{"id":18561,"date":"2013-09-24T14:00:49","date_gmt":"2013-09-24T17:00:49","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=18561"},"modified":"2013-09-24T08:47:47","modified_gmt":"2013-09-24T11:47:47","slug":"na-rede-particular-do-rio-93-dos-partos-sao-cesarianas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/na-rede-particular-do-rio-93-dos-partos-sao-cesarianas\/","title":{"rendered":"Na rede particular do Rio, 93% dos partos s\u00e3o cesarianas"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-18562\" alt=\"ImageProxy (8)\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/ImageProxy-811-300x225.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/ImageProxy-811-300x225.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/ImageProxy-811-409x307.jpg 409w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/ImageProxy-811.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<div id=\"ecxarticle-body\">\n<div>\n<p>Nas maternidades particulares da cidade do Rio, praticamente n\u00e3o nascem mais crian\u00e7as de parto normal. Segundo a Secretaria municipal de Sa\u00fade, 93% dos partos realizados nos hospitais privados s\u00e3o cesarianas, quando a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade recomenda que esse percentual n\u00e3o ultrapasse os 15%. J\u00e1 nas unidades p\u00fablicas do munic\u00edpio, o \u00edndice \u00e9 de 36%. Com isso, a capital tem, juntando maternidades particulares e p\u00fablicas, 57% de cesarianas, contra 52% em todo o Brasil.<\/p>\n<p>Entre os hospitais p\u00fablicos do munic\u00edpio, a Maternidade Maria Am\u00e9lia Buarque de Hollanda, no Centro, \u00e9 a que tem a menor taxa de cesarianas da cidade: 18%. Inaugurada em maio de 2012, a unidade j\u00e1 \u00e9 refer\u00eancia e tem atra\u00eddo at\u00e9 gr\u00e1vidas com planos de sa\u00fade. Ap\u00f3s uma experi\u00eancia traum\u00e1tica no nascimento do primeiro filho, hoje com 5 anos, a arquiteta Ana Karina Costa Amaral, de 36 anos, abandonou a m\u00e9dica do plano de sa\u00fade, j\u00e1 na 41\u00aa semana de gesta\u00e7\u00e3o, para ter a pequena Luiza na nova maternidade.<\/p>\n<p>\u2014 A m\u00e9dica pediu dinheiro por fora para acompanhar o meu trabalho de parto. Chegamos a aceitar, mas no final da gesta\u00e7\u00e3o ela disse que a crian\u00e7a estava muito alta e que a cesariana seria necess\u00e1ria. Nunca mais voltei ao consult\u00f3rio dela, e minha filha nasceu de parto normal, no hospital p\u00fablico, com 42 semanas de gesta\u00e7\u00e3o, sem qualquer problema \u2014 contou.<\/p>\n<p>O tema preocupa especialistas e ganhou as telas de cinema. Em cartaz desde agosto, o filme \u201cO renascimento do parto\u201d, de \u00c9rica de Paula e Eduardo Chauvet, retrata o n\u00famero alarmante de cesarianas no Brasil e mostra as consequ\u00eancias cl\u00ednicas e psicol\u00f3gicas para os beb\u00eas, que cada vez mais nascem prematuros. Atrav\u00e9s de relatos de especialistas na \u00e1rea, o longa promove uma reflex\u00e3o sobre o futuro de uma civiliza\u00e7\u00e3o nascida sem os chamados \u201chorm\u00f4nios do amor\u201d, liberados, segundo m\u00e9dicos, apenas em condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas do trabalho de parto.<\/p>\n<p><strong>M\u00e9dico alerta para perigos da prematuridade<\/strong><\/p>\n<p>Especializado em neonatologia, o pediatra Jos\u00e9 Vicente de Vasconcelos, da Maternidade Leila Diniz, na Barra da Tijuca, alerta que a prematuridade provocada pela cesariana pode causar problemas respirat\u00f3rios no beb\u00ea. A OMS considera prematuras crian\u00e7as que nascem antes de 37 semanas completas \u2014 e \u00e9 comum o agendamento de cesarianas j\u00e1 a partir da 37\u00aa semana.