{"id":178888,"date":"2017-02-27T13:22:07","date_gmt":"2017-02-27T16:22:07","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=178888"},"modified":"2017-02-27T13:22:07","modified_gmt":"2017-02-27T16:22:07","slug":"o-samba-ja-sofreu-impacto-do-politicamente-correto-antes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-samba-ja-sofreu-impacto-do-politicamente-correto-antes\/","title":{"rendered":"&#8216;O samba j\u00e1 sofreu impacto do politicamente correto antes&#8217;"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">N\u00e9li Pereira<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1BC0\/production\/_94840170_liraneto1.jpg\" alt=\"Lira Neto em sua casa\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">Lira Neto: &#8216;O fato de esse livro vir logo depois da biografia do Get\u00falio n\u00e3o \u00e9 uma coincid\u00eancia&#8217;<\/span><\/figure>\n<p>A discuss\u00e3o sobre a misoginia e o preconceito de algumas letras de marchinhas ganhou f\u00f4lego neste Carnaval, com blocos anunciando que descartaram de seu repert\u00f3rio antigos cl\u00e1ssicos carnavalescos como <i>Olha a Cabeleira do Zez\u00e9<\/i>, <i>Maria Sapat\u00e3o<\/i>, <i>\u00cdndio Quer Apito<\/i> e o <i>Teu Cabelo n\u00e3o Nega<\/i>.<\/p>\n<p>Mas o debate n\u00e3o \u00e9 novo na hist\u00f3ria da festa popular, nem da trajet\u00f3ria do samba no Brasil.<\/p>\n<p>Para o escritor Lira Neto, que est\u00e1 lan\u00e7ando o primeiro de tr\u00eas volumes de <i>Uma Hist\u00f3ria do Samba<\/i>, &#8220;esse discurso do politicamente correto, de tentar higienizar e limpar o samba \u00e9 muito antigo, mas agora \u00e9 refor\u00e7ado pelas redes sociais&#8221;.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 BBC Brasil, o autor da trilogia sobre a vida de Get\u00falio Vargas explica como o Estado Novo quis se apropriar do samba para tentar forjar uma identidade nacional brasileira.<\/p>\n<p>Segundo Lira, &#8220;o samba \u00e9 um elemento interessante para a interpreta\u00e7\u00e3o do Brasil, com todas as interfer\u00eancias que ele sofreu, de algo que foi cooptado pelo mercado, apropriado politicamente, e de como ele conseguiu, no meio de tudo isso, encontrar mecanismos de continuar existindo, pujante, e de nos emocionar&#8221;.<\/p>\n<p>Leia, abaixo, trechos da entrevista:<\/p>\n<p><strong>BBC Brasil &#8211; O seu livro <\/strong><strong><i>Uma Hist\u00f3ria do Samba: As Origens<\/i><\/strong><strong> come\u00e7a com a tentativa de retomada dos cord\u00f5es carnavalescos por Villa-Lobos, mas de uma forma mais comportada. Hoje se discute muito o politicamente correto das marchinhas como <\/strong><strong><i>Olha a Cabeleira do Zez\u00e9, Maria Sapat\u00e3o<\/i><\/strong><strong> &#8211; essa discuss\u00e3o \u00e9 in\u00e9dita na hist\u00f3ria do samba?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lira Neto &#8211;<\/strong> N\u00e3o \u00e9 a primeira vez. O samba j\u00e1 passou por esse processo, j\u00e1 teve o impacto disso antes. Estava lendo uma mat\u00e9ria da <i>Revista da Semana<\/i> daquela \u00e9poca, na qual o cronista escreve que &#8220;o samba \u00e9 algo muito interessante, mas precisa deixar de ser b\u00e1rbaro, precisa ser mais civilizado para que a gente possa transform\u00e1-lo em algo mais palat\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>Ora, esse discurso do &#8220;politicamente correto&#8221; \u00e9 muito antigo, de tentar higienizar, limpar o samba. Se voc\u00ea pega a produ\u00e7\u00e3o do Sinh\u00f4, um dos pioneiros do samba, ou do Ismael Silva &#8211; era uma produ\u00e7\u00e3o machista e mis\u00f3gina at\u00e9, pois falava da mulher que apanhava, do malandro que n\u00e3o trocava nada pela orgia, ou seja, tudo isso tinha um contingente muito machista.