{"id":109502,"date":"2016-01-30T14:20:29","date_gmt":"2016-01-30T17:20:29","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=109502"},"modified":"2016-01-30T14:20:29","modified_gmt":"2016-01-30T17:20:29","slug":"por-que-tanto-odio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/por-que-tanto-odio\/","title":{"rendered":"Por que tanto \u00f3dio?"},"content":{"rendered":"<header>\n<hgroup>\n<h3>Por Roberto Amaral<\/h3>\n<\/hgroup>\n<\/header>\n<figure><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.brasil247.com\/pt\/colunistas\/robertoamaral\/214999\/Por-que-tanto-%C3%B3dio.htm\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.brasil247.com\/images\/cache\/320x182\/crop\/images%7Ccms-image-000479222.jpg\" alt=\": \" width=\"320\" height=\"182\" \/><\/a><\/figure>\n<p>\u00c9 preciso tentar entender os motivos da unanimidade conservadora contra o PT apesar de seus governos nem reformistas serem.<\/p>\n<p>A direita latino-americana aceita quase-tudo, at\u00e9 desenvolvimento e democracia, conquanto n\u00e3o venham acompanhados, seja da emerg\u00eancia das classes populares, como pretendeu o Brasil de Jo\u00e3o Goulart e Lula, seja da defesa das soberanias nacionais dos pa\u00edses da regi\u00e3o, como l\u00e1 atr\u00e1s intentou o segundo governo Vargas.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria n\u00e3o se repete, sabemos \u00e0 saciedade, mas em 1954, como em 1964, em comum com os dias de hoje, organizou-se um concerto entre for\u00e7as pol\u00edticas derrotadas nas urnas, mais setores dominantes do grande capital e a unanimidade da grande imprensa, unificadas pelo projeto golpista gritado em nome de uma democracia que em seguida seria posta em frangalhos.<\/p>\n<p>Naqueles epis\u00f3dios, com o ingrediente perverso da insubordina\u00e7\u00e3o militar, o momento culminante de uma razzia anti-progresso e pr\u00f3-atraso, alimentada de longa data por setores majorit\u00e1rios da grande imprensa, um monop\u00f3lio ideol\u00f3gico administrado por cart\u00e9is empresariais intoc\u00e1veis.<\/p>\n<p>Essa unanimidade ideol\u00f3gico-pol\u00edtica dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massas \u00e9, assim, a mesma dos anos do pret\u00e9rito. O diferencial, agravando sua periculosidade, \u00e9 a concentra\u00e7\u00e3o de meios facilitando o monop\u00f3lio anulando qualquer possibilidade de concorr\u00eancia, blindando o sistema de eventuais contradi\u00e7\u00f5es e &#8216;furos&#8217;.<\/p>\n<p>Que fizeram os governos democr\u00e1ticos \u2013 que fez a sociedade, que fez o Congresso, que fez o Judici\u00e1rio \u2013 para enfrentar esse monstro antidemocr\u00e1tico que age sem peias, a despeito da ordem constitucional?<\/p>\n<p>As raz\u00f5es para a crise remontam \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00e3o, sociedade e Estado que as for\u00e7as conservadoras \u2013 ao fim e ao cabo nossos efetivos governantes \u2013 estabeleceram como seu projeto de Brasil.<\/p>\n<p>O desenvolvimento de nossos pa\u00edses pode mesmo ser admitido por esses setores \u2013 sempre que o malsinado Estado financie seus investimentos \u2013, conquanto que respeitados determinados limites (n\u00e3o os possa tributar, por exemplo), ou compromet\u00ea-los com objetivos nacionais estrat\u00e9gicos, como respeitosos com essa gente foram os anos de ouro do juscelinismo.<\/p>\n<p>Jamais um desenvolvimento buscadamente aut\u00f4nomo, como pretenderam o Chile de Allende, com as consequ\u00eancias sabidas, e a Venezuela, acuada e acossada desde os primeiros vagidos do bolivarianismo, o qual, seja l\u00e1 o que de fato for para al\u00e9m de discurso, perseguiu um caminho pr\u00f3prio de desenvolvimento econ\u00f4mico-social, \u00e0 margem dos interesses do Departamento de Estado, do Pent\u00e1gono, e do FMI.