{"id":179776,"date":"2017-03-04T12:57:32","date_gmt":"2017-03-04T15:57:32","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=179776"},"modified":"2017-03-04T12:57:32","modified_gmt":"2017-03-04T15:57:32","slug":"lira-neto-falar-de-reserva-cultural-num-pais-mestico-como-o-brasil-nao-faz-sentido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/lira-neto-falar-de-reserva-cultural-num-pais-mestico-como-o-brasil-nao-faz-sentido\/","title":{"rendered":"Lira Neto: \u201cFalar de reserva cultural num pa\u00eds mesti\u00e7o como o Brasil n\u00e3o faz sentido\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\nAutor da exitosa trilogia sobre Get\u00falio Vargas, escritor acaba de lan\u00e7ar o primeiro volume de &#8216;Uma hist\u00f3ria do samba&#8217;<\/p>\n<figure id=\"attachment_179777\" aria-describedby=\"caption-attachment-179777\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/lira-neto-falar-de-reserva-cultural-num-pais-mestico-como-o-brasil-nao-faz-sentido\/lira-neto\/\" rel=\"attachment wp-att-179777\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-179777 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/lira-neto-620x414.jpg\" width=\"620\" height=\"414\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/lira-neto-620x414.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/lira-neto-300x200.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/lira-neto-768x513.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/lira-neto-160x106.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/lira-neto-450x300.jpg 450w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/lira-neto-640x427.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/lira-neto.jpg 1960w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-179777\" class=\"wp-caption-text\">Lira Neto<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>FELIPE BETIM<\/p>\n<p>\u201cO samba \u00e9 muito parecido com o Brasil. O samba \u00e9 mistura. \u00c9 resist\u00eancia e conformismo. \u00c9 a tristeza que balan\u00e7a. \u00c9 o pai do prazer e o filho da dor\u201d. Com essas palavras, Lira Neto (Fortaleza, 1963) resume o que para ele \u00e9 o samba, g\u00eanero musical que ele biografa em sua nova obra, Uma Hist\u00f3ria do Samba (Cia das Letras). O primeiro dos tr\u00eas volumes foi lan\u00e7ado no \u00faltimo m\u00eas de fevereiro, com o objetivo de contar a hist\u00f3ria do samba moderno urbano. Assim, deixando de lado \u2013 ainda que n\u00e3o totalmente \u2013 as ra\u00edzes do g\u00eanero, a narrativa come\u00e7a no Rio de Janeiro p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o do final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escritor e jornalista, Neto recebeu um pr\u00eamio Jabuti pela biografia de Jos\u00e9 de Alencar e \u00e9 o autor da exitosa trilogia sobre Get\u00falio Vargas. Agora, a biografia do mais conhecido g\u00eanero musical brasileiro surge como uma continua\u00e7\u00e3o de seu trabalho sobre o ex-presidente, j\u00e1 que o processo de consolida\u00e7\u00e3o do samba passa pelo projeto nacional da era Vargas, segundo conta nesta entrevista ao EL PA\u00cdS. Apesar de ter reaproveitado muito material de pesquisa, ele conta que recorreu ao Arquivo Nacional e \u00e0 Biblioteca Nacional para contar a hist\u00f3ria das pessoas que contribu\u00edram para a evolu\u00e7\u00e3o do g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pergunta. Muitos livros sobre o samba j\u00e1 foram escritos. O que sua obra pode oferecer de diferente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resposta. N\u00e3o pretendo escrever a historia definitiva do samba, tanto \u00e9 que o artigo indefinido no