{"id":13287,"date":"2013-09-02T17:00:04","date_gmt":"2013-09-02T20:00:04","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=13287"},"modified":"2013-09-02T09:17:21","modified_gmt":"2013-09-02T12:17:21","slug":"a-morte-do-torturador-fleury-pelos-militares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-morte-do-torturador-fleury-pelos-militares\/","title":{"rendered":"A morte do torturador Fleury pelos militares"},"content":{"rendered":"<p>O assassinato mais enigm\u00e1tico, estranho, perpetrado por militares foi a do torturador S\u00e9rgio Fernando Paranhos Fleury, o delegado Fleury. Ele se destacou como chefe do Esquadr\u00e3o da Morte, que executava delinquentes. Pelo menos era o que se dizia. No entanto, a verdadeira hist\u00f3ria foi contada pelo ent\u00e3o procurador da Justi\u00e7a do Estado de S\u00e3o Paulo, H\u00e9lio Bicudo, atualmente com 91 anos, no livro \u201cMeu Depoimento sobre o Esquadr\u00e3o da Morte\u201d, escrito em 1976, com pref\u00e1cio de Ruy Mesquita, diretor do Estad\u00e3o (falecido em 21\/5\/2013, aos 88 anos).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-13289\" alt=\"Marin\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Marin-300x199.jpg\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Marin-300x199.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Marin-160x106.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Marin.jpg 420w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Bicudo, na Introdu\u00e7\u00e3o, revelou a verdadeira face dessa fac\u00e7\u00e3o de exterm\u00ednio: \u201cE o \u2018Esquadr\u00e3o da Morte\u2019, depois de resvalar para a pura satisfa\u00e7\u00e3o de interesses pessoais ou de pequenos grupos sequiosos de poder, passou na verdade a servir de interesses de quadrilhas de entorpecentes, de jogo e de prostitui\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de grupos de prote\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Mestre em tortura, Fleury passou para o Dops, agora prendendo e torturando presos pol\u00edticos. V\u00e1rios deles foram assassinados em suas m\u00e3os. Com o tempo foi afastado do cargo e faleceu no dia 1\u00ba de maio de 1979, aos 45 anos. Segundo a vers\u00e3o oficial, em acidente no seu iate em Ilha Bela, morrendo afogado.<\/p>\n<p>Ao noticiar sua morte, o jornalista Luis Padovani, na Folha de 2 de maio, descreveu como se deu o acidente, baseado no Boletim de Ocorr\u00eancia, concluindo: \u201cO corpo foi levado para Santa Casa local, onde foi assinado o atestado de \u00f3bito, tendo o m\u00e9dico dispensado a aut\u00f3psia\u201d. Atitude estranha!<\/p>\n<p>No mesmo jornal, Edson Flosi, no texto \u201cAmado e odiado: her\u00f3i ou torturador?\u201d, fez essa surpreendente revela\u00e7\u00e3o: \u201c[Fleury] Ficou muito rico, construiu uma mans\u00e3o no Alto da Boa Vista, comprou um iate que lhe custou dois milh\u00f5es de cruzeiros [dinheiro da \u00e9poca], apesar de sempre ganhar relativamente pouco na Secretaria da Seguran\u00e7a P\u00fablica\u201d. Isto, tudo indica, foi uma das causas de seu suposto assassinato, como vamos ver a seguir.<\/p>\n<p>No N\u00famero 4 de \u201cCaros Amigos\u201d, julho de 1997, em entrevista \u00e0 Ana Maria Ciccacio, H\u00e9lio Bicudo assim se referiu \u00e0 morte do torturador Fleury em 1979: \u201cFoi queima de arquivo, sim. Ao ser posto no ostracismo por aquele processo de abertura do Geisel, o problema \u00e9 que Fleury come\u00e7ou a falar demais. N\u00e3o convinha aos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a que uma pessoa, a essas alturas com p\u00e9ssima imagem p\u00fablica, porque usava drogas e bebia muito, sa\u00edsse contando fatos que realmente n\u00e3o interessavam aos governos militares\u201d.<\/p>\n<p>Quinze anos depois, em maio de 2012, o ex-delegado do Dops na \u00e9poca da Ditadura, Cl\u00e1udio Guerra, no livro \u201cMem\u00f3rias de uma guerra suja\u201d, confirma essa vers\u00e3o de Bicudo.<\/p>\n<p>Tales Faria, do IG Bras\u00edlia, em 2\/5\/2012, no item \u201cQueima de Arquivo\u201d, relata: \u201cO delegado Fleury tinha de morrer. Foi uma decis\u00e3o un\u00e2nime de nossa comunidade, em S\u00e3o Paulo, numa vota\u00e7\u00e3o feita em local p\u00fablico, o restaurante Baby Beef\u201d, afirma Cl\u00e1udio Guerra\u201d.<\/p>\n<p>Ele, a seguir, cita v\u00e1rios militares, entre eles, o coronel Brilhante Ustra, que torturou a atriz Bete Mendes. Ustra abriu a reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>Adiante Cl\u00e1udio Guerra afirmou: \u201cFleury tinha se tornado um homem rico desviando dinheiro dos empres\u00e1rios que pagavam para sustentar as a\u00e7\u00f5es clandestinas do regime militar. N\u00e3o obedecia mais a ningu\u00e9m, agindo por conta pr\u00f3pria. E exorbitava. (\u2026) Nessa \u00e9poca, o h\u00e1bito de cheirar coca\u00edna tamb\u00e9m fazia parte de sua vida. Cansei de ver\u201d.<\/p>\n<p>Tales Faria, no final, diz: \u201cA hist\u00f3ria oficial \u00e9, de fato, que o delegado paulista morreu acidentalmente em Ilha Bela, ao tombar da lancha. Mas Guerra afirma que Fleury na verdade foi dopado e levou uma pedrada na cabe\u00e7a antes de cair no mar\u201d.<\/p>\n<p>O torturador e ex-her\u00f3i Fleury, ironicamente, foi morto por militares. Teve o mesmo fim que Alexandre Baumgarten, dono da revista O Cruzeiro (na pen\u00faltima \u00a0fase), e pelo mesmo motivo: \u201cqueima de arquivo\u201d. Outra coincid\u00eancia: morreram no mar!<\/p>\n<address>(Tribuna da Imprensa)<\/address>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O assassinato mais enigm\u00e1tico, estranho, perpetrado por militares foi a do torturador S\u00e9rgio Fernando Paranhos Fleury, o delegado Fleury. Ele se destacou como chefe do Esquadr\u00e3o da Morte, que executava delinquentes. Pelo menos era o que se dizia. 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