{"id":170581,"date":"2017-01-10T11:48:50","date_gmt":"2017-01-10T14:48:50","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=170581"},"modified":"2017-01-10T11:48:50","modified_gmt":"2017-01-10T14:48:50","slug":"de-volta-ao-curral-onde-jaz-meu-umbigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/de-volta-ao-curral-onde-jaz-meu-umbigo\/","title":{"rendered":"De volta ao curral onde jaz meu umbigo"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"blog-post-title\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/pe-recebera-r-15-mi-contra-seca-garante-humberto\/seca-lata-na-cabeca\/\" rel=\"attachment wp-att-63548\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-63548\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/seca-lata-na-cabe\u00e7a-242x300.jpg\" alt=\"\" width=\"242\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/seca-lata-na-cabe\u00e7a-242x300.jpg 242w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/seca-lata-na-cabe\u00e7a-403x500.jpg 403w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/seca-lata-na-cabe\u00e7a-160x199.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/seca-lata-na-cabe\u00e7a.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 242px) 100vw, 242px\" \/><\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por Jos\u00e9 N\u00eaumanne Pinto*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembran\u00e7as do vaqueiro Eloi e seu patr\u00e3o Chico, meu av\u00f4<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro ponto de refer\u00eancia de minha vida foi a porteira do curral em frente \u00e0 casa de meu av\u00f4 materno, onde nasci. Afinal, foi l\u00e1 que enterraram meu cord\u00e3o umbilical. Desde muito cedo me contaram isso. Desde muito cedo me acostumei a tirar os paus que impediam a sa\u00edda das reses e a entrada dos vaqueiros. Nunca tive um gib\u00e3o, nunca uma perneira, nunca um bornal pra encher de farinha seca e peda\u00e7os de rapadura que amoleciam ao sol. O velho Chico Ferreira tamb\u00e9m n\u00e3o usava os trajes dos meeiros de confian\u00e7a que apartavam seu gado vacum, levavam-no cedo para o pasto e, ao anoitecer, o traziam para ruminar no leito macio e quente de bosta de vaca. Ao que me lembre, meu av\u00f4, magro e m\u00edope, muito m\u00edope, usava camisas e cal\u00e7as de tecido r\u00fastico, sempre muito limpas, com cheiro de sab\u00e3o de pedra, anis e goma de mandioca, usada para pass\u00e1-las.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu, gorducho, meio inseguro sobre coxas grossas e pernas bambas, acordava muito cedo para tomar meu caf\u00e9. Carregava com zelo um copo de vidro grosso no qual jorrava o leite gordo da teta que o dono ordenhava com calma, paci\u00eancia e um amor que exalava por todos os seus poros. Ali era o pai de minha m\u00e3e, sua primog\u00eanita, o sogro de meu pai, seu sobrinho, ao mesmo tempo seu compadre, pois tinha sido padrinho de meu irm\u00e3o um ano mais novo. O l\u00edquido branco e morno j\u00e1 era despejado sobre o caf\u00e9, que dona Quinou Moreira, minha av\u00f3, havia feito na primeira hora, antes de a barra alumiar de rubro e o sol surgir luminoso, forte, quente e amea\u00e7ador. Quando meus pais se mudaram para a cidade, um vilarejo \u00e0 \u00e9poca, o leite chegava em baldes e era fervido no fog\u00e3o de lenha por minha m\u00e3e, Mundica, que o passava de tigela em tigela at\u00e9 atingir minha temperatura favorita, um pouquinho mais quente do que o leite mugido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 seu Chico morrer, e eu tinha apenas 6 anos, contudo, meu desjejum era no curral, ao qual s\u00f3 tinha acesso depois de pisar o ch\u00e3o que ocultava os restos em decomposi\u00e7\u00e3o de meu cord\u00e3o umbilical. Isso era muito cedo e o dia se alongava, de forma pregui\u00e7osa e lenta, at\u00e9 que eu me juntava ao ancestral para a cerim\u00f4nia mais esperada do dia. Sent\u00e1vamo-nos os dois na cal\u00e7ada alta e esper\u00e1vamos a chegada do rebanho. Ao som dos chocalhos, o sol desmaiava aos poucos, desmanchando-se em cor de sangue. Aquela longa conversa muda entre o velho e a crian\u00e7a se reproduz at\u00e9 hoje em minhas lembran\u00e7as e em meus gostos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes, muito raramente, o anci\u00e3o esticava o bra\u00e7o torrado da soleira na dire\u00e7\u00e3o do ocidente e me mostrava nuvens carregadas ao perder de vista no horizonte:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Veja, esse menino. Est\u00e1 chovendo em Souza. Pode ser que amanh\u00e3 chegue por aqui. Estamos precisados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o dia morria, ouv\u00edamos a voz da mulher, vinda da cozinha:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Traga o menino pra dentro, seu Chico. \u00c9 hora da ceia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O idoso (e ele morreria t\u00e3o cedo) sacava, ent\u00e3o, sua peixeira e a amolava numa pedra, depois rapava uma rapadura que seus empregados traziam da Baixa Verde, sua propriedade no Rio Grande do Norte, onde nascera parte de sua prole, inclusive minha m\u00e3e. Despejava a rapadura rapada no prato fundo, acrescentava coalhada e