{"id":12334,"date":"2013-08-26T08:47:48","date_gmt":"2013-08-26T11:47:48","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=12334"},"modified":"2013-08-26T08:51:12","modified_gmt":"2013-08-26T11:51:12","slug":"anuidade-da-oab-sp-e-a-mais-barata-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/anuidade-da-oab-sp-e-a-mais-barata-do-brasil\/","title":{"rendered":"&#8220;Anuidade da OAB-SP \u00e9 a mais barata do Brasil&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Numa tarde de 1936 um grupo de advogados que caminhava pela Vila Mariana, Zona Sul da capital paulista, encontrou uma casa com apar\u00eancia de abandonada. Dentro do pr\u00e9dio, encontraram um homem em situa\u00e7\u00e3o de completa mis\u00e9ria: sem roupas para se aquecer, sem comida ou sem estrutura m\u00ednima de subsist\u00eancia.<\/p>\n<p>O que mais chocou os advogados foi a constata\u00e7\u00e3o de que o homem era um colega de profiss\u00e3o e enfrentava uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o distante da deles. A realidade brasileira ainda era a de que s\u00f3 existiam tr\u00eas profiss\u00f5es para um homem com estudos: m\u00e9dico, advogado ou engenheiro. Era o pa\u00eds dos bachar\u00e9is. O epis\u00f3dio foi a fagulha para que criassem as caixas de assist\u00eancia dos advogados.<\/p>\n<p>O Brasil daquela \u00e9poca era outro. Em 1935, segundo levantamento hist\u00f3rico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), a popula\u00e7\u00e3o total do pa\u00eds era de 41,5 milh\u00f5es de pessoas. Pouco mais de um quinto da popula\u00e7\u00e3o atual, de 195 milh\u00f5es, de acordo com o que o IBGE registrou no \u00faltimo Censo, em 2011.<\/p>\n<p>No dia 11 de agosto de 1942, veio a primeira lei criando a Caixa de Assist\u00eancia do Advogado, vinculadas ao Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, que era o respons\u00e1vel por autorizar ou n\u00e3o a concess\u00e3o de benef\u00edcios. \u201cEssa fun\u00e7\u00e3o assistencial \u00e9 a finalidade primordial da caixa de assist\u00eancia at\u00e9 hoje\u201d, resume o advogado F\u00e1bio Romeu Canton Filho, presidente da Caixa de Assist\u00eancia ao Advogado de S\u00e3o Paulo, a Caasp.<\/p>\n<p>Hoje as caixas de assist\u00eancia seguem a organiza\u00e7\u00e3o das seccionais da Ordem, sendo a de S\u00e3o Paulo a maior delas. O estado tem 330 mil advogados inscritos na OAB, dos quais se calcula que 260 mil estejam ativos. A Caasp, segundo a conta de F\u00e1bio Canton, tem 3 mil beneficiados por programas de assist\u00eancia direta. Nesse rol entram os que participam de programas de transfer\u00eancia direta de renda e os que recebem benef\u00edcios como rem\u00e9dios, ou ajuda de custo em tratamentos de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 revista Consultor Jur\u00eddico, Canton explicou a fun\u00e7\u00e3o essencial da Caasp e das caixas de assist\u00eancia e tamb\u00e9m deixou claro para que elas n\u00e3o servem. A finalidade da caixa, afirma, \u00e9 prestar assist\u00eancia para o advogado em necessidade. A partir da\u00ed \u00e9 que as outras a\u00e7\u00f5es se desenrolam. Hoje a Caasp tem farm\u00e1cias pr\u00f3prias, que vendem rem\u00e9dios com desconto; parcerias com operadoras de planos de sa\u00fade, que vendem pacotes com descontos para advogados; acordos com montadoras de autom\u00f3veis e cursos de l\u00ednguas para venda de pacotes mais baratos; e, talvez o maior sucesso, as livrarias que vendem t\u00edtulos jur\u00eddicos a pre\u00e7o de custo. Esse desconto varia de 25% a 40% em cima o pre\u00e7o \u201cnormal\u201d dos livros.<\/p>\n<p>Trata-se de um gigante. Consome 20% da receita total da OAB \u2014 que em 2012 foi de R$ 300 milh\u00f5es \u2014 e tem em sua folha de pagamento 800 pessoas contratadas em regime CLT.