{"id":153620,"date":"2016-10-01T16:41:07","date_gmt":"2016-10-01T19:41:07","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=153620"},"modified":"2016-10-01T16:41:07","modified_gmt":"2016-10-01T19:41:07","slug":"eleicoes-violencia-voto-e-mercado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/eleicoes-violencia-voto-e-mercado\/","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es: viol\u00eancia, voto e mercado"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"blog-post-title\"><\/h2>\n<p><strong>Por Ivonaldo Leite*<\/strong><\/p>\n<p>Quem acompanha a s\u00e9rie hist\u00f3rica das elei\u00e7\u00f5es municipais brasileiras, sabe que o pleito deste ano est\u00e1 se caracterizando como o mais violento desde a primeira elei\u00e7\u00e3o municipal p\u00f3s-ditadura, em 1988.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/policial-dar-porrada-na-cara-de-estudante-em-manifestacao\/sala-de-aula-porrada-na-cara-de-estudante\/\" rel=\"attachment wp-att-99203\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-99203 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/sala-de-aula-porrada-na-cara-de-estudante-620x414.jpg\" alt=\"sala de aula porrada na cara de estudante\" width=\"620\" height=\"414\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/sala-de-aula-porrada-na-cara-de-estudante-620x414.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/sala-de-aula-porrada-na-cara-de-estudante-300x200.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/sala-de-aula-porrada-na-cara-de-estudante-160x107.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/sala-de-aula-porrada-na-cara-de-estudante.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Do que se tem registro, j\u00e1 s\u00e3o contabilizados cerca de 30 assassinatos, sendo o mais impactante o do candidato a prefeito de Itumbiara\/GO, Jos\u00e9 Gomes da Rocha, morto ao lado do vice-governador do estado, que tamb\u00e9m saiu ferido. Afora esses casos extremos, s\u00e3o in\u00fameros os registros de discuss\u00f5es acaloradas e agress\u00f5es, com as \u2018vias de fato\u2019 requerendo a interven\u00e7\u00e3o policial. O aumento da viol\u00eancia tem ocorrido em dupla perspectiva: em termos quantitativos e em intensidade, com os assassinatos, neste \u00faltimo caso, sendo marcados, por exemplo, pela brutalidade de diversos disparos.<\/p>\n<p>Um outro fen\u00f4meno tem feito companhia \u00e0 essa barb\u00e1rie eleitoral: a \u201csofistifica\u00e7\u00e3o\u201d e a naturaliza\u00e7\u00e3o da compra de votos. \u00c9 fato indiscut\u00edvel que tal pr\u00e1tica, na hist\u00f3ria pol\u00edtica brasileira, \u00e9 bastante corriqueira. Contudo, o plus do presente processo eleitoral decorre da ado\u00e7\u00e3o de peculiares mecanismos para efetivar a compra de sufr\u00e1gios \u2013 em muitos casos, como estrat\u00e9gia para burlar a legisla\u00e7\u00e3o e a fiscaliza\u00e7\u00e3o. Assim surgem figuras como o \u2018condutor de votos\u2019 (aquele que faz a rela\u00e7\u00e3o de eleitores a serem comprados), bem como se efetiva a compra, quando \u00e9 feita com dinheiro em esp\u00e9cie, atrav\u00e9s dos servi\u00e7os de mototaxistas. Cimento, tijolo, telha, etc. continuam sendo moeda de uso corrente.<\/p>\n<p>Empiricamente, dois fatos que tiveram lugar no estado da Para\u00edba servem para ilustrar a naturaliza\u00e7\u00e3o do mercado do voto, quais sejam: um candidato a vice-prefeito que pousou para foto ao lado de uma mala cheia de notas de R$ 100,00 e um eleitor que resolveu anunciar venda de votos mediante a afixa\u00e7\u00e3o de uma placa.<\/p>\n<p>Como que at\u00f4nitas autoridades se dizem impactadas com o grau de viol\u00eancia presente na campanha eleitoral de 2016. Assim se manifestou, por exemplo, o ministro Gilmar Mendes, presidente do TSE. Data v\u00eania, a trag\u00e9dia era, de determinado modo, previs\u00edvel, e pode-se at\u00e9 mesmo operacionalizar uma hip\u00f3tese anal\u00edtica estabelecendo uma rela\u00e7\u00e3o causal entre o clima de \u00f3dio que foi reproduzido no pa\u00eds ap\u00f3s o resultado da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2014 e a viol\u00eancia na campanha do presente ano.