{"id":168826,"date":"2016-12-31T00:02:28","date_gmt":"2016-12-31T03:02:28","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=168826"},"modified":"2016-12-30T18:08:11","modified_gmt":"2016-12-30T21:08:11","slug":"o-professor-de-anatomia-que-promete-vida-apos-vida-na-busca-por-doacao-de-corpos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-professor-de-anatomia-que-promete-vida-apos-vida-na-busca-por-doacao-de-corpos\/","title":{"rendered":"O professor de Anatomia que promete &#8216;vida ap\u00f3s a vida&#8217; na busca por doa\u00e7\u00e3o de corpos"},"content":{"rendered":"<div class=\"story-body\">\n<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Alessandra Dantas<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/E458\/production\/_92965485_6d3fdd0d-1a2e-43ff-a74a-3523290051a8.jpg\" alt=\"Professor Humberto Alves\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Professor Humberto Alves, da Faculdade de Medicina da UFMG, coordena programa que estimula doa\u00e7\u00e3o de corpos para atividades de ensino<\/span><\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Se doar meu corpo, n\u00e3o haver\u00e1 vel\u00f3rio? Aceitando a doa\u00e7\u00e3o, corro risco de acelerarem minha morte?<\/p>\n<p>Perguntas como essas surgem em uma roda de conversa entre um professor de anatomia e quatro mulheres. O assunto: a doa\u00e7\u00e3o do corpo ap\u00f3s a morte.<\/p>\n<p>Todos est\u00e3o sentados em poltronas confort\u00e1veis em um ambiente espa\u00e7oso: a sala de reuni\u00f5es especiais da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte.<\/p>\n<p>Na parede, quadros em homenagem aos professores em\u00e9ritos da institui\u00e7\u00e3o. O cen\u00e1rio \u00e9 considerado um dos mais nobres do pr\u00e9dio e n\u00e3o foi escolhido por acaso.<\/p>\n<p>O tema f\u00fanebre n\u00e3o deixa o clima pesado. O que se v\u00ea \u00e9 um bate-papo descontra\u00eddo, em meio a risos e muita curiosidade das mulheres decididas a doar seus corpos \u00e0 Medicina.<\/p>\n<p>Quem est\u00e1 ali para escut\u00e1-las \u00e9 o professor de anatomia da UFMG Humberto Alves. H\u00e1 16 anos, ele se dedica a obter corpos para o ensino da anatomia, dando esclarecimentos a quem opta por um fim diferente do cemit\u00e9rio ou do cremat\u00f3rio.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/10B68\/production\/_92965486_9f924808-c85b-49e3-a566-a4c8df3914b2.jpg\" alt=\"Reuni\u00e3o do programa Vida ap\u00f3s a Vida\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><span class=\"off-screen\">A<\/span><\/span><span class=\"media-caption__text\">lves em entrevista com potenciais doadoras de corpos: cerca de 580 pessoas ouvidas em 16 anos<\/span><\/figure>\n<p>Se hoje as entrevistas s\u00e3o leves, no in\u00edcio eram s\u00e9rias e met\u00f3dicas. Com a pr\u00e1tica, o anatomista ficou mais seguro para prolongar a conversa, passando a se aprofundar nas raz\u00f5es para a doa\u00e7\u00e3o e nas hist\u00f3rias das pessoas.<\/p>\n<p>&#8220;A aproxima\u00e7\u00e3o com o doador \u00e9 fundamental. O simples preenchimento de um formul\u00e1rio online, como acontece nos Estados Unidos, n\u00e3o \u00e9 suficiente&#8221;, defende o professor.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Forma\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Nascido na cidade hist\u00f3rica de Ouro Preto (MG) e com forma\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, Alves foi para a capital mineira estudar medicina nos anos 1970. Durante a gradua\u00e7\u00e3o, interessou-se pelo estudo do corpo humano &#8211; fez treinamento em cirurgia e foi monitor de anatomia.