{"id":177635,"date":"2017-02-20T17:39:02","date_gmt":"2017-02-20T20:39:02","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=177635"},"modified":"2017-02-20T17:39:02","modified_gmt":"2017-02-20T20:39:02","slug":"dilma-segunda-fase-do-golpe-pode-ser-muito-mais-repressora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/dilma-segunda-fase-do-golpe-pode-ser-muito-mais-repressora\/","title":{"rendered":"Dilma: Segunda fase do golpe pode ser muito mais repressora"},"content":{"rendered":"<div class=\"featured-box featured-box-rs247\">\n<h2><\/h2>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Foto: Maia Rubim\/Sul21\" src=\"http:\/\/www.brasil247.com\/images\/cache\/1000x357\/crop_0_86_1280_543\/images%7Ccms-image-000534678.jpg\" alt=\"Foto: Maia Rubim\/Sul21\" width=\"1000\" height=\"357\" data-src-a=\"\/images\/cache\/480x240\/crop\/images%7Ccms-image-000534678.jpg\" data-src-b=\"\/images\/cache\/490x280\/crop\/images%7Ccms-image-000534678.jpg\" \/>&nbsp;<\/p>\n<div><\/div>\n<p class=\"meta\">\n<\/div>\n<div class=\"sidebar-columns single-page clearfix style-rs247\">\n<section>\n<div class=\"entry\">\n<div><\/div>\n<p><strong>Por Marco Weissheimer, do <a href=\"http:\/\/www.sul21.com.br\/jornal\/o-golpe-nao-terminou-a-segunda-etapa-pode-ser-muito-mais-radicalizada-e-repressora\/\" target=\"_blank\">Sul 21<\/a> <\/strong><\/p>\n<p>Quase seis meses depois da vota\u00e7\u00e3o da \u00faltima etapa do impeachment no Senado Federal, Dilma Rousseff olha para esse per\u00edodo n\u00e3o como uma p\u00e1gina virada na sua hist\u00f3ria de vida ou na hist\u00f3ria pol\u00edtica do pa\u00eds, mas sim como um processo em andamento. \u201cO golpe n\u00e3o acabou\u201d, afirma, advertindo para os riscos que a democracia brasileira corre com o desenrolar do processo golpista. Em entrevista ao\u00a0Sul21, concedida em seu apartamento em Porto Alegre, Dilma Rousseff fala sobre as ra\u00edzes profundas e aparentes do golpe, denuncia o desmonte de pol\u00edticas sociais e de setores estrat\u00e9gicos para o pa\u00eds, como as ind\u00fastrias naval e petrol\u00edfera, e aponta as tarefas que ela considera priorit\u00e1rias para a esquerda e para todas as for\u00e7as progressistas do pa\u00eds:<\/p>\n<p>\u201cA quest\u00e3o democr\u00e1tica \u00e9 fundamental para n\u00f3s. Sempre ganhamos quando a democracia se aprofundou e sempre perdemos quando ela foi restringida. O que est\u00e1 em jogo hoje \u00e9 o que vai ser a elei\u00e7\u00e3o de 2018. Essa ser\u00e1 a pauta a partir da metade do ano. Acho que o Lula, nesta hist\u00f3ria, cumprir\u00e1 um papel muito importante, concorrendo ou n\u00e3o. A segunda etapa do golpe pode ser muito mais radicalizada e propensa \u00e0 repress\u00e3o. Nossa miss\u00e3o \u00e9 garantir o maior espa\u00e7o democr\u00e1tico poss\u00edvel, denunciar todas as tentativas de restri\u00e7\u00e3o das liberdades democr\u00e1ticas e tentar garantir em 2018 um processo que seja constru\u00eddo por baixo\u201d, defende.<\/p>\n<p><strong>Sul21:<\/strong>\u00a0<em>Em um artigo publicado na semana passada, o soci\u00f3logo e cientista pol\u00edtico Aldo Fornazieri afirmou que a consequ\u00eancia mais tr\u00e1gica do golpe \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o do Brasil enquanto na\u00e7\u00e3o e a sua decomposi\u00e7\u00e3o moral. Do ponto de vista econ\u00f4mico, afirma ele, o pa\u00eds est\u00e1 \u00e0 venda. Do ponto de vista social, h\u00e1 um grande desastre em curso, com um massacre de direitos. A senhora concorda com essa avalia\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><strong>Dilma Rousseff:<\/strong> Concordo. Acho que ele tem toda a raz\u00e3o. H\u00e1 exemplos muito concretos, como a quest\u00e3o das empresas que comp\u00f5em a cadeia de petr\u00f3leo e g\u00e1s. Estamos vivendo um momento de destrui\u00e7\u00e3o dessa cadeia que era uma das mais importantes do pa\u00eds. Ela \u00e9 uma das mais importantes porque a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo em \u00e1guas profundas exige um fornecimento de equipamentos e servi\u00e7os de engenharia, uma expertise em extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo em grandes profundidades sob grande press\u00e3o e altas temperaturas. Ela exige uma tecnologia sofisticada. Todos os pa\u00edses desenvolvidos \u2013 e mesmo os em desenvolvimento \u2013 que tiveram a experi\u00eancia da descoberta de petr\u00f3leo buscaram, de alguma forma, internalizar essa cadeia, fazendo que ela n\u00e3o fosse uma cadeia externa para n\u00e3o ter o efeito da chamada doen\u00e7a holandesa. Nesta doen\u00e7a, voc\u00ea cria uma riqueza, por exporta\u00e7\u00e3o ou explora\u00e7\u00e3o da mesma, mas essa riqueza n\u00e3o \u00e9 internalizada na forma de