{"id":139299,"date":"2016-07-13T00:22:35","date_gmt":"2016-07-13T03:22:35","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=139299"},"modified":"2016-07-12T18:25:01","modified_gmt":"2016-07-12T21:25:01","slug":"professora-usa-rap-e-funk-para-ensinar-historia-nao-estudei-para-domesticar-aluno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/professora-usa-rap-e-funk-para-ensinar-historia-nao-estudei-para-domesticar-aluno\/","title":{"rendered":"Professora usa rap e funk para ensinar Hist\u00f3ria: &#8216;N\u00e3o estudei para domesticar aluno&#8217;"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Renata Mendon\u00e7a<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/40A9\/production\/_90335561_principal.jpg\" alt=\"Ane Sarinara\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Ane Sarinara tem 27 anos e \u00e9 professora h\u00e1 oito; \u00e9 militante do movimento negro e feminista e, l\u00e9sbica assumida, tamb\u00e9m combate o preconceito contra a comunidade LGBT<\/span><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Um aluno entra na sala e coloca n\u00e3o o caderno, mas uma arma sobre a mesa. Outro salta pela janela do segundo andar, no meio da aula, para fugir de um traficante. Uma garota entra correndo e chorando ap\u00f3s ter conseguido se livrar de dois colegas que tentavam abusar dela no banheiro.<\/p>\n<p>O estresse causado por situa\u00e7\u00f5es como essas j\u00e1 fizeram a professora Ane Sarinara, que ensina Hist\u00f3ria na periferia de S\u00e3o Paulo, se afastar do trabalho e at\u00e9 pensar em desistir. Mas recentemente ela criou uma estrat\u00e9gia para envolver os alunos nas aulas: usar funk e rap para trazer um pouco do cotidiano dif\u00edcil deles para a sala.<\/p>\n<p>&#8220;A escola est\u00e1 completamente fora da realidade deles, e educa\u00e7\u00e3o, sem significado, n\u00e3o tem sentido nenhum. \u00c9 aquela ideia: voc\u00ea finge que explica, eles fingem que entendem. S\u00e3o cidad\u00e3os que n\u00e3o gritam, que n\u00e3o berram, omissos, obedientes. Costumo dizer que n\u00e3o estudei para domesticar aluno. Querem que eu fa\u00e7a isso, mas eu n\u00e3o consigo&#8221;, conta ela \u00e0 BBC Brasil.<\/p>\n<p>Para quem questiona a op\u00e7\u00e3o por esses ritmos musicais, a professora de 27 anos, h\u00e1 oito na profiss\u00e3o, tem a resposta na ponta da l\u00edngua: &#8220;os alunos gostam disso, \u00e9 o que eles escutam e \u00e9 a linguagem que eles sabem&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/2D9B\/production\/_90357611_funk.jpg\" alt=\"Funk escrito por alunos de Ane do 1\u00ba ano do Ensino M\u00e9dio na Funda\u00e7\u00e3o Casa\" width=\"549\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Funk escrito por alunos de Ane do 1\u00ba ano do Ensino M\u00e9dio na Funda\u00e7\u00e3o Casa<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Tudo come\u00e7ou com um estudante muito problem\u00e1tico, mas que era muito bom em algo: cantar funk.<\/p>\n<p>&#8220;Outros professores tratavam isso como indisciplina. S\u00f3 que eu sou da periferia, escuto funk desde que me conhe\u00e7o por gente&#8221;, lembra. &#8220;Sugeri que ele escrevesse um funk sobre a mat\u00e9ria &#8211; foi a forma que encontrei para ele fazer parte da aula.&#8221;<\/p>\n<p>Quando o garoto apresentou o trabalho, ela percebeu que a tarefa havia &#8220;conquistado&#8221; n\u00e3o s\u00f3 a aten\u00e7\u00e3o dele, mas de toda a sala.