<\/p>\n<p>Eu estava dando uma aula em Vermont, nos Estados Unidos, no meio do ano passado, sobre hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira, e mostrei as letras aos alunos. Eles ficaram escandalizados, acharam muito machistas. E eu tive que mostrar a eles que aquilo era fruto de determinadas contradi\u00e7\u00f5es daquele tempo e que precisamos ouvir as m\u00fasicas no seu devido contexto.<\/p>\n<p>Voc\u00ea acha que M\u00e1rio Lago era machista por causa da Am\u00e9lia (de <i>Ai Que Saudades da Am\u00e9lia<\/i>), que Ataulfo Alves era machista? A m\u00fasica era profundamente machista para os nossos valores de hoje. Se voc\u00ea levar a quest\u00e3o das marchinhas ao extremo, o que vai acontecer? Voc\u00ea vai deixar de ouvir Ismael Silva, Sinh\u00f4, M\u00e1rio Lago, de ler Monteiro Lobato? Daqui a pouco voc\u00ea cerceou e policiou de forma absurda.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef-1.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/E872\/production\/_94860595_bola_preta.jpg\" alt=\"Cord\u00e3o do Bola Preta\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">&#8216;O samba \u00e9 um elemento interessante para a interpreta\u00e7\u00e3o do Brasil&#8217;, diz Lira Neto<\/span><\/figure>\n<p>Meu amigo Luis Antonio Silva falou o seguinte numa entrevista recente: &#8220;N\u00e3o se pode proibir ningu\u00e9m de cantar nada. Cada um canta o que quiser, e cada um n\u00e3o canta o que n\u00e3o quiser&#8221;. Quer cantar essas marchinhas no bloco, cante. N\u00e3o quer, n\u00e3o cante. \u00c9 importante compreender que elas foram marchinhas feitas num determinado momento hist\u00f3rico e numa determinada situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa discuss\u00e3o \u00e9 eterna, mas agora ela se d\u00e1 com uma estrid\u00eancia maior porque \u00e9 compartilhada e refor\u00e7ada nas redes sociais, n\u00e3o somente nas mesas de boteco, ou entre a fam\u00edlia.<\/p>\n<p><strong>BBC Brasil &#8211; Voc\u00ea abre o livro com um samba de Caetano Veloso que diz que &#8220;o samba \u00e9 pai do prazer, o samba \u00e9 filho da dor&#8221;. Ali parecem estar a dualidade e a tens\u00e3o do recorte da hist\u00f3ria do samba que voc\u00ea optou por contar&#8230;O livro \u00e9 sobre essa trajet\u00f3ria, de conflitos do samba?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Neto &#8211; <\/strong>Exatamente. Tentar entender o samba &#8211; e a pr\u00f3pria cultura &#8211; dentro dessa complexidade. Ou seja, sem tentar fazer uma an\u00e1lise chapada, bin\u00e1ria&#8230;ou tentando, por um lado, mostrar o samba como um grande s\u00edmbolo de autenticidade, de resist\u00eancia, ou, por outro, o samba como um g\u00eanero cooptado pelas conting\u00eancias pol\u00edticas e pelas circunst\u00e2ncias do mercado &#8211; mostrar que \u00e9 uma coisa e a outra; mostrar que ele \u00e9 festa, mas tamb\u00e9m \u00e9 fresta. Algo que foi se reelaborando a partir dessas influ\u00eancias que incidiram sobre ele.