{"id":144796,"date":"2016-08-15T05:13:35","date_gmt":"2016-08-15T08:13:35","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=144796"},"modified":"2016-08-15T05:13:35","modified_gmt":"2016-08-15T08:13:35","slug":"professora-de-danca-denuncia-racismo-institucional-em-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/professora-de-danca-denuncia-racismo-institucional-em-escola\/","title":{"rendered":"Professora de dan\u00e7a denuncia racismo institucional em escola"},"content":{"rendered":"<h3 class=\"titNoticia\"><\/h3>\n<h4 class=\"gravataNoticia\"><em>Col\u00e9gio confirmou que a quest\u00e3o religiosa \u00e9 um dos motivos para que aula n\u00e3o seja ministrada<\/em><\/h4>\n<div class=\"dataRedes\"><span class=\"dataAutor\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div id=\"content\" class=\"outro outro2\">\n<div class=\"textoNoticia\">\n<div class=\"caixa0\">\n<div class=\"caixaArquivos\">\n<div class=\"conteudocaixa\"><img decoding=\"async\" id=\"wm0\" src=\"http:\/\/www.folhape.com.br\/imagens\/Colegio-Modelo-Rep-Google-M.jpg\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A professora de dan\u00e7a Gabriela Sampaio, 27 anos, estava animada com o in\u00edcio de um novo projeto: ela tinha sido contratada por uma escola particular do Recife (PE) para trabalhar com alunos do ensino fundamental. Mas ela n\u00e3o passou da aula experimental.&#8221;Falei quem eu era, dei \u00eanfase nas dan\u00e7as populares afro contempor\u00e2neas, com as quais eu trabalho desde os meus 16 anos. Falei do grupo Bacnar\u00e9, pr\u00f3ximo \u00e0 escola, alguns alunos disseram que conheciam. Enfim. No final de tudo, a coordenadora-geral disse: &#8216;dan\u00e7a afro aqui n\u00e3o, a gente n\u00e3o admite&#8217;. Perguntei o motivo, ela disse que tem alunos evang\u00e9licos e os pais n\u00e3o aceitam\u201d, narra Gabriela.<\/p>\n<p>Segundo a professora, a dire\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio Modelo deu determina\u00e7\u00e3o no dia 3 de agosto. Para Gabriela Sampaio, proibir o ensino da dan\u00e7a trata-se de um caso de racismo institucional e desrespeito \u00e0 Lei Federal 10.639\/03, que obriga o ensino da hist\u00f3ria e da cultura afrobrasileiras e africanas em estabelecimentos de ensino p\u00fablicos e particulares de todo o Pa\u00eds.<\/p>\n<p>A professora conta que, apesar de ser adepta do candombl\u00e9, a atividade n\u00e3o se relacionava \u00e0 religi\u00e3o. \u201cO frevo, por exemplo, \u00e9 popular e \u00e9 afro tamb\u00e9m\u201d, exemplifica. Mesmo assim, segundo ela, a coordenadora do col\u00e9gio manteve a decis\u00e3o, e afirmou que a legisla\u00e7\u00e3o s\u00f3 valia para assuntos tratados dentro de sala de aula, e n\u00e3o em atividades extracurriculares.<\/p>\n<p>De acordo com Gabriela, durante o processo de sele\u00e7\u00e3o ficou claro que sua especialidade era a dan\u00e7a afro. Para ela, a cultura afrobrasileira precisa ser tratada de forma transversal pelas institui\u00e7\u00f5es \u2013 o que incluiria atividades como a dan\u00e7a. \u201cQuando ela diz que pro\u00edbe, \u00a0ela nega uma cultura, uma hist\u00f3ria. Est\u00e3o negando conhecimento aos alunos. Ser\u00e1 que realmente essa institui\u00e7\u00e3o est\u00e1 apta a trabalhar a quest\u00e3o racial na escola?\u201d, questiona. A professora n\u00e3o foi efetivada na institui\u00e7\u00e3o e relatou o epis\u00f3dio em uma rede social.<\/p>\n<p><strong>Escola<\/strong><\/p>\n<p>Procurada pela reportagem, a coordenadora-geral do col\u00e9gio, Adriana Moura, confirmou que a quest\u00e3o religiosa \u00e9 um dos motivos para que aula n\u00e3o seja ministrada. Segundo a coordenadora, a professora n\u00e3o foi efetivada no cargo pela forma como discordou do impedimento em dar as aulas de dan\u00e7a afro.