{"id":177717,"date":"2017-02-21T06:31:39","date_gmt":"2017-02-21T09:31:39","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=177717"},"modified":"2017-02-21T06:32:16","modified_gmt":"2017-02-21T09:32:16","slug":"o-ultimo-tabu-medico-os-objetos-no-reto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-ultimo-tabu-medico-os-objetos-no-reto\/","title":{"rendered":"O \u00faltimo tabu m\u00e9dico: os objetos no reto"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Antrop\u00f3logo denuncia \u201cestigmatiza\u00e7\u00e3o\u201d do prazer anal na literatura cient\u00edfica<\/strong><\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_177718\" aria-describedby=\"caption-attachment-177718\" style=\"width: 893px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-ultimo-tabu-medico-os-objetos-no-reto\/radiografia\/\" rel=\"attachment wp-att-177718\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-177718\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/radiografia-300x274.jpg\" width=\"893\" height=\"814\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/radiografia-300x274.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/radiografia-768x700.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/radiografia-548x500.jpg 548w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/radiografia-160x146.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/radiografia-90x83.jpg 90w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/radiografia-640x584.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/radiografia.jpg 1960w\" sizes=\"auto, (max-width: 893px) 100vw, 893px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-177718\" class=\"wp-caption-text\">Radiografia de um homem de 68 anos com um destornillador no reto, em Cartagena.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num dia de 2015, um homem de 50 anos chegou ao pronto-socorro do Hospital Universit\u00e1rio de Getafe, na Grande Madri. Relatava pris\u00e3o de ventre. Na radiografia n\u00e3o havia nada de estranho, ent\u00e3o os m\u00e9dicos lhe administraram um enema de limpeza. Ao cabo de algumas horas em observa\u00e7\u00e3o, o homem n\u00e3o suportava a dor abdominal. \u201cTinha taquicardia e suores\u201d, recorda uma das m\u00e9dicas que o atenderam, Myriam Vald\u00e9s. Uma tomografia revelou ent\u00e3o \u201cum objeto estranho no c\u00f3lon\u201d e uma peritonite fecaloide decorrente de uma perfura\u00e7\u00e3o do intestino. Na sala de cirurgia, os cirurgi\u00f5es encontraram uma cenoura de 20 cent\u00edmetros inserida por via anal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um hospital da Espanha atendeu um homem de 50 anos com uma cenoura de 20 cent\u00edmetros no reto<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem passou horas sem mencionar a hortali\u00e7a, mas depois da opera\u00e7\u00e3o relatou que a introduzira \u201cporque tinha lido na Internet que era bom para as hemorroidas\u201d, segundo Vald\u00e9s. A literatura cient\u00edfica est\u00e1 cheia de casos similares. O Hospital Universit\u00e1rio Doutor Josep Trota, em Girona (nordeste da Espanha), recebeu certa vez um homem de 67 anos que havia inserido uma ma\u00e7\u00e3 no \u00e2nus 24 horas antes. Outros casos s\u00e3o mais extremos, como o vivido no ano passado no Hospital Valle del Nal\u00f3n, em Ria\u00f1o (norte da Espanha). Um rapaz de 29 anos foi ao pronto-socorro com dor abdominal, ap\u00f3s uma noite de bebedeira e consumo de coca\u00edna, segundo sua vers\u00e3o. Dizia n\u00e3o se lembrar de nada. Os m\u00e9dicos encontraram dois tubos met\u00e1licos de desodorante, de 25 cent\u00edmetros cada um, no reto e no c\u00f3lon.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA presen\u00e7a de um objeto no reto h\u00e1 muito tempo \u00e9 fonte de piadas e suspeitas tanto na rua como no discurso m\u00e9dico\u201d, reflete o antrop\u00f3logo William J. Robertson, da Universidade do Arizona (EUA). O pesquisador mergulhou na literatura cient\u00edfica e encontrou 147 estudos aprofundados sobre corpos estranhos no reto, al\u00e9m de um grande n\u00famero de trabalhos meramente descritivos. Seu veredicto \u00e9 que os m\u00e9dicos refor\u00e7am \u201co tabu do prazer anal\u201d e contribuem para que os pacientes, por vergonha, adiem a ida ao hospital, agravando os casos mais problem\u00e1ticos.