<\/p>\n<p>A frase do Caetano fala disso: &#8220;filho da dor, pai do prazer&#8221; &#8211; d\u00e1 essa conota\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica, para evitar a armadilha de tomar uma posi\u00e7\u00e3o muito marcada e esquecer que tudo na vida \u00e9 complexo, e n\u00e3o \u00e9 simples na an\u00e1lise. Esse \u00e9 um tema que foi tratado muitas vezes, mas sempre pendendo para um destes lados.<\/p>\n<p>Em tudo o que eu tento trabalhar, exijo essa dose de complexidade, foi assim com Get\u00falio. Eu procuro ver as coisas na sua fascinante ambiguidade e contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>BBC Brasil &#8211; Mas o samba sofreu algum &#8220;trauma&#8221; com essas apropria\u00e7\u00f5es &#8211; culturais, pol\u00edticas, mercadol\u00f3gicas &#8211; ao longo da hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Neto &#8211;<\/strong> A palavra trauma pode ter muitos significados &#8211; ele foi impactado e tamb\u00e9m impactou. Eu evito utilizar esse conceito de pureza, de autenticidade, de uma coisa genu\u00edna, porque a pr\u00f3pria g\u00eanese do samba \u00e9 mesclada, permeada pela mistura, por v\u00e1rios vetores e por v\u00e1rias camadas de influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea fala em samba aut\u00eantico, voc\u00ea trabalha com uma abstra\u00e7\u00e3o, porque isso n\u00e3o existe. Eu coloco no pr\u00f3logo uma cena do Heitor Villa-Lobos tentando recriar os velhos cord\u00f5es do fim do s\u00e9culo 19 e come\u00e7o do 20 como uma esp\u00e9cie de chave, de mote do que eu vou tratar.<\/p>\n<p>Quando o Villa-Lobos tenta recuperar o aut\u00eantico, ele faz uma releitura. E quando ele limpa e higieniza o suposto aut\u00eantico para que ele possa ser adequado para aquele momento do Estado Novo, ele est\u00e1 recorrendo \u00e0 folcloriza\u00e7\u00e3o do que ele pretendia aut\u00eantico.<\/p>\n<p>O que \u00e9 o folcl\u00f3rico? O folclore \u00e9 a morte da cultura popular, ou pelo menos da pot\u00eancia dessa cultura.<\/p>\n<p><strong>BBC Brasil &#8211; Quase uma uniformiza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Neto &#8211; <\/strong>Uma estiliza\u00e7\u00e3o &#8211; voc\u00ea despe, tira da cultura popular o que ela tem de potencial criativo, voc\u00ea estandardiza, cria um estere\u00f3tipo. Outra coisa que acho fascinante \u00e9 perceber que, ao longo da hist\u00f3ria do samba, voc\u00ea vai ter uma s\u00e9rie de releituras desse processo.<\/p>\n<p>Por exemplo: quando surgem os primeiros desfiles de escolas de samba, l\u00e1 no come\u00e7o dos anos 30 &#8211; que \u00e9 o final do livro &#8211; essa primeira gera\u00e7\u00e3o do Hil\u00e1rio, do Donga, do Jo\u00e3o da Baiana, vai dizer: &#8220;Essas escolas, isso n\u00e3o \u00e9 samba, samba \u00e9 o que a gente fazia l\u00e1 nos terreiros da pequena \u00c1frica da Pra\u00e7a 11&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1411C\/production\/_94840228_43_rjaquedutodacariocac.1915-acervoiconographia.jpg\" alt=\"Aqueduto da Carioca\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">O Aqueduto da Carioca, ou Arcos da Lapa, um \u00edcone da hist\u00f3ria do samba no Rio de Janeiro<\/span><\/figure>\n<p>Bom, a\u00ed surge um novo paradigma, institu\u00eddo pela turma do Est\u00e1cio e que vai ser adotado pelas escolas de samba na sua g\u00eanese dos anos 30. A\u00ed, nos anos 50, o Ismael Silva, que foi um dos indutores desse processo nos anos 30, vai dizer: &#8220;N\u00e3o. O que est\u00e1 se fazendo aqui nos anos 50 n\u00e3o \u00e9 mais samba &#8211; samba \u00e9 o que a gente fazia nos anos 30&#8221;.