cria\u00e7\u00e3o de empregos, investimentos, desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Como se chama essa pol\u00edtica de internaliza\u00e7\u00e3o? Pol\u00edtica de conte\u00fado local. Essa pol\u00edtica foi feita na Noruega e ningu\u00e9m pode dizer que a Noruega \u00e9 chavista. Virou uma grande acusa\u00e7\u00e3o para se interditar uma discuss\u00e3o falar em chavismo, lembrando que Ch\u00e1vez foi muito bom para o pa\u00eds dele pois diminuiu bastante a pobreza e acabou com a domina\u00e7\u00e3o externa da PDVSA (Petr\u00f3leos de Venezuela). A pol\u00edtica de conte\u00fado local tinha um objetivo claro. N\u00f3s t\u00ednhamos sido, na d\u00e9cada de 90, os maiores produtores de navios, junto com a Cor\u00e9ia do Sul. N\u00f3s est\u00e1vamos em oitavo lugar e a Cor\u00e9ia devia estar ali pelo 13o\u00a0lugar. Hoje, a Cor\u00e9ia \u00e9 um grande produtor de navios e de equipamentos para a extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. Ela manteve seu processo de industrializa\u00e7\u00e3o e de internaliza\u00e7\u00e3o que n\u00f3s interrompemos no governo Collor quando acabaram com a ind\u00fastria naval brasileira.<\/p>\n<p>N\u00f3s recuperamos essa ind\u00fastria por meio da pol\u00edtica de conte\u00fado local. Segundo essa pol\u00edtica, tudo o que puder ser produzido no Brasil deve ser produzido no Brasil, mantendo-se a busca de mesmo custo, mesmo n\u00edvel tecnol\u00f3gico e mesma qualidade dos produtos. Essa pol\u00edtica estava em curso e, hoje, est\u00e1 sendo inteiramente destru\u00edda. O que estamos vendo hoje? Abre-se uma licita\u00e7\u00e3o na Petrobras, dirigida a empresas internacionais. Todas elas s\u00e3o grandes empresas de engenharia e todas s\u00e3o investigadas ou por quest\u00f5es administrativas ou por quest\u00f5es criminais em processos de corrup\u00e7\u00e3o. Mas podem participar da licita\u00e7\u00e3o. J\u00e1 as nossas est\u00e3o impedidas de participar. Com isso, voc\u00ea destr\u00f3i, n\u00e3o s\u00f3 a ind\u00fastria naval, mas tamb\u00e9m a possibilidade de fornecimento de equipamentos, exportando empregos para o Jap\u00e3o, Cor\u00e9ia, Estados Unidos e para a pr\u00f3pria Europa.<\/p>\n<p>Esse processo de destrui\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria naval brasileira e de toda a pol\u00edtica de conte\u00fado local, mais cedo ou mais tarde, vai chegar na Petrobras. O nosso papel \u00e9 impedir que isso aconte\u00e7a. A internaliza\u00e7\u00e3o que promovemos n\u00e3o era s\u00f3 de empresas brasileiras. Voc\u00ea podia internalizar aqui a produ\u00e7\u00e3o de navios de qualquer nacionalidade. Mas tinha que produzir aqui. Isso foi feito em outros pa\u00edses do mundo. A Noruega fez isso quando descobriu que tinha reservas de petr\u00f3leo significativas. As nossas s\u00e3o muito maiores.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o social \u00e9 ainda mais grave. O modelo principal a\u00ed \u00e9 a emenda constitucional que foi aprovada congelando por at\u00e9 vinte anos os investimentos. Mas ela n\u00e3o faz s\u00f3 isso n\u00e3o. Ela enrijece o or\u00e7amento e, ao fazer isso, cruza duas coisas. Uma delas \u00e9 o enquadramento do Brasil, mais uma vez, depois que n\u00f3s interrompemos o neoliberalismo do Fernando Henrique. Para isso, \u00e9 preciso \u201climpar\u201d o or\u00e7amento, ou seja, tirar dele esses subs\u00eddios desnecess\u00e1rios para os pobres. Essa \u00e9 a ideia que est\u00e1 por tr\u00e1s dessa emenda constitucional. Mas, al\u00e9m disso, ela tamb\u00e9m \u00e9 uma medida de exce\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 consagrado na Constitui\u00e7\u00e3o que n\u00f3s somos um pa\u00eds democr\u00e1tico que elege seu presidente pelo voto direto do povo brasileiro. Quando elegemos um presidente, elegemos um projeto que \u00e9 executado via or\u00e7amento. Se voc\u00ea congela o or\u00e7amento por vinte anos, est\u00e1 burlando a Constitui\u00e7\u00e3o ao longo de cinco mandatos. E onde fica o direito ao voto direto?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o Fornazieri tem toda raz\u00e3o. N\u00f3s estamos vendo um processo de retrocesso, cujo objetivo central \u00e9 reenquadrar o Brasil. N\u00f3s, junto com praticamente toda a Am\u00e9rica Latina, nadamos contra a corrente. Neste per\u00edodo, n\u00f3s reduzimos a desigualdade enquanto que, no resto do mundo, ela se ampliou. No resto do mundo, a financeiriza\u00e7\u00e3o correu solta e levou a uma concentra\u00e7\u00e3o de riqueza nunca antes vista. N\u00f3s interrompemos as privatiza\u00e7\u00f5es, a perda de direitos. Por isso, agora, eles querem, tamb\u00e9m do ponto de vista geopol\u00edtico, reenquadrar o Brasil, um pa\u00eds que ousou ser multilateral, dar prioridade para a Am\u00e9rica Latina, para a \u00c1frica e para os BRICS, mantendo mesmo assim uma rela\u00e7\u00e3o muito cordial com os pa\u00edses desenvolvidos. O que estamos vendo n\u00e3o se trata apenas de perda de direitos. Querem nos enquadrar em outro modelo, dar para n\u00f3s outras balizas, outros limites e outra configura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a dimens\u00e3o mais profunda do golpe. A mais vis\u00edvel \u00e9 aquela expressa na frase \u201cvamos estancar a sangria antes que eles cheguem at\u00e9 n\u00f3s\u201d, antes que as investiga\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o cheguem \u00e0 ala pol\u00edtica dos golpistas.