{"id":127715,"date":"2016-05-08T12:17:49","date_gmt":"2016-05-08T15:17:49","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=127715"},"modified":"2016-05-08T12:17:49","modified_gmt":"2016-05-08T15:17:49","slug":"os-dramas-desafios-e-sonhos-das-maes-de-bebes-com-microcefalia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/os-dramas-desafios-e-sonhos-das-maes-de-bebes-com-microcefalia\/","title":{"rendered":"Os dramas, desafios e sonhos das m\u00e3es de beb\u00eas com microcefalia"},"content":{"rendered":"<h2><\/h2>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"\" src=\"http:\/\/www.brasil247.com\/images\/cache\/1000x357\/crop\/images%7Ccms-image-000496112.jpg\" alt=\": \" width=\"1000\" height=\"357\" data-src-a=\"\/images\/cache\/480x240\/crop\/images%7Ccms-image-000496111.jpg\" data-src-b=\"\/images\/cache\/490x280\/crop\/images%7Ccms-image-000496111.jpg\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sumaia Villela<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Protagonistas de um drama nacional, m\u00e3es de uma gera\u00e7\u00e3o que carregar\u00e3o a marca de uma epidemia ainda a ser plenamente descoberta, as mulheres que deram a luz a beb\u00eas com microcefalia passam a viver, desde o diagn\u00f3stico, quase que exclusivamente para os filhos. Abandonam o trabalho, estudos, enfrentam deslocamentos di\u00e1rios de muitos quil\u00f4metros para garantir atendimento aos filhos. E quem cuida dessas m\u00e3es?<\/p>\n<p>Em abril, ao visitar o Recife, uma das cidades com o maior n\u00famero de casos de microcefalia, a consultora regional da ONU Mulheres Linda Goulart alertou para a import\u00e2ncia da sa\u00fade f\u00edsica, mental e emocional dessas m\u00e3es.<\/p>\n<p>\u201cTodas as a\u00e7\u00f5es e propostas de pol\u00edticas p\u00fablicas precisam ter a mulher como seu sujeito, e n\u00e3o objeto. Por mais que seja relevante tratar da crian\u00e7a e exterminar o vetor, n\u00e3o se pode esquecer que a mulher tem que estar no centro disso no sentido de garantir seus direitos sexuais reprodutivos, autonomia econ\u00f4mica e social\u201d, defendeu Linda Goulart.<\/p>\n<p>Uma rede de atendimento e cuidado para os beb\u00eas foi organizada \u00e0s pressas, mas, para m\u00e3es, h\u00e1 um longo caminho pela frente. No Recife, os primeiros passados s\u00e3o os grupos de terapia psicol\u00f3gica, montados pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) e tamb\u00e9m por organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais. A Ag\u00eancia Brasil foi ouvir as hist\u00f3rias dessas m\u00e3es e acompanhou uma sess\u00e3o do grupo.<\/p>\n<p>Desafio<\/p>\n<p>Na maior parte das vezes, jornalistas n\u00e3o podem acompanhar as sess\u00f5es de terapia. E esses profissionais s\u00e3o muitos em Pernambuco. Primeiro estado a alertar para o crescimento de casos de microcefalia e atualmente o que lidera as notifica\u00e7\u00f5es e confirma\u00e7\u00f5es da malforma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita, Pernambuco atraiu rep\u00f3rteres do mundo todo, \u00e1vidos por fotos e hist\u00f3rias das fam\u00edlias que enfrentam o v\u00edrus Zika.