titulo, \u201cUma historia do samba\u201d, aponta exatamente para isso. \u00c9 um dos poss\u00edveis olhares. E o meu olhar \u00e9 exatamente de algu\u00e9m que tentou explicar o processo de forma\u00e7\u00e3o do g\u00eanero a partir dos perfis e das biografias individuais de seus protagonistas. Ent\u00e3o acho que o meu olhar \u00e9 o do bi\u00f3grafo. N\u00e3o de um music\u00f3logo ou de historiador musical, por exemplo. Ou seja, como essas trajet\u00f3rias individuais, as hist\u00f3rias desses sambistas, compositores, m\u00fasicos, e instrumentistas, na sua conjun\u00e7\u00e3o produziu a forma\u00e7\u00e3o do samba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">P. No livro voc\u00ea tamb\u00e9m reconstr\u00f3i a hist\u00f3ria do Rio de Janeiro no final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX. N\u00e3o s\u00f3 fala sobre pequena \u00c1frica [regi\u00e3o do central da cidade relacionada com o surgimento do samba] mas tamb\u00e9m sobre a transforma\u00e7\u00e3o de fazendas em bairros perif\u00e9ricos da Zona Norte. E relata as pol\u00edticas higienizadoras da \u00e9poca e a tentativa de tornar o carnaval uma coisa domesticada. O que voc\u00ea v\u00ea daquela \u00e9poca que continua ainda hoje?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">R. O samba, em sua trajet\u00f3ria de afirma\u00e7\u00e3o, foi alvo de v\u00e1rios vetores. Um deles foi o da crescente domestica\u00e7\u00e3o. Houve toda uma pol\u00edtica das autoridades sanit\u00e1rias e policiais de tentar civilizar o Rio de Janeiro. O lema da \u00e9poca era &#8220;Rio, civiliza-se&#8221;. E nisso o samba n\u00e3o poderia ficar imune, uma vez que ele estava dentro desse universo. E aquelas pol\u00edticas p\u00fablicas postas em a\u00e7\u00e3o no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, de remo\u00e7\u00f5es das classes populares e de remo\u00e7\u00e3o dos corti\u00e7os, de ocupa\u00e7\u00e3o das encostas dos morros, do loteamento do sub\u00farbios a partir da decad\u00eancia do ciclo do caf\u00e9&#8230; Tudo isso est\u00e1 na g\u00eanese do samba. Essa geografia urbana do Rio de Janeiro vai se produzindo e vai se constituindo exatamente quando o samba est\u00e1 se afirmando. E havia toda uma l\u00f3gica de fazer com que essas manifesta\u00e7\u00f5es de natureza afro fossem higienizadas. O processo de higieniza\u00e7\u00e3o urbana tamb\u00e9m era cultural. E nisso o samba aprendeu a fazer suas negocia\u00e7\u00f5es poss\u00edveis e adapta\u00e7\u00f5es. \u00c9 quando entra outro elemento decisivo nessa hist\u00f3ria, que \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria do entretenimento. Coincidentemente ou n\u00e3o, essas duas coisas acontecem no mesmo espa\u00e7o temporal. O samba saindo do gueto e a ind\u00fastria do entretenimento utilizando o samba como grande mat\u00e9ria prima. O samba est\u00e1 dentro desse universo rico de influ\u00eancias e de apropria\u00e7\u00f5es, de coopta\u00e7\u00f5es. Ele n\u00e3o ficou imune a isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">P. Mas como voc\u00ea relaciona essa \u00e9poca com a de hoje? O Rio acabou de passar por um novo processo &#8220;civilizat\u00f3rio&#8221;, com a reforma da zona portu\u00e1ria e um recorde de remo\u00e7\u00f5es em toda a cidade. S\u00e3o Paulo agora tem um novo projeto apelidado pelo novo prefeito de &#8220;Cidade Linda&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">R. Esses processos urbanos que se dizem civilizat\u00f3rios, qualquer que seja o nome que ele tenha, pode ser &#8220;Bota Abaixo&#8221; do come\u00e7o do s\u00e9culo [no Rio de Janeiro] ou &#8220;Cidade Linda&#8221; de hoje, s\u00e3o essencialmente excludentes. Porque