{"id":178717,"date":"2017-02-26T11:30:13","date_gmt":"2017-02-26T14:30:13","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=178717"},"modified":"2017-02-26T11:30:14","modified_gmt":"2017-02-26T14:30:14","slug":"cineasta-conjura-os-monstros-do-racismo-com-eu-nao-sou-seu-negro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/cineasta-conjura-os-monstros-do-racismo-com-eu-nao-sou-seu-negro\/","title":{"rendered":"Cineasta conjura os monstros do racismo com \u2018Eu N\u00e3o Sou Seu Negro\u2019"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<em><strong>Raoul Peck foi destaque no festival de cinema de Berlim com seu document\u00e1rio, indicado ao Oscar, e com \u2018O jovem Karl Marx\u2019<\/strong><\/em><\/p>\n<p>GREGORIO BELINCH\u00d3N<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_178718\" aria-describedby=\"caption-attachment-178718\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/cineasta-conjura-os-monstros-do-racismo-com-eu-nao-sou-seu-negro\/afronta-negro\/\" rel=\"attachment wp-att-178718\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-178718 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/afronta-negro-620x367.jpg\" width=\"620\" height=\"367\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/afronta-negro-620x367.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/afronta-negro-300x178.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/afronta-negro-768x455.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/afronta-negro-160x95.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/afronta-negro-640x379.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/afronta-negro.jpg 1960w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-178718\" class=\"wp-caption-text\">Fotograma do document\u00e1rio \u2018Eu N\u00e3o Sou Seu Negro\u2019, de Raoul Peck<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 o passado, mas o presente\u201d, dizia o pensador afro-americano James Baldwin, e o cineasta que levou as suas reflex\u00f5es para a tela, Raoul Peck, n\u00e3o tem nenhuma d\u00favida sobre isso. Peck \u00e9 o nome da hora: al\u00e9m de candidato, daqui a dez dias, ao Oscar de melhor document\u00e1rio com Eu N\u00e3o Sou Seu Negro (I Am Not Your Negro), o diretor estreou no Panorama de document\u00e1rio do rec\u00e9m-conclu\u00eddo festival de cinema de Berlim este filme baseado nos textos de Remember this House, livro que Baldwin come\u00e7ou a escrever em 1979, e no Berlinale Special O jovem Karl Marx, seu trabalho mais recente de fic\u00e7\u00e3o. \u201cOs dois filmes t\u00eam muita proximidade comigo. Quando entrei na universidade, li Baldwin e descobri imediatamente que algu\u00e9m estava escrevendo para os jovens negros, dizendo-lhes qual era o seu lugar na sociedade e como seria poss\u00edvel mudar aquilo. Isso n\u00e3o era contado por Hollywood, cujas hist\u00f3rias pareciam muito distantes para mim. Depois vim estudar na Alemanha e descobri Marx de uma forma nada dogm\u00e1tica, muito acad\u00eamica, e isso me ajudou a entender a import\u00e2ncia do debate\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, por que esses dois longas est\u00e3o chamando tanto a aten\u00e7\u00e3o justamente agora? \u201cPorque estamos vivendo um momento de confus\u00e3o. As ideologias, a ci\u00eancia, os n\u00fameros&#8230; tudo isso se perdeu. S\u00f3 h\u00e1 espa\u00e7o para a opini\u00e3o, e a de um cientista vale a mesma coisa que a de um jovem que concluiu os estudos a duras penas e hoje virou presidente\u201d. Nascido em Porto Pr\u00edncipe (Haiti) em 1953, Raoul Peck estudou e passou por meio mundo antes de se dedicar ao cinema. Seu The Man by The Shore (1993) foi o primeiro filme caribenho a competir em Cannes. Entre 1996 e 1997, ele foi ministro da Cultura de seu pa\u00eds, deixando depois a pol\u00edtica para retornar ao cinema. Hoje, mora na Fran\u00e7a. Com seu document\u00e1rio, tamb\u00e9m resgatou a figura de James Baldwin (1924-1987), o grande intelectual afro-americano do s\u00e9culo XX, o