<\/p>\n<p><strong>Sul21:<\/strong>\u00a0<em>O golpe foi dado carregando duas grandes \u201cpromessas\u201d \u00e0 sociedade brasileira: o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e a retomada do crescimento econ\u00f4mico. Essas duas \u201cpromessas\u201d fracassaram. O desemprego atingiu n\u00edveis alarmantes e muitos dos investigados e indiciados na Lava Jato est\u00e3o governando o pa\u00eds. Considerando o \u201cn\u00e3o cumprimento\u201d desses temas poder\u00edamos dizer que o golpe fracassou ou suas verdadeiras promessas s\u00e3o outras?<\/em><\/p>\n<p><strong>Dilma Rousseff:<\/strong> Eu acho que eles subestimaram a crise econ\u00f4mica e a crise pol\u00edtica que eles mesmo geraram. Quando esteve no Brasil, no in\u00edcio de 2015, Stiglitz disse que a crise econ\u00f4mica estava precificada. O que n\u00e3o estava precificado \u00e9 que se acoplasse a ela uma crise pol\u00edtica de propor\u00e7\u00f5es gigantescas. Eles defenderam a tese de que a crise econ\u00f4mica era causada por uma falta de confian\u00e7a que, por sua vez, decorria da crise fiscal. Ou seja, o governo tinha sido muito pr\u00f3digo nas pol\u00edticas sociais e havia gasto muito com subs\u00eddio ao investimento, gerando uma crise fiscal. Essa crise fiscal teria produzido uma crise de confian\u00e7a. Enquanto essa n\u00e3o fosse resolvida, nada aconteceria. E a receita para resolver a crise fiscal seria cortar gastos. Um impostinho n\u00e3o pode? N\u00e3o, de jeito nenhum. Um pato amarelo foi colocado na avenida Paulista dizendo: \u2018n\u00e3o pagaremos o pato\u2019. Leia-se: n\u00e3o venham com impostos para n\u00f3s porque n\u00e3o pagaremos. N\u00e3o venham com CPMF, juro sobre capital pr\u00f3prio modificado ou dividendos, que n\u00e3o pagaremos.<\/p>\n<p>A doutrina do corte de gastos \u00e9 entronizada como a solu\u00e7\u00e3o para todos os problemas. \u00c9 \u00f3bvio que sempre \u00e9 poss\u00edvel cortar algum gasto. O que n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio \u00e9 sustentar que cortar gastos resolve o problema. Quando h\u00e1 uma crise econ\u00f4mica ocorre uma queda da arrecada\u00e7\u00e3o. A arrecada\u00e7\u00e3o cai mais que as despesas e deprime a demanda, o que, por sua vez, deprime o crescimento, aumentando o desemprego e por a\u00ed vai. Ent\u00e3o, voc\u00ea pode cortar gastos, mas t\u00eam de aumentar a receita. A hora de aumentar receita \u00e9 diante da crise. O pato da avenida Paulista mostra que h\u00e1 sempre um conflito distributivo diante de uma crise. Quando se est\u00e1 numa fase de expans\u00e3o, sobra dinheiro para todo mundo. Quando come\u00e7a algum problema \u00e9 preciso distribuir os cortes.<\/p>\n<p>O problema da subestima\u00e7\u00e3o da crise \u00e9 achar que se sai dessa situa\u00e7\u00e3o com corte de gastos. A austeridade da Europa j\u00e1 provou que n\u00e3o sai. Os Estados Unidos, pragmaticamente, n\u00e3o fazem isso desse jeito. Hoje, h\u00e1 toda uma escola de economistas, inclusive dentro do Fundo Monet\u00e1rio Internacional, que questionam esse caminho. Agora, essa quest\u00e3o dos impostos \u00e9 altamente ideologizada. Essa \u00e9 uma discuss\u00e3o interditada. Os pr\u00f3prios setores progressistas do nosso pa\u00eds t\u00eam dificuldade de discutir imposto. Mas n\u00e3o existe forma de financiar um Estado a n\u00e3o ser por imposto ou por endividamento. A face mais expl\u00edcita no golpe \u00e9 a Fiesp dizendo \u201cn\u00e3o pagamos o pato\u201d. E, entre n\u00f3s, o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>No mundo em que o neoliberalismo \u00e9 dominante h\u00e1 algumas verdades que s\u00e3o sagradas. A primeira verdade sagrada \u00e9 que \u00e9 preciso reduzir o tamanho do Estado. A segunda diz que \u00e9 preciso privatizar porque o Estado \u00e9 inepto em certas atividades. Outra defende a redu\u00e7\u00e3o de direitos sociais, pois eles criariam uma distor\u00e7\u00e3o, retirando est\u00edmulo para as pessoas competirem. A teoria dos tucanos e do pessoal do PFL sobre o \u201cbolsa esmola\u201d \u00e9 derivada da\u00ed. Agora, o eixo central dessa teoria \u00e9 a desregula\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 a desregula\u00e7\u00e3o? N\u00e3o se meta com o capital financeiro e n\u00e3o tribute. Crie para\u00edsos fiscais, para onde seja poss\u00edvel fugir evitando a tributa\u00e7\u00e3o. Quando olhamos o comportamento da tributa\u00e7\u00e3o no mundo, constatamos o seguinte: em toda parte, diminui a tributa\u00e7\u00e3o sobre ganhos de capital e aumenta a tributa\u00e7\u00e3o sobre as fam\u00edlias, trabalhadores, classe m\u00e9dia, tudo o que n\u00e3o \u00e9 ganho de capital.