{"id":164089,"date":"2016-12-05T05:08:10","date_gmt":"2016-12-05T08:08:10","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=164089"},"modified":"2016-12-05T05:08:10","modified_gmt":"2016-12-05T08:08:10","slug":"o-sexagenario-sertao-de-guimaraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-sexagenario-sertao-de-guimaraes\/","title":{"rendered":"O sexagen\u00e1rio sert\u00e3o de Guimar\u00e3es"},"content":{"rendered":"<div class=\"col s12\">\n<section class=\"box-featured full-size header\">\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Neste especial, o sert\u00e3o aparece redesenhado dentro de enredos humanos, costurados pela obra do escritor<\/strong><\/em><\/p>\n<div class=\"header-information\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Por: <strong class=\"responsible\">Tatiana Notaro (Textos ) Alfeu Tavares (fotos), Christiano Mascaro (design), Karla Veloso<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"share-mattler\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<div class=\"content\">\n<div class=\"col m6 l6 s12 medium-matler\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.folhape.com.br\/obj\/83\/179488,475,80,0,0,475,365,0,0,0,0.jpg\" alt=\"O matador\" \/><\/p>\n<div class=\"caption\">O matador<em>Foto: Alfeu Tavares\/Folha de Pernambuco<\/em><\/div>\n<\/figure>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nonada. O sert\u00e3o est\u00e1 em toda parte assim como est\u00e1 aqui, debaixo dos nossos p\u00e9s e conosco, aonde quer que formos. Assim como designa \u00e1reas distantes do litoral, secas, onde quase nada chove, est\u00e1 tamb\u00e9m dentro de cada um de n\u00f3s. Para lembrar os 60 anos de publica\u00e7\u00e3o de um dos maiores romances da literatura brasileira &#8211; Grande Sert\u00e3o: Veredas -, a Folha de Pernambuco redesenhou o sert\u00e3o dentro de enredos humanos, costurados pela obra do mineiro Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa. Personagens reais, embora an\u00f4nimos, que se deixam sair em veredas para este grande sert\u00e3o metaf\u00edsico em que vivemos.<\/p>\n<div id=\"pastingspan1\" style=\"text-align: justify;\">Guimar\u00e3es Rosa se preocupou em descrever o sert\u00e3o e, tanto assim, definir quaisquer outros. Pode ser o \u201clugar que carece de feixos\u201d, como diz no livro, ou a vida em um momento qualquer. H\u00e1 a rota geogr\u00e1fica ao instante que se desobriga dela; h\u00e1 as certezas sobre Deus assim como h\u00e1 alian\u00e7a com um diabo do qual se duvida. Grande Sert\u00e3o \u00e9 um livro sobre d\u00favidas: o mal est\u00e1 ou n\u00e3o? O diabo existe? O que fazer desse amor que existe ao mesmo tempo que n\u00e3o pode ser?<\/p>\n<p>O leitor pode demorar a cair na hist\u00f3ria, contada sem cap\u00edtulos. Rosa n\u00e3o d\u00e1 o fio condutor romanesco, mas constr\u00f3i uma teodiss\u00e9ia conduzida por um diabo que n\u00e3o aparece, onde tudo tem justificativa divina. A narrativa monologar em primeira pessoa \u00e9 feita por Riobaldo, um jagun\u00e7o letrado que protagoniza a saga pelo sert\u00e3o mineiro, para um interlocutor. Junto a ele est\u00e1 Diadorim, figura central do maior drama da vida de Riobaldo: o amor contempla\u00e7\u00e3o e n\u00e3o declarado por um homem. Andr\u00f3gino, Diadorim \u00e9 o sentimento que n\u00e3o racionaliza a quem ama.<\/p>\n<p>Amando esse Diadorim-homem por todo o livro, Riobaldo n\u00e3o se pensa homossexual, mas consente que h\u00e1 ali um sentimento com o qual n\u00e3o sabe o que fazer. O pedido ao leitor \u00e9 que, ao estar com Grande Sert\u00e3o: Veredas, abandone a simpl\u00f3ria identidade de g\u00eanero. \u201cRiobaldo ama, mas n\u00e3o sabe exatamente o objeto do amor\u201d, ajuda a nortear o professor Lourival Holanda. \u201cA for\u00e7a est\u00e1 nessa indecis\u00e3o. Ele diz \u2018Diadorim \u00e9 a minha neblina\u2019; est\u00e1 dito, mas n\u00e3o p\u00f4de ser explicitado. O mais forte do sentimento \u00e9 aquilo que n\u00e3o cabe em linguagem\u201d. Por fim, a Diadorim-mulher \u00e9 o amor-contempla\u00e7\u00e3o de Riobaldo que ganha um ar ainda mais fatal de n\u00e3o-realiza\u00e7\u00e3o pela morte. O fim e o vazio.<\/p>\n<p>Guimar\u00e3es Rosa foi um conservador, m\u00e9dico e c\u00f4nsul do Brasil na Alemanha, onde, destacam os que o estudam, concedia visto aos judeus que fugiam da Alemanha nazista. \u00c9 dito tamb\u00e9m como um escritor neobarroco, profundo, contempor\u00e2neo, que morreu logo depois de tomar posse na Academia Brasileira de Letras. Em seu sert\u00e3o, reservou para si um peda\u00e7o de Riobaldo; ent\u00e3o temos um livro um tanto autobiogr\u00e1fico. Nele, Rosa n\u00e3o se limita geograficamente &#8211; como acontece com os romances de 1930, muito ligados ao lugar &#8211; e apresenta uma jornada na busca de si mesmo. E nos ensina: o sert\u00e3o \u00e9 importante, mas o que conta s\u00e3o as veredas.