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o ali. A sala de terapia \u00e9 \u00e0 prova da m\u00eddia. \u00c9 um espa\u00e7o onde as m\u00e3es podem falar umas com as outras m\u00e3es e para profissionais de sa\u00fade. Envolvidas em uma rotina de cuidados, viagens em busca de consultas, sess\u00f5es de est\u00edmulo precoce dos beb\u00eas e dramas pessoais, a terapia \u00e9 o momento espec\u00edfico para que reflitam e se exponham.<\/p>\n<p>V\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es que oferecem o tratamento \u00e0s crian\u00e7as com microcefalia disp\u00f5em do servi\u00e7o para as m\u00e3es, e todas impedem a entrada dos jornalistas. Uma delas \u00e9 a Funda\u00e7\u00e3o Altino Ventura (FAV), entidade sem fins lucrativos que recebe parte dos pacientes do SUS.<\/p>\n<p>Em uma manh\u00e3 movimentada na institui\u00e7\u00e3o, no entanto, foi aberta uma exce\u00e7\u00e3o e a Ag\u00eancia Brasil acompanhou uma sess\u00e3o. O dia estava reservado para uma din\u00e2mica, jogos e atividades l\u00fadicas com mensagens para reflex\u00e3o. Quem conduzia o grupo de 12 fam\u00edlias \u2013 representada pelas m\u00e3es, em sua maioria \u2013 era a psic\u00f3loga Alzeni Gomes, coordenadora de terapia ocupacional da FAV. \u201cA gente objetiva muito trabalhar demandas trazidas por elas. Tamb\u00e9m tem nosso trabalho com din\u00e2micas, dificuldades que elas t\u00eam relatado, filmes motivacionais\u201d, explicou a profissional, antes de come\u00e7ar a atividade sobre coragem de encarar os desafios desconhecidos da vida.<\/p>\n<p>Tema que o grupo n\u00e3o sabia. Tudo come\u00e7ou com uma caixinha fechada. A tarefa era simples: passar de m\u00e3o em m\u00e3o a caixa at\u00e9 que a coordenadora, que olhos fechados, mandasse parar. Quem ficasse com o objeto deveria escolher entre abrir a caixa e encarar a tarefa prevista, ou se recusar e recome\u00e7ar a brincadeira.<\/p>\n<p>\u201cEu quero abrir\u201d, disse uma das participantes. \u201cPor qu\u00ea?\u201d, provocou a psic\u00f3loga. \u201cSou curiosa\u201d. E a\u00ed veio o gancho. \u201cMas a\u00ed tem um desafio. Como \u00e9, para voc\u00ea, enfrentar um desafio?\u201d, questionou Alzeni Gomes. Aos poucos, as m\u00e3es come\u00e7aram a levar o desafia para a realidade. \u201cAcho que sei o que ela quis dizer. Quando voc\u00ea sabe o que vai passar muita gente n\u00e3o quer. A\u00ed, n\u00e3o quero saber porque se eu souber n\u00e3o vou em frente\u201d, disse uma delas.<\/p>\n<p>\u201cSe a gente soubesse que ia ter esse problema, como m\u00e3e a gente ia ter o filho, ia pagar pra ver, mas acho que muita gente desistiria. Por exemplo: eu vou engravidar, a\u00ed se tivesse uma certeza, se voc\u00ea engravidar hoje seu filho vai nascer com microcefalia. Acho que muitas m\u00e3es desistiriam. E se fosse pai com certeza, 50% desistiriam, nem enfrentavam o desafio\u201d, come\u00e7a uma m\u00e3e. \u201c100% deles\u201d, ri outra. \u201c90%\u201d, estima uma terceira.<\/p>\n<p>A liberdade de falar sobre assuntos que poderiam ser reprovados por quem n\u00e3o vive o desafio da microcefalia ajuda, mas a oportunidade de trocar informa\u00e7\u00f5es com outras m\u00e3es \u00e9 o maior benef\u00edcio, segundo as participantes. O que as feministas chamam de sororidade, a coopera\u00e7\u00e3o e o apoio entre mulheres, \u00e9 expresso na troca de dicas e d\u00favidas sobre o tratamento e o desenvolvimento dos filhos.