{"id":174792,"date":"2017-02-04T20:45:52","date_gmt":"2017-02-04T23:45:52","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=174792"},"modified":"2017-02-04T20:45:52","modified_gmt":"2017-02-04T23:45:52","slug":"federico-garcia-lorca-o-que-ha-por-tras-de-sua-morte-ha-80-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/federico-garcia-lorca-o-que-ha-por-tras-de-sua-morte-ha-80-anos\/","title":{"rendered":"Federico Garc\u00eda Lorca: o que h\u00e1 por tr\u00e1s de sua morte h\u00e1 80 anos?"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"bigtitle\" data-section=\"\"><\/h1>\n<p><time class=\"time d-b\" datetime=\"2017-02-04BRST21:02\">Fernando Monteiro\u00a0<\/time><\/p>\n<div class=\"subtitle\">Nada a contestar sobre a periculosidade dos \u201c\u00f3dios fascistas\u201d, por\u00e9m, pesquisas mais fundas foram, recentemente, bem mais eficientes no levantar das disc\u00f3rdias e invejas no seio dos quatro ramos familiares de Lorca<\/div>\n<div class=\"social pc\">\n<div class=\"print\"><\/div>\n<div id=\"___plusone_1\"><\/div>\n<div id=\"___ytsubscribe_1\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"social t\"><\/div>\n<div class=\"descript\">\n<p>Dentre as figuras exponenciais da cultura do s\u00e9culo 20, nenhuma outra teve a sua vida ligada, t\u00e3o tragicamente, a fatos extremos da polaridade pol\u00edtica Direita X Esquerda quanto Federico Garc\u00eda Lorca, o grande poeta espanhol assassinado no dia 19 de agosto de 1936, num recanto \u00e0 margem da estrada V\u00edznar-Alfaca, na sua prov\u00edncia natal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lorca era andaluz, e foi fuzilado dois dias depois de ser preso por uma mil\u00edcia fascista, na sua cidade, a Granada da Alhambra encarapitada nos morros que a cercam assim como, at\u00e9 hoje, a mem\u00f3ria de Federico segue preenchendo a hist\u00f3ria granadina e contribuindo para fazer de Andaluzia um dos destinos tur\u00edsticos mais carism\u00e1ticos da Europa.<\/p>\n<div class=\"img-vertical fl-l\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/Lorca_(1914)(2).jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<div class=\"img-vertical-descript\"><\/div>\n<\/div>\n<p>De certo modo, Granada se tornou duas legendas: Alhambra &amp; Lorca \u2013 uma no seu esplendor arquitet\u00f4nico e outro nos seus cantares \u201cgitanos\u201d e, por fim, no pranto de condenado \u00e0 morte quase podendo ser ouvido pelos amigos e pela fam\u00edlia detentora de boas propriedades de gente abastada, na cidade e no campo.Quando algu\u00e9m as visita, \u00e9 poss\u00edvel deduzir, de imediato, que um fuzilamento assim, uma agress\u00e3o fatal contra o membro mais destacado \u2013 intelectualmente \u2013 daquela linhagem andaluza, teve algo de \u201cafoito\u201d demais, de muito brutal e despropositado, por assim dizer, mesmo para o bando de fascistas aos quais tudo foi atribu\u00eddo como inten\u00e7\u00e3o de prender, decis\u00e3o de \u201cjulgar\u201d (mais que sumariamente) e ordem, por fim, de executar sem mais delongas.<\/p>\n<p><strong>Quem foi o respons\u00e1vel? E por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Essa pergunta esteve posta desde que come\u00e7ou a circular largamente a not\u00edcia da morte do homem que, segundo relatos da \u00e9poca, chorou na madrugada, diante do inacredit\u00e1vel fato de que iriam realmente fuzil\u00e1-lo de face para aquela manh\u00e3 clara da Andaluzia que ele, filho da regi\u00e3o, havia cantado em versos imortais.