{"id":125068,"date":"2016-04-22T00:04:12","date_gmt":"2016-04-22T03:04:12","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=125068"},"modified":"2016-04-21T16:38:13","modified_gmt":"2016-04-21T19:38:13","slug":"muitos-perderam-a-vida-por-nada-diz-ex-guerrilheira-que-esteve-presa-com-dilma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/muitos-perderam-a-vida-por-nada-diz-ex-guerrilheira-que-esteve-presa-com-dilma\/","title":{"rendered":"&#8216;Muitos perderam a vida por nada&#8217;, diz ex-guerrilheira que esteve presa com Dilma"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Fernanda Nidecker<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption body-narrow-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/ws\/304\/amz\/worldservice\/live\/assets\/images\/2014\/04\/01\/140401081833_iza_salles_atual_304x304_arquivopessoal_nocredit.jpg\" alt=\"A jornalista Iza Salles, em imagem atual (Arquivo pessoal)\" width=\"304\" height=\"304\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Iza Salles: &#8216;Durante muito tempo evitei pensar nesse per\u00edodo porque d\u00f3i muito&#8217;<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Horas depois de ser presa e torturada na sede carioca do DOI-CODI, um dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o mais temidos da ditadura, a jornalista Iza Salles conheceu um anjo em forma de monstro.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma noite inteira de choques el\u00e9tricos, ela foi deixada sobre um colch\u00e3o cheio de buracos e percevejos na sala de tortura porque j\u00e1 n\u00e3o havia lugar nas outras celas.<\/p>\n<p>Quando tentava pegar no sono, ouviu passos no escuro vindo do corredor. Certa de que n\u00e3o escaparia de um estupro ou da morte, fechou os olhos e come\u00e7ou a rezar.<\/p>\n<p>Foi quando um soldado alto, de fei\u00e7\u00f5es &#8220;amedrontadoras&#8221; \u2013 com manchas escuras por todo o rosto &#8211; se aproximou e lhe pediu seu cinto.<\/p>\n<p>Apavorada, ela obedeceu, sem entender de imediato que, ao se apoderar do acess\u00f3rio, aquele soldado com &#8220;cara de monstro&#8221; queria evitar que ela tentasse se enforcar em um momento de desespero.<\/p>\n<p>Ainda com a respira\u00e7\u00e3o ofegante, Iza ouviu o homem dizer &#8220;calma, calma&#8221;. E essa palavra foi repetida pelo mesmo soldado todas as vezes em que ele se aproximou dela naquela noite fria de junho de 1970.<\/p>\n<p>S\u00e3o lembran\u00e7as como essa que Iza tenta se apegar para n\u00e3o sofrer demais quando se recorda dos sete meses em que ficou presa no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Ela diz que conceder a entrevista \u00e0 BBC Brasil lhe obrigou a fazer uma viagem dif\u00edcil.<\/p>\n<p>&#8220;Durante muito tempo evitei pensar nesse per\u00edodo porque d\u00f3i muito. E hoje, com a idade, fico emocionada&#8221;, diz ela pelo telefone com a voz embargada.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Ana, Maria, Darci<\/h2>\n<p>Atualmente com 75 anos, Iza Salles foi integrante, no final dos anos 60, da Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR), um grupo de guerrilha de extrema-esquerda que tinha como um de seus comandantes o capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito Carlos Lamarca, que desertara.