{"id":18890,"date":"2013-09-25T08:46:32","date_gmt":"2013-09-25T11:46:32","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=18890"},"modified":"2013-09-25T08:46:32","modified_gmt":"2013-09-25T11:46:32","slug":"um-retrato-sensivel-de-clarice-lispector","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/um-retrato-sensivel-de-clarice-lispector\/","title":{"rendered":"Um retrato sens\u00edvel de Clarice Lispector"},"content":{"rendered":"<p>Obra apresenta perfil da escritora a partir do conv\u00edvio com os amigos Marina e Affonso<\/p>\n<div>Ubiratan Brasil<\/div>\n<div id=\"ecxbb-md-noticia-tabs\">\n<div id=\"ecxbb-md-noticia-tabs-1\">\n<div>\n<div>\n<p>Clarice Lispector (1920-1977) sempre foi devotada aos amigos, especialmente escritores. Diante deles, n\u00e3o era um ser fechado, amargurado, como se perfilava a partir de sua escrita intimista \u2013 na verdade, Clarice mostrava-se atenciosa e invariavelmente convidava as pessoas para a visitarem.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-18891\" alt=\"ImageProxy (1)\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/ImageProxy-125.jpg\" width=\"292\" height=\"280\" \/><\/p>\n<p>No rol das amizades, destacava-se o casal Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant\u2019Anna. Ambos a conheceram quando j\u00e1 era escritora consagrada, mas cultivaram com ela uma rela\u00e7\u00e3o de profunda amizade, que percorreu os caminhos da literatura e da vida. \u00c9 o que se observa em\u00a0<em>Com Clarice\u00a0<\/em>(Editora Unesp), volume em que Marina e Sant\u2019Anna esbo\u00e7am um retrato sens\u00edvel de uma mulher, \u00e0 primeira vista, indecifr\u00e1vel.<\/p>\n<p>Por isso, o livro apresenta facetas por meio de estudos acad\u00eamicos at\u00e9 da transcri\u00e7\u00e3o de um importante depoimento dado por Clarice ao Museu da Imagem e do Som do Rio, em1976, e do qual participou o casal de amigos, a pedido da escritora. \u201cEla estava particularmente feliz naquele dia, sorrindo v\u00e1rias vezes\u201d, lembra-se Sant\u2019Anna, que teve a ideia da obra gra\u00e7as aos incessantes pedidos de pessoas que escreveram livros relevantes sobre Clarice: resolveu oferecer sua vis\u00e3o e a de Marina, lembran\u00e7as de afeto e epifanias.<\/p>\n<p>Enquanto o poeta Affonso Romano de Sant\u2019Anna assina textos mais acad\u00eamicos, Marina Colasanti aposta no lirismo e nas recorda\u00e7\u00f5es mistas \u2013 vis\u00f5es distintas que s\u00f3 alimentam o ba\u00fa j\u00e1 repleto de imagens m\u00faltiplas de Clarice Lispector. Em\u00a0<em>Com Clarice<\/em>, o casal n\u00e3o busca decifrar um mist\u00e9rio, mas oferecer mais pe\u00e7as do enorme quebra-cabe\u00e7a que era a escritora.<\/p>\n<p>Boas hist\u00f3rias n\u00e3o faltam. \u201cUm dia, ela nos cobrou que n\u00e3o a convid\u00e1vamos para jantar. N\u00e3o o faz\u00edamos por pudor\u201d, lembra Affonso. \u201cMas, tendo ela manifestado o desejo, armamos um jantar onde ela escolheria todos os convidados. At\u00e9 o hor\u00e1rio era cedo, como ela queria. Fui busc\u00e1-la em sua casa. Pois ela chegou, viu aqueles amigos todos, mas, da\u00ed a uns 15 minutos, fez um pedido que era uma ordem: \u2018Quero ir embora.\u2019 Levei-a de volta \u00e0 sua solid\u00e3o. E os amigos compreenderam.\u201d<\/p>\n<p><strong>Clarice lamentava ter um esp\u00edrito cansado e blas\u00e9. \u201cPouca coisa me entusiasma, eu bebi demais na literatura\u201d, dizia. Essa a Clarice que voc\u00eas conheciam?<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Affonso<\/em><\/strong>\u00a0\u2013 N\u00e3o se pode julgar, conhecer Clarice por par\u00e2metros comuns. Ela era fora de s\u00e9rie, ocupava o \u201cn\u00e3o-lugar\u201d\u2013 que \u00e9, ali\u00e1s, o \u201clugar\u201d dos artistas excepcionais. As pessoas que a conheceram, da gera\u00e7\u00e3o dela, sabiam disto (Otto, Fernando, H\u00e9lio, Paulo Francis, Drummond); e n\u00f3s, que viemos depois, captamos logo essa aura da pessoa extremamente delicada. Ela parecia um jarro de porcelana que ia quebrar a qualquer hora. E a linguagem com que ela se expressa (a literatura) tem essa tens\u00e3o, essa fr\u00e1gil fortaleza. Talvez tenha sido o que ela quis dizer com \u201cbebi demais na literatura\u201d. Ela vivia de linguagem e para a linguagem.