<\/p>\n<p>Canton \u00e9 conhecido dos quadros da Ordem, j\u00e1 foi conselheiro seccional, presidente do Tribunal de \u00c9tica e Disciplina, coordenador da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos e j\u00e1 integrou a Comiss\u00e3o Mista TJ-SP\/OAB-SP para Assuntos Institucionais. Seu nome tamb\u00e9m despontou quando houve a onda de invas\u00f5es a escrit\u00f3rios de advocacia pela Pol\u00edcia Federal, em 2005. Ele foi um dos que elaborou o Mandado de Seguran\u00e7a impetrado no STJ que resultou na condena\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica. Canton garante que sua veia pol\u00edtica n\u00e3o contamina as atividades da entidade que preside: \u201cPosso falar com tranquilidade que a Caasp \u00e9 o bra\u00e7o assistencial da OAB\u201d.<\/p>\n<p>Leia a entrevista:<\/p>\n<p>Revista Consultor Jur\u00eddico \u2014 Essa \u00e9 sua segunda gest\u00e3o \u00e0 frente da Caasp. O que se pode considerar que foi completamente mantido e o que foi contribui\u00e7\u00e3o do senhor?<br \/>\nF\u00e1bio Romeu Canton \u2014 A Caixa, que tem vi\u00e9s assistencial, presta uma s\u00e9rie de benef\u00edcios para a advocacia. O que tem a fazer \u00e9 aprimorar cada vez mais. S\u00e3o benef\u00edcios estatut\u00e1rios, n\u00e3o tem como mudar muito, s\u00f3 incrementar, melhorar, agilizar os processos de concess\u00e3o de benef\u00edcios. Mas tivemos um grande salto na \u00e1rea de servi\u00e7os, de campanhas de sa\u00fade que j\u00e1 existiam, mas que cresceram muito nos \u00faltimos anos. Para que se tenha uma ideia, n\u00f3s fazemos sete campanhas de sa\u00fade anuais. Melhoramos muito a \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o. Uma das medidas que come\u00e7amos na gest\u00e3o passada e continuamos na atual \u00e9 a descentraliza\u00e7\u00e3o da Caixa. S\u00e3o 225 subse\u00e7\u00f5es da Ordem em todo o estado, e a Caixa est\u00e1 presente em todas elas. Com isso, naturalmente a gente consegue uma aproxima\u00e7\u00e3o maior das caixas de assist\u00eancia com o advogado.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 A Caixa de Assist\u00eancia do Rio de Janeiro costuma ter uma atua\u00e7\u00e3o um pouco mais pol\u00edtica. Durante as manifesta\u00e7\u00f5es de junho, por exemplo, cedeu a sede para os advogados se reunirem, pagou custas judiciais de quem entrasse com HC etc. A Caixa de S\u00e3o Paulo costuma agir assim?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 Deixa eu explicar uma coisa: a Caixa de S\u00e3o Paulo \u00e9 modelo no Brasil todo. O enfoque, e essa \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o da diretoria e minha tamb\u00e9m, \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o essencialmente no sentido de prestar os servi\u00e7os que ela tem por obriga\u00e7\u00e3o, inclusive legal, de prestar, que s\u00e3o as quest\u00f5es de assist\u00eancia. Isso evidentemente n\u00e3o deixa a Caixa alheia \u00e0s quest\u00f5es cotidianas, inclusive pol\u00edticas, que est\u00e3o acontecendo. Tanto assim que o meu editorial no Jornal do Advogadode julho trata dessa quest\u00e3o, do renascimento do Brasil, abordando exatamente as manifesta\u00e7\u00f5es de rua. Agora, veja: cada Caixa tem liberdade de dar a sua orienta\u00e7\u00e3o na administra\u00e7\u00e3o e nas coisas que quer fazer. Em S\u00e3o Paulo, temos uma OAB extremamente atuante nas quest\u00f5es institucionais, sociais, ligadas \u00e0 pol\u00edtica. \u00c9 dever da Ordem, at\u00e9 por for\u00e7a constitucional, cuidar do Estado Democr\u00e1tico de Direito e da aplica\u00e7\u00e3o das leis. Por isso \u00e9 que a OAB n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 corporativa, mas trata tamb\u00e9m de quest\u00f5es institucionais abertas, de pol\u00edticas relativas \u00e0 sociedade de um modo geral.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 Ou seja, a atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o tem a ver com a finalidade da Caixa.