<\/p>\n<p>E a\u00ed voc\u00ea vai ter isso como uma constante. Depois, nos anos 70 e 80 voc\u00ea vai ter gente que vai dizer que samba era da d\u00e9cada de 50.<\/p>\n<p>Eu fujo desse conceito de autenticidade para mostrar que o samba sofreu esse duplo impacto &#8211; de um lado, de uma apropria\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que vai se dar na era Vargas, no Estado Novo, o samba vai ser apropriado politicamente como um dos s\u00edmbolos do nacionalismo. E do outro lado, o outro impacto da ent\u00e3o nascente ind\u00fastria do entretenimento, o samba vai se despir das suas caracter\u00edsticas iniciais para atender \u00e0s circunst\u00e2ncias do mercado fonogr\u00e1fico, do r\u00e1dio, do cinema, o samba passa por um outro processo de reapropria\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O samba ganhou ou perdeu com isso? As duas coisas. Ele se transformou, precisou se reinventar. Eu n\u00e3o caio na armadilha de falar &#8220;o samba n\u00e3o \u00e9 mais o samba&#8221;. \u00c9! S\u00f3 que com outros processos, com novas circunst\u00e2ncias e com um novo contexto.<\/p>\n<p><strong>BBC Brasil &#8211; O tema apropria\u00e7\u00e3o cultural voltou a ser discutido com o caso da menina branca que foi criticada por usar turbante. O samba sofreu algo parecido, pelo que voc\u00ea est\u00e1 dizendo. O que a hist\u00f3ria dele tem a nos ensinar ou que luz pode jogar sobre essa discuss\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Neto &#8211; <\/strong>Eu acho que &#8211; como toda a discuss\u00e3o que temos hoje no Brasil &#8211; ela peca pela polariza\u00e7\u00e3o. Essa discuss\u00e3o sobre a apropria\u00e7\u00e3o cultural acaba resvalando num outro tipo de rotula\u00e7\u00e3o: para voc\u00ea dizer se \u00e9 progressista ou reacion\u00e1rio, racista ou um &#8220;branco legal&#8221;, e coisa desse tipo.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o est\u00e1 enviesada. A apropria\u00e7\u00e3o cultural sempre se deu no Brasil, \u00e9 t\u00edpica do que Oswald de Andrade chamava de antropofagia, mas tem quest\u00f5es que temos que ter cautela no debate. Nessa quest\u00e3o do turbante em si, vejo o seguinte: se eu adoto &#8211; seja ele qual for &#8211; um s\u00edmbolo, e minha utiliza\u00e7\u00e3o desse s\u00edmbolo te ofende, eu preciso pensar sobre isso, por que isso o incomoda. At\u00e9 que ponto isso n\u00e3o est\u00e1 embutido no meu preconceito.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 muito complexa, n\u00e3o d\u00e1 para assumir um dos pontos dessa disputa e n\u00e3o parecer mais uma vez que estamos trabalhando com a discuss\u00e3o entre &#8220;torcidas organizadas&#8221; &#8211; tudo ficou muito bin\u00e1rio, polarizado &#8211; seja na pol\u00edtica ou na cultura &#8211; passamos a ser seres bin\u00e1rios &#8211; branco ou preto, tucano ou petralha, tudo muito polarizado, e estamos esquecendo da grande capacidade do di\u00e1logo, estamos muito estridentes. E a\u00ed quando voc\u00ea adota uma atitude de modera\u00e7\u00e3o j\u00e1 tem at\u00e9 r\u00f3tulo: o &#8220;isent\u00e3o&#8221;, e apanha dos dois lados.