homem que analisou e dissecou o funcionamento do racismo e da discrimina\u00e7\u00e3o sexual nos Estados Unidos. Em Eu N\u00e3o Sou Seu Negro (que estreou no Brasil em 16 de fevereiro), Samuel L. Jackson d\u00e1 voz \u2013 imitando a pron\u00fancia bastante peculiar do escritor\u2013 a seus textos, enquanto na tela se veem entrevistas com Baldwin, algumas de suas confer\u00eancias, imagens daqueles anos e tamb\u00e9m da atualidade. Mais do que document\u00e1rio, \u00e9 um extraordin\u00e1rio ensaio f\u00edlmico. \u201cA clarivid\u00eancia de Baldwin foi incr\u00edvel, porque ela vira o espelho e nos coloca na frente de todo mundo. Voc\u00ea \u00e9 o problema, o pior dos seus monstros, n\u00e3o h\u00e1 inocentes. Matam pessoas em seu nome, conquistam pa\u00edses em seu nome. O seu carro, a sua casa, o que voc\u00ea come, tudo isso tem um pre\u00e7o. O capitalismo produz riqueza para alguns poucos e pobreza para os outros, e, no entanto, vivemos todos juntos. Isso, sim, \u00e9 a dial\u00e9tica marxista\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/cineasta-conjura-os-monstros-do-racismo-com-eu-nao-sou-seu-negro\/negro-filme\/\" rel=\"attachment wp-att-178719\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-178719 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/negro-filme.jpg\" width=\"848\" height=\"476\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/negro-filme.jpg 848w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/negro-filme-300x168.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/negro-filme-768x431.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/negro-filme-620x348.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/negro-filme-160x90.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/negro-filme-480x270.jpg 480w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/negro-filme-640x359.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 848px) 100vw, 848px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>Baldwin n\u00e3o se permitiu ser pessimista, embora seus tr\u00eas her\u00f3is morais tenham sido assassinados \u2013 Malcom X, Martin Luther King Junior e Medgar Evers \u2013 antes de completarem 40 anos: \u201c\u00c9 preciso continuar lutando, sobrevivendo\u201d, afirma o diretor, reproduzindo palavras do escritor. \u201cN\u00e3o permito que coloquem r\u00f3tulos em mim. S\u00f3 porque fa\u00e7o filmes complexos, n\u00e3o posso dirigir Scary movie 4? Todos n\u00f3s somos cidad\u00e3os e queremos viver sob a democracia. Muito bom, porque a democracia tem de ser conquistada dia a dia, temos uma responsabilidade. Qualquer um que lhe diga que \u00e9 apol\u00edtico est\u00e1 mentindo, porque, com essa atitude, ele entorpece a sociedade, e isso j\u00e1 \u00e9 por si s\u00f3 uma a\u00e7\u00e3o. Temos de levantar dos nossos sof\u00e1s, desligar a televis\u00e3o e parar de sermos meros consumidores. Baldwin j\u00e1 havia dito que a ind\u00fastria do entretenimento era o novo narc\u00f3tico. E ele nem chegou a conhecer os reality shows\u201d. Ele renega o seu poder como cineasta, mas&#8230; \u201cTomo decis\u00f5es, escolho os temas que ser\u00e3o filmados, me arrisco, como com Lumumba ou O Jovem Karl Marx, hist\u00f3rias que n\u00e3o consigo entender como j\u00e1 n\u00e3o filmaram antes. Como diretor, voc\u00ea recebe um rev\u00f3lver com seis balas, e voc\u00ea tem de estar muito seguro sobre quando utiliz\u00e1-las. A ind\u00fastria n\u00e3o vai estar sempre \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, e o artista precisa conquistar a maior audi\u00eancia poss\u00edvel\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_178720\" aria-describedby=\"caption-attachment-178720\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/cineasta-conjura-os-monstros-do-racismo-com-eu-nao-sou-seu-negro\/negro-studio\/\" rel=\"attachment wp-att-178720\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-178720 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/negro-studio-620x413.jpg\" width=\"620\" height=\"413\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/negro-studio-620x413.