<br \/>\n\u201cA medicina se baseia em dividir as coisas em normais e anormais ou patol\u00f3gicas. Infelizmente, o anormal frequentemente n\u00e3o se refere simplesmente a uma varia\u00e7\u00e3o da norma estat\u00edstica; esse anormal est\u00e1 envolto em ideias derivadas da cultura a respeito do que \u00e9 um comportamento moral\u201d, observa Robertson. Sua an\u00e1lise, rec\u00e9m-publicada na revista especializada Culture, Health &amp; Sexuality, detectou que 69% dos estudos m\u00e9dicos vinculam os corpos estranhos no reto a pr\u00e1ticas sexuais \u201cpervertidas ou aberrantes\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O antrop\u00f3logo cita como exemplo uma revis\u00e3o de 30 casos dirigida pelo cirurgi\u00e3o Jos\u00e9 Ignacio Rodr\u00edguez Hermosa, do hospital Universit\u00e1rio Doutor Josep Trota. No texto, a equipe m\u00e9dica salienta que em cinco dos casos a homossexualidade era um \u201cfator associado\u201d. Curiosamente, segundo Robertson, \u201cos heterossexuais n\u00e3o s\u00e3o classificados como um grupo no qual se possam observar corpos estranhos, embora s\u00f3 5 dos 30 pacientes, ou 17%, tenham sido identificados como homossexuais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPor que n\u00e3o situar os corpos estranhos no reto no \u00e2mbito das pr\u00e1ticas sexuais consensuais e saud\u00e1veis entre pessoas de v\u00e1rios g\u00eaneros e orienta\u00e7\u00f5es sexuais?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEssa patologia \u00e9 observada em reclusos penitenci\u00e1rios, em pessoas com transtornos psicol\u00f3gicos, em tentativas de suic\u00eddio ou homic\u00eddio, em homossexuais, em atos er\u00f3ticos, em pr\u00e1ticas sadomasoquistas, em casos de estupro ou agress\u00f5es sexuais, em pessoas semi-inconscientes sob os efeitos de drogas ou \u00e1lcool ou em mulas que ocultam narc\u00f3ticos\u201d, dizia Rodr\u00edguez-Hermosa em outro artigo, publicado em 2001 na revista Cirug\u00eda Espa\u00f1ola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Robertson, essas descri\u00e7\u00f5es vinculam tais casos a pr\u00e1ticas aberrantes, no contexto de um sistema \u201cheteronormativo\u201d cujo \u00fanico modelo v\u00e1lido \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o heterossexual tradicional. \u201cPor que n\u00e3o situar os corpos estranhos no reto no \u00e2mbito das pr\u00e1ticas sexuais consensuais e saud\u00e1veis entre pessoas de v\u00e1rios g\u00eaneros e orienta\u00e7\u00f5es sexuais?\u201d, pergunta-se o antrop\u00f3logo norte-americano. A m\u00e9dica Myriam Vald\u00e9s confirma que muitos pacientes s\u00e3o totalmente sinceros, como uma mulher que chegou ao pronto-socorro do Hospital Universit\u00e1rio de Getafe e relatou ter enfiado um desodorante roll-on inteiro no reto enquanto \u201cbrincava com o marido\u201d em busca de prazer anal. No ano passado, um homem de 68 anos foi ao Hospital Geral Universit\u00e1rio Santa Luc\u00eda, em Cartagena (sudeste espanhol), depois de introduzir uma chave de venda no \u00e2nus.<br \/>\nRobertson salienta que n\u00e3o existem dados epidemiol\u00f3gicos, apenas estudos isolados, ent\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel saber a frequ\u00eancia desses incidentes com corpos estranhos no reto. Al\u00e9m disso, talvez os casos extremos \u2013 como o do homem que apareceu num hospital de Hong Kong com o reto perfurado por uma enguia \u2013 estejam super-representados na literatura m\u00e9dica. Tamb\u00e9m j\u00e1 foram descritos casos envolvendo guarda-chuvas, canos de escopeta, velas, pepinos, cabos de vassoura, tubos de aspirador, cabos de martelo, garrafas e, obviamente, vibradores. O primeiro objeto no reto descrito em uma revista m\u00e9dica, a norte-americana JAMA, data de 1919: um copo. Quase qualquer objeto imagin\u00e1vel j\u00e1 serviu para proporcionar prazer anal a algu\u00e9m.<br \/>\nO trabalho do Robertson destaca que, segundo seus crit\u00e9rios, em apenas 16% dos estudos analisados a rea\u00e7\u00e3o m\u00e9dica apresentada foi completamente profissional e sens\u00edvel. \u201cH\u00e1 uma cultura da vergonha em torno do prazer anal. E os pr\u00f3prios profissionais da sa\u00fade contribuem para esta estigmatiza\u00e7\u00e3o, ao enquadrarem os corpos estranhos no reto como um problema de pervers\u00f5es sexuais, mentiras do paciente e anormalidade\u201d, opina Robertson. \u201cN\u00e3o \u00e9 muito surpreendente que os pacientes evitem ir ao m\u00e9dico.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antrop\u00f3logo denuncia \u201cestigmatiza\u00e7\u00e3o\u201d do prazer anal na literatura cient\u00edfica<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":177718,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,12],"tags":[],"class_list":["post-177717","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-saude"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/radiografia.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/177717","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=177717"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/177717\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/177718"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=177717"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=177717"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=177717"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}