<\/p>\n<p>\u201cO que me ajuda na minha rotina \u00e9 a conversa, saber de outras m\u00e3es. O grupo de apoio me ajuda bastante, minha perseveran\u00e7a. Pensei em desistir, que n\u00e3o ia aguentar, e hoje estou aqui. Eu sigo em frente e cada dia \u00e9 novo. Ver os outros beb\u00eas, ver o meu, principalmente, e ele precisa muito de mim. Tudo tem um significado para n\u00f3s\u201d, relata Ana J\u00falia Xavier de Ara\u00fajo, de 18 anos, m\u00e3e de Anderson Gabriel, de 6 meses, e gr\u00e1vida de quatro meses.<\/p>\n<p>Moradora de Gl\u00f3ria do Goit\u00e1, no interior do estado, Ana J\u00falia aguarda exame para saber se o pr\u00f3ximo filho tem a malforma\u00e7\u00e3o. Ela teve os mesmos sintomas de suspeita de Zika que observou na gesta\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>Abandono<\/p>\n<p>Enquanto na sess\u00e3o, parte das m\u00e3es aposta que muitos homens n\u00e3o encarariam o desafio de cuidar de um filho com microcefalia, algumas delas vivenciam a ideia de criar um beb\u00ea sem a ajuda do marido ou companheiro.<\/p>\n<p>A segunda gravidez de Ana J\u00falia n\u00e3o impediu o marido de ir embora. A jovem n\u00e3o d\u00e1 muitos detalhes da separa\u00e7\u00e3o. Com tom de voz r\u00edgido e, at\u00e9 mesmo r\u00edspido, Ana J\u00falia busca superar a perda. \u201cJ\u00e1 pensei muito nisso e agora n\u00e3o quero saber. N\u00e3o importa. Se Deus me deu meu filho, \u00e9 porque tenho capacidade de cuidar dele. E se eu crio um eu crio dois\u201d, decreta.<\/p>\n<p>Fernanda Maria da Silva, de 19 anos, foi colocada para fora de casa pelo ex-marido quando estava gr\u00e1vida de sete meses de Isabela, que hoje tem meio ano de vida.<\/p>\n<p>Ela dependia financeiramente do ex-marido e parou de estudar quando se casou. A jovem voltou para a casa dos pais, e vive no local junto com sete dos 10 irm\u00e3os, al\u00e9m da filha.<\/p>\n<p>Com maquiagem caprichada e um dos irm\u00e3os ao lado, Fernanda conta, de forma t\u00edmida, como enfrenta o cotidiano. \u201cEle [ex-marido] d\u00e1 R$100 por m\u00eas, n\u00e3o d\u00e1 para nada. N\u00e3o consegui benef\u00edcio do INSS para Isabela, porque j\u00e1 tenho um irm\u00e3o deficiente morando comigo. O bom \u00e9 que chegou doa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O companheiro de Maria Lu\u00edza saiu de casa depois que o casal recebeu o diagn\u00f3stico. De acordo com a dona de casa, ele hoje mora com uma garota de 17 anos, com quem mant\u00e9m um relacionamento.Essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exclusiva de m\u00e3es com beb\u00eas com microcefalia. Maria Lu\u00edza Ferreira de Macedo, 30 anos, tamb\u00e9m participa do grupo da terapia, mas a filha tem um outro tipo de malforma\u00e7\u00e3o. Thayla Nayara, de 8 meses, tem lisencefalia (quando o c\u00e9rebro \u00e9 liso, ou seja, n\u00e3o apresenta as reentr\u00e2ncias). Maria Lu\u00edza tem uma filha mais velha.<\/p>\n<p>Maria Lu\u00edza cuida sozinha das duas meninas. N\u00e3o tem como contar com a ajuda dos parentes, que moram em S\u00e3o Paulo, sua terra natal. O pouco apoio vem de um irm\u00e3o que envia uma quantia mensalmente. A contribui\u00e7\u00e3o do pai de Thayla, segundo ela, n\u00e3o \u00e9 suficiente. \u201cEle n\u00e3o pega a menina no colo. Quando chega d\u00e1 mais carinho para a outra [filha, a mais velha], a\u00ed s\u00f3 faz olhar ela e pronto. N\u00e3o pega ela, olha e pronto, vai embora. Traz uma lata de leite, uma fralda para ela, deixa e vai embora. Final de semana pega a outra, leva para brincar e depois traz de volta\u201d, narra Thayla, que tamb\u00e9m recebe um benef\u00edcio social em nome da filha.