{"id":178602,"date":"2017-02-25T16:43:23","date_gmt":"2017-02-25T19:43:23","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=178602"},"modified":"2017-02-25T16:43:23","modified_gmt":"2017-02-25T19:43:23","slug":"reflexoes-sobre-o-pais-do-carnaval-de-jorge-amado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/reflexoes-sobre-o-pais-do-carnaval-de-jorge-amado\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es sobre \u2018O Pa\u00eds do Carnaval\u2019, de Jorge Amado"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"tit-post\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<figure style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"attachment-post-thumbnail wp-post-image\" src=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/blog\/samuel\/agora\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/carnaval.jpg\" alt=\"Capas do livro &quot;O Pa\u00eds do Carnaval&quot;, de Jorge Amado\" width=\"900\" height=\"475\" \/><figcaption>Capas do livro &#8220;O Pa\u00eds do Carnaval&#8221;, de Jorge Amado<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"post-meta-info post-meta-info-bottom cf\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"fl-l\">\n<div class=\"post-author\">Por Haroldo Ceravolo Sereza<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<h2 class=\"sub-tit\" style=\"text-align: justify;\">Filosofia move a primeira obra do romancista, escrita quando ele tinha apenas 18 anos<\/h2>\n<div class=\"main-content\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Reflex\u00f5es sobre \u2018O Pa\u00eds do Carnaval\u2019<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio Jorge Amado costumava dizer que <em>O Pa\u00eds do Carnaval<\/em>, seu primeiro\u00a0romance, era um livro ruim. E, de fato, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel encontrar cr\u00edticos ou leitores que coloquem a obra no alto de sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Textos anal\u00edticos publicados antes e ap\u00f3s a sua morte confirmam a sensa\u00e7\u00e3o\u00a0de que o destino desse trabalho de estr\u00e9ia \u00e9, mesmo, se perder em meio ao\u00a0que foi produzido posteriormente. Entre outros motivos, porque n\u00e3o est\u00e1\u00a0marcado pelos esquemas ideol\u00f3gicos presentes na maioria de seus romances dos anos 30 e 40, especialmente nos \u201cromances prolet\u00e1rios\u201d <em>Cacau<\/em> (1933) e <em>Suor<\/em>\u00a0(1934), posteriores ao in\u00edcio de sua milit\u00e2ncia comunista, que se d\u00e1 em 1932, a partir do contato com a cearense Rachel de Queiroz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa primeira leitura de <em>O Pa\u00eds do Carnaval<\/em>, o romance parecia-me, de fato,\u00a0fraco. O enredo \u00e9 simples: narra a vida intelectual e sentimental de um grupo de jovens baianos que se re\u00fane em torno de um velho c\u00e9tico, Pedro Ticiano, que costumava defender que \u201cna Bahia, todo tolo se fazia poeta\u201d e\u00a0que \u201cs\u00f3 os burros e cretinos conseguem a Felicidade\u201d. A obra tem descri\u00e7\u00f5es\u00a0de menos, di\u00e1logos incompletos, personagens que se perdem, discuss\u00f5es sobre\u00a0o sentido da vida e a felicidade que n\u00e3o chegam a lugar nenhum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Professora do curso de jornalismo da Universidade de S\u00e3o Paulo, Jeanne Marie\u00a0Machado de Freitas chamou-me a aten\u00e7\u00e3o para a poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o daquele\u00a0enredo, que parecia ing\u00eanuo, com <em>O Banquete<\/em>, de Plat\u00e3o. Al\u00e9m disso, algo que\u00a0n\u00e3o se deve considerar sempre que se l\u00ea um livro, mas que no caso era\u00a0fundamental para compreend\u00ea-lo e, especialmente, para aceitar seus defeitos:\u00a0o autor tinha s\u00f3 18 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Plat\u00e3o n\u00e3o \u00e9 citado diretamente por Amado, a rela\u00e7\u00e3o com a filosofia \u00e9\u00a0evidente em <em>O Pa\u00eds do Carnaval<\/em>. Pedro Ticiano afirma, por exemplo, que a\u00a0insatisfa\u00e7\u00e3o, a d\u00favida e o ceticismo devem ser a filosofia do homem de\u00a0talento: \u201cSofismar sempre. Negar quando afirmarem, afirmar quando negarem.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas conversas, aparecem S\u00f3crates, Arist\u00f3teles, S\u00e3o Tom\u00e1s, a religi\u00e3o, o\u00a0tomismo etc. Cada um dos amigos da roda busca o seu caminho para a felicidade: o sexo, o casamento, o amor, o dinheiro, at\u00e9 o comunismo (Jos\u00e9\u00a0Lopes, um dos amigos, afirma, nas p\u00e1ginas finais do livro, que \u201ca gente deve\u00a0arranjar um princ\u00edpio, um ideal, para iludir-se, pelo menos. Eu me iludo com esse neg\u00f3cio do comunismo. Por isso fujo de voc\u00ea.\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jorge Amado parece acreditar, ent\u00e3o, que o caminho da d\u00favida, que impregna o\u00a0romance, n\u00e3o conduz a nada, embora seja o \u00fanico poss\u00edvel para os homens inteligentes. E personifica esse sentimento Paulo Rigger, um jovem que est\u00e1\u00a0chegando da Fran\u00e7a num navio que desembarca no Rio de Janeiro na v\u00e9spera do\u00a0carnaval.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A bordo, ele encanta-se por uma francesa, Julie, mas n\u00e3o chega a dormir com\u00a0ela, por temer apaixonar-se. Em terra, ele a reencontra, e sonhar\u00e1 viver com\u00a0a mo\u00e7a um amor tradicional, o que, evidentemente, n\u00e3o resiste ao primeiro\u00a0funcion\u00e1rio de sua fazenda de cacau. Depois, sonhar\u00e1 com uma donzela, mas o\u00a0projeto desmorona quando \u00e9 informado de que a menina n\u00e3o \u00e9 mais virgem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Teria, assim, deixado escapar sua possibilidade de ser feliz?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto vai enfrentando esse mundo, Rigger tamb\u00e9m se frusta e reflete sobre\u00a0o que \u00e9 ser brasileiro. Em dado momento, afirma: \u201cS\u00f3 me senti brasileiro duas vezes. Uma no carnaval, quando sambei na rua. Outra, quando surrei\u00a0Julie, depois que ela me traiu.\u201d N\u00e3o \u00e9 exatamente \u201cs\u00f3\u201d: o carnaval e o o acompanham como a polca persegue Pestana, o compositor do conto\u00a0Um Homem C\u00e9lebre, de Machado de Assis, que sonhava compor noturnos e sonatas como Chopin e Mozart.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 defeitos e simplismos em <em>O Pa\u00eds do Carnaval<\/em>, mas h\u00e1, especialmente, reflex\u00e3o. Se n\u00e3o \u00e9 o melhor Jorge Amado, se lhe faltam carne e certezas, est\u00e3o ali os ossos que formam o esqueleto de uma obra liter\u00e1ria de porte:\u00a0observa\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o. Nem sempre o autor est\u00e1 formado o suficiente para bem\u00a0reche\u00e1-lo; nem sempre o leitor est\u00e1 maduro o suficiente para perceber sua\u00a0presen\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto vai enfrentando esse mundo, Rigger tamb\u00e9m se frusta e reflete sobre o que \u00e9 ser brasileiro. Em dado momento, afirma: \u201cS\u00f3 me senti brasileiro duas vezes. Uma no carnaval, quando sambei na rua. 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