{"id":144829,"date":"2016-08-15T09:05:00","date_gmt":"2016-08-15T12:05:00","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=144829"},"modified":"2016-08-15T09:05:01","modified_gmt":"2016-08-15T12:05:01","slug":"a-ideologia-da-nomenklatura-e-marxista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-ideologia-da-nomenklatura-e-marxista\/","title":{"rendered":"A Ideologia da Nomenklatura \u00e9 Marxista?"},"content":{"rendered":"<h3><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-ideologia-da-nomenklatura-e-marxista\/marx-se-suicida\/\" rel=\"attachment wp-att-144830\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-144830 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Marx-se-suicida.jpg\" alt=\"Marx se suicida\" width=\"320\" height=\"181\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Marx-se-suicida.jpg 320w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Marx-se-suicida-300x170.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Marx-se-suicida-160x91.jpg 160w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/a><\/h3>\n<p><strong>Por Carlos I. S. Azambuja<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA utopia vem sendo permanentemente adiada. Nunca ser realizou, mas amanh\u00e3, quem sabe? Com um pouco mais de boa vontade, mais algumas voltas no parafuso, mais algumas milhares de vozes silenciadas, de presos recolhidos a masmorras, de opositores executados \u2013 e j\u00e1 chegamos l\u00e1\u201d (Texto de Jos\u00e9 Arthur Rios, extra\u00eddo da Apresenta\u00e7\u00e3o do livro \u201cA Grande Parada\u201d de Jean Fran\u00e7ois Revel, editado no Brasil em 2001, pela Biblioteca do Ex\u00e9rcito Editora)<br \/>\n_______________________<\/p>\n<p>Durante o outono de 1938, quando a onda de pris\u00f5es e execu\u00e7\u00f5es atingia o seu paroxismo na R\u00fassia, uma nova obra de Stalin, intitulada \u201cDo Materialismo Dial\u00e9tico e Hist\u00f3rico\u201d, foi publicada. Entre a assinatura de duas senten\u00e7as de morte, o ditador redigira essa \u201cobra filos\u00f3fica\u201d.<br \/>\nDesde o primeiro par\u00e1grafo, o leitor estupefato topa com \u00a0\u00a0a seguinte defini\u00e7\u00e3o: \u201cO Materialismo Hist\u00f3rico \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o do mundo do Partido marxista-leninista\u201d. Isso significa afirmar que toda declara\u00e7\u00e3o do Partido se transforma,\u00a0ipso-facto, em materialismo hist\u00f3rico, mesmo que ele se afaste das teses expostas por Marx.<\/p>\n<p>Essa maneira t\u00e3o simples de professar sabedoria marxista, sem mesmo recorrer a Marx, sobreviveu ao culto de Stalin. A despeito do XX Congresso do PCUS, os escritos do ditador continuam a figurar na lista das leituras edificantes em mat\u00e9ria de marxismo-leninismo.<\/p>\n<p>Marx, em pessoa, afirmou um dia, brincando, que n\u00e3o era marxista. Essa brincadeira se revelou prof\u00e9tica: Para a Nomenklatura, o marxismo n\u00e3o \u00e9 o que disse ou escreveu Marx. \u00c9 apenas o que o Partido, quer dizer, a classe dos nomenklaturistas, afirma em um certo momento.<\/p>\n<p>A ideologia sovi\u00e9tica \u00e9 ou n\u00e3o marxista?<\/p>\n<p>As id\u00e9ias divergem consideravelmente quanto \u00e0 natureza exata do que seja o marxismo. Marx considerava sua obra uma teoria cient\u00edfica, expondo teses perfeitamente definidas. Nesse sentido, o \u201cmarxismo-leninismo\u201d de inspira\u00e7\u00e3o stalinista n\u00e3o \u00e9 certamente marxismo. A propaganda marxista da classe dos nomenklaturistas, ditada por considera\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas, nada tem estritamente a ver com uma teoria cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outras concep\u00e7\u00f5es poss\u00edveis do marxismo. Poderia ser a integralidade do que Marx e Engels escreveram durante suas vidas, de seus cadernos de escola aos seus testamentos, passando pelas anota\u00e7\u00f5es e coment\u00e1rios, feitos de pr\u00f3prio punho, nas obras que leram. Esse marxismo literal n\u00e3o repousaria sobre o que h\u00e1 de essencial na teoria de Marx, mas sobre cita\u00e7\u00f5es utilizadas ao capricho das necessidades.