querem normatizar a utiliza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico, afastando tudo aquilo que signifique disson\u00e2ncia e a marca cultural de determinados segmentos que n\u00e3o s\u00e3o hegem\u00f4nicos. Naquele momento, os que n\u00e3o eram bem-vindos, inclusive indesej\u00e1veis, eram exclu\u00eddos para as periferias, e a\u00ed se deu o processo de ocupa\u00e7\u00e3o de morros. Hoje, quando voc\u00ea prefere o cinza \u00e0 cor, isso \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica muito definida. A partir de momento que apagam centenas de metros de grafite na 23 de maio, instituindo o cinza como padr\u00e3o, isso tem um discurso pol\u00edtico muito forte. \u00c9 um discurso autorit\u00e1rio. Um discurso exatamente onde a pluralidade de influ\u00eancias e de interven\u00e7\u00f5es urbanas passam a ser limitadas a partir dos desejos, dos interesses e das determina\u00e7\u00f5es dos ditames do poder p\u00fablico. O samba naquele momento se viu premido por duas for\u00e7as muito fortes, que tendem a homogeneiza\u00e7\u00e3o: a repress\u00e3o policial, do Estado, querendo transformar tudo em limpinho e cheiroso&#8230; E de outro lado a for\u00e7a do mercado de consumo. O samba faz um jogo de negocia\u00e7\u00e3o com isso. Ao mesmo tempo que permanecia como s\u00edmbolo de resist\u00eancia para muitos, por outro lado ele se viu na conting\u00eancia de ter que fazer determinadas negocia\u00e7\u00f5es para se afirmar inclusive como produto de mercado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">P. \u00c9 o caso de Hil\u00e1rio Jovino Ferreira, um dos principais personagens de seu livro, ao buscar as licen\u00e7as para poder fazer ser carnaval de rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">R. Exatamente. Ele \u00e9 o personagem que sintetiza esse movimento inicial do samba de sair do gueto e de tentar um lugar na sociedade. Ele buscava n\u00e3o s\u00f3 a autoriza\u00e7\u00e3o policial para que seu rancho [agremia\u00e7\u00e3o carnavalesca] pudesse sair \u00e0s ruas, mas tamb\u00e9m buscava uma inser\u00e7\u00e3o social pessoal, procurando a guarida na guarda nacional, em meios pol\u00edticos mais conservadores&#8230; Ele sintetiza essa busca pela aceita\u00e7\u00e3o. E nesse processo voc\u00ea perde algumas coisas e ganha outras. O samba perdeu uma certa pot\u00eancia criadora inicial, indom\u00e1vel e insubmissa, mas ganhou a possibilidade de se transformar num g\u00eanero de massas ao se submeter a essas regras da ind\u00fastria do entretenimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">P. Foi perdendo ent\u00e3o sua ess\u00eancia? Em que \u00e9poca isso aconteceu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">R. Temos que ter cuidado com os termos. Por exemplo, ess\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 nada essencial. As ess\u00eancias tamb\u00e9m s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es ao longo do tempo, principalmente tratando-se de m\u00fasica e de cultura de uma forma geral. N\u00e3o existe uma cultura essencial que depois vai se perder. Desde um primeiro momento isso j\u00e1 acontece. Desde que essa pulsa\u00e7\u00e3o r\u00edtmica de base africana come\u00e7a a sofrer a interfer\u00eancia e a exercer influ\u00eancia sobre o meio que ela vivia. N\u00e3o h\u00e1 essa ideia de que ele era puro e depois se domesticou e se corrompeu. N\u00e3o. Desde que o samba \u00e9 samba \u00e9 assim. A gente n\u00e3o pode ter a ideia do est\u00e1tico, de querer que a cultura popular seja algo parado no tempo, e que voc\u00ea diga que o original e o puro era aquele. N\u00e3o existe isso. Se voc\u00ea quisesse que o genu\u00edno