<\/p>\n<p>\u2014 A prematuridade leva a muitos riscos, como o de doen\u00e7as respirat\u00f3rias, que podem exigir interna\u00e7\u00e3o e afastar a m\u00e3e do beb\u00ea. Ele demora mais para come\u00e7ar a se alimentar. Al\u00e9m disso, h\u00e1 o perigo de infec\u00e7\u00e3o hospitalar. O trabalho de parto \u00e9 importante porque o beb\u00ea, quando passa pelo canal de parto, elimina o excesso de l\u00edquido dos pulm\u00f5es. Na cesariana, isso n\u00e3o acontece. O beb\u00ea nasce cheio de l\u00edquido nos pulm\u00f5es e, muitas vezes, tem dificuldade para respirar. S\u00e3o muitos os riscos, mas infelizmente temos uma epidemia de cesarianas, que s\u00f3 deveriam ser adotadas quando h\u00e1 perigo para a m\u00e3e e a crian\u00e7a \u2014 alerta.<\/p>\n<p>Aline Sudo, consultora de amamenta\u00e7\u00e3o, conta que beb\u00eas que nascem de cesariana apresentam mais dificuldades para mamar no peito:<\/p>\n<p>\u2014 No parto normal, o beb\u00ea j\u00e1 est\u00e1 pronto para come\u00e7ar a mamar na hora em que nasce. Na cesariana, como \u00e9 marcada, muitas vezes o beb\u00ea ainda n\u00e3o est\u00e1 pronto e pode ter algum transtorno na hora de fazer contato com a m\u00e3e.<\/p>\n<p>O \u00edndice de cesarianas em todo o estado chegou a 62% em 2012. Subsecret\u00e1ria de Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Sa\u00fade da Secretaria estadual de Sa\u00fade, a m\u00e9dica sanitarista M\u00f4nica Almeida disse que o problema muitas vezes \u00e9 provocado pela falta de leitos de maternidade, principalmente na Baixada Fluminense.<\/p>\n<p>\u2014 O m\u00e9dico, ent\u00e3o, \u00e9 obrigado a marcar dia e hora, para n\u00e3o correr o risco de, na hora do parto, n\u00e3o haver vaga para a paciente \u2014 contou.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma experi\u00eancia traum\u00e1tica em duas cesarianas, J\u00falia Ara\u00fajo dos Santos, de 23 anos, moradora de Duque de Caxias, decidiu buscar atendimento na maternidade carioca Maria Am\u00e9lia Buarque de Hollanda.<\/p>\n<p>\u2014 Uma amiga indicou esta maternidade e disse que o atendimento \u00e9 igual ao de hospital particular. \u00c9 o meu primeiro dia aqui, mas j\u00e1 percebi que \u00e9 muito melhor do que l\u00e1 perto de casa \u2014 comentou J\u00falia, que est\u00e1 com 39 semanas de gravidez.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio municipal de Sa\u00fade, Hans Dohmann, reconhece que ainda h\u00e1 casos de gr\u00e1vidas que peregrinam em busca de atendimento, mas afirma que s\u00e3o pacientes de outros munic\u00edpios. Segundo ele, o projeto Cegonha Carioca tem conseguido assegurar o atendimento \u00e0s gestantes da capital. Sobre os altos \u00edndices de cesariana, o secret\u00e1rio destacou que a decis\u00e3o \u201csoberana e leg\u00edtima \u00e9 sempre do m\u00e9dico\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda temos um espa\u00e7o para caminhar at\u00e9 alcan\u00e7ar as recomenda\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, mas j\u00e1 estamos pr\u00f3ximos. Um trabalho de educa\u00e7\u00e3o dos profissionais de sa\u00fade e das gestantes, que muitas vezes preferem a cesariana, \u00e9 que vai nos aproximar das recomenda\u00e7\u00f5es \u2014 acredita.