<\/p>\n<p>A ideologia nomenklaturista n\u00e3o pode nem mesmo reclamar dessa defini\u00e7\u00e3o do marxismo. Se bem que ela fa\u00e7a uso consider\u00e1vel de cita\u00e7\u00f5es extra\u00eddas dos escritos de Marx e de Engels, e utilize uma terminologia marxista, salvo algumas teses de Marx que podem servir aos fins de sua propaganda, a Nomenklatura silencia, ao mesmo tempo, sobre uma s\u00e9rie de princ\u00edpios marxistas. Algumas de suas obras foram mesmo oficialmente proibidas, entre elas A\u00a0Hist\u00f3ria da Diplomacia Secreta do S\u00e9culo XVIII, na qual ele se exprime em termos pouco elogiosos sobre a Hist\u00f3ria da R\u00fassia.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do marxismo, o leninismo n\u00e3o \u00e9 uma teoria e nem mesmo uma hip\u00f3tese. \u00c9 uma estrat\u00e9gia e uma t\u00e1tica para a tomada do Poder, disfar\u00e7adas com palavras de ordem marxistas. O leninismo \u00e9 uma teoria mais familiar \u00e0 classe dos nomenklaturistas do que o marxismo, mas j\u00e1 \u00e9 uma rel\u00edquia do seu passado, j\u00e1 que h\u00e1 muito tempo ela conquistou o Poder.<\/p>\n<p>O leninismo s\u00f3 poderia, portanto, ser atual em pol\u00edtica exterior, pois a conquista do Poder em outros pa\u00edses figura, com efeito, na ordem do dia da Nomenklatura. O esp\u00edrito subversivo do leninismo pr\u00e9-revolucion\u00e1rio, como n\u00e3o se adapta mais \u00e0 situa\u00e7\u00e3o interna da URSS, a Nomenklatura o eliminou, pois, cuidadosamente, da sua ideologia.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio marxista da abordagem dos fen\u00f4menos sociais desapareceu progressivamente da ideologia sovi\u00e9tica, a Nova Classe dominante se esfor\u00e7ando em dissimular a pr\u00f3pria exist\u00eancia de classes dentro da sociedade sovi\u00e9tica. Sua nova abordagem \u00e9 fortemente marcada pelo que Lenin chamava de \u201cnacionalismo chauvinista de grande pot\u00eancia\u201d. Esse nacionalismo chauvinista n\u00e3o poderia ser relacionado com um nacionalismo russo. Se bem que a Nomenklatura goste de qualificar de \u201crusso\u201d tudo o que refira a ela, elogia, com igual entusiasmo, as virtudes especificamente mong\u00f3is, cubanas ou vietnamitas. Internacionalismo socialista? N\u00c3O, pois as qualidades especificamente chinesas, albanesas ou iugoslavas n\u00e3o s\u00e3o objeto de uma admira\u00e7\u00e3o semelhante. O nacionalismo chauvinista da Nomenklatura n\u00e3o estabelece uma distin\u00e7\u00e3o entre russo e n\u00e3o russo, mas entre aqueles que lhes s\u00e3o submissos e o os que n\u00e3o o s\u00e3o.<\/p>\n<p>A imprensa sovi\u00e9tica regurgita a propaganda sovi\u00e9tica. O \u201cpatriotismo sovi\u00e9tico\u201d \u00e9 celebrado em qualquer ocasi\u00e3o. Para encontrar express\u00f5es semelhantes na imprensa ocidental, temos que remontar \u00e0 Alemanha hitlerista ou \u00e0 It\u00e1lia mussol\u00ednica. As formas que a propaganda assumiu nesses dois pa\u00edses se parecem, a ponto de se confundirem \u00e0quelas confrontadas na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. A \u00fanica diferen\u00e7a reside na escolha da terminologia, nazista e fascista de um lado, marxista-leninista do outro.