<\/p>\n<p>Mesmo assim, a dona de casa n\u00e3o cogita cobrar do ex-marido uma atitude diferente. \u201cN\u00e3o vou obrigar a pegar ela, passear com ela. \u00c9 a vontade dele. Machuca um pouco, n\u00e3o por mim, mas pela minha filha. Mas ela \u00e9 pequena e n\u00e3o tem entendimento ainda. Mas quando ela crescer vou contar tudo pra ela, a\u00ed ela decide se perdoa ele ou n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Com Daniele Santos, 29 anos, m\u00e3e de Juan Pedro, de 4 meses, a separa\u00e7\u00e3o ocorreu ap\u00f3s o nascimento. \u201cFoi meio estranho porque ele [o filho] era muito irritado, chorava muito. Meu marido tamb\u00e9m na \u00e9poca estava sem trabalhar, a\u00ed juntou uma coisa com a outra. De repente, ele [o pai] foi embora de casa e disse que era porque eu n\u00e3o estava dando aten\u00e7\u00e3o a ele\u201d, lembra.<\/p>\n<p>\u201cEle n\u00e3o chegou a comentar nada, mas se isolava. Desejava muito um filho homem, ent\u00e3o de repente aquele sonho [&#8230;] A m\u00eddia falava que podia ser que o menino n\u00e3o falasse, n\u00e3o andasse, ent\u00e3o o choque foi maior para ele [o pai] do que para mim. Eu aceitei melhor do que ele\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Daniele, a hist\u00f3ria come\u00e7a a ser revertida. \u201cDepois que saiu as not\u00edcias, que ele viu que n\u00e3o era s\u00f3 o filho da gente, que viu os tratamentos, ele foi se apegando de novo ao beb\u00ea. Hoje, quando ele pode me acompanha em algumas terapias. A gente est\u00e1 separado, mas ele j\u00e1 aceita bem melhor o filho dele\u201d. Daniele conta com a ajuda dos vizinhos desde que Juan nasceu. \u201cComo eu moro em uma comunidade pequena, todo mundo ficou mobilizado. Sempre tem algu\u00e9m perguntando se queremos alguma coisa. Nos acolheram\u201d.<\/p>\n<p>Presente e Futuro<\/p>\n<p>Sem ajuda ou com o apoio da fam\u00edlia, os primeiros meses de vida dessas crian\u00e7as exigem uma mudan\u00e7a na vida das m\u00e3es \u201cA minha preocupa\u00e7\u00e3o, a minha vis\u00e3o, o meu viver hoje \u00e9 pra ele. Tudo o que eu fa\u00e7o \u00e9 visando o benef\u00edcio dele\u201d, diz Daniele. E a mudan\u00e7a foi dr\u00e1stica. \u201cSempre gostei de sair, de me divertir. Minha filha de 11 anos falou: &#8216;Eita, m\u00e3e, agora est\u00e1 dif\u00edcil sair para seus shows&#8217;. Eu nem lembro mais disso. Hoje minha vida \u00e9 assim, em vez de show \u00e9 terapia\u201d. Ana J\u00falia, que mora no interior, precisa ir ao Recife v\u00e1rios dias da semana. A prefeitura oferece transporte at\u00e9 a capital. Por\u00e9m, como o carro leva v\u00e1rios moradores para tratamento no Recife, Ana J\u00falia precisa aguardar durante horas para voltar para casa, normalmente \u00e0 noite. Sem tempo para trabalhar, o que fazia desde os 12 anos, Ana J\u00falia mora com a fam\u00edlia, pois n\u00e3o tem renda para pagar aluguel. \u201cN\u00e3o tenho privacidade\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>J\u00e1 