{"id":188549,"date":"2017-04-20T07:29:32","date_gmt":"2017-04-20T10:29:32","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=188549"},"modified":"2017-04-20T07:29:32","modified_gmt":"2017-04-20T10:29:32","slug":"o-dia-em-que-vi-leni-riefenstahl-cineasta-de-adolf-hitler","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-dia-em-que-vi-leni-riefenstahl-cineasta-de-adolf-hitler\/","title":{"rendered":"O dia em que vi Leni Riefenstahl, a cineasta de Adolf Hitler"},"content":{"rendered":"<header id=\"up\">\n<div class=\"top-blog cf\">\n<div class=\"wrap\">\n<div class=\"cf row-botom\">\n<div class=\"menu-toggle\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"wrap\">\n<section class=\"post-main\">\n<figure style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"attachment-post-thumbnail wp-post-image\" src=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/blog\/samuel\/agora\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/leni.jpg\" alt=\"Leni Riefenstahl\" width=\"900\" height=\"466\" \/><figcaption>Leni Riefenstahl<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"post-meta-info post-meta-info-bottom cf\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"fl-l\">\n<div class=\"post-author\">Por Haroldo Ceravolo Sereza<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<h2 class=\"sub-tit\" style=\"text-align: justify;\">Em 2000, Leni Riefenstahl (1902-2003) estava viva. E ativa. Encontrei-a quase que por acaso<\/h2>\n<div class=\"main-content\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Em 2000, Leni Riefenstahl (1902-2003) estava viva. E ativa. Encontrei-a por acaso: cheguei \u00e0 Feira de Frankfurt, para uma cobertura jornal\u00edstica, sem saber como ela funcionava. Perdido, na sala de jornalistas, em vez de me orientar pelo guia de imprensa, que n\u00e3o sabia que existia ainda, fiquei olhando os cartazes. Um deles era da editora Taschen e trazia uma informa\u00e7\u00e3o que me parecia inacredit\u00e1vel: a cineasta oficial da Alemanha nazista estaria na feira para lan\u00e7ar uma livro. Me agendei para ir \u00e0 coletiva e, l\u00e1, me surpreendi: fui o \u00fanico brasileiro a cobrir o evento (que n\u00e3o estava inclu\u00eddo no guia de imprensa), o que ajudou a revista\u00a0<\/em>Imprensa\u00a0<em>a justificar o texto como \u201co furo do m\u00eas\u201d, ainda que obtido numa coletiva. \u00a0Abaixo, meu relato.\u00a0<\/em><\/p>\n<div id=\"Brid_87079179_container\" class=\"brid-outstream\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"Brid_87079179\" class=\"brid brid-default-skin brid-paused\">\n<div id=\"Brid_87079179_adContainer\" class=\"brid-advert-container\">\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela entra sorridente. O cabelo est\u00e1 tingido. A maquiagem cobre completamente seu rosto, \u00e9 poss\u00edvel perceber. Est\u00e1 usando um terninho bege, coberto por um casaco de peles no mesmo tom. Magra, bastante magra, mas tamb\u00e9m muito forte para algu\u00e9m com os seus 98 anos \u2013 e, especialmente, para quem sofreu um acidente de helic\u00f3ptero no Sud\u00e3o, em fevereiro deste ano, quando trabalhava \u2013, a mulher que entra para a entrevista, cercada por cinegrafistas e fot\u00f3grafos, poderia estar vivendo mais um dia de gl\u00f3ria.<\/p>\n<div id=\"Brid_87079168_container\" class=\"brid-outstream\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"Brid_87079168\" class=\"brid brid-default-skin brid-paused\">\n<div id=\"Brid_87079168_adContainer\" class=\"brid-advert-container\">\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o. A cineasta Leni Riefenstahl est\u00e1 ali para, mais uma vez, tentar inutilmente reconstruir um passado sobre o qual perdeu totalmente o controle \u2013 h\u00e1 55 anos, em 1945, com o fim da 2.