<\/p>\n<p>O fato de eles subestimarem a origem da crise cria um impasse. N\u00f3s pegamos uma queda das commodities, uma redu\u00e7\u00e3o do crescimento da China, uma grave crise h\u00eddrica e os Estados Unidos saindo do\u00a0<em>quantitative easing,\u00a0<\/em>pol\u00edtica baseada em juros baixos e libera\u00e7\u00e3o de muito dinheiro para rolar a d\u00edvida. Hoje, no Brasil, eles ficam muito felizes quando o d\u00f3lar est\u00e1 baixo e o real alto. Esperam que essa rela\u00e7\u00e3o fique abaixo de 3, ou seja, tr\u00eas reais para um d\u00f3lar. Somos o \u00fanico pa\u00eds que comemora isso. Trump criticou a Angela Merkel dizendo que o euro \u00e9 uma manipula\u00e7\u00e3o da Alemanha para ter um marco desvalorizado e poder, assim, aumentar a sua capacidade de competi\u00e7\u00e3o. Deixando a Alemanha entregue a si mesma, a rela\u00e7\u00e3o d\u00f3lar-euro teria o primeiro mais desvalorizado e o segundo mais valorizado. Com isso, os nossos produtos, disse Trump, seriam mais competitivos.<\/p>\n<p>No Brasil, n\u00f3s comemoramos o oposto. Comemoramos um d\u00f3lar a menos de tr\u00eas reais, o que inviabiliza a ind\u00fastria brasileira. A recupera\u00e7\u00e3o americana, mesmo com toda a sua desigualdade, se d\u00e1 porque eles enchem de dinheiro o setor financeiro, desvalorizam o d\u00f3lar e desandam a exportar. Aqui, o reino da financeiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 total. Percebi isso em toda profundidade no governo. Uma coisa me intrigava: porque toda vez que o juro baixava (em 2012, essa baixa chegou a 2,5%), era como se todo o segmento empresarial virasse de costas para o governo.<\/p>\n<p><strong>Sul21:<\/strong>\u00a0<em>H\u00e1 quem diga que ali come\u00e7ou o processo do golpe\u2026<\/em><\/p>\n<p><strong>Dilma Rousseff:<\/strong> Eu acho. Acho que uma parte come\u00e7ou ali. O que caracteriza o neoliberalismo hoje n\u00e3o \u00e9 o fato de que eles tenham elaborado o Consenso de Washington, mas sim a preponder\u00e2ncia do setor financeiro sobre o setor produtivo. De certa forma, todos viraram bancos. E quando todos viram bancos, \u00e9 bom lembrar que, uma parte que n\u00e3o \u00e9 banco propriamente dito, n\u00e3o est\u00e1 regulada. Uma parte expressiva dos ganhos das empresas passa a decorrer da atividade financeira e n\u00e3o da atividade produtiva. Os Estados Unidos s\u00e3o o que h\u00e1 de mais desenvolvido do ponto de vista do sistema capitalista. L\u00e1, do total do movimento financeiro, 15% vai para o setor produtivo e 85% \u00e9 compra e recompra de a\u00e7\u00f5es, empr\u00e9stimos e todos os processos de transformar bens em t\u00edtulos.<\/p>\n<p>Neste contexto, o que explica o aumento brutal da desigualdade nos Estados Unidos e em outros pa\u00edses desenvolvidos? A pr\u00f3pria elei\u00e7\u00e3o de Trump est\u00e1 relacionada a esse aumento da desigualdade. Esse aumento come\u00e7ou na d\u00e9cada de 80, p\u00f3s-Thatcher e p\u00f3s-Reagan. O que aconteceu neste per\u00edodo foi a desregula\u00e7\u00e3o de todo o setor financeiro. O processo de internacionaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 eminentemente financeiro, tanto para o bem como para o mal. O sistema banc\u00e1rio foi internacionalizado, mas as redes de para\u00edsos fiscais tamb\u00e9m foram. Tivemos a partir da\u00ed um processo grav\u00edssimo de concentra\u00e7\u00e3o de riqueza. Esse processo explica o Trump e o Brexit (na Inglaterra).<\/p>\n<p>No caso do Trump, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o homem branco sem forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria que est\u00e1 ganhando o que ganhava h\u00e1 60 anos. H\u00e1 uma estagna\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rio, uma domina\u00e7\u00e3o da atividade de servi\u00e7os sobre a ind\u00fastria e uma amplia\u00e7\u00e3o da financeiriza\u00e7\u00e3o em todas as \u00e1reas. A tesouraria das empresas passa a se interessar cada vez mais por valoriza\u00e7\u00e3o financeira. No caso do Brasil, agregue-se a isso o fato de que s\u00e3o s\u00f3cios do giro da d\u00edvida, que permite grandes ganhos, principalmente se voc\u00ea tem acesso aos mercados internacionais. Se voc\u00ea toma 1% l\u00e1 fora e aplica 7% aqui, voc\u00ea ganha 6% sem fazer nada. Essa domina\u00e7\u00e3o financeira \u00e9 casada com o aumento da desigualdade. O nosso neg\u00f3cio n\u00e3o era o aumento da desigualdade, mas sim sua diminui\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante que se diga isso porque toda a Am\u00e9rica Latina est\u00e1 sendo enquadrada. Quando enquadraram o Brasil e a Argentina, enquadraram todo o sul do continente.