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption body-narrow-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/ws\/304\/amz\/worldservice\/live\/assets\/images\/2014\/04\/01\/140401085150_capa_pasquim_304x304_arquivopessoal_nocredit.jpg\" alt=\"Capa de edi\u00e7\u00e3o do 'Pasquim' (Arquivo pessoal)\" width=\"304\" height=\"304\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">N\u00famero de o &#8216;Pasquim&#8217; editado por Iza Salles faz coment\u00e1rio ir\u00f4nico sobre pris\u00f5es e censura<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>O grupo realizou assaltos a bancos para financiar suas a\u00e7\u00f5es e montou um foco guerrilheiro na regi\u00e3o do Vale do Ribeira, no Estado de S\u00e3o Paulo. Tamb\u00e9m esteve por tr\u00e1s do sequestro do embaixador su\u00ed\u00e7o Giovanni Bucher no Rio de Janeiro, em 1970, que foi &#8220;trocado&#8221; pela liberta\u00e7\u00e3o de 70 presos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>A jornalista era do setor de intelig\u00eancia da VPR. Editora do Segundo Caderno do jornal <i>Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/i>, ela ficava encarregada de passar \u00e0 guerrilha informa\u00e7\u00f5es de bastidores sobre o governo militar.<\/p>\n<p>E se envolvia em a\u00e7\u00f5es mais arriscadas, como transportar dirigentes importantes da guerrilha do Rio para S\u00e3o Paulo. Entre 1967 e 1970, atendia pelos codinomes de Ana, Maria e Darci.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Tarefas&#8217; de Paris<\/h2>\n<p>Seu interesse por pol\u00edtica come\u00e7ou ainda no governo Jo\u00e3o Goulart, quando participava de manifesta\u00e7\u00f5es e reuni\u00f5es estudantis. Mas foi a partir de 1966, quando ganhou uma bolsa para estudar na Universidade de Sorbonne, na Fran\u00e7a, que passou a ter um envolvimento direto com a resist\u00eancia \u00e0 ditadura.<\/p>\n<p>Em Paris, ela frequentava reuni\u00f5es organizadas por exilados para debater planos para derrubar os militares. Um desses exilados era Jos\u00e9 Maria Crispim, militante comunista e deputado da Assembleia Constituinte em 1946. Crispim promovia encontros entre exilados e estudantes brasileiros que, posteriormente, retornavam ao Brasil com &#8220;tarefas&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A gente voltava carregando na mala mensagens cifradas para companheiros e, principalmente, manifestos&#8221;, relembra.<\/p>\n<p>Iza voltou ao Brasil no final de 67 como membro do Movimento Nacionalista Revolucion\u00e1rio, fundado por sargentos rebelados, e que depois se transformou na VPR.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 1970, o cerco come\u00e7ou a se fechar. Alguns de seus companheiros come\u00e7avam a faltar a encontros marcados nos &#8220;pontos&#8221; clandestinos, sinal de que haviam &#8220;ca\u00eddo&#8221;.<\/p>\n<p>Em uma dessas ocasi\u00f5es, ela recebeu um recado para &#8220;desaparecer&#8221; e entrar na clandestinidade. A partir da\u00ed, viveu escondida na casa de amigos at\u00e9 que decidiu fugir do pa\u00eds. Marcou uma passagem para a Fran\u00e7a, em 23 de junho, mesmo dia em que a sele\u00e7\u00e3o tricampe\u00e3 voltaria do M\u00e9xico.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption body-narrow-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/ws\/304\/amz\/worldservice\/live\/assets\/images\/2014\/04\/01\/140401082127_iza_salles_arquivo_304x304_arquivopessoal_nocredit.jpg\" alt=\"A jornalista Iza Salles, em imagem do per\u00eddo do regime militar (Arquivo pessoal)\" width=\"304\" height=\"304\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Iza Salles foi detida junto com a ent\u00e3o guerrilheira Dilma Rousseff<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Sua esperan\u00e7a era de que passaria despercebida pelos militares diante da euforia pela chegada dos jogadores. Ledo engano. Assim que saiu do campo de vis\u00e3o de sua fam\u00edlia, que compareceu em peso ao Gale\u00e3o para proteg\u00ea-la, sentiu seus p\u00e9s suspensos no ar.