<\/p>\n<p>\u201cAqui tem muitos pais evang\u00e9licos, crist\u00e3os, cat\u00f3licos que n\u00e3o gostam. A gente deu uma aula sobre budismo e gerou a maior pol\u00eamica. A gente n\u00e3o passa religi\u00e3o nenhuma, quem passa isso s\u00e3o os pais. Mas eu falei bem direitinho, ela s\u00f3 faltou me engolir\u201d, argumenta. Na escola, segundo a coordenadora, n\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancias religiosas, somente um \u201ccultinho\u201d. \u201c\u00c9 s\u00f3 m\u00fasica para brincar, relaxar, e rezar o Pai-nosso\u201d.<\/p>\n<p>Adriana Moura tamb\u00e9m afirmou que a institui\u00e7\u00e3o respeita a obrigatoriedade do ensino da hist\u00f3ria e da cultura africanas e afrobrasileiras, mas entende que a legisla\u00e7\u00e3o se refere ao conte\u00fado repassado em sala de aula. \u201cA gente trabalha a quest\u00e3o da escravatura, a gente trabalha o \u00edndio, trabalha tudo\u201d, garante. \u201cA lei \u00e9 cumprida em sala de aula. A dan\u00e7a \u00e9 opcional, a gente coloca o quiser, at\u00e9 bal\u00e9. Ela insistiu com a lei, n\u00e3o entendi. Ela foi muito grossa. N\u00e3o entendo porque ela est\u00e1 fazendo tanto estardalha\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>A porta-voz da escola disse que a professora seria contratada para dar aula de frevo. Questionada se, antes de ser contratada, Gabriela foi avisada de que a aula seria de frevo, Adriana Moura respondeu que n\u00e3o saberia responder, pois n\u00e3o foi ela quem fez a entrevista. Ela tamb\u00e9m rebate a acusa\u00e7\u00e3o de racismo institucional, pois a escola tem no quadro professores de diversas religi\u00f5es e orienta\u00e7\u00e3o sexual. \u201cO que \u00e9 racismo institucional? Aqui tem um monte de gente afrodescendente, eu sou afrodescendente\u201d, questiona.<\/p>\n<p><strong>Desconhecimento<\/strong><\/p>\n<p>O caso levanta dois debates, segundo especialistas ouvidos pela Ag\u00eancia Brasil: o racismo institucional e a interpreta\u00e7\u00e3o sobre a lei federal.<\/p>\n<p>A promotora do Minist\u00e9rio P\u00fablico de Pernambuco (MPPE) Maria Bernadete Figueiroa est\u00e1 \u00e0 frente do Grupo de Trabalho (GT) de Combate ao Racismo do \u00f3rg\u00e3o h\u00e1 13 anos. Desde 2013, tamb\u00e9m coordena um espa\u00e7o semelhante no Conselho Nacional do Minist\u00e9rio P\u00fablico (CNMP). Para a promotora, o caso da professora pode se enquadrado como racismo institucional.<\/p>\n<p>\u201cRacismo institucional \u00e9 uma pr\u00e1tica habitual das institui\u00e7\u00f5es de excluir o acesso das pessoas negras, dificultar o acesso a direitos, que todas as institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o impregnadas disso independente de estar conscientes disso\u201d, diz. Questionada sobre a quantidade de casos registrados pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, Maria Figueiroa \u00a0disse que \u201cn\u00e3o \u00e9 mensur\u00e1vel, o n\u00famero de den\u00fancias n\u00e3o \u00e9 o caso. \u00c9 uma atitude institucional que manifesta pr\u00e1ticas racistas. Por exemplo: a pol\u00edcia aborda pessoas negras e pessoas n\u00e3o negras. A abordagem de pessoas negras de forma violenta \u00e9 uma forma de racismo institucional\u201d.<\/p>\n<p>O racismo institucional, segundo a promotora, \u00e9 diferente do crime de racismo, inj\u00faria racial e discrimina\u00e7\u00e3o racial, tipificados na legisla\u00e7\u00e3o brasileira. Pode ser que ocorram as duas coisas, mas esse conceito \u00e9 um aspecto cultural e hist\u00f3rico da sociedade brasileira que se manifesta cotidianamente, conforme Maria Bernadete.<\/p>\n<p>Mesmo sem tipifica\u00e7\u00e3o penal, ela afirma que \u00e9 preciso denunciar os casos ao Minist\u00e9rio P\u00fablico.<\/p>\n<p>\u201cAcho muito positiva a atitude da professora porque s\u00e3o essas situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem ficar se repetindo ao longo dos s\u00e9culos. Essas den\u00fancias t\u00eam que ser levadas ao Minist\u00e9rio P\u00fablcio, que tem como chamar essas institui\u00e7\u00f5es, ajustar a conduta, abrir um procedimento, independente do crime\u201d, defende. Al\u00e9m da lei citada pela professora de dan\u00e7a, a promotora tamb\u00e9m lembra o que o Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288\/10) prev\u00ea a &#8220;elimina\u00e7\u00e3o de obst\u00e1culos hist\u00f3ricos socioculturais e instituicionais que impedem a representa\u00e7\u00e3o da diversidade \u00e9tnica nas esferas p\u00fablico e privada\u201d.