<\/p>\n<p>Democracia at\u00e9 que \u00e9 admiss\u00edvel, conquanto n\u00e3o se fa\u00e7a acompanhar da ascens\u00e3o das grandes massas, pelo que Jo\u00e3o Goulart se arriscou e perdeu o poder. A prop\u00f3sito, F. Engels (introdu\u00e7\u00e3o ao cl\u00e1ssico Luta de classes na Fran\u00e7a, de Marx) observa que &#8220;&#8230; a burguesia n\u00e3o admitir\u00e1 a democracia, sendo mesmo capaz de golpe\u00e1-la, se houver alguma possibilidade de as massas trabalhadoras chegarem ao poder&#8221;.<\/p>\n<p>Ora, na Am\u00e9rica Latina basta a simples emerg\u00eancia das massas ao cen\u00e1rio pol\u00edtico, sem mesmo qualquer amea\u00e7a de ascens\u00e3o a fatias m\u00ednimas de poder, para justificar os golpes de Estado e as ditaduras.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de promover essa emerg\u00eancia do popular no pol\u00edtico, trazendo massas deserdadas para o consumo e a vida civil, Lula intentou uma pol\u00edtica externa independente, como independente poderia ser, nos termos da globaliza\u00e7\u00e3o de nossas limita\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e militares. Desvela-se, assim, o &#8216;segredo&#8217; da esfinge: n\u00e3o basta respeitar as regras do capitalismo \u2013 como respeitaram Get\u00falio, Jango, Lula, e Dilma respeita \u2013 posto que fundamental \u00e9, mantendo intocada a estrutura de classes, preservar a depend\u00eancia ao modelo econ\u00f4mico-pol\u00edtico-ideol\u00f3gico ditado pelas grandes pot\u00eancias, EUA \u00e0 frente.<\/p>\n<p>O N\u00e3o cont\u00e9m o Sim. O que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel diz o que \u00e9 desejado, identificar o advers\u00e1rio \u00e9 meio caminho andado para a nomea\u00e7\u00e3o dos aliados e servidores. Assim se justifica, por exemplo, tanto a unanimidade da opini\u00e3o publicada em favor de Mauricio Macri, a mesma que acompanhou os \u00faltimos governos colombianos, quanto a unanimidade dos grandes meios contra os Kirchner, at\u00e9 ontem, e ainda hoje contra Rafael Correa e Evo Morales, bem como o \u00f3dio visceral ao &#8216;bolivarianismo&#8217;, na contram\u00e3o dos interesses das empresas brasileiras instaladas e operando na Venezuela.<\/p>\n<p>S\u00e3o os fabricantes de opini\u00e3o contrariando nossos interesses econ\u00f4micos e erodindo nosso natural peso regional \u2013 onde alimentamos justas expectativas de exerc\u00edcio de poder \u2013 mas, como sempre, fazendo o jogo dos interesses de Wall Street e da City.<\/p>\n<p>Essa l\u00f3gica da depend\u00eancia \u2013 ou de comunh\u00e3o de interesses entre nossa burguesia e o poder central, acima dos interesses nacionais \u2013 explica tamb\u00e9m a unanimidade contra Dilma e contra o que ideologicamente \u00e9 chamado de &#8216;lulismo&#8217; ou &#8216;lulopetismo&#8217;, nada obstante suas (suponho que hoje desvanecidas) ilus\u00f5es relativamente \u00e0 &#8216;concilia\u00e7\u00e3o de classes&#8217;.<\/p>\n<p>Concilia\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deu certo com Vargas e n\u00e3o est\u00e1 dando certo com Dilma, n\u00e3o obstante suas concess\u00f5es ao capital financeiro, malgrado o alto, muito alto pre\u00e7o representado pelo desapontamento das for\u00e7as populares que a elegeram no final do segundo turno.<\/p>\n<p>Esse movimento \u2013 que representa dar dois passos atr\u00e1s contra s\u00f3 um \u00e0 frente, detetado a partir de dezembro de 2014, valeu-lhe a ainda n\u00e3o superada crise de popularidade, sem a compensa\u00e7\u00e3o do arrefecimento da f\u00faria oposicionista ditada a partir da Avenida Paulista.