<\/p>\n<p>&#8220;Dois brutamontes&#8221; pegaram-na pelos bra\u00e7os e, jogada no banco de tr\u00e1s de um carro, foi conduzida \u00e0 sede do DOI-CODI, na rua Bar\u00e3o de Mesquita, zona norte do Rio.<\/p>\n<p>Transferida um dia depois para a Vila Militar, em Deodoro, zona Oeste da cidade, ela saiu da cela pela primeira vez em 18 de julho, dia de seu anivers\u00e1rio, quando ganhou &#8220;de presente&#8221; um banho de sol.<\/p>\n<p>Poucas semanas depois, a jornalista foi levada para S\u00e3o Paulo, onde respondia a um processo por ter levado um dirigente da VPR ao Estado.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Torre das donzelas<\/h2>\n<p>Na &#8220;Torre das Donzelas&#8221; do Pres\u00eddio Tiradentes, hoje demolido, Iza ficou detida com dezenas de outras presas pol\u00edticas, entre elas a presidente Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>&#8220;Lembro que ela ficava sempre muito recolhida, triste. Das (militantes) que estavam ali, ela era a presidente improv\u00e1vel, n\u00e3o se destacava ou mostrava lideran\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>Iza e as companheiras passavam o tempo fazendo tric\u00f4 ou jogando v\u00f4lei &#8220;para descarregar a raiva&#8221;. Ao contr\u00e1rio do que se poderia imaginar dos carcereiros, muitos eram &#8220;generosos&#8221; e jogavam balas pelas grades das celas ou colocavam m\u00fasica alto do lado de fora para que as presas ouvissem.<\/p>\n<p>A liberdade &#8211; que em seus sonhos na pris\u00e3o ca\u00eda do c\u00e9u em forma de bombom de chocolate &#8211; s\u00f3 viria no final de 70.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed ela abandonou a luta armada e passou a optar por uma milit\u00e2ncia mais &#8220;consequente&#8221;, passando a colaborar com os jornais de resist\u00eancia <i>Opini\u00e3o<\/i> e <i>O Pasquim<\/i> &#8211; tendo sido a \u00fanica jornalista mulher a editar este \u00faltimo.<\/p>\n<p>&#8220;Foi a \u00fanica forma de continuar na luta&#8221;, diz Iza, que no <i>Pasquim<\/i> assinava como Iza Freaza.<\/p>\n<p>Junto com Jaguar, Ziraldo, entre outros, ela comandou algumas das entrevistas mais c\u00e9lebres do seman\u00e1rio, entre as quais a do ex-presidente J\u00e2nio Quadros.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Revendo a luta armada<\/h2>\n<p>Em 1977, ela partiu para uma segunda temporada de estudos na Fran\u00e7a. A anistia parcial, dois anos depois, n\u00e3o foi suficiente para traz\u00ea-la de volta, o que aconteceria somente em 1984.<\/p>\n<p>&#8220;A luta armada foi a estrat\u00e9gia certa? Voc\u00ea faria tudo de novo?&#8221;, pergunto-lhe.<\/p>\n<p>&#8220;Com a cabe\u00e7a que tenho hoje, n\u00e3o. Terminamos derrotados, muitos de n\u00f3s perderam a vida por nada&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 hoje n\u00e3o fizeram a reflex\u00e3o de que preg\u00e1vamos uma ditadura de esquerda &#8211; que s\u00e3o terr\u00edveis. Muitos n\u00e3o queriam ver as den\u00fancias que vinham da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica sobre persegui\u00e7\u00f5es e mortes.&#8221;<\/p>\n<p>Foi esta reflex\u00e3o sobre o comunismo que lhe inspirou a escrever o livro <i>Um Cad\u00e1ver ao Sol<\/i>, que relata, segundo ela, como a ditadura comunista pode conduzir \u00e0 &#8220;autodestrui\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A democracia ainda \u00e9 o caminho para construir vielas de idealiza\u00e7\u00e3o. Pode n\u00e3o ser perfeito, mas \u00e9 a melhor forma de governo&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sua esperan\u00e7a era de que passaria despercebida pelos militares diante da euforia pela chegada dos jogadores. Ledo engano. 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