<\/p>\n<p>Mas, o componente fundamental da ideologia oficial sovi\u00e9tica n\u00e3o \u00e9 o marxismo, \u00e9 o nacionalismo chauvinista de grande pot\u00eancia da Nomenklatura. Ele \u00e9 a express\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o do mundo dos carreiristas que conseguiram i\u00e7ar-se \u00e0 frente da grande pot\u00eancia que era Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Uma constata\u00e7\u00e3o se imp\u00f5e: essa ideologia lhes assegura, n\u00e3o obstante tudo, um certo apoio popular. A vitalidade de seu nacionalismo chauvinista prov\u00e9m de que ele \u00e9 menos mentiroso do que os elementos marxistas ou leninistas de sua ideologia.<\/p>\n<p>Com efeito, se os senhores da Nomenklatura n\u00e3o s\u00e3o, pois, nem marxistas \u2013 Marx teria abandonado, desgostoso, o sistema que eles edificaram \u2013 nem leninistas &#8211; os verdadeiros leninistas foram liquidados nos por\u00f5es da NKVD -, s\u00e3o, por outro lado, russos,na sua maior parte, e acentuando o patriotismo russo, conseguem fazer admitir sua pol\u00edtica de grande pot\u00eancia ao povo russo, ou seja, despertar um eco favor\u00e1vel junto dele.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode, pois, subestimar este fator, pois a Nomenklatura sovi\u00e9tica, ali\u00e1s, lhe deve \u2013 e \u00e0 pol\u00edtica de Hitler \u2013 a vit\u00f3ria conseguida na II Guerra Mundial. Ela, que a exemplo da nobreza \u2013 classe dominante na R\u00fassia czarista -, tomou o cuidado de se isolar do povo, conseguiu, ent\u00e3o, renovar os la\u00e7os com ele atrav\u00e9s do subterf\u00fagio dessa ideologia pseudopatri\u00f3tica.<\/p>\n<p>Os leninistas compreenderam as vantagens que a nobreza tirava desta manobra, nos anos que precederam a Revolu\u00e7\u00e3o, por isto, tentaram romper esse la\u00e7o ideol\u00f3gico entre a nobreza e o povo russo, propagando conceitos de luta de classes e de internacionalismo. Chegando ao Poder, eles pr\u00f3prios recorreram ao nacionalismo chauvinista de grande pot\u00eancia, e aproveitaram para colocar um disfarce nas tens\u00f5es resultantes da sua domina\u00e7\u00e3o de classe da sociedade sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Resumindo, \u00e0 guisa de conclus\u00e3o: a ideologia da classe dos nomenklaturistas n\u00e3o \u00e9 marxista e nem mesmo leninista. Ela \u00e9, de fato, a cria\u00e7\u00e3o da nobreza, classe dominante da antiga sociedade feudal russa. Trata-se, portanto, de um nacionalismo chauvinista de grande pot\u00eancia, ao qual foram integradas uma terminologia marxista e as teses de Marx e de Lenin, que sirvam aos interesses da Nomenklatura.<br \/>\n_________________________________<\/p>\n<p>O texto acima \u00e9 o resumo de um dos cap\u00edtulos do livro\u00a0\u201cA NOMENKLATURA \u2013 Como Vivem as Classes Privilegiadas na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica\u201d, de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em pol\u00edtica sovi\u00e9tica. Foi professor de Hist\u00f3ria na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ci\u00eancias Sociais junto ao Comit\u00ea Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.<\/p>\n<p>NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se t\u00e3o c\u00e9lebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que disp\u00f5e de um poder sem precedentes na Hist\u00f3ria, j\u00e1 que ela \u00e9 o pr\u00f3prio Estado. Atribui a si mesma imensos e inalien\u00e1veis privil\u00e9gios \u2013 dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, cl\u00ednicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.<\/p>\n<p><strong>Carlos I. S. Azambuja \u00e9 Historiador.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Carlos I. S. Azambuja \u201cA utopia vem sendo permanentemente adiada. Nunca ser realizou, mas amanh\u00e3, quem sabe? 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