<\/p>\n<p>O aumento da desigualdade nos pa\u00edses desenvolvidos \u00e9 fundamental para entender a din\u00e2mica desse processo. Por que deu Trump se o Obama era t\u00e3o simp\u00e1tico? O que explica o Brexit? N\u00e3o est\u00e1 claro para ningu\u00e9m que a raiz da desigualdade \u00e9 a financeiriza\u00e7\u00e3o. O que dizem para o trabalhador branco americano? Esse bando de latinos est\u00e1 roubando o emprego de voc\u00eas. \u00c9 preciso construir um muro na fronteira com o M\u00e9xico. Mas dizem uma segunda coisa interessant\u00edssima sobre o livre com\u00e9rcio. Os acordos como a ALCA, o Transpac\u00edfico e o Transatl\u00e2ntico tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis pelo desemprego, pois levam as empresas americanas para outros pa\u00edses. Ningu\u00e9m toca no assunto \u201conde est\u00e3o os grandes ganhos?\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda uma outra explica\u00e7\u00e3o importante. Quando o governo n\u00e3o atende as demandas da sociedade a pol\u00edtica se torna irrelevante. Junto com isso ocorre um processo de despolitiza\u00e7\u00e3o. A pol\u00edtica \u00e9 substitu\u00edda pela seguinte orienta\u00e7\u00e3o: \u201cvamos achar os culpados\u201d. Quando mais concreto for o culpado mais f\u00e1cil \u00e9. No per\u00edodo entre guerras foi assim. O surgimento do nazismo e do fascismo decorre dessa aus\u00eancia de resposta do Estado. O vazio de propostas \u00e9 preenchido por coisas do tipo \u201ca culpa \u00e9 dos imigrantes\u201d. Pensar que a culpa pelo aumento da desigualdade nos Estados Unidos \u00e9 dos latinos \u00e9 algo rid\u00edculo. Estimula-se a briga dos pobres contra os pobres e n\u00e3o se fala nada sobre onde est\u00e1 concentrada a monstruosa riqueza de 16 trilh\u00f5es de d\u00f3lares anuais.<\/p>\n<p>Aqui, n\u00f3s temos um processo de enquadramento do Brasil. Com a elei\u00e7\u00e3o de Lula em 2003, n\u00f3s interrompemos a implementa\u00e7\u00e3o do neoliberalismo. N\u00e3o interrompemos tudo, mas bloqueamos uma parte expressiva. N\u00e3o conseguiram executar, por exemplo, uma pauta de desconstitui\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Querendo ou n\u00e3o, a pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo levou a um crescimento real de 75% do m\u00ednimo. Eles diziam que esse era um dos grandes componentes da infla\u00e7\u00e3o. N\u00f3s n\u00e3o privatizamos a Petrobras e tamb\u00e9m n\u00e3o privatizamos tr\u00eas grandes bancos: o Banco do Brasil (que concorre com os grandes bancos privados), a Caixa (\u00fanico banco imobili\u00e1rio do pa\u00eds) e o BNDES (\u00fanico banco de financiamento de longo prazo). Al\u00e9m disso, n\u00e3o retiramos direitos sociais, muito pelo contr\u00e1rio. Foi por isso que decidiram nos enquadrar de novo, como fizeram tamb\u00e9m com a Argentina.<\/p>\n<p>No caso do Brasil, h\u00e1 um interesse tamb\u00e9m de nos enquadrar geopoliticamente. Muita gente achou inadmiss\u00edvel a postural multilateral que adotamos e que acabou sendo respons\u00e1vel pelo surgimento dos BRICS, um grupo nada trivial que reuniu China, R\u00fassia, \u00cdndia, \u00c1frica do Sul e Brasil. Um dos principais pontos da pol\u00edtica externa do governo Obama, \u00e9 bom lembrar, foi a conten\u00e7\u00e3o da China. Segue sendo, ali\u00e1s. Quando decidimos fazer um banco dos BRICS\u2026<\/p>\n<p><strong>Sul21:<\/strong>\u00a0<em>A\u00ed j\u00e1 foi abusar da sorte\u2026<\/em><\/p>\n<p><strong>Dilma Rousseff:<\/strong> \u00c9. Foi um abuso. Tem uma coisa que \u00e9 muito pouco comentada. N\u00f3s criamos uma coisa chamada \u201cAcordo Contingente de Reservas\u201d. Voc\u00ea sabe o que \u00e9 isso?