<\/p>\n<p><strong>BBC Brasil &#8211; Esse \u00e9 seu primeiro trabalho depois da trilogia da biografia do Get\u00falio Vargas. Qual foi o papel do Get\u00falio na &#8220;apropria\u00e7\u00e3o&#8221; do samba pelo Estado proposto pelo governo no Estado Novo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Neto &#8211;<\/strong> O fato de esse livro vir logo depois da biografia do Get\u00falio n\u00e3o \u00e9 uma coincid\u00eancia. Algumas pessoas j\u00e1 me questionaram sobre o que tem a ver escrever sobre samba depois de Get\u00falio. Tem tudo a ver, estamos falando das mesmas coisas.<\/p>\n<p>A era Vargas, a primeira metade do s\u00e9culo 20 no Brasil, quando ele deixou sua marca, \u00e9 justamente a era em que o samba est\u00e1 saindo de um estado inicial de marginalidade e passa a ser um g\u00eanero musical hegem\u00f4nico. Isso est\u00e1 ligado \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o que o Estado Novo fez de forma consciente, higienizando o samba.<\/p>\n<p>O que vai resultar num samba quase sinf\u00f4nico, que \u00e9 o samba do Ary Barroso, da <i>Aquarela do Brasil<\/i>. Aquele ufanismo, t\u00edpico do Estado Novo, passa a entrar tamb\u00e9m no repert\u00f3rio do samba.<\/p>\n<aside class=\"quote\">\n<div class=\"quote-inner\">\n<blockquote class=\"quote\"><p>Eu n\u00e3o caio na armadilha de falar &#8216;o samba n\u00e3o \u00e9 mais o samba&#8217;. \u00c9! S\u00f3 que com outros processos, com novas circunst\u00e2ncias e com um novo contexto.<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/aside>\n<p><strong>BBC Brasil &#8211; <\/strong><strong><i>O Bonde S\u00e3o Janu\u00e1rio<\/i><\/strong><strong>, que exalta a vida do trabalhador &#8211; &#8220;o bonde leva mais um oper\u00e1rio, sou eu quem vou trabalhar&#8221; -, tamb\u00e9m \u00e9 exemplo dessa transi\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Neto &#8211;<\/strong> Exatamente. Olha como as duas hist\u00f3rias se ligam. Quando o Get\u00falio chega, pr\u00e9-Estado Novo, logo depois da Revolu\u00e7\u00e3o de 30, ele estabelece o culto ao trabalho, ao trabalhador, o in\u00edcio das leis trabalhistas. Era o momento em que ele adotava o discurso que at\u00e9 ent\u00e3o era dos sindicatos &#8211; que \u00e9 o discurso da conquista de direitos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/184B2\/production\/_94860599_hi038132407.jpg\" alt=\"Galo da Madrugada\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><span class=\"media-caption__text\">&#8216;O samba explica como se deu tudo isso. O mito de pa\u00eds cordial, pac\u00edfico &#8211; tudo isso o samba conta&#8217;<\/span><\/figure>\n<p>Ele se apropria desse discurso, neutraliza de maneira h\u00e1bil aquele caldeir\u00e3o social que estava prestes a explodir, com greves, com movimento sindical dominado pelos anarcossindicalistas, ele come\u00e7a a introduzir os direitos trabalhistas e tira a press\u00e3o disso e passa ele mesmo a ser o arauto dessas bandeiras dos direitos dos trabalhadores.<\/p>\n<p>O trabalho estava acima de tudo, ao contr\u00e1rio da figura do malandro do samba. E a\u00ed essa figura n\u00e3o \u00e9 mais bem vista, passa a ser persona non grata por esse novo momento em que o Estado est\u00e1 buscando a exalta\u00e7\u00e3o ao trabalho.<\/p>\n<p>E Get\u00falio vai al\u00e9m: passa a financiar as escolas de samba para que fizessem enredos nacionalistas, com refer\u00eancias aos her\u00f3is da p\u00e1tria. E os sambistas come\u00e7am a entrar nessa onda &#8211; at\u00e9 a famosa pol\u00eamica entre Noel Rosa e Wilson Batista, que vai ser explorada melhor no segundo volume da trilogia, que \u00e9 a disputa do que viria a ser a figura do sambista: \u00e9 o malandro ou o do bonde S\u00e3o Janu\u00e1rio que vai trabalhar?