<\/p>\n<p>O contato com outros estudantes, detalhando a eles as estruturas do corpo, contribuiu para que o jovem optasse pela carreira acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pesou na escolha a conviv\u00eancia com um professor que valorizava a anatomia nas artes pl\u00e1sticas e o trabalho de nomes como Leonardo Da Vinci e Michelangelo. &#8220;Isso fez com que eu admirasse a forma de uma maneira geral, n\u00e3o apenas a anatomia humana&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Aos 28 anos, Alves tornou-se professor de anatomia da UFMG. Hoje, aos 62, j\u00e1 s\u00e3o 34 anos de doc\u00eancia. Desde 2000, faz parte do Vida Ap\u00f3s a Vida, programa de doa\u00e7\u00e3o de corpos da Faculdade de Medicina da UFMG.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/13278\/production\/_92965487_04f9ec19-7780-4629-b36c-7f75d77bef95.jpg\" alt=\"Humberto Alves\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Humberto Alves em laborat\u00f3rio de anatomia: interesse pelo corpo humano e 34 anos de doc\u00eancia<\/span><\/figure>\n<p>Em 1999, uma senhora procurou a universidade para doar o corpo, com registro em cart\u00f3rio desse \u00faltimo desejo. O diretor da faculdade \u00e0 \u00e9poca, Geraldo Brasileiro, concluiu que outras pessoas poderiam ter o mesmo interesse e criou o projeto, pioneiro no Brasil.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, eram oito professores, dos quais s\u00f3 restou Alves. Atualmente, o anatomista \u00e9 coordenador do projeto e o \u00fanico a conduzir as entrevistas com potenciais doadores.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Em busca de doadores<\/h2>\n<p>Na sala de espera para a conversa com o professor, as quatro mulheres j\u00e1 est\u00e3o com a carteirinha de doador e o termo de doa\u00e7\u00e3o preenchido e assinado em m\u00e3os. Uma delas comenta sobre a melhor maneira de conservar o documento.<\/p>\n<p>Durante a entrevista, Maria do Carmo Couto, de 56 anos, continua com o termo em m\u00e3os, virado para a frente, exibindo com orgulho a materializa\u00e7\u00e3o de uma decis\u00e3o tomada h\u00e1 cinco anos.<\/p>\n<p>Enquanto o professor esclarece as principais d\u00favidas e destaca que a doa\u00e7\u00e3o ajuda indiretamente centenas de estudantes, Couto expressa satisfa\u00e7\u00e3o. &#8220;Imagina meu corpo sendo estudado do dedinho do p\u00e9 at\u00e9 a cabe\u00e7a. Isso \u00e9 maravilhoso&#8221;, exclama.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15988\/production\/_92965488_ff72ebf2-c3e3-445d-950d-9918b1234174.jpg\" alt=\"Doadora com termo de doa\u00e7\u00e3o do corpo para Medicina\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Maria do Carmo Couto exibe termo de doa\u00e7\u00e3o do corpo: &#8216;Imagina meu corpo sendo estudado do dedinho do p\u00e9 at\u00e9 a cabe\u00e7a&#8217;<\/span><\/figure>\n<p>O professor Humberto Alves j\u00e1 entrevistou 580 pessoas entre as cerca de 780 cadastradas no programa de doa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, s\u00e3o 68 corpos dispon\u00edveis para estudo na faculdade, sendo que 30 ainda n\u00e3o foram dissecados. Ao todo, 320 estudantes de Medicina trabalham com os corpos por semestre &#8211; uma m\u00e9dia de 20 alunos por cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>Antes do Vida Ap\u00f3s a Vida, os poucos cad\u00e1veres que a faculdade recebia vinham de duas fontes.<\/p>\n<p>Uma eram institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de ensino de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro que cediam corpos excedentes ainda nos anos 1980. A parceria, contudo, enfraqueceu com o surgimento de novas faculdades de Medicina nesses Estados.<\/p>\n<p>Outra op\u00e7\u00e3o era o Instituto M\u00e9dico Legal, que fornecia corpos n\u00e3o reclamados. Mas, devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias do IML, muitos chegavam j\u00e1 em estado de decomposi\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o policial tamb\u00e9m era um empecilho, pois n\u00e3o h\u00e1 cess\u00e3o quando a morte \u00e9 suspeita.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Import\u00e2ncia<\/h2>\n<p>Ainda que existam recursos tecnol\u00f3gicos e modelos em 3D do corpo humano, nada substitui o cad\u00e1ver, afirma Alves. Tanto pela forma de aprendizado diferenciada que proporciona como pela humaniza\u00e7\u00e3o dos estudantes que, muitas vezes, tocam pela primeira vez em um corpo sem vida.