<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 N\u00e3o me parece que seria o caminho na Caixa de S\u00e3o Paulo desviar recursos da assist\u00eancia para quest\u00f5es de manifesta\u00e7\u00e3o. A OAB j\u00e1 tem, permanentemente, se posicionado de forma muito firme, muito pontual, por meio do nosso presidente Marcos da Costa, no que diz respeito \u00e0s quest\u00f5es pol\u00edticas ligadas \u00e0 classe, o que me parece bastante mais adequado. E n\u00e3o obstante a Caixa tamb\u00e9m se manifesta sobre essas quest\u00f5es. Mas a a\u00e7\u00e3o direta nas quest\u00f5es pol\u00edticas me parece bastante adequado que fiquem por conta da OAB, como tem sido ao longo de sua hist\u00f3ria: a Caixa voltada aos benef\u00edcios e a OAB, a quest\u00f5es outras.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 A Caixa do Rio \u00e9 que se desviou?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 Cada caixa tem a sua independ\u00eancia de a\u00e7\u00e3o e manifesta\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o \u00e9, evidentemente, uma cr\u00edtica ao Rio de Janeiro. Nem sei como foi feito no Rio de Janeiro, mas \u00e9 o modo de pensar de S\u00e3o Paulo: o dinheiro da assist\u00eancia deve ser destinado exclusivamente a essa finalidade. At\u00e9 porque a Caasp n\u00e3o foi solicitada, mas se houvesse solicita\u00e7\u00e3o da OAB ou da advocacia com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o f\u00edsico da Caixa, seria outra coisa.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 A Caixa de S\u00e3o Paulo nunca teve esse vi\u00e9s pol\u00edtico?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 N\u00e3o. A Caasp \u00e9 o bra\u00e7o assistencial da Ordem. Posso falar com tranquilidade. Quando houve a onda de invas\u00f5es a escrit\u00f3rios de advocacia em 2005, a OAB de S\u00e3o Paulo, na \u00e9poca presidida pelo [Luiz Fl\u00e1vio Borges] D\u2019Urso, elaborou um Mandado de Seguran\u00e7a que foi despachado com o presidente do STJ, com o procurador-geral da Rep\u00fablica. Esse Mandado de Seguran\u00e7a foi feito em conjunto pelo D\u2019Urso, pelo [Rubens] Approbato [ent\u00e3o presidente do Conselho Federal], pelo Marcos da Costa, ent\u00e3o tesoureiro, hoje presidente, por mim e pelo professor Vicente Greco Filho. Eu, na OAB propriamente dita, sempre tive atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e gosto disso, mas a miss\u00e3o da Caixa \u00e9 outra. Sou muito atento \u00e0s quest\u00f5es pol\u00edticas e me manifesto sempre que acho pertinente. A manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 um dever n\u00e3o s\u00f3 do advogado, mas de todo e qualquer cidad\u00e3o. Mas a atua\u00e7\u00e3o espec\u00edfica da Caixa \u00e9 uma e a atua\u00e7\u00e3o espec\u00edfica da OAB \u00e9 outra, que envolve tamb\u00e9m a Caixa.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 Para que serve uma caixa de assist\u00eancia de advogados?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 A fun\u00e7\u00e3o primordial \u00e9 mesmo dar assist\u00eancia ao advogado, o que parece \u00f3bvio, at\u00e9 por causa do nome. Mas para responder \u00e0 pergunta preciso trazer um pouco da hist\u00f3ria das caixas de assist\u00eancia. Em S\u00e3o Paulo, a Caixa foi criada em 1936. Um grupo de advogados descobriu, em uma casa abandonada na Vila Mariana, um homem tamb\u00e9m abandonado, sem roupa, sem comer, sem condi\u00e7\u00f5es dignas. E descobriram que aquele homem era advogado. Isso era uma coisa inimagin\u00e1vel para a \u00e9poca: em pleno pa\u00eds dos bachar\u00e9is, um advogado se encontrar em situa\u00e7\u00e3o de tamanha mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 E a\u00ed tiveram a ideia de criar uma caixa de assist\u00eancia?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 Essa \u00e9 a origem primeira da Caixa de Assist\u00eancia no estado de S\u00e3o Paulo. A assist\u00eancia pura para assistir advogado carente \u00e9 at\u00e9 hoje a sua voca\u00e7\u00e3o estatut\u00e1ria, a sua voca\u00e7\u00e3o primeira. Hoje temos uma s\u00e9rie de outros segmentos em fun\u00e7\u00e3o da modernidade, do gigantismo que assumiu a advocacia de S\u00e3o Paulo. Mas a caixa ainda \u00e9 essencialmente uma entidade de assist\u00eancia. Temos, por exemplo, um aux\u00edlio mensal para o advogado que est\u00e1 em estado extremo de car\u00eancia, ou para o que tenha exerc\u00edcio cont\u00ednuo da advocacia, mas que esteja impedido de exerc\u00ea-la naquele momento por causa de acidente, doen\u00e7a.