{"id":160042,"date":"2016-11-11T10:59:36","date_gmt":"2016-11-11T13:59:36","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=160042"},"modified":"2016-11-11T10:59:37","modified_gmt":"2016-11-11T13:59:37","slug":"o-direito-preguica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-direito-preguica\/","title":{"rendered":"O Direito \u00e0 Pregui\u00e7a"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: justify;\"><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por Carlos I. S. Azambuja<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-direito-preguica\/paul-lafargue\/\" rel=\"attachment wp-att-160043\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-160043 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Paul-Lafargue.jpg\" alt=\"paul-lafargue\" width=\"220\" height=\"384\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Paul-Lafargue.jpg 220w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Paul-Lafargue-172x300.jpg 172w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Paul-Lafargue-160x279.jpg 160w\" sizes=\"auto, (max-width: 220px) 100vw, 220px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma estranha loucura est\u00e1 possuindo as classes oper\u00e1rias das na\u00e7\u00f5es em que reina a civiliza\u00e7\u00e3o capitalista. Essa loucura arrasta em sua esteira mis\u00e9rias individuais e sociais que, h\u00e1 s\u00e9culos est\u00e3o torturando a triste humanidade. Essa loucura \u00e9 o amor ao trabalho, a paix\u00e3o furiosa pelo trabalho, levada ao esgotamento das for\u00e7as vitais do indiv\u00edduo e de sua prole.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em vez de reagir contra essa aberra\u00e7\u00e3o mental, sacerdotes, economistas e moralistas tornaram o trabalho sacrossanto. Cegos e limitados, quiseram ser mais s\u00e1bios que seu Deus, fracos e desprez\u00edveis, quiseram resgatar o que o seu Deus havia amaldi\u00e7oado. Eu, que n\u00e3o professo ser crist\u00e3o, econ\u00f4mico ou moral, rejeito seu ju\u00edzo em nome do seu Deus, desde as predica\u00e7\u00f5es de sua moral religiosa, econ\u00f4mica, livre pensadora, at\u00e9 as conseq\u00fc\u00eancias medonhas do trabalho para a sociedade capitalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sociedade capitalista, o trabalho \u00e9 a causa de todas as degeneresc\u00eancias intelectuais, de todas as deformidades org\u00e2nicas. Comparem os puro-sangue das cavalari\u00e7as dos Rothschilds, tratado por uma criadagem bimana, e a pesada bruta das fazendas normandas, que ara a terra, puxa carro\u00e7as de estrume, carrega as colheitas.Olhem o nobre selvagem que os mission\u00e1rios do com\u00e9rcio e os comerciantes da religi\u00e3o ainda n\u00e3o corromperam com o cristianismo, a s\u00edfilis e o dogma do trabalho, e, em seguida, os miser\u00e1veis operadores de m\u00e1quinas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando, em nossa Europa civilizada, quisermos encontrar um rastro de beleza nativa do homem, \u00e9 preciso busc\u00e1-lo nas na\u00e7\u00f5es em que os preconceitos econ\u00f4micos ainda n\u00e3o desarraigaram o \u00f3dio ao trabalho. A Espanha, que infelizmente est\u00e1 degenerando, ainda pode gabar-se de possuir menos f\u00e1bricas do que temos pris\u00f5es e quart\u00e9is, mas o artista alegra-se ao admirar o atrevido andaluz, moreno como castanhas, reto e flex\u00edvel como uma vara de a\u00e7o; e o cora\u00e7\u00e3o do homem estremece ao ouvir o mendigo, esplendidamente envolto em sua \u201ccapa\u201d esburacada, chamar de \u201camigo\u201d duques de Ossuna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o espanhol, em quem o animal primitivo n\u00e3o se atrofiou, o trabalho \u00e9 a pior das escravid\u00f5es. At\u00e9 os gregos da grande \u00e9poca n\u00e3o tinham sen\u00e3o desprezo ; apenas as escravos era permitido trabalhar. O homem livre somente conhecia os exerc\u00edcios corporais e os jogos da intelig\u00eancia. Ali\u00e1s, era uma \u00e9poca em que se andava e respirava em meio a Arist\u00f3teles, F\u00eddias, Arist\u00f3fanes; era uma \u00e9poca em que um unhado de bravos esmagava, em Maratona, as hordas vindas da \u00c1sia, a qual Alexandre logo conquistaria. Os fil\u00f3sofos da antiguidade ensinavam o desprezo pelo trabalho, essa degrada\u00e7\u00e3o do homem livre, e os poetas cantavam a pregui\u00e7a, esse presente dos deuses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu serm\u00e3o da montanha, Cristo apregoou a pregui\u00e7a:\u00a0Contemplem o crescimento dos l\u00edrios nos campos, n\u00e3o trabalham, nem fiam e, entretanto, digo-lhes, Salom\u00e3o, em toda a sua gl\u00f3ria, n\u00e3o se vestiu com maior brilho.<br \/>\nJeov\u00e1, o Deus barbudo e rebarbativo, deu a seus adoradores um supremo exemplo de pregui\u00e7a ideal; depois de seis dias de trabalho, descansou por toda a eternidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em contrapartida, para quais ra\u00e7as o trabalho \u00e9 uma necessidade org\u00e2nica? Os\u00a0ouvergnats(nascidos na regi\u00e3o de Auvergne, no centro da Fran\u00e7a), os escoceses, esses\u00a0ouvergnats\u00a0das Ilhas Brit\u00e2nicas, os galegos, os\u00a0ouvergnats\u00a0da Espanha, os pomer\u00e2nios, esses\u00a0ouvergnats\u00a0da Alemanha, os chineses, os\u00a0ouvergnats\u00a0da \u00c1sia. Em nossa sociedade, quais classes amam o trabalho pelo trabalho? Os camponeses propriet\u00e1rios, os pequeno burgueses, uns curvados sobre suas terras, outros agarrados \u00e0s suas lojas, correm como toupeiras em suas galerias subterr\u00e2neas e nunca levantam a cabe\u00e7a para olhar a natureza \u00e0 vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, entretanto, o proletariado, a grade classe que\u00a0 abarca todos os produtores das na\u00e7\u00f5es civilizadas, a classe que, ao se emancipar, emancipar\u00e1 a humanidade do trabalho servil e far\u00e1 do animal humano um ser livre, o proletariado, traindo seus instintos, ignorando sua miss\u00e3o hist\u00f3rica, deixou-se perverter pelo dogma do trabalho. E o castigo veio a cavalo. Todas as mis\u00e9rias individuais e sociais nasceram de sua paix\u00e3o pelo trabalho.<br \/>\n_______________________<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto acima \u00e9 de autoria de Paul Lafargue (1842-1911), jornalista, escritor e ativista pol\u00edtico franc\u00eas. Genro de Karl Marx. Lafargue e sua esposa, Laura Marx suicidaram-se em 26 de novembro de 1911. O livro \u2013 \u201cO Direito \u00e0 Pregui\u00e7a\u201d \u2013 onde o texto est\u00e1 publicado, foi editado em 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Carlos I. S. Azambuja \u00e9 Historiador.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma estranha loucura est\u00e1 possuindo as classes oper\u00e1rias das na\u00e7\u00f5es em que reina a civiliza\u00e7\u00e3o capitalista. 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