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/18098\/production\/_92965489_b5fdd64b-b7cd-4110-85e8-39ff7aa986c8.jpg\" alt=\"Aula de anatomia na UFMG\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Estudantes de Medicina em aula de anatomia na UFMG; para professor, contato com corpos provoca reflex\u00e3o sobre morte e &#8216;li\u00e7\u00e3o de humildade&#8217; diante da vida<\/span><\/figure>\n<p>&#8220;Os jovens, geralmente, entram na faculdade pensando que s\u00e3o imortais e aqui veem que n\u00e3o s\u00e3o&#8221;, afirma o professor.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de um aluno que notou um anel no dedo do cad\u00e1ver durante uma aula. &#8220;Ele disse que ali &#8216;caiu a ficha&#8217;, pois percebeu que aquela pessoa vivera como ele, mas teve um fim e se doou para ajudar outras pessoas&#8221;, avalia Alves.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas anos, o professor decidiu que as entrevistas deixariam de ser individuais e seriam feitas preferencialmente em grupo. A mudan\u00e7a, afirma ele, trouxe mais leveza ao processo, bem como identifica\u00e7\u00e3o entre os participantes.<\/p>\n<p>&#8220;A pessoa percebe que n\u00e3o est\u00e1 sozinha em sua decis\u00e3o e se sente parte de um grupo especial. Quanto maior o grupo, mais vontade as pessoas t\u00eam de doar&#8221;, diz.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, o projeto atendia sobretudo idosos, mas o n\u00famero de jovens aumentou e hoje o perfil dos doadores \u00e9 diverso.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem se comprometa a entregar o corpo por gratid\u00e3o ao atendimento m\u00e9dico recebido em vida. Outros n\u00e3o gostam de enterro ou crema\u00e7\u00e3o. Medo de ser enterrado vivo e at\u00e9 repulsa \u00e0 ideia de ter o corpo deteriorado por vermes tamb\u00e9m aparecem nas conversas.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/24F0\/production\/_92965490_1f0e6243-0cb5-425c-9d7c-90eaa1b8afb8.jpg\" alt=\"Entrevista com doadoras\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Nas entrevistas, medo de ser enterrado vivo e de ter morte antecipada por &#8216;ch\u00e1s&#8217; misteriosos costuma ser citado por doadores<\/span><\/figure>\n<p>Quando essas raz\u00f5es s\u00e3o compartilhadas, surgem risos e brincadeiras, j\u00e1 que uns entendem os outros. A maioria chega decidida pela doa\u00e7\u00e3o, tendo superado entraves culturais.<\/p>\n<p>Mesmo com a decis\u00e3o tomada, uma desconfian\u00e7a peculiar costuma aparecer nas conversas: a possibilidade de a morte ser acelerada de forma proposital por meio de algo como um &#8220;ch\u00e1 da meia-noite&#8221;.<\/p>\n<p>Diz a lenda que, caso um doador precise de atendimento no hospital da faculdade, um funcion\u00e1rio poderia ministrar o tal ch\u00e1 para que o corpo ficasse dispon\u00edvel para doa\u00e7\u00e3o mais rapidamente.<\/p>\n<p>Entre risos gerais, o professor garante que a hist\u00f3ria \u00e9 falsa e deseja vida longa aos doadores.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Percurso da doa\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Candidatos \u00e0 doa\u00e7\u00e3o procuram a Faculdade de Medicina da UFMG e deixam contatos para agendamento da entrevista. Ap\u00f3s esse processo, assinam um termo de doa\u00e7\u00e3o baseado na lei 8.501, de 1992, que garante que o corpo ser\u00e1 utilizado apenas para fins de estudo.<\/p>\n<p>O cadastrado recebe a carteirinha de doador, com os telefones para familiares ligarem quando a morte acontecer.<\/p>\n<p>&#8220;Parentes reconhecerem e estarem de acordo \u00e9 fundamental&#8221;, explica o professor, pois somente a assinatura do termo n\u00e3o garante que o cad\u00e1ver seja levado para a unidade.