<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que se deu o processo de apropria\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e cultural do samba, com todas as nuances. O samba \u00e9 exemplo dessas apropria\u00e7\u00f5es. Isso deu possibilidade ao samba de sair dos guetos e conquistar o pa\u00eds. Ele se torna de fato hegem\u00f4nico, e isso tem a ver com esse processo de domestica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>BBC Brasil &#8211; Essa domestica\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es culturais espont\u00e2neas pelo Estado, voc\u00ea v\u00ea alguma rela\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o atual?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Neto &#8211;<\/strong> \u00c9 muito interessante quando voc\u00ea ouve no discurso das autoridades que o carnaval tem que ter &#8220;um certo controle&#8221;. A palavra &#8220;controle&#8221; pressup\u00f5e, at\u00e9 certo ponto, um aparato repressivo, o que \u00e9 algo incompat\u00edvel com a festa, que n\u00e3o tem controle. Voc\u00ea pode dar suporte para essa festa, preparar a cidade, ter um grupo de varredores, tentar minimizar os efeitos colaterais da festa, mas ela \u00e9 sem regras.<\/p>\n<p><strong>BBC Brasil &#8211; Mas tem gente que se incomoda, que n\u00e3o gosta desse tipo de festa&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Neto &#8211;<\/strong> Esse pensamento segregacionista \u00e9 o que temos no come\u00e7o do s\u00e9culo e do qual o samba foi v\u00edtima. E voc\u00ea nota, quando voc\u00ea v\u00ea as regras do carnaval ditadas pelo Pereira Passos, que dizia &#8220;voc\u00ea n\u00e3o pode pegar a serpentina que caiu no ch\u00e3o para jogar de novo na pessoa&#8221; &#8211; \u00e9 sempre no sentido da higiene, do perfumado, mas completamente artificial. tem gente que sabe fazer festa e gente que n\u00e3o sabe &#8211; gente que mant\u00e9m o respeito \u00e0 privacidade, o ouvido e \u00e0 rua do outro &#8211; e gente que n\u00e3o sabe.<\/p>\n<aside class=\"quote\">\n<div class=\"quote-inner\">\n<blockquote class=\"quote\"><p>Tem gente que sabe fazer festa e gente que n\u00e3o sabe, gente que mant\u00e9m o respeito \u00e0 privacidade, o ouvido e \u00e0 rua do outro, e gente que n\u00e3o sabe. A\u00ed a resposta mais f\u00e1cil das autoridades: controla, pro\u00edbe, reprime.<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/aside>\n<p>A\u00ed a resposta mais f\u00e1cil das autoridades: controla, pro\u00edbe, reprime. Como a Virada Cultural, que agora &#8220;n\u00e3o deve ser espalhada&#8221;, mas cercada, num lugar espec\u00edfico, num desconhecimento absoluto do que \u00e9 a g\u00eanese do evento, que tem o sentido de trabalhar e espalhar a cultura pela cidade. Ent\u00e3o voc\u00ea segrega.<\/p>\n<p>E uma analogia: quando voc\u00ea tem o corredor da Avenida 23 de Maio sendo pintado de cinza: &#8220;normatiza, transforma numa cor \u00fanica, isso n\u00e3o \u00e9 bem vindo para a paisagem urbana&#8221;. Ou seja: \u00e9 um senso de urbanismo t\u00e3o arcaico, antigo e autorit\u00e1rio &#8211; e o mais inacredit\u00e1vel \u00e9 que ele \u00e9 anunciado como sendo algo moderno. Quando Get\u00falio Vargas chega ao poder, diz: &#8220;A pol\u00edtica est\u00e1 morta, agora \u00e9 a hora da efici\u00eancia t\u00e9cnica sobre a politica. Eu n\u00e3o sou um pol\u00edtico, sou um gestor, um administrador&#8221;.