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos sert\u00f5es a se descobrir a cada leitura, por cada leitor, a cada repert\u00f3rio. Aqui, o sert\u00e3o toma um lugar de sentimento que ao ser adentrado prop\u00f5e conex\u00f5es imediatas com a vida de quem o l\u00ea, alinhavadas a frases do livro, ipsis litteris, marcadas para que possam ser identificadas. Este recorte \u00e9 um gr\u00e3o diante do sert\u00e3o rosiano, imenso para caber em poucas p\u00e1ginas, mas se oferece como um convite ao encontro ou ao reencontro com este que est\u00e1 entre os 100 livros mais importantes do s\u00e9culo 20, uma obra sobre o ser humano. Travessia.<\/p>\n<p><strong>\u201cEu gosto de matar\u201d<br \/>\n<\/strong>O matador\u00a0de aluguel carrega, em si e no seu of\u00edcio, o sentimento de finitude, a materialidade da morte, o perigo inerente. Representa dicotomias: a injusti\u00e7a que se v\u00ea justa, a morte que vive entre n\u00f3s, o criminoso que reza e renega o \u201cdiabo\u201d. Esse personagem representa a viol\u00eancia, nosso medo de v\u00edtimas, nossas inten\u00e7\u00f5es de algoz e, t\u00e3o importante, o c\u00e2ncer da impunidade que reage contra a sociedade. Ele \u00e9 a viol\u00eancia, o nosso \u00e1rido sert\u00e3o urbano.<\/p>\n<p><strong>\u201cDeterminaram &#8211;\u00a0era o demo\u201d<br \/>\n<\/strong>O homem das ruas\u00a0\u00e9 o espelho do que somos: ego\u00edstas, indiferentes, perversos. Ele \u00e9, como n\u00f3s, um sobrevivente neste sert\u00e3o em que estamos, que nos denigre, mas nos constr\u00f3i. O homem concentra todos os sert\u00f5es humanos em si, dono da intelig\u00eancia que nos diferencia dos animais e o instinto de sobreviv\u00eancia que nos aproxima deles.<\/p>\n<p><strong>\u201cDeus \u00e9 paci\u00eancia;\u00a0o contr\u00e1rio \u00e9 o diabo\u201d<br \/>\n<\/strong>O corpo imobilizado\u00a0j\u00e1 foi pris\u00e3o &#8211; na impot\u00eancia f\u00edsica e o inconformismo com uma fatalidade. Mas na cadeira de rodas, o tempo e a vida andam porque a cabe\u00e7a funciona a mil. Ela n\u00e3o \u00e9 apenas a vit\u00f3ria sobre si e sobre os acontecimentos, mas a lida com a morte enquanto se busca, na f\u00e9 e na resili\u00eancia, a vida.<\/p>\n<p><strong>\u201cDiadorim \u00e9\u00a0minha neblina\u201d<br \/>\n<\/strong>No cora\u00e7\u00e3o que ama\u00a0o outro\u00a0n\u00e3o d\u00e1 espa\u00e7o para que a cabe\u00e7a tenha escolhas. Abafar um sentimento \u00e9 somente atras\u00e1-lo, uma ang\u00fastia in\u00fatil, porque o desejo fatalmente encontrar\u00e1 uma forma de ser.<\/div>\n<div class=\"col m12 l12 s12 container-slider\">\n<div class=\"container-thumbnail\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"carousel-thumbnails\" class=\"carousel-thumbnails owl-carousel owl-theme owl-loaded\">\n<div class=\"owl-controls\">\n<div class=\"owl-dots\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"cycle-slideshow\" style=\"margin: 0px; padding: 0px; border: 0px; font-size: 14px; vertical-align: baseline; background: 0px 0px; outline: 0px; position: relative;\" data-cycle-fx=\"fade\" data-cycle-timeout=\"0\" data-cycle-pager=\"#carousel-thumbnails .owl-stage\" data-cycle-pager-template=\"\" data-cycle-slides=\"&gt; div\" data-cycle-prev=\".prev\" data-cycle-next=\".next\">\n<div class=\"item cycle-slide cycle-sentinel\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.folhape.com.br\/obj\/83\/179488,930,80,0,0,930,560,0,0,0,0.jpg\" alt=\"O matador\" \/><\/p>\n<div class=\"caption\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"item cycle-slide cycle-slide-active\" style=\"text-align: justify;\">O matador<em>Foto: Alfeu Tavares\/Folha de Pernambuco<\/em><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste especial, o sert\u00e3o aparece redesenhado dentro de enredos humanos, costurados pela obra do escritor<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":164090,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-164089","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/faca-na-cintura.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/164089","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=164089"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/164089\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/164090"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=164089"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=164089"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=164089"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}