{"id":166739,"date":"2016-12-18T10:00:55","date_gmt":"2016-12-18T13:00:55","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=166739"},"modified":"2016-12-18T10:00:55","modified_gmt":"2016-12-18T13:00:55","slug":"o-drama-das-meninas-venezuelanas-obrigadas-se-prostituir-para-comer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-drama-das-meninas-venezuelanas-obrigadas-se-prostituir-para-comer\/","title":{"rendered":"O drama das meninas venezuelanas obrigadas a se prostituir para comer"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Gustavo Ocando Alex<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/C36E\/production\/_92803005__92733852_venezuela2-1.jpg\" alt=\"Adolescentes no Mercado de Maracaibo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/>A<\/span><span class=\"media-caption__text\">\u00a0pol\u00edcia local afirma que menores se prostituem na regi\u00e3o central de Maracaibo<\/span><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Mariela (nome fict\u00edcio) tem 14 anos e \u00e9 integrante da tribo ind\u00edgena wayuu. S\u00e3o 11h quando ela grita em frente a cerca de 20 caminh\u00f5es estacionados nos arredores do Mercado Los Plataneros, em Maracaibo, no oeste da Venezuela: &#8220;Oferta, oferta! Leve-as por cem bol\u00edvares!&#8221;.<\/p>\n<p>Usa batom vermelho, short jeans justo e uma camisa do falsa do time espanhol de futebol Real Madri.<\/p>\n<p>Mariela recebe 4 mil bol\u00edvares por dia para vender frutas nas plataformas onde os ve\u00edculos ficam parados. Ganha menos de um d\u00f3lar por dia em um pa\u00eds onde h\u00e1, por um lado, um controle severo do c\u00e2mbio, e por outro, v\u00e1rias cota\u00e7\u00f5es para a moeda americana, uma totalmente diferente da outra.<\/p>\n<p>Na frente da m\u00e3e, a menina afirma que tamb\u00e9m estuda. Mas os seguran\u00e7as, comerciantes e camel\u00f4s presumem que ela e pelo menos outras vinte adolescentes eventualmente exercem outro tipo de fun\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o central da cidade: a prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por semana, a pol\u00edcia do Estado de Zulia prende uma m\u00e9dia de dez mulheres acusadas da pr\u00e1tica na regi\u00e3o do Mercado de Maracaibo.<\/p>\n<p>Daniel Noguera, comandante da Pol\u00edcia Bolivariana ali, afirma que quatro integrantes desse grupo costumam ser menores de idade. E que sempre h\u00e1 uma ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Essas opera\u00e7\u00f5es geralmente acabam com alguns conselhos e a libera\u00e7\u00e3o de todas elas.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/EA7E\/production\/_92803006__92733855_venezuela-1.jpg\" alt=\"Crian\u00e7as no Mercado de Maracaibo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Segundo antrop\u00f3logos, legisladores e defensores dos direitos das crian\u00e7as, a crise econ\u00f4mica da Venezuela piorou a situa\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o infantil<\/span><\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Mercado 24 horas<\/h2>\n<p>O Mercado de Maracaibo opera ao ar livre, 24 horas por dia. Imposs\u00edvel n\u00e3o notar a sujeira e a lama em meio ao calor de 36\u00b0C dos \u00faltimos dias de outubro. Existe uma cerca, mas apenas em um dos lados.<\/p>\n<p>Os caminh\u00f5es entram e saem em meio ao mau cheiro. Em meio a eles, crian\u00e7as ind\u00edgenas perambulam vestindo trapos e pedindo esmolas.<\/p>\n<p>Kelvin Rinc\u00f3n, vendedor de bananas, explica o que acontece.<\/p>\n<p>&#8220;Essas meninas est\u00e3o aqui a toda hora. \u00c9 um desastre. Elas vendem caf\u00e9 ou bananas, mas come\u00e7am a te tocar, falar besteiras. Eles se relacionam com elas dentro dos caminh\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p>Ilse Cruz, uma vendedora de caf\u00e9, diz que os programas acontecem dentro dos ve\u00edculos, em pequenos apartamentos pr\u00f3ximos do mercado ou em barrac\u00f5es.