<\/p>\n<p>Haveria motivos para matar um poeta j\u00e1 muito conhecido, um jovem com um vasto c\u00edrculo de amizades na Espanha e tamb\u00e9m no exterior? Sabemos que fascistas s\u00e3o temer\u00e1rios (a palavra \u00e9 essa), mas sempre houve algo de estranho nesse crime, al\u00e9m de obscuridades diversas, telefonemas v\u00e1rios, discuss\u00f5es, ordens e contraordens\u2026 e at\u00e9 uma arma apontada para o subgovernador militar de Granada \u2013 por um fascista da Falange! \u2013 em defesa veemente do preso.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, na verdade, recontar um pouco dessa trag\u00e9dia, desde antes da manh\u00e3 fat\u00eddica e, para isso, devemos ver Federico, ainda em Madri, sendo desaconselhado no intuito de seguir \u201cpara casa\u201d, justamente para fugir dos perigos pol\u00edticos da capital, naquele primeiro ano da Guerra Civil. Os amigos tentaram faz\u00ea-lo desistir da viagem e permanecer entre eles. Alegavam que, na pequena Granada, ele estaria muito \u201cmais exposto\u201d do que na grande cidade, por\u00e9m o poeta retrucou que l\u00e1, na sua Andaluzia, todos o conheciam e sabiam das suas origens etc. Ningu\u00e9m conseguiu demov\u00ea-lo da ideia de prote\u00e7\u00e3o (ligada \u00e0 fam\u00edlia tradicional) e, assim, o poeta viajaria para Granada \u2013 e para a morte.<\/p>\n<p><strong>Granada prestes a explodir<\/strong><\/p>\n<p>Os amigos de Lorca tinham raz\u00e3o. O poeta iria encontrar na Granada antigamente \u201cm\u00e1gica\u201d, os efl\u00favios de \u00f3dios desatados \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, no estreito ambiente limitado por muros seculares. Sim, ele era conhecido, para bem e para mal, como poeta e jovem bo\u00eamio de vida mais ou menos dissipada (e gostariam de dizer, claramente, a palavra derris\u00f3ria para homossexuais: \u201cmaric\u00f3ns\u201d)\u2026<\/p>\n<p>A cidade estava inevitavelmente alterada por medos, rumores e rancores velhos de antes da guerra. Circulavam boatos em torno de pris\u00f5es j\u00e1 decretadas, e o seu nome teria sido mencionado. Assim, de acordo com recomenda\u00e7\u00f5es familiares, Federico se transferiu da sua casa para, algumas ruas depois, uma mans\u00e3o de amigos dos Lorca-Garc\u00eda: os Rosales igualmente bem relacionados, por\u00e9m com integrantes da Falange (a sinistra agremia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica identificada com o \u201cnacionalismo\u201d de Franco) dentro de casa, do mesmo modo como tamb\u00e9m um poeta ainda adolescente, Luis Rosales, mais tarde autor da obra-prima\u00a0<em>La Casa Encendida<\/em>. Parecia seguro e conveniente para a prote\u00e7\u00e3o do rapaz das noitadas madrilenas.<\/p>\n<p>Neste momento no qual acompanhamos FGL seguindo para abrigar-se no meio dos Rosales, \u00e9 preciso notar uma primeira discrep\u00e2ncia, talvez, com rela\u00e7\u00e3o ao futuro matiz da lenda que, dias depois, come\u00e7ar\u00e1 a ser fixada pela \u00faltima manh\u00e3 do poeta m\u00e1ximo da moderna literatura espanhola (em termos de repercuss\u00e3o internacional). Nela, nessa aurora nascida para a morte \u2013 inesperada \u2013, come\u00e7aria a se compor o retrato sacrificial, isto \u00e9, a ef\u00edgie coberta de sangue de uma v\u00edtima republicana a mais ilustre poss\u00edvel: o bardo dos \u201camores bruxos\u201d, o cantor do romanceiro das estradas de saltimbancos, o vate andaluz, o \u201cher\u00f3i\u201d em queda pelo lado esquerdo do peito varado pelas balas da Guarda Civil e outras hostes fascistas que levaram o ditador Franco a esmagar a Espanha por quatro d\u00e9cadas de autoritarismo, repress\u00e3o violenta e controle absoluto de um povo t\u00e3o dif\u00edcil de domar quanto um mi\u00fara bravo nas \u201cplazas\u201d de areia e sangue.