e aut\u00eantico ficasse parado no tempo, voc\u00ea estaria matando a pr\u00f3pria caracter\u00edstica maior da cultura, que \u00e9 estar em permanente evolu\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea iria museificar, tornar folclore. Que \u00e9 quando tradi\u00e7\u00e3o cultural \u00e9 reproduzida de forma estilizada, parada no tempo e livre de influ\u00eancias externas e ex\u00f3genas. Isso \u00e9 a morte da cultura. \u00c9 o empobrecimento total da cultura. A cultura \u00e9 isso, e com o samba n\u00e3o \u00e9 diferente. Como uma manifesta\u00e7\u00e3o cultural t\u00e3o forte, ele tamb\u00e9m foi se modificando ao longo desse processo. Ele vai descobrindo novas possibilidades e descobrindo novas influ\u00eancias e vertentes, como o samba-can\u00e7\u00e3o, a bossa nova, o samba rock. \u00c9 uma evolu\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n<figure id=\"attachment_179778\" aria-describedby=\"caption-attachment-179778\" style=\"width: 720px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/lira-neto-falar-de-reserva-cultural-num-pais-mestico-como-o-brasil-nao-faz-sentido\/lira-neto2\/\" rel=\"attachment wp-att-179778\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-179778 size-full\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/lira-neto2.jpg\" width=\"720\" height=\"1081\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/lira-neto2.jpg 720w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/lira-neto2-200x300.jpg 200w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/lira-neto2-333x500.jpg 333w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/lira-neto2-160x240.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/lira-neto2-640x961.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-179778\" class=\"wp-caption-text\">Lira Neto, durante a entrevista<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nP. O debate sobre a apropria\u00e7\u00e3o cultural ganhou for\u00e7a nas \u00faltimas semanas, desde que uma menina branca com c\u00e2ncer relatou ter sido criticada por usar turbante. O que voc\u00ea opina sobre esse debate? E como ele pode ser aplicado no caso do samba? Argumenta-se, por exemplo, que artistas negros morreram de fome ou foram perseguidos pela pol\u00edcia, enquanto artistas brancos ganharam dinheiro com o samba.<br \/>\nR. Acho que esse debate \u00e9 mais complexo do que como vem se dando. Falar de reserva cultural num pa\u00eds mesti\u00e7o n\u00e3o faz sentido. A riqueza do Brasil \u00e9 exatamente sua mesti\u00e7agem. A gente n\u00e3o pode querer que uma coisa seja de branco, outra de preto e outra de \u00edndio. Ou que algo seja coisa de imigrante ou de japon\u00eas. O Brasil \u00e9 a mistura. Querer definir o que \u00e9 territ\u00f3rio especifico de determinados segmentos racial \u00e9 um pouco limitado. Se \u00e9 por esse vi\u00e9s, eu que sou um cearense radicado em S\u00e3o Paulo jamais deveria estar falando de samba. Os brancos contribu\u00edram e muito para a evolu\u00e7\u00e3o do g\u00eanero. Basta falar de um nome: Noel Rosa. A hist\u00f3ria do samba e do pr\u00f3prio Brasil n\u00e3o faz sentido sem esse nome. O que seria do samba sem o papel fundamental de Francisco Alves, o cantor que popularizou e democratizou o samba para as classes m\u00e9dias? A\u00ed tem aquela velha vitimiza\u00e7\u00e3o de dizer que ele roubava ou comprava os sambas e gravava como se fosse dele. Isso era algo que se dava de forma natural. O pr\u00f3prio Cartola dizia que ele, Noel e o Ismael Silva vendiam muitos sambas. Para eles era muito importante. O que n\u00e3o podemos \u00e9 querer analisar o passado com os olhos de hoje, com os valores de hoje. Hoje