<\/p>\n<p>&#8220;Um dos meninos se ofereceu para fazer o beatbox (reprodu\u00e7\u00e3o de sons com a boca e o nariz), outro pegou a lata de lixo, outros batucavam na mesa, batiam palmas&#8221;, recorda.<\/p>\n<p>&#8220;Nisso, a diretora entrou para perguntar o que estava acontecendo. Para ela, parecia uma zona. Mas n\u00e3o era: a gente estava tendo aula.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Resist\u00eancia<\/h2>\n<p>Ane expandiu a experi\u00eancia para al\u00e9m da m\u00fasica.<\/p>\n<p>Uma vez, por exemplo, dividiu os alunos em dois grupos e criou um tribunal: o primeiro representaria a pol\u00edcia e o outro, o tr\u00e1fico.<\/p>\n<p>&#8220;Na periferia, a pol\u00edcia \u00e9 muito mal vista porque chega sempre com viol\u00eancia. Mas a ideia era mostrar para eles que o tr\u00e1fico, que \u00e9 quem acaba fazendo as melhorias que eles precisam na regi\u00e3o em que o Estado \u00e9 ausente, n\u00e3o tem s\u00f3 coisas positivas.&#8221;<\/p>\n<p>Mas fugir do &#8220;padr\u00e3o&#8221; tamb\u00e9m trouxe problemas: diretores e outros professores reclamavam de que Ane era &#8220;liberal demais&#8221;, e que seus alunos sa\u00edam achando que &#8220;podiam fazer tudo&#8221; nas outras aulas.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1736D\/production\/_90358059_d05c1de6-8074-4232-b05a-8cc92bafd111.jpg\" alt=\"Ocupa\u00e7\u00e3o Fern\u00e3o Dias\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Ocupa\u00e7\u00e3o de alunos nas escolas de S\u00e3o Paulo no ano passado chamou a aten\u00e7\u00e3o de Ane: &#8220;Esses alunos est\u00e3o gritando. Elas est\u00e3o dizendo que n\u00e3o est\u00e1 dando mais. Que a escola nao est\u00e1 comportando o que eles precisam. E a gente est\u00e1 demorando demais para ouvir:&#8221;<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;Eles diziam: &#8216;alguns pais est\u00e3o reclamando, se eles forem na Diretoria de Ensino voc\u00ea vai ter que se retirar da escola&#8217;. E eu respondia: &#8216;n\u00e3o vou mudar, n\u00e3o estou fazendo nada de errado&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>Al\u00e9m de n\u00e3o ter desistido, ela hoje aplica seu m\u00e9todo tamb\u00e9m na Funda\u00e7\u00e3o Casa (institui\u00e7\u00e3o que abriga menores de idade infratores em S\u00e3o Paulo). Onde, ali\u00e1s, enfrenta os mesmos problemas causados pelo modelo convencional.<\/p>\n<p>&#8220;Quando entro na Funda\u00e7\u00e3o Casa, lembro das grades da minha escola. \u00c9 igual. N\u00e3o vejo diferen\u00e7a. A escola \u00e9 uma pris\u00e3o, a \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que ela n\u00e3o tem seguran\u00e7as. O resto \u00e9 tudo igual. A mesma rotina, as mesmas grades, aquela lousa l\u00e1 na frente, professor estressado.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Cara de pris\u00e3o&#8217;<\/h2>\n<p>Nascida e criada na periferia de S\u00e3o Paulo, Ane sentiu na pele os desafios que seus alunos t\u00eam no dia a dia.<\/p>\n<p>Ela morava com a fam\u00edlia em Jandira, na regi\u00e3o metropolitana, mas aos quatro anos teve de ir morar em um orfanato na vizinha Carapicu\u00edba. Viciado, seu tio passara a enfrentar problemas com traficantes, que amea\u00e7aram a fam\u00edlia toda.<\/p>\n<p>No orfanato, conheceu o racismo, apanhou sem saber o porqu\u00ea e enfrentou as amarras da escola, que para ela sempre teve &#8220;cara&#8221; de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;A escola era uma pris\u00e3o, \u00e9 uma grande jaula. Voc\u00ea joga as pessoas l\u00e1, transforma todas elas em m\u00e1quinas de obedecer sem questionar, mostra um mundo fora da realidade delas. Era como eu me sentia dentro da escola: presa.