soro. E os dois \u2013 o ancestral e parte de sua descend\u00eancia \u2013 com\u00edamos solenemente, em sil\u00eancio. Gostaria muito de um dia me lembrar da voz daquele homem t\u00e3o \u00edntimo de mim naquele tempo, mas ele foi e com ele levou a lembran\u00e7a de seu timbre am\u00e1vel. Cruzava as pernas, sentava-me no colo e, antes de pitar um cigarro de palha, depositava a crian\u00e7a quieta no banco de madeira ao lado de uma mesa longa, \u00e0 qual somente n\u00f3s dois tom\u00e1vamos assento. Minha av\u00f3 comia na cozinha, de p\u00e9, ao lado do fog\u00e3o, depois que os pratos dos homens estavam lavados, postos para a \u00e1gua escorrer logo ali ao lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dorm\u00edamos em redes, ele no quarto com a mulher, eu na sala, insone pelo tique-taque do p\u00eandulo do rel\u00f3gio de parede que dava os minutos e tocava as horas, contadas em algarismos romanos fora do padr\u00e3o: quatro era IIII, n\u00e3o IV, como no imp\u00e9rio dos C\u00e9sares se grafava. De onde algum desavisado teria tirado essa ideia de subverter o IV com que Marco Aur\u00e9lio fazia suas contas na Antiguidade long\u00ednqua?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando chovia, contudo, eu dormia bem, embalado pelo ronco pesado de minha av\u00f3, as b\u00e1tegas a\u00e7oitando as telhas da casa antiga e o ranger dos armadores submetidos ao peso do velho se balan\u00e7ando para conciliar o sono. Uma vez, j\u00e1 adolescente, morto o av\u00f4, a av\u00f3 surda e implicante ainda viva por um bom tempo, escrevi um poema sobre esta cena dom\u00e9stica. \u00c9 o \u00fanico de todos os meus poemas que sei de cor. E tem o fecho mais comum, menos interessante, mas que me emociona at\u00e9 me levar aos prantos. O poema intitula-se \u201cNa casa avoenga\u201d. E termina com um verso s\u00fabito e impaciente: \u201ceta emo\u00e7\u00e3o!\u201d S\u00f3 que o ritmo dos versos n\u00e3o lembra as noites de chuva e paz ou de ronco e vig\u00edlia. Mas, sim, sempre, a chegada da boiada de volta ao curral, onde apodrece o cord\u00e3o que me ligava ao ventre materno antes do parto complicado de que vim ao mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei por que, vou morrer sem saber, talvez nas\u00e7a de novo e ainda n\u00e3o aprenda por que, com mil e seiscentos diachos, como praguejava seu Chico Ferreira, me senti pessoalmente agredido pelos bondosos defensores dos animais, pelos burocratas do Estado do Cear\u00e1 que, a poucos quil\u00f4metros do alpendre da casa onde minha m\u00e3e me pariu, proibiram a vaquejada. Um ministro do Supremo Tribunal Federal me fez a suprema desfeita de decepar um peda\u00e7o da inf\u00e2ncia, a lembran\u00e7a afetuosa que tinha do pai de minha m\u00e3e, com os quais, ele e ela, compartilho fei\u00e7\u00f5es bem parecidas. Senti-me um irm\u00e3o distante de Aldo Rebelo quando ele escreveu, na mesma p\u00e1gina onde rabisco linhas sobre pol\u00edtica no Estad\u00e3o velho de guerra e paz, um protesto assim l\u00edrico e manso como o meu contra a medida Segundo Aldo, esta matou o vaqueiro e o sertanejo, os her\u00f3is da saga da conquista dos ermos pelas patas das boiadas da Casa da Torre, dos Garcia d\u2019\u00c1vila, na Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lendo o notici\u00e1rio posterior sobre o pretexto do conflito em torno da vaquejada, que teria ajudado a derrubar Marcelo Calero do Minist\u00e9rio da Cultura, que era contra, e da penada com que o presidente Temer a recolocou no altar da cultura popular, aproximei-me de novo de meu av\u00f4 materno. E me senti de novo o beb\u00ea que Levina, filho de seu Natan, pesou na balan\u00e7a de pesar algod\u00e3o de meus ancestrais e depois banhou pela primeira vez com sabonete Vale Quanto Pesa. Moradora de meu bisav\u00f4 coronel, ela era mulher de Eloi, vaqueiro tresmalhado que chegou de Monte Santo, Bahia, onde o beato Conselheiro perdeu a vida para adentrar a lenda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem sabe essa lembran\u00e7a com gosto de leite rec\u00e9m-ordenhado no sert\u00e3o do Rio do Peixe me consiga o perd\u00e3o dos defensores dos animais, embora talvez seja imposs\u00edvel convenc\u00ea-los de que, por mais que se esforcem, nunca cuidar\u00e3o de uma r\u00eas ou uma r\u00e3 t\u00e3o bem como um vaqueiro do sert\u00e3o. Seja como for, este idoso com o umbigo amarrado ao curral do av\u00f4 sempre lhes ser\u00e1 grato por terem eles permitido voltar \u00e0 inf\u00e2ncia amputada por causa do epis\u00f3dio sem nexo nem raz\u00e3o da proibi\u00e7\u00e3o da vaquejada. Tengo, lengo, tengo, lengo, tengo, \u00ea boi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>*Poeta, escritor e jornalista, nasceu na Fazenda Rio do Peixe, em Uira\u00fana, Para\u00edba<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 N\u00eaumanne Pinto* Lembran\u00e7as do vaqueiro Eloi e seu patr\u00e3o Chico, meu av\u00f4 O primeiro ponto de refer\u00eancia de minha vida foi a porteira do curral em frente \u00e0 casa de meu av\u00f4 materno, onde nasci. Afinal, foi l\u00e1 que enterraram meu cord\u00e3o umbilical. Desde muito cedo me contaram isso. 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