<\/p>\n<p>Veja, esse \u00e9 um discurso antigo, do in\u00edcio do s\u00e9culo 20, e estamos vendo, em pleno 2017, pessoas repetindo esse discurso anacr\u00f4nico. Porque h\u00e1 agora, como havia l\u00e1 atr\u00e1s, a sensa\u00e7\u00e3o de que tudo que vem da pol\u00edtica \u00e9 sujo, a sataniza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>BBC Brasil &#8211; E a figura do malandro, ela \u00e9 romantizada? Ele tem vez no samba como \u00e9 hoje em dia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Neto &#8211; <\/strong>A figura do malandro \u00e9 mais um desses estere\u00f3tipos criados pelo entretenimento. Quando a gente pensa em malandro hoje em dia o que vem: a figura de terno branco, alinhado, sorriso no rosto, um sujeito que se dava bem com as mulheres. E a vida do malandro n\u00e3o era assim, pelo contr\u00e1rio: era cheia de sobressaltos, todos eles morriam muito cedo, ou de tuberculose, s\u00edfilis, facada ou tiro. N\u00e3o havia nenhum glamour.<\/p>\n<p>Muitos deles exploravam a mulher, muitos viviam como cafet\u00f5es, trocavam navalhadas uns com os outros. N\u00e3o s\u00e3o her\u00f3is, n\u00e3o tem her\u00f3is a\u00ed, o malando n\u00e3o \u00e9 her\u00f3i. O malandro rom\u00e2ntico \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o do cinema, do audiovisual.<\/p>\n<p>A vida do malandro era muito dura. Eu procuro sempre mostrar no livro que essas idealiza\u00e7\u00f5es precisam ser relativizadas. Eu leio autores desse per\u00edodo que escrevem &#8220;S\u00e3o Ismael&#8221;, ou &#8220;S\u00e3o Pixinguinha&#8221; &#8211; mas n\u00e3o tem santo nessa hist\u00f3ria, como tamb\u00e9m n\u00e3o tem s\u00f3 bandido como via a pol\u00edcia. Eram santos e bandidos ao mesmo tempo, porque eram seres humanos, demasiadamente humanos, eram homens e suas circunst\u00e2ncias. O livro olha para esse cen\u00e1rio al\u00e9m dos estere\u00f3tipos, das idealiza\u00e7\u00f5es &#8211; e al\u00e9m dos preconceitos.<\/p>\n<figure class=\"media-portrait has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"http:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/5AA4\/production\/_94840232_000242114.jpg\" alt=\"Heitor Villa-Lobos\" width=\"576\" height=\"768\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><figcaption class=\"media-caption\"><span class=\"media-caption__text\">&#8216;Uma Hist\u00f3ria do : As Origens&#8217; come\u00e7a com passagem sobre a tentativa de Heitor Villa-Lobos de reativar os cord\u00f5es carnavalescos<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>BBC Brasil &#8211; E como <\/strong><strong><i>Uma Hist\u00f3ria do Samba<\/i><\/strong><strong> pode nos ajudar a entender um pouco mais sobre n\u00f3s mesmos, brasileiros, sobre nossa origem e forma\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Neto &#8211; <\/strong>\u00c9 importante para entender o que \u00e9 o Brasil, e o que nos tornamos, quem somos. S\u00f3 conseguimos entender quem somos se olharmos para quem fomos e para como fomos sendo constru\u00eddos, como se deu a constru\u00e7\u00e3o do nosso povo. Acho que o samba \u00e9 um instrumento riqu\u00edssimo para entender esse processo, essas transforma\u00e7\u00f5es, essas influ\u00eancias, como a mesti\u00e7agem que condenava o Brasil ao eterno subdesenvolvimento, passa a ser exaltada como grande s\u00edmbolo nacional.