{"id":113207,"date":"2016-02-20T15:26:44","date_gmt":"2016-02-20T18:26:44","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=113207"},"modified":"2016-02-20T15:26:44","modified_gmt":"2016-02-20T18:26:44","slug":"nos-mulheres-negras-queremos-o-fim-da-globeleza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/nos-mulheres-negras-queremos-o-fim-da-globeleza\/","title":{"rendered":"N\u00f3s, mulheres negras, queremos o fim da Globeleza"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"bigtitle\" style=\"text-align: justify;\" data-section=\"\"><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><time class=\"time d-b\" datetime=\"2016-02-20BRST16:02\">Djamila Ribeiro e Stephanie Ribeiro\u00a0<\/time><\/p>\n<div class=\"subtitle\" style=\"text-align: justify;\"><em><strong>\u00c9 necess\u00e1rio entender o porqu\u00ea de se criticar a Globeleza. N\u00e3o \u00e9 pela nudez em si, tampouco por quem desempenha esse papel. \u00c9 por conta do confinamento das mulheres negras a lugares espec\u00edficos<\/strong><\/em><\/div>\n<div class=\"descript\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00a0Mulata Globeleza n\u00e3o \u00e9 um evento cultural natural, mas uma performance que invade o im\u00e1gin\u00e1rio e as televis\u00f5es brasileiras na \u00e9poca do Carnaval. Um espet\u00e1culo criado pelo diretor de arte Hans Donner para ser o s\u00edmbolo da festa popular, que exibiu durante 13 anos sua companheira Val\u00e9ria Valenssa na fun\u00e7\u00e3o superexpositiva de \u201cmulata\u201d. Desde a\u00a0d\u00e9cada de 1990 a personagem\u00a0segue \u00e0 risca o mesmo roteiro: \u00e9 sempre uma mulher negra que samba como uma passista, nua com o corpo pintado de purpurina, ao som da vinheta exibida ao longo da programa\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da Rede Globo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/globeleza.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nNayara Justino, a Globeleza rejeitada pela Globo por ser \u201cescura demais\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para come\u00e7ar o debate em torno dessa personagem, precisamos identificar o problema contido no termo \u201cmulata\u201d. A palavra de origem espanhola vem de \u201cmula\u201d ou \u201cmulo\u201d: aquilo que \u00e9 origin\u00e1rio do cruzamento entre esp\u00e9cies. Mulas s\u00e3o animais nascidos do cruzamento dos jumentos com \u00e9guas ou dos cavalos com jumentas.\u00a0Trata-se de uma palavra pejorativa que indica mesti\u00e7agem, impureza. Mistura impr\u00f3pria que n\u00e3o deveria existir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Empregado desde o per\u00edodo colonial, o termo era usado para designar negros de pele mais clara, frutos do estupro de escravas pelos senhores de engenho. Tal nomenclatura tem cunho machista e racista e foi transferido \u00e0 personagem globeleza, naturalizado. \u00c9\u00a0uma mem\u00f3ria triste dos 354 anos de escravid\u00e3o negra no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mulher negra exposta como Globeleza segue, inclusive, um padr\u00e3o de sele\u00e7\u00e3o est\u00e9tica pr\u00f3xima ao feito pelos senhores de engenho ao escolher as mulheres escravizadas que queriam perto de si. As escravas consideradas \u201cbonitas\u201d eram escolhidas para trabalhar na casa-grande. Da mesma forma, eram selecionadas as futuras v\u00edtimas de ass\u00e9dio, intimida\u00e7\u00e3o e estupro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o per\u00edodo colonial, mulheres negras s\u00e3o estereotipadas como sendo \u201cquentes\u201d, naturalmente sensuais, sedutoras de homens. Essas classifica\u00e7\u00f5es, vistas a partir do olhar do colonizador, romantizam o fato de que essas mulheres estavam na condi\u00e7\u00e3o de escravas e, portanto, eram estupradas e violentadas, ou seja, sua vontade n\u00e3o existia perante seus \u201csenhores\u201d.