<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>:\u00a0<em>N\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><strong>Dilma Rousseff:<\/strong> \u00c9 um FMI. Um acordo contingente de reservas \u00e9 um fundo monet\u00e1rio dos BRICS, um fundo de 100 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, ao qual os pa\u00edses podem recorrer em caso de crise cambial. Criamos, portanto, um banco de investimentos e um fundo contingente de reservas. Acho que isso era o que mais incomodava, al\u00e9m de toda a pol\u00edtica dentro do G-20, de n\u00e3o termos votado a favor da invas\u00e3o do Iraque e essa coisa toda. Ent\u00e3o, acho que essas duas quest\u00f5es estavam na pauta: enquadramento econ\u00f4mico e geopol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>Sul21:<\/strong>\u00a0<em>A senhora disse que os articuladores do golpe subestimaram a crise pol\u00edtica. Em que consiste exatamente essa subestima\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><strong>Dilma Rousseff<\/strong>: Al\u00e9m dessa rela\u00e7\u00e3o entre financeiriza\u00e7\u00e3o e aumento da desigualdade, h\u00e1 outro elemento importante. Uma sociedade com aumento abusivo de desigualdade acaba caminhando para ter medidas de exce\u00e7\u00e3o. N\u00f3s ganhamos quatro elei\u00e7\u00f5es. Acho que eles tinham perdido completamente a esperan\u00e7a de ganhar uma elei\u00e7\u00e3o dentro do m\u00e9todo democr\u00e1tico e acabaram aplicando aquilo que o (Milton) Friedman disse para Pinochet, fazendo com que o politicamente impens\u00e1vel torne-se politicamente inevit\u00e1vel. Isso acabou acontecendo por meio de uma s\u00e9rie de medidas. Um exemplo disso foi a atitude do Supremo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nomea\u00e7\u00e3o de Lula como ministro. O STF impediu que o Lula assumisse a condi\u00e7\u00e3o de chefe da Casa Civil e, agora, permitiu que Moreira Franco virasse ministro. Nos dois casos, o Supremo n\u00e3o poderia ter interferido. Ele s\u00f3 interferiu no segundo por causa do primeiro, adotando crit\u00e9rios diferentes nos dois casos.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea n\u00e3o respeita a isonomia, o arb\u00edtrio passa a ser a regra e o estado de exce\u00e7\u00e3o vai se infiltrando progressivamente na democracia. O principal mecanismo do estado de exce\u00e7\u00e3o \u00e9 construir guetos antidemocr\u00e1ticos. Esses guetos n\u00e3o s\u00e3o territoriais. Podem ser tend\u00eancias. Um exemplo disso \u00e9 quando o Tribunal Regional Federal da 4a\u00a0\u00a0\u00a0regi\u00e3o diz que \u00e9 poss\u00edvel tomar medidas excepcionais quando se trata de um caso excepcional como a Lava Jato. Ou seja, pode at\u00e9 suspender a Constitui\u00e7\u00e3o. Outro \u00e9 aquilo que o procurador Dallagnol n\u00e3o teve o menor pudor de dizer sobre Lula: \u201cn\u00e3o tenho provas, mas tenho convic\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Quando se entra em um processo de ruptura institucional, como \u00e9 o caso do impeachment, por a\u00ed se abre o caminho principal para o estado de exce\u00e7\u00e3o. Cria-se entre os poderes um mundo sem lei. Se \u00e9 poss\u00edvel acertar o Executivo, sem crime de responsabilidade, que \u00e9 o poder representativo do Estado, tudo \u00e9 permitido.<\/p>\n<p><strong>Sul21:\u00a0<\/strong><em>Como a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato se insere neste processo, na sua opini\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><strong>Dilma Rousseff:<\/strong> O Brasil tem uma tradi\u00e7\u00e3o de usar o tema do combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o contra os setores progressistas. Isso vem desde Get\u00falio Vargas. Em 1964, o golpe foi dado em torno de duas quest\u00f5es: subvers\u00e3o e corrup\u00e7\u00e3o. As acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o foram lan\u00e7adas tamb\u00e9m contra Jango e Juscelino. Acredito que h\u00e1 um componente ideol\u00f3gico fort\u00edssimo a\u00ed. O que aconteceu na Lava Jato tem aspectos bastante graves. O mais grave deles, na minha opini\u00e3o, \u00e9 a n\u00e3o preserva\u00e7\u00e3o, pelo Estado brasileiro, das suas empresas. Voc\u00ea pode prender executivos, mas preserva a empresa. N\u00e3o \u00e9 o que estamos fazendo no Brasil. Quando \u00e9 que a Alemanha far\u00e1 isso contra a Siemens? Quando \u00e9 que os Estados Unidos far\u00e3o isso contra seus bancos? Nunca.<\/p>\n<p>Outra coisa que me parece grave \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica de vazamentos seletivos. Esse processo de politiza\u00e7\u00e3o dos agentes judici\u00e1rios \u00e9 muito s\u00e9rio. \u00c9 inadmiss\u00edvel que um juiz fale fora dos autos. Em qualquer lugar do mundo democr\u00e1tico, se um juiz fala fora dos autos, anula-se o processo. Aqui no Brasil, um juiz pode fazer isso que n\u00e3o acontece nada. N\u00f3s temos um problema s\u00e9rio para resolver a\u00ed. N\u00f3s temos um conflito de poderes. O estado de exce\u00e7\u00e3o significa o uso do Judici\u00e1rio de forma pol\u00edtica escrachada para fazer julgamentos pol\u00edticos. Isso \u00e9 o que mais caracteriza o estado de exce\u00e7\u00e3o que pretende transformar algumas pessoas em indiv\u00edduos nus, destitu\u00eddos de qualquer pele de cidadania. Para mim, o exemplo maior de homem nu est\u00e1 nos prisioneiros de Guant\u00e1namo. Aquele povo ali \u00e9 absolutamente nu. N\u00e3o tem direito a nada. N\u00e3o s\u00e3o cidad\u00e3os, n\u00e3o s\u00e3o prisioneiros de guerra, n\u00e3o s\u00e3o nada.