<\/p>\n<p>O samba explica como se deu tudo isso. O mito de pa\u00eds cordial, pac\u00edfico &#8211; tudo isso o samba conta. O samba \u00e9 um elemento interessante para a interpreta\u00e7\u00e3o do Brasil, uma das possibilidades de interpreta\u00e7\u00e3o do Brasil, com todas as interfer\u00eancias que ele sofreu, com tudo o que ele representa de reelabora\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o permanente, de algo que foi cooptado pelo mercado, apropriado politicamente, e de como ele conseguiu, no meio de tudo isso, encontrar mecanismos de continuar existindo, de continuar pujante &#8211; e emocionando a gente at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><strong>BBC Brasil &#8211; Voc\u00ea escreveu biografias de pessoas que tinham uma rela\u00e7\u00e3o forte com o poder &#8211; de Padre C\u00edcero a Get\u00falio Vargas, passando por Maysa e Jos\u00e9 de Alencar. Tem alguma hist\u00f3ria de poder na hist\u00f3ria do samba?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Neto &#8211; <\/strong>Totalmente. E de v\u00e1rias inst\u00e2ncias do poder &#8211; o poder da ind\u00fastria do espet\u00e1culo, bastante presente nessa hist\u00f3ria, como ele agiu sobre o samba provocando modifica\u00e7\u00f5es. O poder do mercado fonogr\u00e1fico. E tem o poder pol\u00edtico, de um projeto pol\u00edtico de na\u00e7\u00e3o constitu\u00eddo de forma consciente pelo Get\u00falio, e de como ele usou o samba e os sambistas, e essa proximidade &#8211; e o cap\u00edtulo fundamental que vem por a\u00ed no segundo volume, sobre o papel da R\u00e1dio Nacional nesse processo, da imprensa, do DIP &#8211; Departamento de Imprensa e Propaganda.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 esse o processo, ou seja: era apropriar-se do que era considerado primitivo, aut\u00eantico nacional e tornar esse aut\u00eantico &#8220;limpinho e cheiroso&#8221;.<\/p>\n<p>Nessa hist\u00f3ria do samba, o poder &#8211; nas suas mais variadas dimens\u00f5es e camadas &#8211; \u00e9 o personagem central.<\/p>\n<p><strong>BBC Brasil &#8211; E qual seria hoje o poder mais atuante sobre o samba<\/strong>?<\/p>\n<p><strong>Neto &#8211;<\/strong> O grande poder do consumo, do mercado &#8211; desse poder que transforma tudo em mercadoria, inclusive as privacidades, que transforma a rebeldia em mercadoria, a alegria em mercadoria &#8211; &#8220;voc\u00ea tem a obriga\u00e7\u00e3o de estar feliz&#8221; &#8211; e transforma o prazer em mercadoria.<\/p>\n<p>E isso sempre produz a neutraliza\u00e7\u00e3o do potencial criativo e insubmisso dessas coisas, dessas inst\u00e2ncias. Quando voc\u00ea transforma em mercadoria, voc\u00ea neutraliza a capacidade de enuncia\u00e7\u00e3o insubmissa. O grande poder que estamos lidando hoje \u00e9 esse poder absurdamente exponencial, em que as pessoas de aparente livre e espont\u00e2nea vontade est\u00e3o entregando aquilo que elas tem de mais precioso para virar mercadoria, suas privacidades.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um momento perigoso, em que todo mundo virou produto.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;O samba explica como se deu tudo isso. 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