parece uma sacanagem o sambista vender seu samba. Naquele momento era uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia e mais do que isso. Eles n\u00e3o eram pobres coitados que estavam sendo explorados pelo Francisco Alves. Aquilo era do jogo deles. Eles pr\u00f3prio roubavam sambas entre si, compravam sambas entre si. A quest\u00e3o \u00e9 sempre mais complicada. E eu procuro mostrar exatamente isso: n\u00e3o faz sentido entender uma manifesta\u00e7\u00e3o cultural t\u00e3o rica se voc\u00ea quer transform\u00e1-la unicamente em um g\u00eanero afro. O samba em sua origem sofreu influ\u00eancias outras. A base r\u00edtmica \u00e9 africana, dos bantus da Angola. Mas a\u00ed entram outros elementos, como o fandango, a rabaneira, a polka europeia. Sou radicalmente contra o discurso de purismo. Isso \u00e9 tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de higieniza\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o vamos limpar tudo que n\u00e3o seja de influ\u00eancia africana ou brasileira? N\u00e3o existe isso. Se voc\u00ea for relegar qualquer influ\u00eancia externa, tira o viol\u00e3o da hist\u00f3ria. A rigor nos vai sobrar como aut\u00eantico a m\u00fasica amer\u00edndia. Porque tudo o mais \u00e9 mistura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">P. Um trecho de seu livro chama aten\u00e7\u00e3o porque voc\u00ea fala justamente sobre apropria\u00e7\u00e3o cultural, mas por parte dos negros dessa \u00e9poca. Diz assim: \u201cO processo de exclus\u00e3o, contudo, se fazia acompanhar de um movimento simult\u00e2neo, rico de conflu\u00eancias e assimila\u00e7\u00f5es. Sob o olhar nauseado das elites, as festividades origin\u00e1rias de tradi\u00e7\u00e3o branca e portuguesa experimentavam uma gradual apropria\u00e7\u00e3o pela comunidade negra\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">R. Antes do mercado fonogr\u00e1fico, como o samba era divulgado? Na festa da Penha, da nossa senhora da Penha. Que era uma festa de branco, portuguesa, com quitutes portugueses. Os negros chegaram e tomaram conta do espa\u00e7o. E viraram donos do peda\u00e7o. E a festa virou o principal centro de difus\u00e3o do samba do Rio daquele per\u00edodo. Esse contrabando entre significados \u00e9 que \u00e9 bonito. Essa an\u00e1rquica conflu\u00eancia de elementos dispares, aparentemente inconcili\u00e1veis. A cultura brasileira \u00e9 sincr\u00e9tica. E a gente fechar os olhos para isso \u00e9 de uma bobagem imensa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">P. E como o mercado influenciou no desenvolvimento do samba?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">R. Esse foi um processo cheio de bel\u00edssimas contradi\u00e7\u00f5es. Quanto mais o samba se branqueava, mais ele tinha aceita\u00e7\u00e3o na classe m\u00e9dia e nas elites. Ele perdeu umas coisas e foi ganhando outras. Querer satanizar tudo o que vem da ind\u00fastria \u00e9 nocivo, \u00e9 um pensamento anacr\u00f4nico. O samba soube se usar da ind\u00fastria cultural e ele foi ganhando, a medida que perdia algo de sua impureza (ou pureza inicial). Ele foi sendo lapidado. Temos que olhar isso de forma dial\u00e9tica. Se isso n\u00e3o tivesse ocorrido, teria continuado no gueto e n\u00e3o teria contribu\u00eddo pra cultura brasileira como vem contribuindo. \u00c9 uma via de maio dupla sempre. Um confronto. N\u00e3o fa\u00e7o o ju\u00edzo de valor se foi melhor ou n\u00e3o. Mas ocorreu. Se deu. E o bonito \u00e9 ver as estrat\u00e9gias que o samba utilizou dentro desse processo para tirar dividendos para si. Isso se deu com o jazz, com o blues, com o rock. Se n\u00e3o voc\u00ea vai querer que fique sempre no