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 S\u00e3o mecanismos de transfer\u00eancia de renda?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 Transfer\u00eancia de renda. Tem aux\u00edlio medicamento para o advogado doente, aux\u00edlio extraordin\u00e1rio se o advogado precisa comprar uma cadeira de rodas, s\u00e3o v\u00e1rias formas de assist\u00eancia. Temos hoje mais de 3 mil advogados atendidos por esse sistema assistencial.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 Esse dinheiro \u00e9 transferido a fundo perdido, ou \u00e9 um empr\u00e9stimo?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 Fundo perdido. \u00c9 transfer\u00eancia de renda mesmo. Pura. A cesta b\u00e1sica tamb\u00e9m faz parte desse rol.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 Como funciona?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 Tem um processo interno, com as c\u00e2maras de benef\u00edcios, formadas por advogados volunt\u00e1rios. Essas c\u00e2maras s\u00e3o grupos de advogados que se re\u00fanem periodicamente para an\u00e1lise da concess\u00e3o desses benef\u00edcios. O advogado carente requer o benef\u00edcio, e n\u00f3s temos um grupo de assistentes sociais que trabalham n\u00e3o s\u00f3 no aux\u00edlio dessa advocacia carente, mas tamb\u00e9m na aferi\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o do advogado. Ent\u00e3o o advogado diz \u201colha, eu estou com um problema de sa\u00fade, estou impedido de trabalhar, vinha exercendo atividade por muitos anos e agora n\u00e3o posso e n\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de me sustentar, estou precisando de um aux\u00edlio\u201d. Esse grupo de advogados se re\u00fane quinzenalmente para analisar os pedidos. Eles analisam a car\u00eancia e a necessidade do advogado, o impedimento para o exerc\u00edcio profissional. O assistente social faz a visita, faz um laudo e entrega \u00e0s c\u00e2maras de benef\u00edcio. No estado de S\u00e3o Paulo inteiro funciona assim. S\u00e3o quase c\u00e2maras previdenci\u00e1rias: s\u00e3o cinco c\u00e2maras, cada uma comandada por um diretor suplente.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 A Caasp se envolve nas quest\u00f5es do processo eletr\u00f4nico?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 A Caixa est\u00e1 junto com a OAB no segmento que lhe compete, ajudando na forma\u00e7\u00e3o do advogado para o processo eletr\u00f4nico, colocando no site o passo a passo etc. Fizemos uma parceria com a Dell, por exemplo, por meio da qual j\u00e1 vendemos mais de 15 mil m\u00e1quinas.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 Computadores para as salas do advogado?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 Para o usu\u00e1rio final. Computadores para escrit\u00f3rios de advocacia, equipamentos com desconto real. A Dell tem o sistema dela de controle de pre\u00e7o, ent\u00e3o ela tem v\u00e1rios tipos de desconto. No caso da advocacia, \u00e9 10% de desconto real em cima do menor pre\u00e7o, incluindo promo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 O TJ de S\u00e3o Paulo tem aquele plano de metas de informatiza\u00e7\u00e3o, mas o que se percebe \u00e9 que a maioria dos advogados n\u00e3o tem equipamentos, nem condi\u00e7\u00f5es de ter, para acompanhar o processo eletr\u00f4nico.