<\/p>\n<p>Sangue, sim, se derrama por toda a ardente pen\u00ednsula ib\u00e9rica, mas, ali na Espanha, ele se concentra como co\u00e1gulos nos Cristos deitados nas catedrais escuras, no espet\u00e1culo dos touros (e dos toureiros) e nos ferimentos graves de um conflito interno que, em agosto de 1936, iria envolver o g\u00eanio de Andaluzia at\u00e9 arrast\u00e1-lo para morrer como um animal de abate, naquele mortic\u00ednio maldito para todos.<\/p>\n<p>Esse \u201cpara todos\u201d introduz a maior parte das d\u00favidas que v\u00eam se alargando, h\u00e1 anos, sobre <em>quem<\/em>\u00a0realmente matou Lorca, ou seja, sobre quais nomes e quais motivos se ocultaram, talvez, num assassinato que ganhou a aura, imediata, de barbaridade m\u00e1xima nessa confusa quadra da hist\u00f3ria do pais de Cervantes. E, desde j\u00e1, parece que temos de abandonar uma querida certeza acalentada por d\u00e9cadas: a do Lorca sacrificado em nome da ideologia \u2013 pois h\u00e1 que encarar a face, menos exposta, de um poeta l\u00edrico que n\u00e3o foi nenhum Quixote, n\u00e3o pretendia ser um paladino das esquerdas e, pelo contr\u00e1rio, estava em fuga das bandeiras e das fuma\u00e7as da frente de combate. Federico era praticamente apol\u00edtico \u2013 segundo a un\u00e2nime opini\u00e3o dos que o conheceram \u2013 e at\u00e9 teria nutrido, num certo momento, uma velada simpatia por \u201cgovernos fortes\u201d, por autoridades que pudessem por \u201cordem\u201d naquela casa, mais do que ca\u00f3tica, da Espanha da primeira metade do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Isso foi confirmado por Luis Rosales, a respeito de um artista no auge do sucesso, como poeta e dramaturgo, quando a guerra estalou, fraticida. Naquela altura, mais do que nunca um Lorca vivaz, um ser risonho e animado e tudo o mais, mantinha outros interesses muito para al\u00e9m da\u00a0<strong>pol\u00edtica<\/strong>\u00a0que nenhum dos seus colegas da famosa \u201cResid\u00eancia dos Estudantes\u201d e amigos das letras, do teatro e da bo\u00eamia de Madri enxergaram, jamais, no horizonte do rapaz bem nascido, bonito e d\u00e2ndi de todas as fotografias do mito que veio a se tornar Federico, o Assassinado.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o primeiro degrau que se tem que firmar, a fim de galgar os patamares mais obscuros da trag\u00e9dia. Ela surpreende o povo de Granada, antes de mais ningu\u00e9m, e a verdade \u2013 ou o que parece ser a \u201cverdade-verdadeira\u201d, tantos anos depois \u2013 vem se insinuando no territ\u00f3rio mais \u00edntimo da fam\u00edlia que possu\u00eda riquezas e membros ressentidos, parentes insultados e queixosos de neg\u00f3cios em sociedade com o pai de Lorca, o \u201cpatriarca\u201d Federico Garc\u00eda Rodrigues.<\/p>\n<p><strong>Quem matou Federico Garc\u00eda Lorca?<\/strong><\/p>\n<p>Todos que leram a obra do irland\u00eas Ian Gibson (que serviu mais ou menos de \u201cc\u00e2none\u201d para estabelecer a vers\u00e3o do assassinato eminentemente pol\u00edtico) certamente lembram do nome do pai do poeta como apenas uma refer\u00eancia ao marido de Vicenta Lorca, no registro da filia\u00e7\u00e3o do poeta ca\u00eddo \u201csob os disparos pelas costas, feitos pelos fuzis do \u00f3dio fascista\u201d etc.