da filha, p\u00fablica.<\/p>\n<p>&#8220;A creche em que minha filha est\u00e1 tem v\u00e1rias qualidades. As professoras s\u00e3o dedicadas e carinhosas com as crian\u00e7as e h\u00e1 mais diversidade entre os alunos \u2013 na sala de meu filho, na escola particular, n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico negro, por exemplo&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;Mas tamb\u00e9m h\u00e1 problemas, embora nada grave, felizmente. S\u00f3 para mencionar alguns exemplos: a burocracia \u00e9 maior para tudo, voc\u00ea precisa apresentar atestado de que vai ter de trabalhar para levar a crian\u00e7a na escola em janeiro ou marcar hora para falar com funcion\u00e1rios. A alimenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m deixa a desejar \u2013 o card\u00e1pio inclui itens n\u00e3o saud\u00e1veis como salsicha e margarina.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Impacto<\/strong><\/p>\n<p>Existe um debate sobre como um eventual retorno da classe m\u00e9dia poderia impactar o sistema p\u00fablico.\u00a0Para alguns cr\u00edticos, o risco \u00e9 que esse movimento amplie a competi\u00e7\u00e3o por recursos limitados, reduzindo a chance dos mais pobres conseguirem vagas em creches (que s\u00e3o limitadas) e nas escolas de melhor qualidade.<\/p>\n<p>Para Maria do Pilar Lacerda, ex-secret\u00e1ria de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica do MEC, por\u00e9m, o efeito seria um aumento da press\u00e3o por melhorias r\u00e1pidas no sistema.<\/p>\n<p>&#8220;No Brasil temos muitas crian\u00e7as pobres cujos pais n\u00e3o estudaram. E em muitos casos, esses pais n\u00e3o t\u00eam repert\u00f3rio para participar dos debates sobre as mudan\u00e7as nas escolas, nem sabem como pressionar por melhorias. A volta da classe m\u00e9dia \u00e0 escola p\u00fablica tenderia a ajudar nesse ponto, o que pode ser um efeito inusitado da crise econ\u00f4mica&#8221;, defende a ex-secret\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ramos, do Instituto Ayrton Senna, e Vieira, secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o do Rio, concordam. &#8220;Os pais de classe m\u00e9dia t\u00eam uma tend\u00eancia maior de participa\u00e7\u00e3o na escola. Eles j\u00e1 estavam acostumados a cobrar e acabam cobrando mais da diretoria e autoridades respons\u00e1veis \u2013 o que \u00e9 \u00f3timo para a escola&#8221;, diz Vieira.<\/p>\n<p>Lacerda admite, por\u00e9m, que seria interessante criar regras de acesso para impedir que algumas poucas escolas-modelo ou de boa qualidade sejam loteadas por integrantes da classe m\u00e9dia, enquanto a qualidade de outras escolas fique estagnada.<\/p>\n<p>&#8220;O interessante \u00e9 ter uma mistura de todas as classes sociais. Toda a sociedade ganha com as crian\u00e7as sendo educadas em um ambiente de maior diversidade&#8221;, opina.<\/p>\n<\/div>\n<\/section>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ambiente escolar diverso e inclusivo e o peso da mensalidade no or\u00e7amento estariam entre as motiva\u00e7\u00f5es da mudan\u00e7a Quando sua filha tinha quatro anos, a funcion\u00e1ria p\u00fablica carioca Julia Sant&#8217;Anna tomou uma decis\u00e3o que alguns integrantes de sua fam\u00edlia e c\u00edrculo de amigos viram com estranhamento: tirou a menina de uma escolinha particular para coloc\u00e1-la [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":103528,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-103527","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/sala-de-aula-publica.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/103527","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=103527"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/103527\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/103528"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=103527"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=103527"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=103527"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}