\u00aa Guerra Mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leni esteve na Feira de Frankfurt para o lan\u00e7amento de um livro de arte que \u00e9, ao mesmo tempo, uma fotobiografia. Lan\u00e7ado pela Taschen, <em>Five Lives<\/em> (Cinco Vidas) estar\u00e1 \u00e0 venda em uma semana. Custar\u00e1 o equivalente a R$ 65 na Alemanha. Traz imagens dessa personagem desde a\u00a0 inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia at\u00e9 os mais recentes registros que realizou durante mergulhos, agora suspensos, por quest\u00f5es de sa\u00fade. Claro que h\u00e1 reprodu\u00e7\u00f5es de seus filmes, com destaque para <em>Olympia<\/em>, assustadoramente pl\u00e1sticas. E tamb\u00e9m de sua passagem pela \u00c1frica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A multid\u00e3o de jornalistas em busca de uma imagem sua, numa de suas raras apari\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, cria uma certa confus\u00e3o. Completamente escondida pelo muro de flashs, passam-se dois ou tr\u00eas minutos em que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel v\u00ea-la. Mas a ordem acaba por ser restabelecida, e come\u00e7a a confer\u00eancia, marcada pela figura ambivalente de Leni. Afinal, como bem lembrou seu cicerone, o historiador do cinema Kevin Brownlow, estava-se diante de uma das inventoras da arte, gente do porte do russo Sergei Eisenstein, certamente a \u00faltima remanescente da gera\u00e7\u00e3o. Mas tamb\u00e9m estava-se diante da mulher que, como ningu\u00e9m, criou uma imagem para a ideologia nazista e cuja obra provoca controv\u00e9rsias que parecem insuper\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Peter Cohen, no filme <em>Arquitetura da Destrui\u00e7\u00e3o<\/em>, demonstrou que o genoc\u00eddio em massa de judeus e ciganos promovido pela Alemanha estava, do ponto de vista est\u00e9tico, muito pr\u00f3ximo da busca da beleza incondicional. Leni foi, no cinema, certamente, quem mais bem expressou esse culto \u00e0 forma, utilizando recursos que at\u00e9 ent\u00e3o eram uma novidade nas telas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Brownlow lembrou que Ingmar Bergman tamb\u00e9m esteve ligado ao Partido Nazista em sua juventude e que outros nomes do cinema n\u00e3o podem se orgulhar do passado quando se fala dos anos 1930; no entanto, apenas Leni teve de carregar o fardo de passar toda a sua vida tendo de responder sobre isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAntes da Guerra ningu\u00e9m me chamava de nazista e criminosa\u201d, afirmou Leni, arrancando aplausos \u2013 sempre de metade da audi\u00eancia, enquanto a outra mantinha-se num sil\u00eancio constrangido, ou porque n\u00e3o fica bem para um jornalista torcer tanto numa coletiva, ou porque n\u00e3o se convence com as palavras da convidada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio, suas respostas eram dadas num tom baixo, como se fossem humildes pedidos de desculpas. Mas, conforme as perguntas tornavam-se mais \u00e1speras, Leni foi falando mais alto, com a vitalidade de um c\u00e3o amaea\u00e7ado. Quem n\u00e3o a podia ver jamais imaginaria estar ouvindo uma senhora quase centen\u00e1ria, que, somente quando esteve mais acuada, queixou-se do calor, das opera\u00e7\u00f5es por que passou recentemente e da sa\u00fade prec\u00e1ria. \u201cOs jornais mentem h\u00e1 50 anos sobre mim e mais da metade do que escrevem sobre mim \u00e9 mentira\u201d, reclamou. \u201cDe in\u00edcio, isso me incomodava.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas ela acabou se acostumando. Em termos, porque disse estar gostando muito da oportunidade de falar a tanta gente sobre esse passado que a amarra. \u201cTrabalhei para Hitler apenas por sete meses\u201d, disse Leni. E completa: \u201cPreferia nunca t\u00ea-lo encontrado.