<\/p>\n<p>Nada a contestar sobre a periculosidade dos \u201c\u00f3dios fascistas\u201d (\u00e9 claro), por\u00e9m as pesquisas mais fundas foram, recentemente, bem mais eficientes no levantar das disc\u00f3rdias e invejas no seio dos quatro ramos familiares, no caso de Lorca: os Rold\u00e1n, os Benavides, os Alba e os Garcia da linhagem paterna do poeta assassinado.<\/p>\n<p>Longe da idealidade firmada \u2013 com as melhores inten\u00e7\u00f5es \u2013 por Gibson, de imediato ou\u00e7amos o historiador andaluz Miguel Caballero, dentre outros que foram revolver os quintais dom\u00e9sticos, na retaguarda da morte: \u201cAfirmar que mataram Lorca por ser homossexual e \u2018vermelho\u2019 \u00e9 uma simplifica\u00e7\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o se admite. As verdadeiras raz\u00f5es de seu assassinato devem ser buscadas na sua pr\u00f3pria fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p>Outro pesquisador incans\u00e1vel, Manuel Ayll\u00f3n, arquiteto e autor de\u00a0<em>\u201cGranada, 1936<\/em>\u00a0(Editorial Stella Maris), tamb\u00e9m \u00e9 taxativo sobre isso: \u201cLorca n\u00e3o era um problema pol\u00edtico, n\u00e3o \u2018militava\u2019 no sentido estrito, podia ser extravagante, inc\u00f4modo e e afrontador nos seus h\u00e1bitos joviais, mas nunca foi um perigo para absolutamente ningu\u00e9m; politicamente, n\u00e3o era visado pelos fascistas, uma vez que era inofensivo. Na verdade, contra ele n\u00e3o houve sequer uma ordem de deten\u00e7\u00e3o assinada. Ele foi simplesmente levado da casa dos Rosales, que lutaram para libert\u00e1-lo no minuto seguinte e n\u00e3o descansaram nos dois dias subsequentes. O poeta Luis Rosales, irm\u00e3o de dois falangistas, foi visit\u00e1-lo na pris\u00e3o t\u00e3o perto de Granada. Ningu\u00e9m imaginava que ele corresse qualquer risco de vida, ali adentro. Seguiam tentando tir\u00e1-lo de l\u00e1, quando veio a incr\u00edvel not\u00edcia da sua morte por um pelot\u00e3o que inclu\u00eda membros do quarteto de fam\u00edlias propriet\u00e1rias da Vega de Granada que, ent\u00e3o, estava dando bons lucros a Federico Garc\u00eda Rodrigues\u201d\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9, de modo algum, uma \u201cteoria conspirat\u00f3ria\u201d surgida oitenta anos depois. Nem envolve somente as pesquisas de Caballero e Ayll\u00f3n, mas come\u00e7ou a abalar mesmo as antigas certezas do Gibson, que est\u00e1, no momento, empenhado em rever sua descri\u00e7\u00e3o de um crime de \u201cnatureza pol\u00edtica\u201d, desde o \u201csequestro\u201d no dia 17 at\u00e9 a execu\u00e7\u00e3o apenas dois dias depois, sem julgamento e causando at\u00e9 mesmo alguma desagrad\u00e1vel surpresa nos c\u00edrculos mais pr\u00f3ximos do quartel-general de Francisco Franco. Claro: um fuzilamento t\u00e3o brutal n\u00e3o seria, jamais, a melhor propaganda para os fascistas empenhados em tomar o poder na Espanha culta tamb\u00e9m. Ali\u00e1s, consta que as primeiras not\u00edcias sobre a morte de Lorca foram veiculadas por eles, os nacionalistas pretendendo que o poeta houvesse sido v\u00edtima da \u201cloucura republicana\u201d (ironia das ironias) e, quando a Guarda Civil emergiu como a assassina de FGL, fez-se um sil\u00eancio sepulcral sobre o assunto, por parte dos amigos do futuro ditador.<\/p>\n<p><strong>\u201cBernada Alba\u201d na \u2013 sinistra \u2013 berlinda de 1936<\/strong><\/p>\n<p>Miguel Caballero \u00e9 quem traz uma surpreendente pista: \u201cA chave para abrir o cofre de estranhezas em torno do fuzilamento sum\u00e1rio de Lorca esteve desde sempre ali, representada, escrita de punho e letra pelo poeta: trata-se de um press\u00e1gio fat\u00eddico que, agora, oitenta anos depois do crime, assume outra dimens\u00e3o.