<\/p>\n<div class=\"ads-middle ta-c\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"banner-468x60\" class=\"tm-ads\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veja s\u00f3 como isso \u00e9 verdade: em 2015, a Globo trocou a Globeleza Nayara Justino, eleita por voto popular no programa Fant\u00e1stico, por uma de pele mais clara, a atual Globeleza \u00c9rika Moura, escolhida internamente, j\u00e1 que a primeira \u201cn\u00e3o teria se alinhado \u00e0 proposta\u201d, segundo eles. Reafirmando \u201co paladar\u201d euroc\u00eantrico de escolher a mulher negra apta para ser exposta como objeto sexual. Em outras palavras, pautados por racismo e machismo (de forma velada para alguns, para n\u00f3s, muito evidente) selecionam quais padr\u00f5es de negras v\u00e3o explorar em suas vinhetas seguindo crit\u00e9rios de pele mais clara, tra\u00e7os considerados mais finos e corpo mais esbelto, por\u00e9m voluptuoso e luxurioso \u201ctipo exporta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Facebook<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/10622907_878351965520423_1663780557020271363_n.png\" alt=\"\" \/><br \/>\n\u00c9rika Moura est\u00e1 como Globeleza desde 2015<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um exemplo dos estigmas que est\u00e3o colocados sobre os corpos das mulheres negras, e demonstra como funciona a imposi\u00e7\u00e3o do lugar que devemos ocupar, \u00e9 o caso da V\u00eanus Hotentote. Seu nome original \u00e9 <a href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/blog\/samuel\/bide\/ines-brasil-sarah-baartman\/\" target=\"_blank\">Sarah Baartman<\/a>. Nascida em 1789 na regi\u00e3o da \u00c1frica do Sul, ela foi levada, no in\u00edcio do s\u00e9culo 19, para a Europa. Sarah Baartman deu um corpo \u00e0 teoria racista. Ela foi exibida em jaulas, sal\u00f5es e picadeiros por conta de sua anatomia considerada \u201cgrotesca, b\u00e1rbara, ex\u00f3tica\u201d: n\u00e1degas volumosas e genit\u00e1lia com grandes l\u00e1bios (uma caracteristica presente nas mulheres do seu povo, os khoi-san). Seu corpo foi colocado entre a fronteira do que seria uma mulher negra anormal e uma mulher branca normal, a primeira considerada selvagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria de Baartman se passou h\u00e1 s\u00e9culos, mas esse estigma ainda hoje recai sobre n\u00f3s, negras. Atualmente vemos um canal influente como a Rede Globo que, por quase 30 anos, exp\u00f5e mulheres negras nuas a qualquer hora do dia ou da noite no per\u00edodo de Carnaval, negando-se a nos representar para al\u00e9m desse lugar de explora\u00e7\u00e3o dos nossos corpos no resto de todo o ano. Quantas mulheres negras vemos como atrizes, apresentadoras, rep\u00f3rteres nas grades das grandes emissoras?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 necess\u00e1rio entender o porqu\u00ea de se criticar a Globeleza. N\u00e3o \u00e9 pela nudez em si, tampouco por quem desempenha esse papel. N\u00e3o temos problema algum com a sensualidade, o problema \u00e9 somente nos confinar a esses lugares negando nossa humanidade, multiplicidade e complexidade. Quando reduzimos seres humanos somente a determinados pap\u00e9is e lugares, se est\u00e1 retirando nossa humanidade e nos transformando em objetos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o somos protagonistas das novelas \u2014 n\u00e3o somos as mocinhas nem as vil\u00e3s, no m\u00e1ximo as empregadas que servem de mera ambienta\u00e7\u00e3o, adere\u00e7o (inclusive apto ao abuso) para a est\u00f3ria do n\u00facleo familiar branco. Basta lembrar do \u00faltimo papel da grande atriz Zez\u00e9 Motta na emissora, onde foi a empregada Sebastiana em Boogie Oggie. Em contrapartida, algumas atrizes como Ta\u00eds Araujo e Camila Pitanga se destacam, mas n\u00e3o podemos fingir que isso n\u00e3o \u00e9 por serem jovens e negras com pele mais clara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Facebook<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/12294789_839157186207494_7702400906241128187_n.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nZez\u00e9 Mota \u00e9 atriz e cantora<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual ser\u00e1 o destino das atuais atrizes negras brasileiras?