<\/p>\n<p>No Brasil, creio que tentaram fazer isso com o que chamaram de \u201clulopetismo\u201d. O lulopetismo teve essa caracter\u00edstica de ser transformado em um inimigo que deveria ser destru\u00eddo. Est\u00e1 ficando dif\u00edcil fazer isso por essa exig\u00eancia de \u201cestancar a sangria\u201d. O estancamento da sangria, cabe lembrar, foi discutido antes do impeachment. Ningu\u00e9m pode alegar que desconhecia isso. Est\u00e1 l\u00e1 gravado, um senador do PMDB gravando outro senador. O que eles n\u00e3o contaram? O resto da grava\u00e7\u00e3o. Esse resto da grava\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente elucidativo, pois denuncia quem s\u00e3o os golpistas. H\u00e1 uma alian\u00e7a entre PMDB e PSDB, a qual se junta o pato da FIESP e a m\u00eddia.<\/p>\n<p><strong>Sul21:<\/strong>\u00a0<em>Qual \u00e9, na sua avalia\u00e7\u00e3o, o peso e o papel da grande m\u00eddia comercial em todo esse processo?<\/em><\/p>\n<p><strong>Dilma Rousseff:<\/strong> H\u00e1, na minha opini\u00e3o, um processo ser\u00edssimo envolvendo a m\u00eddia. Creio que o Brasil tem dois grandes problemas estruturais: precisa fazer uma Reforma Pol\u00edtica e promover uma desconcentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da m\u00eddia. N\u00e3o se trata de democratiza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia. Vamos chamar as coisas pelo nome. S\u00f3 poderemos falar em democratiza\u00e7\u00e3o em um quadro onde n\u00e3o haja tamanha concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. N\u00e3o quero controle de conte\u00fado. Quero que o Globo continue falando o que pensa, mas sem todo o poder econ\u00f4mico concentrado nele. Uma das coisas que o Eduardo Cunha negociou para ser presidente da C\u00e2mara foi que ele n\u00e3o deixaria andar qualquer projeto relacionado \u00e0 desconcentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da m\u00eddia. Tanto \u00e9 que, um m\u00eas e meio antes de sua elei\u00e7\u00e3o para a presid\u00eancia da C\u00e2mara, os jornais pararam de falar mal dele.<\/p>\n<p><strong>Sul21:<\/strong>\u00a0<em>A senhora viveu dois golpes, em \u00e9pocas distintas, com caracter\u00edsticas distintas. O cientista pol\u00edtico Wanderley Guilherme dos Santos disse que o golpe de 2016 tem um car\u00e1ter mais anti-nacional que o de 1964. Voc\u00ea concorda com essa avalia\u00e7\u00e3o e acredita que corremos o risco de um processo maior de repress\u00e3o e fechamento pol\u00edtico, considerando recentes declara\u00e7\u00f5es de Eliseu Padilha e do pr\u00f3prio Michel Temer?<\/em><\/p>\n<p><strong>Dilma Rousseff<\/strong>: Eu concordo que \u00e9 mais anti-nacional. Tamb\u00e9m acho isso. Por outro lado, acho estranho o Ex\u00e9rcito aceitar um papel de repress\u00e3o. Eles t\u00eam uma atribui\u00e7\u00e3o de ser uma for\u00e7a de dissuas\u00e3o e n\u00e3o de repress\u00e3o. E n\u00e3o gostam disso. N\u00e3o querem que o Ex\u00e9rcito v\u00e1 para a rua brigar com policiais, por exemplo. S\u00f3 se mudaram muito de maio de 2016 para hoje. Um ex\u00e9rcito n\u00e3o pode se dar ao luxo de reprimir a sua pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 muito complicado e n\u00e3o significa garantia da lei e da ordem. O ex\u00e9rcito n\u00e3o \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o de repress\u00e3o de movimentos e grandes lutas urbanas. E n\u00e3o pode se tornar isso. N\u00e3o acredito que os oficiais que est\u00e3o hoje na dire\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito concordem com isso.<\/p>\n<p><strong>Sul21:<\/strong>\u00a0<em>H\u00e1 alguma resist\u00eancia vis\u00edvel, dentro das for\u00e7as armadas, ao desmonte de projetos que vinham sendo tratados como estrat\u00e9gicos, como o da constru\u00e7\u00e3o do submarino nuclear, por exemplo?<\/em><\/p>\n<p><strong>Dilma Rousseff:<\/strong> Para a Marinha, \u00e9 grav\u00edssimo. H\u00e1 tr\u00eas grandes projetos envolvendo cada uma das for\u00e7as. Para a Aeron\u00e1utica era a constru\u00e7\u00e3o do ca\u00e7a por meio de uma parceria de incorpora\u00e7\u00e3o de tecnologia com a Su\u00e9cia. Para a Marinha, \u00e9 todo o programa do submarino nuclear. Esse processo avan\u00e7ou muito. Uma parte da engenharia estava l\u00e1 na Fran\u00e7a e outra parte estava aqui construindo um submarino n\u00e3o nuclear. A interrup\u00e7\u00e3o desse projeto \u00e9 grav\u00edssima. \u00c9 algo que, por quest\u00f5es de seguran\u00e7a nacional, n\u00e3o poderia ser interrompido. Para o Ex\u00e9rcito, havia dois