\u00a0<em>A Casa de Bernarda Alba\u00a0<\/em>foi uma vingan\u00e7a liter\u00e1ria \u2013 enfatiza o historiador granadino. Ele v\u00ea a famosa pe\u00e7a \u2013 que correu o mundo \u2013 como um dos fios de meada da trag\u00e9dia, os quais v\u00eam sendo desenrolados por mais de uma dezena de pesquisadores que investigam a hist\u00f3ria da fam\u00edlia desde meados do s\u00e9culo 19. Naquela altura, a Vega de Granada estava em poder de uma aristocracia residente em Madri, e vai cair em ru\u00edna financeira no alvorecer do s\u00e9culo seguinte. As terras foram, ent\u00e3o, adquiridas por um grupo da burguesia ascendente em Andaluzia, no qual figuravam o pai de Lorca e seus parentes, os Rold\u00e1n e os Alba.<\/p>\n<p>Caballero descreve: \u201cEles v\u00e3o comprando as terras de modo coletivo, atrav\u00e9s de sociedades. Estes campos adquirem muito valor para o plantio a\u00e7ucareiro, e Granada se converte numa das prov\u00edncias mais ricas da Espanha, com 21 engenhos. O pai de Lorca participa como acionista de v\u00e1rios. E a disputa come\u00e7a com a divis\u00e3o dos lucros e mais uma tentativa de dividir as terras porque nem todos t\u00eam a mesma sombra nem a mesma \u00e1gua, sendo da\u00ed que procedem os primeiros desentendimentos entre os Rold\u00e1n, os Lorca e os Alba. Uma mesma fam\u00edlia, na verdade, porque eram endog\u00e2micos: casavam-se entre si, a fim de manter as terras antes de mais nada\u201d.<\/p>\n<p>Ora, para a trag\u00e9dia rural\u00a0<em>A Casa de Bernada ALBA<\/em>, Federico Garcia Lorca foi se inspirar em personagens reais, entre as quais avulta Francisca Alba Sierra, uma mulher forte e que se comporta da forma tir\u00e2nica mostrada nos palcos, para desagrado dos Alba de carne e osso, pouco afeitos \u00e0s licen\u00e7as po\u00e9ticas. Para eles, a pe\u00e7a cheirava mal e tinha insinua\u00e7\u00f5es insultuosas.<\/p>\n<p><strong>A \u201cHuerta\u201d assaltada antes do ato final<\/strong><\/p>\n<p>Os Lorca possu\u00edam uma resid\u00eancia de ver\u00e3o granadina \u2013 a Huerta de San Vicente \u2013 que foi assaltada, em 9 de agosto de 1936, por alguns primos de Federico, do ramo dos Rold\u00e1n, que eram conspiradores contra a Rep\u00fablica. Al\u00e9m dos Rold\u00e1n, o historiador Miguel Caballero lembra que outros familiares estiveram implicados nos atos de deten\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o de Lorca, nomeadamente Antonio Benavides, que era sobrinho-neto da primeira mulher do pai do poeta, e que ser\u00e1 o homem acusado de disparar, pelas costas, contra a cabe\u00e7a do artista voltado para a beleza das \u00faltimas \u00e1rvores avistadas entre Alfacar e V\u00edznar, na manh\u00e3 desatada de \u00f3dios n\u00e3o s\u00f3 pol\u00edticos de mistura com preconceitos etc.<\/p>\n<p>Wikicommons<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/1200px-Huerta_de_San_Vicente.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nHuerta de San Vicente \u2014 casa de ver\u00e3o dos Lorca (atualmente, Casa-Museo)<\/p>\n<p>Al\u00e9m desse pano de fundo (nada teatral), existiu ainda uma amea\u00e7a vinda diretamente da poesia de Federico Lorca para a sua vida prestes a findar no dia 19: consta que ele foi levado para a morte por um pelot\u00e3o comandado pelo oficial da Guarda Civil (Nicol\u00e1s Velasco Simarro) que havia se sentido pessoalmente ofendido pelos versos de\u00a0<em>Romance de la Guardia Civil espa\u00f1ola<\/em>, em