&#8221;<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5966\/production\/_90368822_ocupacao_escola_prisao.jpg\" alt=\"Ocupa\u00e7\u00e3o\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Ocupa\u00e7\u00e3o de uma das escolas de S\u00e3o Paulo no ano passado trazia a faixa: &#8220;Escolas Pris\u00f5es&#8221;<\/span><\/figure>\n<p>Ane foi morar em Osasco &#8211; onde vive at\u00e9 hoje &#8211; e logo decidiu que queria ensinar. Mas com um objetivo: que seus alunos n\u00e3o sentissem o que ela sentia na escola.<\/p>\n<p>&#8220;Pensava: como eu gostaria que tivessem me dado essa aula? Foi por isso que comecei a tentar essas coisas diferentes.&#8221;<\/p>\n<p>E decidiu permanecer na periferia para &#8220;devolver algo&#8221; algo ao lugar que a criou.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas costumam estudar e trabalhar para poder sair daqui. Mas eu n\u00e3o penso assim. N\u00e3o tenho que sair desse lugar, eu quero transformar esse lugar.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Cansa\u00e7o<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12B09\/production\/_90335567_ane_osasco.jpg\" alt=\"Ane Sarinara\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"media-caption__text\">Ane usa raps como o de Tarja Preta, Falsa Aboli\u00e7\u00e3o (Meninas Negras N\u00e3o Brincam com Bonecas Pretas) para falar sobre racismo<\/span><\/span><\/figure>\n<p>Mesmo com o discurso repleto de esperan\u00e7as, Ane admite o cansa\u00e7o &#8211; ela acredita que &#8220;n\u00e3o vai durar muito tempo&#8221; na profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o tem nada de legal nessa profiss\u00e3o. Parece exagero, mas \u00e9 isso. Voc\u00ea \u00e9 humilhado todos os dias, n\u00e3o tem nenhum reconhecimento. O que motiva o professor nesse pa\u00eds \u00e9 o ideal dele.&#8221;<\/p>\n<p>Ela conta que, no decorrer dos anos, conseguiu bancar sua escolha de &#8220;mandar o curr\u00edculo para o saco e fazer o que eu acho que tem que ser feito&#8221;. Mas reclama do peso da miss\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Jogam toda a carga em cima do professor. Tenho que educar, dentro e fora da escola, socorrer aluno, salvar aluno, salvar a sociedade\u2026 eu tenho que ser perfeita. Mas enquanto isso, o sistema est\u00e1 me arrochando dos dois lados, e voc\u00ea fica sem saber para onde correr. Geralmente a gente corre para o banheiro para chorar.&#8221;<\/p>\n<p>Ela diz cogitar abandonar a sala de aula por medo de sair de l\u00e1 &#8220;de camisa de for\u00e7a&#8221;. E, ap\u00f3s citar n\u00fameros de professores que cometem suic\u00eddio, conclui:<\/p>\n<p>&#8220;Muitos colegas meus j\u00e1 tomam tarja preta pra conseguir dar aula. N\u00e3o quero ficar desse jeito. A\u00ed \u00e9 que est\u00e1 a quest\u00e3o: eu n\u00e3o consigo me adaptar ao sistema. Mas a\u00ed todo mundo me diz: vai chegar uma hora que voc\u00ea vai ter que escolher entre ficar e se adequar ou sair. E est\u00e1 chegando essa hora j\u00e1.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o tem nada de legal nessa profiss\u00e3o. Parece exagero, mas \u00e9 isso. Voc\u00ea \u00e9 humilhado todos os dias, n\u00e3o tem nenhum reconhecimento. 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