o desejo de Maria Lu\u00edza \u00e9 ficar mais pr\u00f3xima dos parentes. Ela gostaria de voltar para S\u00e3o Paulo, onde nasceu, mas a prioridade \u00e9 ficar no Recife para garantir o tratamento da filha. \u201cEnquanto for preciso, estou lutando com ela, quero a sa\u00fade dela. S\u00f3 paro quando falarem que ela n\u00e3o precisa mais, a\u00ed penso em voltar com ela\u201d, promete. Apesar dos problemas, os sonhos das m\u00e3es permanecem, alimentados pelo futuro dos filhos. \u201cSe voc\u00ea entrasse na minha cabe\u00e7a, ia se perder, de tanta coisa que tem dentro dela\u201d, responde Ana J\u00falia, rindo, \u00e0 pergunta sobre seus planos.<\/p>\n<p>Os principais s\u00e3o comprar uma casa e se formar em fisioterapia, uma profiss\u00e3o comum nos planos das m\u00e3es de beb\u00eas com microcefalia. Fernanda compartilha desse desejo, mas antes precisa terminar o ensino m\u00e9dio, abandonado a pedido do ex-marido. \u201cQuando ela tiver um ano j\u00e1 pode ficar com minha m\u00e3e, a\u00ed pretendo voltar a estudar\u201d, planeja. J\u00e1 o trabalho, por enquanto, vai ter que esperar, e a fam\u00edlia contribui no sustento de m\u00e3e e filha. Daniele n\u00e3o deixou para o futuro; voltou ao trabalho por necessidade.<\/p>\n<p>\u201cMinha casa \u00e9 alugada e tenho duas filhas para criar\u201d, justifica. Segundo ela, o patr\u00e3o aceitou uma jornada de trabalho mais flex\u00edvel, assim ela consegue uns dias de folga para continuar o tratamento de Juan Pedro. A recepcionista tamb\u00e9m vai fazer um curso de recursos humanos \u00e0 dist\u00e2ncia, que conseguiu por meio de uma associa\u00e7\u00e3o de m\u00e3es de filhos com defici\u00eancia. \u201cCreio que daqui para frente pode ser que a melhora venha. Vou cuidar do meu eu, do meu ego, e se \u00e9 uma coisa que eu gosto vou tentar conciliar\u201d.<\/p>\n<p>Compromisso<\/p>\n<p>No mesmo espa\u00e7o onde se encontram hist\u00f3rias de abandono, h\u00e1 tamb\u00e9m li\u00e7\u00f5es de amor e responsabilidade. Quando a pequena Vit\u00f3ria, de 7 meses, apareceu na sess\u00e3o de terapia na FAV, foi recebida com afeto pela equipe e pelas outras fam\u00edlias. A m\u00e3e, Kely Romualdo de Oliveira, 35 anos, observou em sil\u00eancio, com um sorriso discreto. Confundida com uma cuidadora, Kely contou ao grupo a novidade que h\u00e1 tr\u00eas dias havia mudado completamente sua vida: era a m\u00e3e adotiva da menina.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sei nem explicar, \u00e9 muito amor que eu senti por ela. Eu me apaixonei por Vit\u00f3ria. \u00c9 como se ela tivesse sa\u00eddo de mim\u201d, recorda a dona de casa, ao contar como foi o primeiro encontro das duas.<\/p>\n<p>Ela e o marido, Josimar Pereira, 57 anos, j\u00e1 t\u00eam um filho de 15 anos. Decidiram aumentar a fam\u00edlia e recorreram \u00e0 ado\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o pude mais ter filho, e sempre quis adotar. Ficamos um ano na fila, mas o perfil era outro. Quando visitamos o abrigo, onde ela [Vit\u00f3ria] estava e a vi, n\u00e3o pensei em nada. Disse: \u00e9 ela, \u00e9 minha filha\u201d, completa, antes das primeiras l\u00e1grimas pingarem.