fundo do quintal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">P. A personagens lend\u00e1rios, como a tia Ciata e o compositor Donga, voc\u00ea d\u00e1 nome e sobrenome, coloca no contexto da \u00e9poca e fala sobre suas peculiaridades. Deixam de ser her\u00f3is do samba para serem pessoas normais. Inclusive muitos estavam envolvidos em atos il\u00edcitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">R. Todos os personagens tem seus defeitos, qualidades, e v\u00edcios. Voc\u00ea conhece algum ser humano sem defeitos? Quando vou biografar algu\u00e9m, sempre busco o que os fazem humanos. Esse embate permanente entre essas esferas que separamos de forma did\u00e1tica: o bem e o mal, o certo e o errado. N\u00e3o existe isso. Essas pessoas s\u00e3o contradit\u00f3rias. Muitos estavam em condi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social, ent\u00e3o era uma forma deles reagirem isso. A figura do malandro \u00e9 tamb\u00e9m algo que idealizamos. Aquele cara de chap\u00e9u, boa pra\u00e7a, ganha todas as minas. Isso \u00e9 cinematogr\u00e1fico. A vida era dura para esses caras, que morriam cedo por causa de tuberculose, s\u00edfilis, facada ou tiro. E depois a gente glamoriza. Essas pessoas estavam expostas a situa\u00e7\u00f5es bastante extremas, com dificuldades financeiras, de sa\u00fade, de moradia&#8230; E da\u00ed a forma que elas reagiam a essa hostilidade.<br \/>\nP. Acabamos de celebrar, no final do ano passado, os 100 anos do samba. O escritor Paulo Lins [autor da obra Desde que o samba \u00e9 samba] explicou ao EL PA\u00cdS que a import\u00e2ncia da data foi o fato da can\u00e7\u00e3o Pelo Telefone ter sido registrada como &#8220;samba&#8221; na Biblioteca Nacional. Foi o momento, segundo diz, que uma palavra de origem africana se imp\u00f4s como cultura nacional. O que acha disso?<br \/>\nR. Essa data n\u00e3o tem nenhum significado para mim. Antes de Pelo Telefone ter sido gravada, j\u00e1 havia umas outras 20 grava\u00e7\u00f5es que levavam &#8220;samba&#8221; no r\u00f3tulo. A import\u00e2ncia de Pelo Telefone\u00e9 que Donga conseguiu descobrir a f\u00f3rmula de fabricar um sucesso. Mas um registro na Biblioteca Nacional n\u00e3o significa o nascimento de um g\u00eanero. Precisamos de uma data para abastecer o mercado de noticias. E o problema disso \u00e9 personificar, personalizar&#8230; Estamos sempre buscando nossos mitos fundadores. E a\u00ed voc\u00ea passa a ter o criador do samba. Isso \u00e9 uma bobagem. O samba, como todo g\u00eanero, \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o coletiva. Como \u00e9 bobagem dizer que o Bide foi o inventor do primeiro surdo. Bobagem. Ele n\u00e3o era um sujeito iluminado que inventou um instrumento. Ele era a express\u00e3o de uma cultura ancestral que trazia esses batuques desde a \u00c1frica. Foi o nosso povo que criou o instrumento. Como tamb\u00e9m \u00e9 empobrecedor dizer que o samba nasceu no quintal da tia Ciata. Como ent\u00e3o ele foi disseminado de forma t\u00e3o r\u00e1pida pela cidade? N\u00e3o tinha uma s\u00f3 tia Ciata ou s\u00f3 uma Pequena \u00c1frica, mas sim v\u00e1rias. Isso \u00e9 muito mais bonito. Todos esses personagens eram pessoas simples do povo. Eu aponto para essa quest\u00e3o sempre no livro: \u00e9 o coletivo que produz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: El Pa\u00eds<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele n\u00e3o era um sujeito iluminado que inventou um instrumento. Ele era a express\u00e3o de uma cultura ancestral que trazia esses batuques desde a \u00c1frica. Foi o nosso povo que criou o instrumento. 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