{"id":16039,"date":"2013-09-16T17:00:53","date_gmt":"2013-09-16T20:00:53","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=16039"},"modified":"2013-09-16T09:06:52","modified_gmt":"2013-09-16T12:06:52","slug":"gustavo-ioschpe-devo-educar-meus-filhos-para-serem-eticos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/gustavo-ioschpe-devo-educar-meus-filhos-para-serem-eticos\/","title":{"rendered":"Gustavo Ioschpe: devo educar meus filhos para serem \u00e9ticos?"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-16040\" alt=\"ImageProxy (12)\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/ImageProxy-121-300x168.jpg\" width=\"300\" height=\"168\" \/><\/p>\n<p>Quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, sa\u00eda de casa para a escola numa manh\u00e3 fria do inverno ga\u00facho. Chegando \u00e0 portaria, meu pai interfonou, perguntando se eu estava levando um agasalho. Disse que sim. Ele me perguntou qual. \u201cO moletom amarelo, da Zugos\u201d, respondi. Era mentira. N\u00e3o estava levando agasalho nenhum, mas estava com pressa, n\u00e3o queria me atrasar.<\/p>\n<p>Voltei do col\u00e9gio e fui ao arm\u00e1rio procurar o tal moletom. N\u00e3o estava l\u00e1, nem em nenhum lugar da casa. Gelei. \u00c0 noite, meu pai chegou em casa de cara amarrada. Ao me ver, tirou da pasta de trabalho o moletom. E me disse: \u201cEu n\u00e3o me importo que tu n\u00e3o te agasalhes. Mas, nesta casa, nesta fam\u00edlia, ningu\u00e9m mente. Ponto. T\u00e1 claro?\u201d. Sim, clar\u00edssimo. Esse foi apenas um epis\u00f3dio mais memor\u00e1vel de algo que foi o\u00a0<em>leitmotiv<\/em>\u00a0da minha forma\u00e7\u00e3o familiar. Meu pai era um obcecado por retid\u00e3o, palavra, \u00e9tica, pontualidade, honestidade, c\u00f3digo de conduta, escala de valores, menschkeit (firmeza de car\u00e1ter, dec\u00eancia fundamental, em i\u00eddiche) e outros termos que eram repetitiva e exaustivamente martelados na minha cabe\u00e7a. Deu certo. Quer dizer, n\u00e3o sei. No Brasil atual, eu me sinto deslocado.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje chego pontualmente aos meus compromissos, e na maioria das vezes fico esperando por interlocutores que se atrasam e nem se desculpam (quinze minutos parece constituir uma \u201cmargem de erro\u201d toler\u00e1vel). At\u00e9 hoje acredito quando um prestador de servi\u00e7o promete entregar o trabalho em uma data, apenas para ficar exasperado pelo seu atraso, \u201cveja bem\u201d, \u201cimprevistos acontecem\u201d etc. Fico revoltado sempre que pego um t\u00e1xi em cidade que n\u00e3o conhe\u00e7o e o motorista tenta me roubar. Detesto os colegas de trabalho que fazem corpo mole, que arranjam um jeitinho de fazer menos que o devido. Tenho cada vez menos visitado escolas p\u00fablicas, porque n\u00e3o suporto mais ver professores e diretores tratando alunos como estorvos que devem ser controlados. Isso sem falar nas quase \u00falceras que me surgem ao ler o notici\u00e1rio e saber que entre os governantes viceja um grupo de imorais que roubam com criatividade e desfa\u00e7atez.<\/p>\n<p>S\u00f3crates, via Plat\u00e3o (<em>A Rep\u00fablica<\/em>, Livro IX), defende que o homem que pratica o mal \u00e9 o mais infeliz e escravizado de todos, pois est\u00e1 em conflito interno, em desarmonia consigo mesmo, perenemente acossado e paralisado por medos, remorsos e apetites incontrol\u00e1veis, tendo uma exist\u00eancia desprez\u00edvel, para sempre amarrado a algu\u00e9m (sua pr\u00f3pria consci\u00eancia!) onisciente que o condena. Com o devido respeito ao fil\u00f3sofo de Atenas, nesse caso acredito que ele foi excessivamente otimista. Hannah Arendt me parece ter chegado mais perto da compreens\u00e3o da perversidade humana ao notar, nos ensaios reunidos no livro\u00a0<em>Responsabilidade e Julgamento<\/em>, que esse desconforto interior do \u201cpecador\u201d pressup\u00f5e um di\u00e1logo interno, de cada pessoa com a sua consci\u00eancia, que na verdade n\u00e3o ocorre com a frequ\u00eancia desejada por S\u00f3crates. Escreve ela: \u201cTenho certeza de que os maiores males que conhecemos n\u00e3o se devem \u00e0quele que tem de confrontar-se consigo mesmo de novo, e cuja maldi\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o poder esquecer. Os maiores malfeitores s\u00e3o aqueles que n\u00e3o se lembram porque nunca pensaram na quest\u00e3o\u201d. E, para aqueles que cometem o mal em uma escala menor e o confrontam, Arendt relembra Kant, que sabia que \u201co desprezo por si pr\u00f3prio, ou melhor, o medo de ter de desprezar a si pr\u00f3prio, muitas vezes n\u00e3o funcionava, e a sua explica\u00e7\u00e3o era que o homem pode mentir para si mesmo\u201d. Todo corrupto ou sonegador tem uma explica\u00e7\u00e3o, uma l\u00f3gica para os seus atos, algo que justifique o porqu\u00ea de uma determinada lei dever se aplicar a todos, sempre, mas n\u00e3o a ele(a), ou pelo menos n\u00e3o naquele momento em que est\u00e1 cometendo o seu delito.