<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 Isso \u00e9 uma dificuldade que a advocacia enfrenta. A velocidade que o tribunal quer impor n\u00e3o funciona nem para ele, porque \u00e9 incompat\u00edvel com a perfeita adequa\u00e7\u00e3o do sistema. Al\u00e9m disso, tem a quest\u00e3o da informatiza\u00e7\u00e3o do Judici\u00e1rio estadual, da Justi\u00e7a Federal e da Justi\u00e7a do Trabalho: os sistemas n\u00e3o conversam entre si, os softwares s\u00e3o incompat\u00edveis. \u00c0s vezes voc\u00ea instala\u00a0 no seu escrito\u00f3rio o acesso para o processo digital da Justi\u00e7a do Trabalho, quando vai colocar o da Justi\u00e7a estadual gera uma incompatibilidade. Tem que desinstalar um para instalar o outro, o que \u00e9 uma loucura.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 Chega a ser engra\u00e7ado.<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 Aconteceu no meu escrit\u00f3rio, inclusive. Ent\u00e3o eu n\u00e3o diria nem que a instala\u00e7\u00e3o do processo eletr\u00f4nico deveria ser mais devagar. A Justi\u00e7a estadual est\u00e1 muito atrasada na informatiza\u00e7\u00e3o, e o processo eletr\u00f4nico pretende uma velocidade internamente que nem o pr\u00f3prio Poder Judici\u00e1rio est\u00e1 preparado para ter. A informatiza\u00e7\u00e3o do Judici\u00e1rio \u00e9 deficit\u00e1ria.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 Houve aumento da demanda pelos servi\u00e7os da Caasp nos \u00faltimos anos?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 Sem d\u00favida nenhuma. Percebo que houve um aumento da procura por causa de uma comunica\u00e7\u00e3o mais efetiva, mas tamb\u00e9m parece que houve conscientiza\u00e7\u00e3o maior do advogado, o que \u00e9 um acerto das \u00faltimas gest\u00f5es da Caasp. E \u00e9 nessa linha que eu in\u00fameras vezes afirmei e continuo afirmando que a anuidade da OAB de S\u00e3o Paulo \u00e9 a mais barata do Brasil.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 Como assim?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 As pessoas reclamam que a anuidade \u00e9 muito cara, porque, sei l\u00e1, os engenheiros pagam s\u00f3 R$ 200 por ano. Mas o que eles t\u00eam em troca? O que a entidade deles oferece? Se o advogado usar s\u00f3 um pouquinho do que a Caixa de Assist\u00eancia oferece, ele j\u00e1 vai ter v\u00e1rias anuidades de volta. Descontos em rem\u00e9dios, em livros, em servi\u00e7os, at\u00e9 em bens de consumo. Temos parcerias com concession\u00e1rias, cinemas. \u00c9 uma s\u00e9rie de benef\u00edcios que o advogado tem ficado mais atento.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 E isso tem a ver com a Caasp ou com o fato de o brasileiro ter descoberto que tem direitos, com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 Talvez de uns 20 anos para c\u00e1, ou talvez com o C\u00f3digo de Defesa do Consumidor, que foi um grande marco. Mas eu acho que o brasileiro ainda \u00e9 muito t\u00edmido no que diz respeito \u00e0 consci\u00eancia de seus direitos e no exerc\u00edcio efetivo desses direitos. Por mais que saiba que tem o direito, n\u00e3o exige, deixa para l\u00e1, esquece. N\u00e3o tenho elementos estat\u00edsticos disso, mas acredito nisso. Est\u00e1 muito melhor do que h\u00e1 20 anos, mas ainda n\u00e3o \u00e9 o ideal.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 A pessoa acha que n\u00e3o vai adiantar e n\u00e3o cobra.<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 Mas adianta! Pode at\u00e9 n\u00e3o adiantar, mas n\u00e3o \u00e9 essa a premissa. Se as pessoas come\u00e7arem a cobrar, dizer \u201cn\u00e3o aceito, isso \u00e9 meu por direito, \u00e9 o meu direito\u201d, os fornecedores de modo geral e em especial o poder p\u00fablico, em todas as esferas, passam a ter outra vis\u00e3o. Passam a falar \u201cn\u00e3o adianta a gente continuar errando nisso, temos de prestar um servi\u00e7o adequado, porque \u00e9 reclama\u00e7\u00e3o em cima de reclama\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o judicial em cima de a\u00e7\u00e3o judicial\u201d. N\u00e3o importa o tempo que vai levar, porque isso \u00e9 o exerc\u00edcio do direito. As pessoas precisam ter essa consci\u00eancia, de que n\u00e3o basta ter o direito, \u00e9 preciso exerc\u00ea-lo.