<\/p>\n<p>Oswaldo M\u00e1rquez, presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Comerciantes do Mercado de Maracaibo, conta que o local tamb\u00e9m \u00e9 marcado pelo roubo e consumo de bebidas alco\u00f3licas e drogas, o que envolve pelo menos cem meninos e meninas, a maioria integrante de tribos ind\u00edgenas.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Diferen\u00e7as culturais<\/h2>\n<p>Cerca de 35% dos jovens venezuelanos tem a primeira rela\u00e7\u00e3o sexual entre os 12 e 18 anos, de acordo com estudos.<\/p>\n<p>Mas na cultura wayuu n\u00e3o existe um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o entre a inf\u00e2ncia e a idade adulta e, por isso, n\u00e3o se pode falar de sexualidade precoce, explica o antrop\u00f3logo Mauro Carrero.<\/p>\n<p>Existe uma tradi\u00e7\u00e3o entre os wayuu, chamada de &#8220;a clausura&#8221;, na qual as mulheres adultas explicam para as jovens na puberdade quais s\u00e3o seus deveres como mulher e futura esposa.<\/p>\n<p>&#8220;Para elas, a virgindade n\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o moral, como na concep\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3. E nos dias de hoje ainda existe uma press\u00e3o adicional, que \u00e9 a crise econ\u00f4mica&#8221;, explica ele, professor da Universidade do Estado de Zulia.<\/p>\n<p>Os frequentadores do Mercado de Maracaibo contam que os corpos das meninas, sejam elas wayuu ou de outras tribos, s\u00e3o moeda de troca para a obten\u00e7\u00e3o de uma quantia que varia entre 1 mil e 2 mil bol\u00edvares (algo que varia entre 25 a 50 centavos de d\u00f3lar americano segundo a taxa do mercado &#8220;negro&#8221;), algumas bananas ou qualquer outro tipo de comida.<\/p>\n<p>O que \u00e9 uma consequ\u00eancia da fome e do abandono das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas da Venezuela, afirma o deputado Virgilio Ferrer, integrante da Comiss\u00e3o de Povos Ind\u00edgenas da Assembleia Nacional.<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds dedica um cap\u00edtulo inteiro para garantir os direitos das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Entre seus artigos 119 e 126, est\u00e1 a garantia do respeito a sua organiza\u00e7\u00e3o social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Leis que n\u00e3o s\u00e3o cumpridas, diz o parlamentar.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 um abandono total do ponto de vista social. H\u00e1 fome, desemprego e pouca educa\u00e7\u00e3o. At\u00e9 os pais dessas meninas fazem vista grossa&#8221;, explicou.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Mis\u00e9ria<\/h2>\n<p>Em Zulia, que faz fronteira com a Col\u00f4mbia, a desnutri\u00e7\u00e3o infantil chega 20%, de acordo com informa\u00e7\u00f5es da Secretaria de Sa\u00fade.<\/p>\n<p>O Censo de 2011 mostrou que existem 415 mil ind\u00edgenas na Venezuela, concentrados em sua maioria nos povoados de Mara, Guajira e Almirante Padilla, onde o \u00edndice de desnutri\u00e7\u00e3o supera os 30% &#8211; todos ficam no Estado.<\/p>\n<p>Jhonny, um homem pequeno de 54 anos que trabalha nas empilhadeiras do mercado, concorda que os problemas sociais que podem ser observados na regi\u00e3o central de Maracaibo t\u00eam uma causa: a fome.<\/p>\n<p>&#8220;Isso \u00e9 horr\u00edvel. \u00c0s vezes vejo as crian\u00e7as comendo bananas podres que os caminhoneiros jogam fora.&#8221;<\/p>\n<p>Pesquisas da Universidade do Estado de Zulia, como a da soci\u00f3loga e professora Natalia S\u00e1nchez, revelam que a pobreza atinge cerca de 80% dos 3,7 milh\u00f5es de habitantes da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 dez anos esse indicador estava em 55%. E hoje mais de 35% dessa pobreza geral \u00e9 extrema.