{"id":160722,"date":"2016-11-16T10:42:33","date_gmt":"2016-11-16T13:42:33","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=160722"},"modified":"2016-11-16T10:42:33","modified_gmt":"2016-11-16T13:42:33","slug":"o-casal-pioneiro-de-lesbicas-que-se-casou-ha-mais-de-um-seculo-na-espanha-e-teve-de-fugir-para-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-casal-pioneiro-de-lesbicas-que-se-casou-ha-mais-de-um-seculo-na-espanha-e-teve-de-fugir-para-argentina\/","title":{"rendered":"O casal pioneiro de l\u00e9sbicas que se casou h\u00e1 mais de um s\u00e9culo na Espanha e teve de fugir para a Argentina"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"byline\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"byline__name\">De Pablo Esparza<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/304\/cpsprodpb\/5793\/production\/_92391422_acoruna1.jpg\" alt=\"Foto de Marcela e Elisa no dia do casamento\" width=\"412\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"304\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-portrait has-caption body-narrow-width lead\" style=\"text-align: justify;\"><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">Foto de Marcela e Elisa no dia do casamento<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\" style=\"text-align: justify;\">Em 08 de junho de 1901, Marcela Gracia Ibeas e Elisa S\u00e1nchez Loriga se casaram na Igreja de S\u00e3o Jorge, na cidade galega de La Coru\u00f1a, no noroeste da Espanha. Para a ocasi\u00e3o, Elisa usou o nome de Mario e vestiu um terno masculino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dias antes, o mesmo padre havia batizado o jovem Mario, que contara que era filho de pais ingleses protestantes e queria se converter ao catolicismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dada a aparente devo\u00e7\u00e3o do rapaz, o sacerdote tamb\u00e9m n\u00e3o desconfiou quando ele disse que queria se casar com Marcela, a mulher com quem tinha vivido nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais de um s\u00e9culo depois, o casamento de Marcela e Elisa continua a inspirar livros, exposi\u00e7\u00f5es e artigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente, a cidade de La Coru\u00f1a anunciou que dedicar\u00e1 uma rua para as duas protagonistas do casamento, considerado um dos casos pioneiros de uni\u00e3o homossexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esc\u00e2ndalo internacional<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a hist\u00f3ria de Marcela e Elisa &#8211; &#8220;uma das mais extraordin\u00e1rias hist\u00f3rias de amor de todos os tempos&#8221;, nas palavras do escritor galego Manuel Rivas &#8211; n\u00e3o come\u00e7ou em 08 de junho de 1901 nem terminou na Gal\u00edcia, e, sim, do outro lado do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Elas se conheceram em meados de 1880. Marcela era aluna da escola de magist\u00e9rio na cidade de La Coru\u00f1a, e Elisa, que tinha estudado anteriormente para a mesma carreira, estava trabalhando l\u00e1. Foi l\u00e1 que elas se apaixonaram&#8221;, conta o escritor Narciso Gabriel, autor do livro <i>Marcela e Elisa, muito al\u00e9m dos homens<\/i>, publicado em galego em 2008 e traduzido para o castelhano em 2010.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F3D3\/production\/_92391426_gettyimages-156258804.jpg\" alt=\"Imagem de uma praia em La Coru\u00f1a\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Marcela e Elisa viveram em v\u00e1rios povoados da Gal\u00edcia antes de se casar<\/span><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por mais de uma d\u00e9cada, desde 1888, as duas mulheres viveram juntas em diferentes regi\u00f5es da prov\u00edncia de La Coru\u00f1a. Mas, a partir do momento em que decidiram se casar, o anonimato acabou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ap\u00f3s o casamento, elas deram um passeio e tiraram uma foto com Jos\u00e9 Sellier, um dos fot\u00f3grafos mais importantes da cidade. E voltaram a Dumbr\u00eda, cidade onde Marcela trabalhou. J\u00e1 na viagem, alguns passageiros descobriram que Mario era, na verdade, Elisa &#8220;, diz Gabriel, que tamb\u00e9m \u00e9 reitor da Faculdade de Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de La Coru\u00f1a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao chegar ao povoado, os moradores perceberam o disfarce e as not\u00edcias do inusitado caso n\u00e3o demoraram a chegar a La Coru\u00f1a. A imprensa local deu in\u00edcio a uma intensa cobertura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O p\u00fablico mostrou um interesse enorme em saber os detalhes da hist\u00f3ria, a imprensa competiu para publicar a foto exclusiva. O caso teve uma grande repercuss\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 na Gal\u00edcia, mas tamb\u00e9m em Madri e na imprensa de outros pa\u00edses, como Fran\u00e7a, B\u00e9lgica e Argentina&#8221;, contou Gabriel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A farsa s\u00f3 veio \u00e0 tona pela ousadia que elas tiveram em voltar para o lugar onde tinham vivido como duas mulheres at\u00e9 poucos dias antes&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Solidariedade portuguesa<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante do ass\u00e9dio da imprensa e da persegui\u00e7\u00e3o da Igreja e da pol\u00edcia &#8211; a Justi\u00e7a havia decretado mandado de pris\u00e3o -, o casal fugiu da Espanha e se mudou para a cidade do Porto, em Portugual.