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez o mesmo das atrizes negras mais velhas e globelezas: o descarte e o esquecimento quando seus corpos n\u00e3o servem mais. A verdade nua e crua \u00e9 que a Globeleza, atualmente, s\u00f3 refor\u00e7a um lugar fatalista, engessado, pr\u00e9-estabelecido para a mulher negra numa sociedade brasileira racista e machista e esse lugar fixo precisa ser rompido, quebrado, come\u00e7ando com o fim desse s\u00edmbolo\/personagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o aceitamos ter nossa identidade e humanidade negadas por quem ainda acredita que nosso \u00fanico lugar \u00e9 aquele ligado \u00e0\u00a0explora\u00e7\u00e3o do nosso corpo. N\u00e3o mais aceitaremos nosso corpo ref\u00e9m da prefer\u00eancia e da vontade de terceiros, para deleite de um p\u00fablico masculino e de uma audi\u00eancia que se despoja do puritanismo hip\u00f3crita apenas no Carnaval. N\u00e3o mais aceitaremos nosso corpo narrado segundo o ponto de vista do eurocentrismo est\u00e9tico, \u00e9tico, cultural, pedag\u00f3gico, hist\u00f3rico e religioso. N\u00e3o mais aceitaremos os grilh\u00f5es da m\u00eddia sobre nosso corpo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 necess\u00e1rio sair do senso comum, romper com o mito da democracia racial que camufla o racismo latente dessa sociedade. N\u00e3o podemos mais aceitar que mulheres negras sejam relegadas ao papel da exotiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse Manifesto n\u00e3o s\u00f3 clama pelo fim da Globeleza como nasce da urg\u00eancia e do grito (h\u00e1 muito abafado) pela abertura e incorpora\u00e7\u00e3o de novos pap\u00e9is e espa\u00e7os para mulheres negras no meio art\u00edstico brasileiro. Um novo paradigma precisa despontar no horizonte dos artistas negros sempre t\u00e3o talentosos, por\u00e9m, ainda sem o abra\u00e7o do reconhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/16433546709_9080a5f0cc_b.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nViola Davis, ao receber o Emmy<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que falta para mulheres negras, como frisou a americana Viola Davis em seu discurso ap\u00f3s ganhar o Emmy, s\u00e3o oportunidades.\u00a0A constru\u00e7\u00e3o de novos espa\u00e7os j\u00e1 vem sendo feita de forma \u00e1rdua na sociedade real, nas classes pobres, nos coletivos organizados, na juventude perif\u00e9rica, estudantil e trabalhadora onde negras s\u00e3o maioria entre as adeptas de programas como Prouni, ou j\u00e1 s\u00e3o cotistas nas universidades. Entretanto, esse novo lugar ainda n\u00e3o \u00e9 refletido na m\u00eddia, ao menos n\u00e3o da forma mais fidedigna e verossimilhante poss\u00edvel. Fica evidente que n\u00e3o h\u00e1 interesse em nos representar tal qual somos. Parecemos um inc\u00f4modo e as poucas vozes negras de destaque s\u00e3o maquiadas, interrompidas ou roteirizadas a fim de amenizar nossa realidade e quando n\u00e3o, glamourizar a favela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o podemos mais naturalizar essas viol\u00eancias escamoteadas de cultura. A cultura \u00e9 constru\u00edda, portanto, os valores dela tamb\u00e9m o s\u00e3o. \u00c9 preciso perceber o quanto a reifica\u00e7\u00e3o desses pap\u00e9is sulbalternos e exotificados para negras nega oportunidades para n\u00f3s desempenharmos outros pap\u00e9is e ocuparmos outros lugares. N\u00e3o queremos protagonizar o imagin\u00e1rio do gringo que vem em busca de turismo sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Basta! J\u00e1 passou da hora!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Publicado originalmente no site <a href=\"http:\/\/azmina.com.br\/2016\/01\/nao-queremos-mais-protagonizar-o-imaginario-de-quem-busca-turismo-sexual\/\" target=\"_blank\">Revista AzMina<\/a><\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o podemos mais naturalizar essas viol\u00eancias escamoteadas de cultura. 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