&#8221;<\/p>\n<p>\u00d3rg\u00e3os de Estado, como a Funda\u00e7\u00e3o Ni\u00f1o Zuliano e o Conselho dos Direitos da Crian\u00e7a e do Adolescente, realizam opera\u00e7\u00f5es no mercado. Mas as casas de abrigo onde o governo hospeda os menores com as piores situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o conseguem dar conta da demanda.<\/p>\n<p>Jonathan Perozo, advogado do Conselho Municipal do Direito da Crian\u00e7a, admite que os casos como os do mercado testam a capacidade das institui\u00e7\u00f5es venezuelanas.<\/p>\n<p>&#8220;Somos limitados no que diz respeito a ferramentas de trabalho. O or\u00e7amento \u00e9 baixo, faltam verbas.&#8221;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Duas cervejas<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1118E\/production\/_92803007__92733857_venezuela3-1.jpg\" alt=\"Adolescentes em meio aos caminh\u00f5es em Maracaibo\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">As menores se prostituem e recebem entre 1 mil e 2 mil bol\u00edvares por programa, o equivalente a centavos de d\u00f3lar<\/span><\/figure>\n<p>No mercado, dois homens de mais de 40 anos falam abertamente sobre a situa\u00e7\u00e3o em frente a um local que vende suco de laranja a 300 bol\u00edvares o copo &#8211; menos de um centavo de d\u00f3lar.<\/p>\n<p>Eles comentam sobre uma jovem que passa usando uma minissaia.<\/p>\n<p>&#8220;Convidei esta menininha e ela aceitou. Tem 15 aninhos. Levei para o Gran Bazar &#8211; um centro comercial aqui perto -, ofereci duas cervejas e disse &#8216;venha&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>Os dois riem do crime.<\/p>\n<p>Mariela, a jovem wayuu com a camiseta do Real Madrid, garante que n\u00e3o se prostitui. A risada de outra adolescente interrompe sua fala.<\/p>\n<p>A adolescente brinca com um jovem em cima de um dos caminh\u00f5es. Enquanto isso, outra menina coloca metade do corpo na cabine do mesmo ve\u00edculo, deixando a porta entreaberta enquanto negocia um encontro com o motorista.<\/p>\n<p>Mariela se aproxima e fala mais alto, mas n\u00e3o oferece seu produto, como estava fazendo antes. Desta vez, ela avisa as amigas sobre a presen\u00e7a da imprensa.<\/p>\n<p>&#8220;Oi! Cuidado, voc\u00eas n\u00e3o sabem quem est\u00e1 vendo voc\u00eas!&#8221;<\/p>\n<p>A adolescente ri e brinca com as outras meninas antes de refor\u00e7ar sua fala.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 algumas que fazem isso sim&#8230; Mas eu n\u00e3o sou dessas.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gustavo Ocando Alex A\u00a0pol\u00edcia local afirma que menores se prostituem na regi\u00e3o central de Maracaibo Mariela (nome fict\u00edcio) tem 14 anos e \u00e9 integrante da tribo ind\u00edgena wayuu. S\u00e3o 11h quando ela grita em frente a cerca de 20 caminh\u00f5es estacionados nos arredores do Mercado Los Plataneros, em Maracaibo, no oeste da Venezuela: &#8220;Oferta, oferta! [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":166740,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,7],"tags":[],"class_list":["post-166739","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-nacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/prostituicao-infantil.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/166739","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=166739"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/166739\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166740"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=166739"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=166739"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=166739"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}