\u201d Teria sido mais feliz, acredita, se tivesse ido para os EUA, trabalhar como atriz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela foi contestada. Um dos jornalistas disse estar cansado de ouvir Leni negar seu passado nazista e perguntou a quem se destina um livro como esse, insinuando que a est\u00e9tica de Leni continua a agradar os gostos da extrema-direita. Ela retrucou e tentou desassociar pelo menos Olympia do regime: \u201cHitler n\u00e3o gostaria de ver exibidos nas telas os atletas negros que venceram em Berlim\u201d, argumentou, sem citar o nome do velocista Jesse Owens. N\u00e3o convenceu. Afinal de contas, seu filme foi premiado em Berlim no dia 20 de abril, em 1938, no anivers\u00e1rio do ditador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A jornalista Petra Erschfeld, de uma TV alem\u00e3, parecia torcer a cada pergunta e a cada resposta (na maioria das vezes, em alem\u00e3o e depois traduzida, outras diretamente em ingl\u00eas) de Leni. Vibrava mais quando a cineasta enfrentava dificuldades. Gostou especialmente quando, do outro lado da sala, veio uma pergunta: \u201cLeni, o que n\u00e3o \u00e9 justific\u00e1vel em nome da \u00a0arte?\u201d Mas a resposta foi frouxa: limitou-se a um \u201cn\u00e3o entendo o que voc\u00ea est\u00e1 querendo dizer\u201d. Para Petra, \u00e9 muito dif\u00edcil falar de Leni. Porque ela foi genial, do ponto de vista art\u00edstico, mas tamb\u00e9m porque ela tamb\u00e9m foi a express\u00e3o do Terceiro Reich, do mal. Leni, como ningu\u00e9m, expressou a beleza, que depois deixou claro possuir um lado obscuro e indissoci\u00e1vel.<\/p>\n<div id=\"Brid_91144898_container\" class=\"brid-outstream\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"Brid_91144898\" class=\"brid brid-default-skin brid-paused\">\n<div id=\"Brid_91144898_adContainer\" class=\"brid-advert-container\">\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">No momento mais ameno da entrevista, Leni falou sobre o filme que a norte-americana Jodie Foster planeja produzir sobre ela. Para Jodie, \u201cnenhuma mulher no s\u00e9culo 20 foi t\u00e3o admirada e vilanizada simultaneamente\u201d quanto Leni. Um talento imenso, a servi\u00e7o do mal. A alem\u00e3 explicou que n\u00e3o cedeu os direitos porque a lei norte-americana n\u00e3o lhe daria direito de veto sobre fatos que considerasse incorretos em sua hist\u00f3ria. Por isso, preferiu ceder suas mem\u00f3rias a um alem\u00e3o. Jodie, explicou, pode at\u00e9 fazer um filme sobre Leni, mas n\u00e3o ser\u00e1 um document\u00e1rio-biografia oficial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo zelo Leni n\u00e3o demonstrou com a fotobiografia da Taschen. Diz que ainda n\u00e3o havia tido tempo de l\u00ea-la e que s\u00f3 o recebera anteontem mesmo, mas que confiava plenamente que as entrevistas que deu e os documentos que mostrou \u00e0 editora seriam expressados corretamente. \u201cN\u00e3o sei em que essa obra pode ajudar a restabelecer a verdade\u201d, disse ela, eterna suspeita de ter namorado Adolf Hitler.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, afinal de contas, ser\u00e1 que Leni \u00e9 capaz de explicar por que teve de passar a maior parte de sua vida dando explica\u00e7\u00f5es sobre o que produziu de mais marcante? Sim, ela pode. Lembrou que sua vida est\u00e1 perto do fim e que passou quatro anos na pris\u00e3o, explicou que j\u00e1 est\u00e1 acostumada com isso e ponderou que muitos nazistas de carteirinha n\u00e3o foram punidos no fim da 2.\u00aa Guerra. \u201cAlgu\u00e9m tinha de ser acusado e difamado, e escolheram a mim, porque eu fiz o filme perfeito.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leni vai morrer sem conseguir livrar-se dessa culpa \u2013 a de fazer o filme perfeito. O que apenas parece injusto. Mas n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leni esteve na Feira de Frankfurt para o lan\u00e7amento de um livro de arte que \u00e9, ao mesmo tempo, uma fotobiografia. 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