<\/p>\n<p>Para a professora decana da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e atual coordenadora da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Metodista, Roseli Fischmann, o caso exp\u00f5e o desconhecimento de institui\u00e7\u00f5es de ensino sobre a diferen\u00e7a entre express\u00e3o corporal e religi\u00e3o; compreender a dan\u00e7a como ferramenta de conhecimento; e tamb\u00e9m do ponto de vista did\u00e1tico-pedag\u00f3gico, de como trabalhar de forma eficiente a hist\u00f3ria e a cultura africanas e afrobrasileiras.<\/p>\n<p>\u201cNo campo da escola, esse racismo \u00e9 muito perverso e com efeitos muito extensos. Isso vai impedir o trabalho dessa professora, que os colegas docentes possam conviver com essa possiblidade de uma colega que trabalha um tema importante na escola, obrigat\u00f3rio por lei, no campo da arte. Existe uma vis\u00e3o transversal muito enriquecedora, que \u00e9 de fato o que existe hoje de mais avan\u00e7ado em termo de abordagem cient\u00edfica. E vai impedir os seus alunos, tamb\u00e9m, de conhecer o que \u00e9. Essa obstaculariza\u00e7\u00e3o \u00e9 um racismo institucional sem d\u00favida alguma\u201d, classifica.<\/p>\n<p>Fischmann, que \u00e9 respons\u00e1vel pelo cap\u00edtulo sobre pluralidade cultural dos Par\u00e2metros Curriculares Nacionais (PCNs), tamb\u00e9m afirma que a escola citada est\u00e1, de fato, desrespeitando a lei. A pluralidade cultural \u00e9 um tema considerado transversal, e por isso precisa romper os limites dos livros e da sala de aula. \u201c\u00c9 preciso tratar em todas as inst\u00e2ncias e \u00e9 muito importante que isso seja respeitado\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>A professora, que trabalhou como especialista da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco) para a Coaliz\u00e3o de Cidades contra o Racismo e a Discrimina\u00e7\u00e3o, avalia que a limita\u00e7\u00e3o do ensino de quest\u00f5es afrobrasileiras aos discursos tradicionais dos livros did\u00e1ticos reflete a falta de visibilidade da import\u00e2ncia da popula\u00e7\u00e3o negra na forma\u00e7\u00e3o da indentidade nacional.<\/p>\n<p>\u201cIsso fala de uma inconsequ\u00eancia que a sociedade brasileira sempre teve com um grupo populacional que sempre contribuiu com tudo da nossa sociedade. Essa quest\u00e3o da dan\u00e7a, de tudo que \u00e9 da cultura, est\u00e1 na nossa vida. Ningu\u00e9m poderia comer arroz e feij\u00e3o, foram os africanos que trouxeram. E quando se come ningu\u00e9m fica pensando se \u00e9 impuro em termos religiosos\u201d, rebate.<\/p>\n<p>\u201cA influ\u00eancia est\u00e1 presente no nosso modo de ser. Ent\u00e3o quando voc\u00ea coloca isso em uma dan\u00e7a, no canto, num teatro, voc\u00ea traz a consci\u00eancia nas crian\u00e7as e adolescentes para que eles possam perceber as nossas origens\u201d.<\/p>\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Col\u00e9gio confirmou que a quest\u00e3o religiosa \u00e9 um dos motivos para que aula n\u00e3o seja ministrada<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":144797,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175],"tags":[],"class_list":["post-144796","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/escola-recife.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144796","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=144796"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144796\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/144797"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=144796"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=144796"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=144796"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}