<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de dois anos, em escala ascendente, a diverg\u00eancia civilizada de ideias no Brasil cedeu lugar aos ataques da intoler\u00e2ncia, as agress\u00f5es f\u00edsicas e as montagens em redes sociais para reproduzirem mentiras (a prop\u00f3sito, quando se tem necessidade de recorrer a montagens, \u00e9 porque falta argumento). Nesse sentido, os disparates abundam. Dois deles s\u00e3o bem caracter\u00edsticos, isto \u00e9: o ataque ao cardeal de S\u00e3o Paulo, Dom Odilo Scherer, que foi agredido durante uma missa e lan\u00e7ado ao ch\u00e3o por uma senhora que o acusava de comunista; e a deplor\u00e1vel atitude de uma pediatra no Rio Grande do Sul que se recusou a atender uma crian\u00e7a por causa da op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da m\u00e3e da mesma. Por conveni\u00eancia pol\u00edtica, determinados segmentos se mantiveram omissos diante de tais fatos, pois, no momento em que eles ocorreram, o que importava era engrossar as fileiras do impeachment. Ali\u00e1s, o pr\u00f3prio ministro Gilmar Mendes, sob o impulso de defender as suas posi\u00e7\u00f5es, mais de uma vez deu express\u00e3o \u00e0 trucul\u00eancia verbal, a ponto de dizer que o projeto da ficha limpa parecia ser \u2018um projeto feito por b\u00eabados\u2019.<\/p>\n<p>O ac\u00famulo da intoler\u00e2ncia, da deteriora\u00e7\u00e3o do ambiente de debate, das agress\u00f5es, etc., est\u00e1 a\u00ed reverberando na viol\u00eancia presente no atual processo eleitoral.<\/p>\n<p>Com tudo isso \u2013 viol\u00eancia, compra de votos, corrup\u00e7\u00e3o eleitoral -, ainda h\u00e1 quem insita em dizer que, com as elei\u00e7\u00f5es municipais, estamos vivendo a \u2018festa da democracia\u2019, que as institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o a funcionar bem, enfim, esses lugares-comuns. Trata-se de um discurso mais pr\u00f3prio de um mundo paralelo, o que \u00e9 coisa para a psican\u00e1lise. Todavia, \u00e9 de pol\u00edtica que se trata. E o que os dispositivos da sua an\u00e1lise revelam \u00e9 que o jogo pol\u00edtico-eleitoral chegou a um ponto em que \u2013 com aliados de ontem sendo advers\u00e1rios hoje, para serem aliados novamente amanh\u00e3 \u2013 a encena\u00e7\u00e3o \u00e9 elevada ao m\u00e1ximo, ao mesmo tempo em que se sepulta a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica fundada em bases program\u00e1ticas. E assim se vai deteriorando a democracia brasileira.<\/p>\n<p>Desde Hobbes, sabemos que a guerra de todos contra todos n\u00e3o leva a lugar nenhum, a n\u00e3o ser a cat\u00e1strofes e mais cat\u00e1strofes. Da\u00ed que se h\u00e1 algo que a teoria pol\u00edtica moderna nos legou e que tem sido uma dimens\u00e3o central nas \u2018democracias avan\u00e7adas\u2019 \u00e9 o conceito de contrato. A pactua\u00e7\u00e3o entre cidad\u00e3os, pois a for\u00e7a cria situa\u00e7\u00f5es de fato, mas n\u00e3o estabelece o direito. O n\u00edvel de deteriora\u00e7\u00e3o da democracia brasileira tem levado cientistas sociais estrangeiros, como o soci\u00f3logo catal\u00e3o Manuel Castells, a colocarem em d\u00favida o futuro do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Tirar as devidas ila\u00e7\u00f5es do grau de viol\u00eancia verificado no atual processo eleitoral, assim como da banaliza\u00e7\u00e3o do mercado do voto, \u00e9, portanto, condi\u00e7\u00e3o sine qua non para pensar em um novo contrato pol\u00edtico para o Brasil. Afinal, como assinala um postulado da \u00e9tica, \u2018seres vocacionados para a liberdade tamb\u00e9m s\u00e3o livres para se destru\u00edrem\u2019.<\/p>\n<p><strong>*<\/strong> <strong>Soci\u00f3logo, Ph.D; Professor da Universidade Federal da Para\u00edba (UFPB); Pesquisador do CNPq<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Empiricamente, dois fatos que tiveram lugar no estado da Para\u00edba servem para ilustrar a naturaliza\u00e7\u00e3o do mercado do voto, quais sejam: um candidato a vice-prefeito <\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":99203,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-153620","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/sala-de-aula-porrada-na-cara-de-estudante.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/153620","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=153620"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/153620\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/99203"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=153620"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=153620"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=153620"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}