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/9A20\/production\/_92965493_a015da8d-c887-46d7-9069-68cafd0ef4de.jpg\" alt=\"Alunos em aula pr\u00e1tica de anatomia na UFMG\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/>A<\/span><span class=\"media-caption__text\">lunos em aula pr\u00e1tica de anatomia na UFMG; maior abertura de vagas em cursos aumentou demanda por corpos<\/span><\/figure>\n<p>Da mesma forma, uma pessoa que n\u00e3o assinou o termo de doa\u00e7\u00e3o, mas deixou algum familiar ciente de que gostaria de doar o corpo, n\u00e3o ter\u00e1 dificuldade em ter o corpo cedido para ensino, desde que a fam\u00edlia procure a institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a comunica\u00e7\u00e3o do \u00f3bito, um funcion\u00e1rio fica respons\u00e1vel pelo traslado e pela documenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, mesmo com tudo acordado entre doador, familiares e faculdade, situa\u00e7\u00f5es inesperadas podem acontecer.<\/p>\n<p>Houve um caso de um familiar que pediu o corpo de volta. A doadora havia realizado os procedimentos em vida para a doa\u00e7\u00e3o. No dia da morte, os parentes assinaram o termo de cess\u00e3o e o cad\u00e1ver foi levado para a faculdade.<\/p>\n<p>Entretanto, um irm\u00e3o que n\u00e3o estava no momento da assinatura reclamou o corpo dias depois. O pedido foi atendido sem obje\u00e7\u00e3o. &#8220;Quando os familiares decidem, n\u00e3o interferimos&#8221;, diz Alves. Foi o \u00fanico pedido de devolu\u00e7\u00e3o na faculdade at\u00e9 o momento.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Vel\u00f3rio simb\u00f3lico<\/h2>\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o nos casos de doa\u00e7\u00e3o \u00e9 que ocorra um vel\u00f3rio apenas simb\u00f3lico, mais curto do que as cerim\u00f4nias tradicionais, j\u00e1 que o corpo precisa de preparo quase imediato para emprego adequado em laborat\u00f3rio. O local mais comum \u00e9 o necrot\u00e9rio do hospital. N\u00e3o h\u00e1 um tempo m\u00e1ximo para a despedida, mas geralmente ela dura de duas a quatro horas.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/7310\/production\/_92965492_66754df0-2df7-4128-a935-b79ac7c60bc7.jpg\" alt=\"\u00d3rg\u00e3os preservados para uso em aula\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">\u00d3rg\u00e3os preservados para uso em aula; uma vez doado, corpo n\u00e3o pode ser visitado por parentes<\/span><\/figure>\n<p>\u00c9 raro, mas h\u00e1 parentes que optam pelo vel\u00f3rio com caix\u00e3o, flores e servi\u00e7o funer\u00e1rio. Nesse caso, a despedida tamb\u00e9m \u00e9 mais curta e a funer\u00e1ria n\u00e3o faz cortes ou altera\u00e7\u00f5es significativas no cad\u00e1ver, apenas injeta uma subst\u00e2ncia conservante para impedir a decomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Grande parte dos doadores prefere o vel\u00f3rio simb\u00f3lico para amenizar o desgaste emocional e financeiro dos familiares. Al\u00e9m disso, o professor deixa claro que, uma vez doado, \u00e9 como se o corpo estivesse enterrado &#8211; o que significa que n\u00e3o pode ser visitado.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o n\u00e3o chega a ser determinante na decis\u00e3o, diz Alves. O professor explica que pessoas que seguem a mesma religi\u00e3o podem ter pensamentos diferentes sobre a doa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Alguns cat\u00f3licos acham que \u00e9 um gesto nobre, outros pensam que o corpo deve ser mantido \u00edntegro. J\u00e1 para os esp\u00edritas, em geral, o corpo \u00e9 apenas uma mat\u00e9ria e o que importa \u00e9 o esp\u00edrito&#8221;, exemplifica Alves.