grandes projetos, um sobre a guerra cibern\u00e9tica e outro relacionado ao parque industrial de armas medias e pesadas, alem da prote\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os estrat\u00e9gicos como linhas de transmiss\u00e3o complexas que, se ca\u00edrem, fazem cair um peda\u00e7o do Brasil. Esses projetos est\u00e3o baseados em uma vis\u00e3o dupla com a qual trabalhamos, de constru\u00e7\u00e3o soberana de uma ind\u00fastria militar e de garantia da seguran\u00e7a nacional. H\u00e1 um programa que foi constru\u00eddo a partir dessa vis\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Sul21:<\/strong>\u00a0<em>Considerando todo esse cen\u00e1rio, qual s\u00e3o, na sua opini\u00e3o, as principais tarefas da esquerda e das for\u00e7as progressistas do pa\u00eds neste momento?<\/em><\/p>\n<p><strong>Dilma Rousseff:<\/strong> A quest\u00e3o democr\u00e1tica \u00e9 fundamental para n\u00f3s. Sempre ganhamos quando a democracia se aprofundou e sempre perdemos quando ela foi restringida. O fato de termos um estudo de caso para o avan\u00e7o do estado de exce\u00e7\u00e3o \u00e9 muito elucidativo. N\u00f3s vamos ter um encontro direto com a democracia em 2018. A democracia \u00e9 vivida todo dia, toda hora e todo minuto. Mas, no Brasil, a gente tende a viver o nacional e o popular em um momento \u00fanico que \u00e9 o momento da elei\u00e7\u00e3o. O que est\u00e1 em jogo hoje \u00e9 o que vai ser a elei\u00e7\u00e3o de 2018. Essa ser\u00e1 a pauta a partir da metade do ano. Acho que o Lula, nesta hist\u00f3ria, cumprir\u00e1 um papel muito importante, concorrendo ou n\u00e3o. Ser\u00e1 muito ruim para o pa\u00eds se ele n\u00e3o puder concorrer. O Brasil ficar\u00e1 desmoralizado. Ele pode perder a elei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 desmoraliza\u00e7\u00e3o nenhuma nisso. O que n\u00e3o pode acontecer \u00e9 ele ser impedido de concorrer.<\/p>\n<p>Acho que eles v\u00e3o vir com tudo. O golpe ainda n\u00e3o acabou. Eu fico com muito medo dessa segunda fase. Analogia nunca \u00e9 um elemento muito confi\u00e1vel de avalia\u00e7\u00e3o, mas a segunda etapa do golpe pode ser muito mais radicalizada e propensa \u00e0 repress\u00e3o. Nossa miss\u00e3o \u00e9 garantir o maior espa\u00e7o democr\u00e1tico poss\u00edvel, denunciar todas as tentativas de restri\u00e7\u00e3o das liberdades democr\u00e1ticas e tentar garantir em 2018 um processo que seja constru\u00eddo por baixo. No Brasil, h\u00e1 uma tend\u00eancia a acordos por cima. Foi assim que se passou do Imp\u00e9rio para a Rep\u00fablica. Um dos motivos pelos quais o Bolsonaro vai ao Congresso e defende o Ustra e a tortura \u00e9 porque fizemos uma transi\u00e7\u00e3o por cima para a democracia. Uma transi\u00e7\u00e3o por cima permite que torturador seja anistiado, sendo que a tortura \u00e9 um crime imprescrit\u00edvel em qualquer lugar do mundo.<\/p>\n<p>Sempre \u00e9 poss\u00edvel ter uma transi\u00e7\u00e3o por cima, mas acho que as condi\u00e7\u00f5es para termos uma transi\u00e7\u00e3o desse tipo no Brasil inexistem atualmente. E n\u00e3o \u00e9 tanto por causa da esquerda, mas sim pelo n\u00edvel de radicaliza\u00e7\u00e3o da direita no pa\u00eds. N\u00e3o vamos nos iludir. O le\u00e3o n\u00e3o \u00e9 manso. A \u00fanica transi\u00e7\u00e3o que est\u00e1 ao nosso alcance \u00e9 uma transi\u00e7\u00e3o por baixo que pode lavar a alma desse pa\u00eds em 2018, seja quem for que ganhe. O processo democr\u00e1tico tem o poder e a faculdade de propor um encerramento, se for uma elei\u00e7\u00e3o que n\u00e3o implique um golpe, que seria tirar o Lula. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o minha ou sua, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o individual. \u00c9 s\u00f3 a\u00ed que podemos nos encontrar todos.<\/p>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quase seis meses depois da vota\u00e7\u00e3o da \u00faltima etapa do impeachment no Senado Federal, Dilma Rousseff olha para esse per\u00edodo n\u00e3o como uma p\u00e1gina virada na sua hist\u00f3ria de vida ou na hist\u00f3ria pol\u00edtica do pa\u00eds, mas sim como um processo em an<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,10],"tags":[],"class_list":["post-177635","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-municipios","category-politica"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/177635","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=177635"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/177635\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=177635"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=177635"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=177635"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}