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/negro-studio-300x200.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/negro-studio-768x511.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/negro-studio-160x106.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/negro-studio-450x300.jpg 450w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/negro-studio-640x426.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/negro-studio.jpg 1960w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-178720\" class=\"wp-caption-text\">Raoul Peck, em Berlim<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nComo Peck, Baldwin sofreu um choque quando adolescente. \u201cVoc\u00ea queria ser um caub\u00f3i como Gary Cooper, mas, quando sa\u00eda para a rua, era o \u00edndio\u201d, conta o escritor, em pleno s\u00e9culo XX. Como Peck, Baldwin encontrou almas g\u00eameas no caminho, como a dramaturga Lorraine Hansberry, autora de O Sol tornar\u00e1 a brilhar. \u201cEla morreu aos 35 anos. Alguns dos meus mestres est\u00e3o vivos, como Agniezka Holland, enquanto outros, como Krzysztof Kieslowski, j\u00e1 morreram\u201d. Baldwin vai fundo, busca explica\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas para o racismo: a\u00ed se v\u00ea a necessidade do branco de ter o negro como bode expiat\u00f3rio de todos os males que assolam a sociedade. \u201c\u00c9 preciso tempo para a hist\u00f3ria mudar. \u00c9 verdade, mas o problema \u00e9 que nada mudou, como mostram os fundamentalismos e o fato de que o seu lugar, no capitalismo, \u00e9 determinado pelo sal\u00e1rio que voc\u00ea recebe. \u00c9 curioso: o mundo ocidental constitui uma minoria em rela\u00e7\u00e3o ao restante do planeta, mas, como um imp\u00e9rio, o colonizou. Para o bem da humanidade, os imp\u00e9rios precisam desaparecer\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO importante n\u00e3o \u00e9 se haver\u00e1 \u2013j\u00e1 sabemos hoje que houve\u2014 um presidente negro, o fundamental \u00e9 de qual pa\u00eds ele foi o presidente\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Eu N\u00e3o Sou Seu Negro, Barack Obama aparece apenas de passagem. \u201c\u00c9 porque foi uma apari\u00e7\u00e3o breve, e a Hist\u00f3ria \u00e9 algo enorme. E, como disse Baldwin, o importante n\u00e3o \u00e9 saber se haver\u00e1 \u2013 hoje sabemos que houve \u2013 um presidente negro, o fundamental \u00e9 de qual pa\u00eds ele foi presidente\u201d. Sobre o Oscar, ele pensa a mesma coisa. \u201cConhe\u00e7o os colegas que concorrem comigo. N\u00e3o se deve chamar isso de competi\u00e7\u00e3o, porque esta implica limites e controles. Agora existem mais negros? E da\u00ed? \u00c9 uma ilus\u00e3o. Ali n\u00e3o se tomam decis\u00f5es, o problema est\u00e1 dentro da ind\u00fastria, em quem aprova os projetos, e quem o faz s\u00e3o executivos brancos de 35 a 55 anos. O poder est\u00e1 na estrutura, e \u00e0s vezes voc\u00ea consegue entrar nela. Lembre-se sempre do rev\u00f3lver de seis balas. At\u00e9 mesmo como jornalista, n\u00e3o desperdice nenhuma delas\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Raoul Peck foi destaque no festival de cinema de Berlim com seu document\u00e1rio, indicado ao Oscar, e com \u2018O jovem Karl Marx\u2019<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":178718,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-178717","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/afronta-negro.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178717","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=178717"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178717\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/178718"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=178717"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=178717"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=178717"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}