<\/p>\n<p>Um ponto que motiva questionamentos dos pr\u00f3prios doadores \u00e9 o fato de n\u00e3o haver um t\u00famulo que sirva como refer\u00eancia do morto para a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Nesse sentido h\u00e1 um projeto antigo de criar um mausol\u00e9u em homenagem \u00e0queles que cederam o corpo voluntariamente, mas a ideia nunca saiu do papel por falta de recursos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4C00\/production\/_92965491_c72e19a8-6967-441c-8d0c-537437fd6ea6.jpg\" alt=\"Aula de anatomia na UFMG\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Sociedade Brasileira de Anatomia n\u00e3o tem dados sobre n\u00famero de corpos dispon\u00edveis para estudo em universidades brasileiras, pois cada institui\u00e7\u00e3o tem programa espec\u00edfico<\/span><\/figure>\n<p>Enquanto isso, fragmentos retirados durante a disseca\u00e7\u00e3o dos cad\u00e1veres s\u00e3o enterrados no jazigo da Faculdade de Medicina em um cemit\u00e9rio da cidade. Ossos e \u00f3rg\u00e3os permanecem no acervo do departamento.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Conserva\u00e7\u00e3o e conhecimento<\/h2>\n<p>Ao chegar \u00e0 faculdade, o corpo segue para o setor de necropsia, onde fica em uma c\u00e2mara fria, com temperaturas de 4\u00baC a 6\u00baC. O sangue \u00e9 substitu\u00eddo por uma subst\u00e2ncia conservante.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a prepara\u00e7\u00e3o, o cad\u00e1ver \u00e9 mantido submerso em um tanque de formol, o que impede seu ressecamento, at\u00e9 o momento de ser utilizado.<\/p>\n<p>Os corpos usados nos laborat\u00f3rios s\u00e3o retirados dos tanques na segunda-feira e recolhidos de volta na sexta-feira. O procedimento \u00e9 feito com o corpo inteiro e partes isoladas.<\/p>\n<p>O professor j\u00e1 dissecou corpos de doadores que entrevistou. A \u00faltima vez que isso ocorreu foi h\u00e1 dois anos. Como corpos que chegam n\u00e3o s\u00e3o usados imediatamente, h\u00e1 um intervalo entre a entrevista e a disseca\u00e7\u00e3o. Essa conversa foi, portanto, h\u00e1 uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p>&#8220;Fico muito mais tranquilo em trabalhar com um corpo que conhecia porque sei que ele fez a escolha de vir para c\u00e1&#8221;, explica o docente.<\/p>\n<p>&#8220;Senti uma certa tristeza&#8221;, reconhece ele, &#8220;mas lembrei da conversa em que ele disse n\u00e3o querer dar trabalho aos familiares e que morava sozinho e isso me tranquilizou&#8221;.<\/p>\n<p>O professor n\u00e3o costuma mencionar isso aos doadores &#8211; apenas quando questionado -, mas tamb\u00e9m \u00e9 um candidato \u00e0 doa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E enfrenta um desafio parecido com o de seus entrevistados: convencer os familiares &#8211; no caso dele, uma em especial.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/C130\/production\/_92965494_a8a3c437-770d-4e92-885e-09fc974dd15d.jpg\" alt=\"Humberto Alves\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Humberto Alves j\u00e1 entrevistou pessoas que depois morreram e tiveram corpos usados em aulas; professor tamb\u00e9m pretende ser doador<\/span><\/figure>\n<p>&#8220;(A decis\u00e3o) foi facilmente aceita pelo meu filho, mas n\u00e3o pela minha mulher. Ela ainda fica reticente.&#8221;<\/p>\n<p>A mulher costuma evitar o assunto, enquanto Alves procura retom\u00e1-lo em situa\u00e7\u00f5es triviais do dia a dia, como um caf\u00e9 da manh\u00e3. &#8220;N\u00e3o \u00e9 que queira morrer logo, s\u00f3 quero que minha vontade seja respeitada quando chegar o momento.&#8221;<\/p>\n<p>Na entrevista com as doadoras, Maria do Carmo Generoso, de 50 anos, diz que n\u00e3o revelou para toda a fam\u00edlia a decis\u00e3o que acabou de formalizar. &#8220;\u00c9 uma decis\u00e3o muito pessoal. S\u00f3 meu filho e meu marido sabem&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;Achei divino&#8221;, afirma uma das participantes, que n\u00e3o quis ser identificada. Ela afirma que nunca gostou dos rituais de enterro e crema\u00e7\u00e3o, e que viu na doa\u00e7\u00e3o uma alternativa. &#8220;Eu resolvi doar, mas tenho medo da morte. A vida \u00e9 muito boa. A gente ama viver.&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tema f\u00fanebre n\u00e3o deixa o clima pesado. 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