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 As campanhas de sa\u00fade a que o senhor se referiu s\u00e3o campanhas de vacina\u00e7\u00e3o?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 Tamb\u00e9m. Implantamos todas elas na \u00e1rea preventiva. Vacinamos em 2010, 2011 e 2012, 16 mil, 17 mil e 18 mil advogados, respectivamente, o que foi sucessivamente recorde de vacina\u00e7\u00e3o na Caixa. Recorde em cima de recorde. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma coisa provocada. Esse surto de gripe que aconteceu recentemente foi durante uma das nossas campanhas de vacina\u00e7\u00e3o. Nosso enfoque \u00e9 o de uma comunica\u00e7\u00e3o, de uma conscientiza\u00e7\u00e3o maior do advogado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria sa\u00fade. E isso se estende aos dependentes tamb\u00e9m. Temos a campanha da Boa Vis\u00e3o, que \u00e9 para o advogado fazer exames oftalmol\u00f3gico, temos campanhas de fazer exames completos, odontol\u00f3gicos, cardiol\u00f3gicos, que \u00e9 a campanha Pr\u00f3-Vida.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 Essa campanha Pr\u00f3-Vida \u00e9 a que est\u00e1 sendo divulgada agora, certo?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 \u00c9. S\u00e3o exames cardiol\u00f3gicos precoces que podem detectar problemas. \u00c9 uma bateria de exames que no mercado custa entre R$ 1 mil e R$ 2 mil e a gente oferece \u00e0 advocacia por R$ 70. S\u00e3o exames de glicemia, colesterol, triglic\u00e9rides, press\u00e3o, \u00e9 um mini check-up para ver se tem propens\u00e3o a algum problema cardiol\u00f3gico. A partir disso ele vai para exames mais detalhados se houver a necessidade. Quando acontecem os encontros regionais da advocacia levamos o chamado kit fura-dedo, que \u00e9 para medir colesterol, taxas sangu\u00edneas etc. Isso ajuda muito na detec\u00e7\u00e3o precoce de problemas de sa\u00fade. V\u00e1rios casos de Hepatite C foram diagnosticados dessa forma.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 Outra compara\u00e7\u00e3o com o Rio \u00e9 a quest\u00e3o dos planos de sa\u00fade. L\u00e1 a Caarj tinha um programa de plano de sa\u00fade, que quebrou. Como funciona isso aqui?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 L\u00e1 era diferente, tinha o sistema de co-gest\u00e3o, em que a Caarj funcionava praticamente como o pr\u00f3prio plano de sa\u00fade, credenciando m\u00e9dicos e hospitais. Aqui a Caixa disponibiliza planos de sa\u00fade para a advocacia, mas a partir das operadoras de sa\u00fade. Elas oferecem pre\u00e7os diferenciados para advogados e dependentes. Em troca, disponibilizamos a nossa carteira. Mas o tratamento \u00e9 direto com os planos de sa\u00fade. \u00c9 um sistema coletivo por ades\u00e3o. Temos parcerias com Grupo Sul Am\u00e9rica e Unimed.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 De onde vem a receita da Caasp?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 \u00c9 autom\u00e1tico: da anuidade que o advogado paga, 20% v\u00eam para a Caixa e 80% v\u00e3o para os cofres da OAB. Isso significa um or\u00e7amento de entre R$ 40 milh\u00f5es e R$ 50 milh\u00f5es por ano.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 S\u00e3o quantos funcion\u00e1rios?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 S\u00e3o 800 funcion\u00e1rios em folha de pagamento, mais os dez conselheiros e os membros das c\u00e2maras de benef\u00edcios, que s\u00e3o volunt\u00e1rios. E isso consome entre 65% e 70% da receita total da Caixa.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 A Caasp s\u00f3 presta seus benef\u00edcios \u00e0s subse\u00e7\u00f5es em que est\u00e1 presente?