<\/p>\n<p>De acordo com a vice-presidente do Cremerj, a obstetra Vera Ferreira, o m\u00e9dico marca a data para garantir a interna\u00e7\u00e3o, inclusive porque h\u00e1 falta de leitos tamb\u00e9m na rede privada:<\/p>\n<p>\u2014 Nos munic\u00edpios menores, o problema \u00e9 a fala de profissionais, e os m\u00e9dicos acabam marcado cesariana nos dias em que t\u00eam certeza de que a equipe estar\u00e1 completa. Outra quest\u00e3o \u00e9 a baixa remunera\u00e7\u00e3o. Um parto normal demora em m\u00e9dia 12 horas, e o profissional recebe cerca de R$ 300 para acompanhar todo esse tempo e os dias seguintes. Fora isso, tem o pr\u00f3prio desejo da mulher de fazer cesariana. O Cremerj n\u00e3o defende isso e tem a preocupa\u00e7\u00e3o de sempre informar que o parto normal \u00e9 a primeira via.<\/p>\n<p><strong>Ap\u00f3s a dor, a longa espera por justi\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fam\u00edlia de gestante morta em hospital em 2002 at\u00e9 hoje n\u00e3o recebeu indeniza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A mesma l\u00f3gica da rapidez na hora de escolher o tipo de parto n\u00e3o vale quando \u00e9 preciso corrigir erros e fazer justi\u00e7a. Alyne da Silva Pimentel Teixeira, de 28 anos, morreu em novembro de 2002, no sexto m\u00eas de gesta\u00e7\u00e3o, cinco dias ap\u00f3s dar entrada num hospital p\u00fablico de Belford Roxo e n\u00e3o receber atendimento apropriado. A fam\u00edlia recorreu \u00e0 Justi\u00e7a no ano seguinte, mas at\u00e9 hoje, dez anos depois, n\u00e3o saiu uma decis\u00e3o. Por causa da demora, em 2007 o caso foi submetido ao Comit\u00ea Para a Elimina\u00e7\u00e3o de Todas as Formas de Discrimina\u00e7\u00e3o Contra a Mulher (Cedaw, na sigla em ingl\u00eas), da ONU. Em agosto de 2011, o Cedaw, condenou o Estado brasileiro pela morte de Alyne. Al\u00e9m de fazer uma s\u00e9rie de recomenda\u00e7\u00f5es para garantir \u00e0s mulheres uma maternidade segura, o comit\u00ea determinou o pagamento de indeniza\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia da gestante. Foi a primeira condena\u00e7\u00e3o internacional do grupo referente a morte materna.<\/p>\n<p>Da mesma forma que no caso da a\u00e7\u00e3o na Justi\u00e7a, at\u00e9 hoje os parentes de Alyne est\u00e3o \u00e0 espera: o pagamento da indeniza\u00e7\u00e3o, cujo valor n\u00e3o revelam, ainda n\u00e3o saiu.<\/p>\n<p>Alyne deixou uma filha, hoje com 15 anos, criada pela av\u00f3 materna, Maria de Lourdes da Silva Pimentel, de 63. Logo que a m\u00e3e morreu, a menina parou de falar e praticamente n\u00e3o se alimentava. A av\u00f3 precisou abandonar o trabalho de dom\u00e9stica para cuidar da neta e, sem sal\u00e1rio, passou a contar com a ajuda de parentes e amigos.<\/p>\n<p>\u2014 Ela (a neta) sofreu muito e precisou de terapia para superar a perda. Ainda tem problemas na escola. Tanto que s\u00f3 aprendeu a escrever h\u00e1 pouco tempo \u2014 contou Lourdes. \u2014 Dinheiro nenhum vai trazer minha filha de volta. Mas quero fazer justi\u00e7a para que outras fam\u00edlias n\u00e3o passem pelo mesmo drama.<\/p>\n<p>Vera Soares, secret\u00e1ria de Articula\u00e7\u00e3o Institucional e A\u00e7\u00f5es Tem\u00e1ticas da Secretaria de Pol\u00edticas Para as Mulheres, do governo federal, argumentou que s\u00e3o necess\u00e1rias v\u00e1rias consultas jur\u00eddicas antes de pagar a indeniza\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um arcabou\u00e7o de consultas para proteger a decis\u00e3o pol\u00edtica de acatar a orienta\u00e7\u00e3o do comit\u00ea. J\u00e1 temos o respaldo dos procuradores dos munic\u00edpios do Rio e de Belford Roxo, e o processo est\u00e1 em an\u00e1lise. Espero que at\u00e9 o fim do ano o caso esteja resolvido.<\/p>\n<p>Fonte: O Globo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas maternidades particulares da cidade do Rio, praticamente n\u00e3o nascem mais crian\u00e7as de parto normal. 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