virtudes de refer\u00eancias \u00e0 dura repress\u00e3o da Guarda contra uma greve em M\u00e1laga. Mais: o ressentimento pessoal de Simarro tamb\u00e9m pode haver sido bem \u201crefor\u00e7ado\u201d pelo fato de ter trabalhado para um Rold\u00e1n (Alejandro Benavides) no caso de uma fuga de camponeses da Vega sempre objeto de disputas mesquinhas com o pai de Lorca\u2026<\/p>\n<p>Um rede de \u00f3dios e intrigas familiares come\u00e7a a assumir a frente do assunto \u201cmorte do poeta\u201d. Seu cad\u00e1ver jaz em algum lugar da estrada, na vala comum na qual teria sido abandonado e encoberto de areia e pedras andaluzas? Talvez n\u00e3o. A pr\u00f3pria fam\u00edlia \u00e9, ainda hoje, totalmente contr\u00e1ria (?) \u00e0s buscas. Isso \u00e9 muito estranho. Todos os Lorcas velhos parecem saber que Federico n\u00e3o se encontra mais naquela vala comum h\u00e1 muito tempo, e que parece ter sido de imediato exumado (ainda naquele agosto aziago, h\u00e1 oitenta anos), porque n\u00e3o foi um crime propriamente pol\u00edtico, n\u00e3o foi a execu\u00e7\u00e3o de um \u201cmaric\u00f3n rojo\u201d \u2013 mas a perda de um ente querido, de um grande poeta e de um mito jogado entre porcos vorazes dignos do romance\u00a0<em>Os irm\u00e3os Karam\u00e1zov<\/em>, de Dostoi\u00e9vski. Mais uma vez, a vida imita a arte, no caso.<\/p>\n<p>Existe no Youtube uma coisa curiosa:<\/p>\n<p>O poeta Luis Rosales \u2014 que visitou Federico na pris\u00e3o durante os dias em que ele l\u00e1 esteve \u2014 estava dando uma entrevista sobre o assunto \u201cmorte de Lorca\u201d, filmada por Ian Gibson, e, num certo momento, ele pensou que a c\u00e2mera estava desligada. Ent\u00e3o, fala, em off, sobre Lorca lhe ter manifestado simpatias por um \u201cgoverno forte\u201d que pusesse ordem na Espanha ca\u00f3tica de ent\u00e3o, e \u2014 mais incr\u00edvel ainda \u2014 diz, em alto e bom som, que \u201cTERIA SIDO MUITO F\u00c1CIL SOLTAR, LIBERTAR LORCA, caso imaginassem \u2014 o pai, a m\u00e3e, os amigos \u2014 que ele corria qualquer perigo de vida\u201d (SC)!<\/p>\n<p>Rosales \u2014 o grande poeta Luis, mais tarde \u2014 era, vc sabe, o irm\u00e3o mais novo dos dois falangistas bem situados na hierarquia fascista de Granada, que realmente lutaram (de fato) pela imediata liberta\u00e7\u00e3o do poeta, um deles tendo chegado a apontar a arma para o governador militar franquista, \u201cexigindo\u201d\u00a0que Lorca fosse solto.<\/p>\n<p>Veja a declara\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RNVOOuFHSiA\" width=\"960\" height=\"720\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando algu\u00e9m as visita, \u00e9 poss\u00edvel deduzir, de imediato, que um fuzilamento assim, uma agress\u00e3o fatal contra o membro mais destacado \u2013 intelectualmente \u2013 daquela linhagem andaluza, teve algo de \u201cafoito\u201d demais, de muito brutal e desp<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":174793,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-174792","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Lorca_19142.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/174792","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=174792"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/174792\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/174793"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=174792"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=174792"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=174792"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}