<\/p>\n<p>Cai por terra, assim, um dos poucos consolos das pessoas honestas: \u201cAh, mas pelo menos eu durmo tranquilo\u201d. Os escroques tamb\u00e9m! Se eles tivessem dramas de consci\u00eancia, se travassem um di\u00e1logo verdadeiro consigo e seu travesseiro, ou n\u00e3o teriam optado por sua \u201ccarreira\u201d ou j\u00e1 teriam se suicidado. Esse di\u00e1logo consigo mesmo \u00e9 fruto do que Freud chamou de superego: seguimos um comportamento moral porque ele nos foi inculcado por nossos pais, e reneg\u00e1-lo seria correr o risco da perda do amor paterno.<\/p>\n<p>Na minha vis\u00e3o, s\u00f3 existem, assim, dois cen\u00e1rios em que \u00e9 objetivamente melhor ser \u00e9tico do que n\u00e3o. O primeiro \u00e9 se voc\u00ea \u00e9 uma pessoa religiosa e acredita que os pecados deste mundo ser\u00e3o punidos no pr\u00f3ximo. N\u00e3o \u00e9 o meu caso. O segundo \u00e9 se voc\u00ea vive em uma sociedade \u00e9tica em que os desvios de comportamento s\u00e3o punidos pela coletividade, quer na forma de san\u00e7\u00f5es penais, quer na forma do ostracismo social. O que n\u00e3o \u00e9 o caso do Brasil. N\u00e3o se sabe se De Gaulle disse ou n\u00e3o a frase, mas ela \u00e9 verdadeira: o Brasil n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que, criando filhos brasileiros morando no Brasil, estou \u00e0s voltas com um deprimente dilema. Acredito que o papel de um pai \u00e9 preparar o seu filho para a vida. Essa \u00e9 a nossa responsabilidade: dar a nossos filhos os instrumentos para que naveguem, com seguran\u00e7a e destreza, pelas dificuldades do mundo real. E acredito que a \u00e9tica e a honestidade s\u00e3o valores axiom\u00e1ticos, inquestion\u00e1veis. Eis a\u00ed o dilema: ser\u00e1 que o melhor que poderia fazer para preparar meus filhos para viver no Brasil seria n\u00e3o aprision\u00e1-los na cela da consci\u00eancia, do di\u00e1logo consigo mesmos, da preocupa\u00e7\u00e3o com a integridade? Tenho certeza de que nunca chegaria a ponto de incentiv\u00e1-los a serem escroques, mas poderia, como pai, simplesmente ser mais omisso quanto a essas quest\u00f5es. Tolerar algumas mentiras, n\u00e3o me importar com atrasos, n\u00e3o insistir para que n\u00e3o colem na escola, n\u00e3o instruir para que devolvam o troco recebido a mais&#8230;<\/p>\n<p>Tenho pensado bastante sobre isso ultimamente. Simplesmente o fato de pensar a respeito, e de viver em um pa\u00eds em que existe um dilema entre o ensino da \u00e9tica e o bom exerc\u00edcio da paternidade, j\u00e1 \u00e9 causa para tristeza. Em \u00faltima an\u00e1lise, decidi dar a meus filhos a mesma educa\u00e7\u00e3o que recebi de meu pai. N\u00e3o porque ache que eles ser\u00e3o mais felizes assim &#8211; pelo contr\u00e1rio -, nem porque acredite que, no fim, o bem compensa. Mas sim porque, em primeiro lugar, n\u00e3o conseguiria conviver comigo mesmo, e com a mem\u00f3ria de meu pai, se criasse meus filhos para serem pessoas do tipo que ele me ensinou a desprezar. E, segundo, tentando um esbo\u00e7o de resposta mais l\u00f3gica, porque sociedades e culturas mudam. Muitos dos pa\u00edses hoje desenvolvidos e honestos eram antros de corrup\u00e7\u00e3o e sordidez 100 anos atr\u00e1s. Um dia o Brasil h\u00e1 de seguir o mesmo caminho, e a\u00ed a retid\u00e3o que espero inculcar em meus filhos (e meus filhos em seus filhos) h\u00e1 de ser uma vantagem, e n\u00e3o um fardo. Oxal\u00e1.<\/p>\n<p>Fonte: Veja<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, sa\u00eda de casa para a escola numa manh\u00e3 fria do inverno ga\u00facho. Chegando \u00e0 portaria, meu pai interfonou, perguntando se eu estava levando um agasalho. Disse que sim. Ele me perguntou qual. \u201cO moletom amarelo, da Zugos\u201d, respondi. Era mentira. 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