<\/p>\n<p>O casal conseguiu a autoriza\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a para mudar o perfil e adotar uma crian\u00e7a com defici\u00eancia. Um m\u00eas depois, Vit\u00f3ria passou a fazer parte da fam\u00edlia de Kely. \u201cMeu filho, minha m\u00e3e, os filhos dele, a m\u00e3e dele. Quando a gente tirou a Vit\u00f3ria do abrigo fizeram uma festa para ela\u201d, recorda.<\/p>\n<p>De acordo com a dona de casa, nos primeiros dias, v\u00e1rias pessoas ajudaram nos cuidados com a menina. Agora, a maior parte da rotina \u00e9 de responsabilidade dela. \u201cMeu marido trabalha o dia inteiro. Como fica eu e ela, \u00e9 bem mais tranquilo. Todo mundo da fam\u00edlia j\u00e1 ama Vit\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Josimar \u00e9 funcion\u00e1rio do Minist\u00e9rio da Fazenda no Recife. Na manh\u00e3 da entrevista, havia conseguido uma folga para acompanhar, pela primeira vez, o tratamento da filha. \u201cN\u00e3o importa o dia nem a hora, a gente vai a hora que for necess\u00e1rio. J\u00e1 que a gente assumiu esse compromisso, essa responsabilidade\u201d.<\/p>\n<p>Ambos garantem que n\u00e3o t\u00eam medo de encarar uma vida de dedica\u00e7\u00e3o a filha. \u201cUma crian\u00e7a precisa de muito amor e carinho, independentemente da condi\u00e7\u00e3o em que ela esteja. Abandonar, acho que \u00e9 um crime\u201d, disse Josimar. A m\u00e3e tamb\u00e9m opina: \u201cEu diria paras m\u00e3es que n\u00e3o tenham medo, n\u00e3o \u00e9 uma coisa de outro mundo\u201d.<\/p>\n<p>Kely e Vit\u00f3ria ainda tiveram de enfrentar o preconceito. \u201cTinha gente que falou: &#8216;Por que voc\u00ea vai adotar? Eu que n\u00e3o adotaria&#8217;.&#8217;Vai procurar trabalho?&#8217; Eu respondia: &#8216;Quando voc\u00ea tem um filho, quando voc\u00ea t\u00e1 gr\u00e1vida, voc\u00ea sabe como seu filho vai vir?&#8217; N\u00e3o sabe se ele vai vir com sa\u00fade, se vem branco, preto, n\u00e3o \u00e9 verdade? Pra mim \u00e9 a mesma coisa. \u00c9 a minha filha\u201d, diz Kely.<\/p>\n<p>\u00c9 s\u00f3 o come\u00e7o<\/p>\n<p>As m\u00e3es sabem que os desafios n\u00e3o param por agora. As felicidades tamb\u00e9m. \u00c9 o que ensina Joseni Tavares de Barros, 46 anos. Ela tem um filho de 16 anos que nasceu com microcefalia, problemas na retina e catarata cong\u00eanita.<\/p>\n<p>Victor \u00e9 um adolescente alto e carinhoso. N\u00e3o passa mais que alguns minutos sem beijar ou abra\u00e7ar a m\u00e3e e o pai, Valdir Jos\u00e9 dos Santos, 51 anos. O garoto sofreu as malforma\u00e7\u00f5es por causa de uma outra doen\u00e7a que afligiu o mundo nas d\u00e9cadas de 1940 a 1960, e existiu no Brasil at\u00e9 2009: a rub\u00e9ola, erradicada das Am\u00e9ricas no ano passado conforme a Organiza\u00e7\u00e3o Pan-americana de Sa\u00fade (Opas).<\/p>\n<p>Nos primeiros anos de vida, Joseni conta que o menino era agressivo e dormia pouco. \u201cEle ficava se mutilando, arrancando pedacinhos da pele dele, da minha. Me dava cabe\u00e7ada\u201d, narra. Com o passar dos anos, os obst\u00e1culos a serem superados v\u00e3o mudando, como adaptar o ensino e a maneira para o garoto conhecer o mundo.<\/p>\n<p>\u201cTive sorte porque ainda existiam escolas especiais, que chamam de segregadas, que hoje \u00e9 t\u00e3o repudiada. Mas foi uma ben\u00e7\u00e3o para o meu Victor, porque ficou em uma sala de m\u00faltipla defici\u00eancia, onde ele era bem assistido por uma profissional\u201d, diz a moradora de Jaboat\u00e3o dos Guararapes, na regi\u00e3o metropolitana do Recife.