<\/p>\n<p>Atribui-se a Lula a afirma\u00e7\u00e3o de que os banqueiros jamais teriam obtido tantos lucros quanto lograram em seu governo. Anedota ou n\u00e3o, o fato objetivo \u00e9 que segundo o bem informado Valor, o lucro dos bancos foi de 34,4 bilh\u00f5es de reais na era FHC, e de 279,0 bilh\u00f5es de reais no per\u00edodo Lula, ou seja, oito vezes maior, j\u00e1 descontada a infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por que ent\u00e3o essa oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Dilma se seu governo, como os dois anteriores de Lula, n\u00e3o amea\u00e7ou nem amea\u00e7a qualquer postulado do capitalismo, n\u00e3o amea\u00e7a a propriedade privada, n\u00e3o promoveu a reforma agr\u00e1ria, n\u00e3o amea\u00e7a o sistema financeiro, n\u00e3o promoveu a reforma tribut\u00e1ria?<\/p>\n<p>Por que esse \u00f3dio v\u00edtreo da imprensa se sequer ousaram os governos Lula-Dilma \u2013 ao contr\u00e1rio do que fizeram todos os pa\u00edses democr\u00e1ticos e desenvolvidos \u2013 regulamentar os meios de comunica\u00e7\u00e3o dependentes de concess\u00f5es, como o r\u00e1dio e a tev\u00ea?<\/p>\n<p>Por que essa unanimidade, se os governos do PT (e a estranha coabita\u00e7\u00e3o com o PMDB) n\u00e3o tocaram nas ra\u00edzes do poder, n\u00e3o amea\u00e7aram as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o fundadas na preemin\u00eancia do capital (muitas vezes improdutivo) sobre o trabalho?<\/p>\n<p>Por que tanto \u00f3dio, se os governos do PT sequer s\u00e3o reformistas, como tentou ser o trabalhismo janguista com seu pleito pelas &#8216;reformas de base&#8217;? Ora, o Estado brasileiro de 2016 \u00e9 o mesmo herdado em 2003, e &#8216;os donos do poder s\u00e3o os mesmos: o sistema financeiro, os meios de comunica\u00e7\u00e3o de massas vocalizando os interesses do grande capital, o agroneg\u00f3cio e as fiespes da vida.<\/p>\n<p>Ocorre que, e eis uma tentativa de resposta, se foram t\u00e3o complacentes com o grande capital, ousaram os governos Lula, e Dilma ainda ousa, promover a inclus\u00e3o social da maioria da popula\u00e7\u00e3o e buscar a\u00e7\u00f5es de desenvolvimento aut\u00f4nomo, nos marcos da globaliza\u00e7\u00e3o e do capitalismo, evidentemente, mas aut\u00f4nomo em face do imperialismo.<\/p>\n<p>Assim, negando o comando do FMI, negando a Alca e concorrendo para o fortalecendo do Mercosul, esvaziando a OEA e promovendo a Comunidade de Pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e Caribe (Celac), e, aud\u00e1cia das aud\u00e1cias, tentando constituir-se em bloco de poder estrat\u00e9gico no Hemisf\u00e9rio Sul, com sua influ\u00eancia na Am\u00e9rica Latina e a aproxima\u00e7\u00e3o com a \u00c1frica.<\/p>\n<p>Nada de novo no castelo de Abranches, nem mesmo a miopia dos que n\u00e3o v\u00eaem, ou, que, por comodismo ou puls\u00e3o suicida, preferem n\u00e3o ver o que est\u00e1 na linha do horizonte. Supor que a presidente est\u00e1 \u00e0 salvo da onda golpista \u00e9 t\u00e3o insensato quanto supor que o projeto da direita se esgotaria no impeachment.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda muito caminho a percorrer.<\/p>\n<p>O projeto da direita \u00e9 de cerco e de aniquilamento das esquerdas brasileiras. Nesses termos, o assalto ao mandato da presidente \u00e9 s\u00f3 um movimento, relevant\u00edssimo mas s\u00f3 um movimento num cen\u00e1rio de grandes movimenta\u00e7\u00f5es, a porta pela qual avan\u00e7ar\u00e3o todas as tropas.<\/p>\n<p>O projeto da direita \u00e9 mais audacioso, pois visa \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialmente regressiva e politicamente reacion\u00e1ria, com a tomada de todos os espa\u00e7os do Estado. Boaventura de Sousa Santos chama a isso \u2013 as ditaduras modernas do s\u00e9culo XXI \u2014 de &#8216;democracias&#8217; de baixa intensidade.<\/p>\n<p>O primeiro passo \u00e9 a demoniza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica. J\u00e1 foi atingido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O N\u00e3o cont\u00e9m o Sim. O que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel diz o que \u00e9 desejado, identificar o advers\u00e1rio \u00e9 meio caminho andado para a nomea\u00e7\u00e3o dos aliados e servidores. 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