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 N\u00e3o, os benef\u00edcios sempre foram prestados, mas agora estamos fisicamente presentes. Estamos em todas as 225 subse\u00e7\u00f5es da OAB, fora a capital. \u00c9 comum o advogado, especialmente o novo advogado, n\u00e3o saber nem que a Caixa existe, ou perguntar como ele faz para ser s\u00f3cio, associado. Quer dizer, \u00e9 uma coisa autom\u00e1tica: ser advogado d\u00e1 direito a usufruir dos benef\u00edcios, que s\u00e3o estatut\u00e1rios. No caso dos livros, por exemplo, podiam comprar pela internet, e agora t\u00eam mais pontos das lojas f\u00edsicas.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 Os livros vendidos pela livraria da Caasp t\u00eam desconto?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 Sem d\u00favida. S\u00e3o livros a pre\u00e7o de custo, a que s\u00f3 o advogado tem direito. E a loja virtual tamb\u00e9m tem o mesmo desconto, s\u00f3 que tem de pagar o frete. Temos hoje 37 livrarias pr\u00f3prias, todas vendendo livros a pre\u00e7o de custo. Entre 2010 e 2012 foram vendidos cerca de 600 mil livros nas livrarias da Caasp. A economia foi de R$ 16 milh\u00f5es. Estamos fazendo agora em agosto uma campanha de dar 50% de desconto nos livros, em cima do pre\u00e7o que j\u00e1 vendemos, que custam de 25% a 40% a menos. Ou seja: o livro \u00e9 vendido a R$ 100 no mercado, mas a Caasp negociou com a editora e o t\u00edtulo \u00e9 vendido a R$ 60. Durante a campanha, o desconto ser\u00e1 em cima dos R$ 60. Esse livro custar\u00e1 R$ 30. \u00c9 um acordo inexistente no mercado. Ano passado fizemos essa campanha. Atendemos 35 mil advogados e foram vendidos 100 mil livros.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 Como a Caasp fica sabendo das demandas dos advogados?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 A Caasp tem um n\u00edvel de excel\u00eancia no que diz respeito \u00e0s informa\u00e7\u00f5es. A Caixa tem hoje informa\u00e7\u00e3o de tudo, funciona como uma empresa, n\u00e3o obstante n\u00e3o ter objetivo de lucro. Ent\u00e3o todo o seu gerenciamento \u00e9 composto por uma estrutura de profissionais, com uma diretoria pol\u00edtica, e s\u00f3 ela, eleita. Ent\u00e3o, para que se tenha uma ideia, hoje eu sei que o advogado foi \u00e0 farm\u00e1cia, quando foi, quem foi, quanto tempo ele ficou l\u00e1, o que ele comprou, quanto ele teve de desconto etc. E isso de forma permanente. Ent\u00e3o h\u00e1 esse controle da demanda nas campanhas de sa\u00fade, em todos os nichos de servi\u00e7os que a Caixa oferece. A gente tem condi\u00e7\u00f5es de planejar bem, com anteced\u00eancia, e tamb\u00e9m corrigir rota no que diz respeito \u00e0 administra\u00e7\u00e3o, porque a gente tem um n\u00edvel de informa\u00e7\u00e3o muito preciso, em tempo real.<\/p>\n<p>ConJur \u2014 Como funcionam as parcerias da Caasp?<br \/>\nF\u00e1bio Canton \u2014 Por exemplo, temos hoje 37 farm\u00e1cias pr\u00f3prias com um movimento brutal. A farm\u00e1cia da sede, eu arriscaria dizer que \u00e9 uma das farm\u00e1cias de maior movimento de S\u00e3o Paulo. Ela recebe diariamente mais de 1,5 mil advogados, serve mais de 2 mil caf\u00e9s por dia. Ent\u00e3o, existe uma reciprocidade comercial, embora n\u00e3o seja esse o objetivo. Os laborat\u00f3rios, por exemplo, fornecem para n\u00f3s, t\u00eam interesse em campanhas institucionais, em divulgar o nome. N\u00e3o \u00e9 uma troca \u201cme d\u00e1 isso que eu lhe dou aquilo\u201d, n\u00e3o \u00e9 isso. \u00c9 muito mais no plano institucional. \u00c0s vezes a gente consegue em uma parceria mais agressiva, como a atual, em que forneceremos 1,6 mil medicamentos com 80% de desconto. Tamb\u00e9m temos 37 livrarias pr\u00f3prias, vendendo livros a pre\u00e7o de custo. (Pedro Can\u00e1rio)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa tarde de 1936 um grupo de advogados que caminhava pela Vila Mariana, Zona Sul da capital paulista, encontrou uma casa com apar\u00eancia de abandonada. Dentro do pr\u00e9dio, encontraram um homem em situa\u00e7\u00e3o de completa mis\u00e9ria: sem roupas para se aquecer, sem comida ou sem estrutura m\u00ednima de subsist\u00eancia. 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