<\/p>\n<p>O esfor\u00e7o para o desenvolvimento do garoto n\u00e3o se resumia a repassar o conhecimento formal. \u201cLeva ele para o banheiro e ensina ele a fazer xixi. At\u00e9 isso a escola especial se preocupava em ensinar. O meu filho n\u00e3o vai para a escola para aprender com l\u00e1pis e papel. Ele vai para aprender o que \u00e9 o l\u00e1pis, para que serve primeiro, at\u00e9 entender esse contexto, at\u00e9 ele partir para o &#8216;vamos escrever&#8217;\u201d.<\/p>\n<p>Como os cuidados com o filho assumiam toda a sua vida, Joseni diz que o filho tornou-se um companheiro insepar\u00e1vel. \u201cEu sempre fiz tudo com Victor. Vou para o dentista com Vitor do lado segurando minha m\u00e3o e dizendo &#8216;d\u00f3i n\u00e3o, d\u00f3i n\u00e3o&#8217;. Minha vida \u00e9 assim. Sempre foi assim e continua sendo assim. Dif\u00edcil \u00e9, mas \u00e9 poss\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>Atualmente, Victor estuda em uma escola municipal em Jaboat\u00e3o dos Guararapes. \u201cUma m\u00e3e saud\u00e1vel precisa ir no ginecologista, precisa de um tempo pra ela. Agora que Vitor j\u00e1 est\u00e1 mais calmo, mais tranquilo, arrumei espa\u00e7o para estudar. J\u00e1 fiz braile, libras, e resolvi agora fazer pedagogia em casa [educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia]\u201d, comemora.<\/p>\n<p>E, embora estejam muitas vezes sozinhas, a dona de casa acredita na for\u00e7a dessas m\u00e3es. \u201cEst\u00e3o no caminho certo. Com amor, esperan\u00e7a, correndo atr\u00e1s, indo em todas as dire\u00e7\u00f5es que os m\u00e9dicos apontam. Elas passam horas em busca das terapias, precocemente. Eu tenho certeza que o quadro dos filhos dela v\u00e3o ser iguais o do Vitor para melhor. Pior nem pensar\u201d, analisa.<\/p>\n<p>Joseni deixa a mensagem que a miss\u00e3o de cuidar de uma crian\u00e7a com microcefalia n\u00e3o \u00e9 baseada necessariamente na for\u00e7a. \u201cTa\u00ed uma mulher que todo mundo fica achando que foi muito forte, e eu nunca fui. Chorei muito, sou muito chorona, mas fiz isso pelo amor. \u00c9 o amor que faz a gente vencer\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Protagonistas de um drama nacional, m\u00e3es de uma gera\u00e7\u00e3o que carregar\u00e3o a marca de uma epidemia ainda a ser plenamente descoberta, as mulheres que deram a luz a beb\u00eas com microcefalia passam a viver, desde o diagn\u00f3stico, quase que exclusivamente para os filhos. Abandon<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":107213,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-127715","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-saude"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/microcefalia.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127715","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=127715"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127715\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/107213"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=127715"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=127715"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=127715"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}