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/09D7\/production\/_92391520_gettyimages-71107065.jpg\" alt=\"Imagem da cidade do Porto, em Portugal\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Elisa e Marcela se mudaram para Portugal, fugindo da Justi\u00e7a espanhola<\/span><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em terras portuguesas, Elisa passou a se chamar de Pepe. E, mais uma vez sob o disfarce de um casal heterossexual, as duas viveram como marido e mulher por dois meses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 18 de agosto de 1901, a pedido da pol\u00edcia espanhola, elas foram detidas e levadas para a pris\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Gabriel, o caso come\u00e7ou a ganhar as manchetes portuguesas e &#8220;uma cobertura t\u00e3o espetacular como a que aconteceu na Espanha&#8221;. &#8220;A imprensa tomou partido da causa de Marcela e Elisa, assim como parte da sociedade portuguesa e alguns residentes espanh\u00f3is do Porto que sa\u00edram em defesa das duas mulheres&#8221;, conta ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da como\u00e7\u00e3o, a Espanha solicitou a extradi\u00e7\u00e3o do casal e Portugal aceitou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, antes de serem enviadas de volta para a Espanha, Elisa foi inocentada, segundo o jornal <i>O Com\u00e9rcio do Porto,<\/i> da acusa\u00e7\u00e3o de adultera\u00e7\u00e3o de documento e Marcela da de tentar encobrir o crime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes da extradi\u00e7\u00e3o, no entanto, Marcela e Elisa escaparam novamente. Desta vez, rumo \u00e0 Argentina, onde, novamente, mudaram suas identidades. Em Buenos Aires, Marcela passou a se chamar de Carmen e Elisa, de Maria.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\" style=\"text-align: justify;\">Nova vida na Argentina<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elisa desembarcou na Argentina em 1903, dois anos ap\u00f3s o casamento, . Pouco tempo depois, chegou Marcela, acompanhada de uma crian\u00e7a, sua filha, que nasceu no Porto, em 06 de janeiro de 1902.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas quem era essa menina que nasceu apenas seis meses ap\u00f3s o casamento de duas mulheres?<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/A617\/production\/_92391524_gettyimages-115054559.jpg\" alt=\"Imagem de uma rua de Buenos Aires, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Como milhares de imigrantes galegos, casal come\u00e7a uma nova vida em Buenos Aires<\/span><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Acho que a filha tem um papel central nesta hist\u00f3ria. Creio que elas decidiram se casar por duas raz\u00f5es&#8221;, diz Gabriel. &#8220;A primeira explica\u00e7\u00e3o \u00e9 apontada por Elisa quando entrevistada pela imprensa portuguesa. De acordo com esta vers\u00e3o, Marcela engravidou de uma rela\u00e7\u00e3o que teve com um jovem local, e Elisa resolveu assumir a crian\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A segunda hip\u00f3tese, que \u00e9 a que eu mais gosto, mas reconhe\u00e7o que n\u00e3o tenho base para sustent\u00e1-la, \u00e9 que poderia se tratar de uma gravidez premeditada. Ou seja, Elisa e Marcela n\u00e3o se conformavam em se tornar marido e mulher sem ter filhos&#8221;, sugere o autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O paradeiro desta crian\u00e7a se perdeu na Argentina, lamenta Gabriel, ressaltando que a rela\u00e7\u00e3o de Marcela e Elisa \u00e9 &#8220;cheia de sombras.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida das jovens em Buenos Aires, a princ\u00edpio, n\u00e3o parecia ser muito diferente da de milhares de imigrantes galegos que viviam na cidade, muitos dos quais conseguiam emprego no servi\u00e7o dom\u00e9stico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns meses depois, no entanto, a hist\u00f3ria sofreu uma nova reviravolta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elisa &#8211; que na Espanha se chamava Mario, em Portugal, foi Pepe e na Argentina, Maria &#8211; se casou desta vez como mulher com um homem de origem dinamarquesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O casamento n\u00e3o foi feliz e termina mal, entre outras coisas, porque Elisa se recusa a ter rela\u00e7\u00f5es sexuais com o marido. Havia uma diferen\u00e7a de idade consider\u00e1vel entre os dois, de mais de 20 anos&#8221;, conta Gabriel.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14257\/production\/_92391528_gettyimages-3247276.jpg\" alt=\"Imagem de Palermo, em Buenos Aires\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">As pistas de Marcela e Elisa se perderam em Buenos Aires<\/span><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Depois de ficar com a pulga atr\u00e1s da orelha, o marido descobriu que estava casado com a pessoa que havia protagonizado na Espanha um &#8216;casamento sem homem&#8217;, que foi manchete do jornal <i>La Voz de Galicia<\/i>. Ele denunciou sua esposa e pediu a anula\u00e7\u00e3o do casamento.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O juiz decidiu que Elisa, ent\u00e3o Maria, deveria ser examinada por tr\u00eas m\u00e9dicos. A conclus\u00e3o foi de que ela era mulher e que o casamento era perfeitamente v\u00e1lido &#8220;, acrescenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que aconteceu depois? Elisa continuou vivendo com seu marido dinamarqu\u00eas? E para onde foram Marcela e sua filha?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desfecho desta hist\u00f3ria \u00e9 desconhecido. As pistas das vidas das protagonistas, diz o autor galego, se perderam nesta \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cem anos depois, no entanto, o &#8220;casamento sem homem&#8221; continua causando muito espanto e admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O juiz decidiu que Elisa, ent\u00e3o Maria, deveria ser examinada por tr\u00eas m\u00e9dicos. 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