<\/p>\n<p><em><strong>Marina<\/strong><\/em>\u00a0\u2013 Ela n\u00e3o era blas\u00e9, de jeito nenhum. Nem estava cansada, no sentido que se d\u00e1 a isso. Sempre tive a impress\u00e3o de que teria gostado muito de se entusiasmar com mais facilidade, de participar da vida de uma maneira f\u00e1cil, despreocupada. Mas n\u00e3o era poss\u00edvel. Havia, entre ela e a despreocupa\u00e7\u00e3o, uma barreira, e n\u00e3o era a literatura. Na literatura, ela buscava o abrigo que a vida n\u00e3o lhe oferecia.<\/p>\n<p><strong>Quais lembran\u00e7as Clarice tinha do per\u00edodo diplom\u00e1tico do marido, que viajou por v\u00e1rios pa\u00edses?<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Affonso<\/em><\/strong>\u00a0\u2013 Pensei numa \u00e9poca em fazer o Itamaraty e desisti. H\u00e1 que ter um certo talento. Clarice, me parece, era a anti diplomata: sorrir, ser gentil, representar, n\u00e3o era a dela. Deve ter se esfor\u00e7ado, mas, falando em termos psicanal\u00edticos, diria que ela n\u00e3o \u201crepresentava\u201d, simplesmente \u201capresentava-se\u201d como era. Veja o \u201cn\u00e3o-jantar\u201d l\u00e1 em casa em que ela esteve e n\u00e3o-esteve. Ali\u00e1s, uma boa defini\u00e7\u00e3o para ela talvez seja essa: ela n\u00e3o estava nem a\u00ed.<\/p>\n<p><strong><em>Marina<\/em><\/strong>\u00a0\u2013 Mais do que lembran\u00e7as tur\u00edsticas ou diplom\u00e1ticas, tinha lembran\u00e7as de sobreviv\u00eancia. As cartas escritas \u00e0s irm\u00e3s nos dizem de sua solid\u00e3o em meio \u00e0s festas de representa\u00e7\u00e3o, e o seu olhar se pousa j\u00e1 inquiridor sobre pessoas desconhecidas, mais interessado no humano do que nas paisagens.<\/p>\n<p><strong>Como existem escassas imagens em movimento de Clarice, chama aten\u00e7\u00e3o a observa\u00e7\u00e3o que voc\u00eas fazem sobre os sil\u00eancios que volta e meia interrompiam a fala dela. Como era isso?<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Affonso<\/em><\/strong>\u00a0\u2013 A coragem do sil\u00eancio, isto me apaixona. E ela fazia do sil\u00eancio o seu esconderijo. Eu me lembro na juventude ao ler\u00a0<em>Jean Christophe<\/em>, de Romain Rolland, e ter ficado impressionado com um personagem (acho que o tio Gotfried) que havia dito 70 palavras em toda a sua vida. Por isto, pode-se pensar em poesia quando se fala de Clarice: poesia \u00e9 o sentido rodeado de sil\u00eancio por todos os lados. Tem uma entrevista dela na TV que ilustra isto: seus sil\u00eancios e os entrevistadores sem saber o que fazer. Ali\u00e1s, vou lhe dizer: o sil\u00eancio pode ser doentio mas \u00e9 tamb\u00e9m um luxo. Ela se dava esse luxo.<\/p>\n<p><strong><em>Marina<\/em><\/strong>\u00a0\u2013 Eram pausas mais longas do que o esperado, pausas suspensas, que podiam ser interrompidas a qualquer momento pela retomada da fala, como se ela estivesse apenas pensando antes de ir adiante. Reparei nisso na primeira vez que estive com ela, em sua casa. Eram pausas que o interlocutor n\u00e3o se atrevia a interromper, como se qualquer palavra fosse partir o discurso interior e calado que parecia prosseguir dentro dela.<\/p>\n<p><strong>Quais eram as preocupa\u00e7\u00f5es de Clarice com o of\u00edcio de escrever fic\u00e7\u00e3o e fazer jornalismo?<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Affonso<\/em><\/strong>\u00a0\u2013 Andam fazendo uma certa confus\u00e3o com certo material jornal\u00edstico de Clarice, como se tudo fosse \u201cobra de arte\u201d. Ela precisava sobreviver e at\u00e9 alugava sua for\u00e7a de trabalho e usava pseud\u00f4nimos. Na biografia dela, volta e meia, o Otto Lara, que era uma alma amiga tentava arranjar um emprego para a amiga.<\/p>\n<p><strong><em>Marina\u00a0<\/em><\/strong>\u2013 H\u00e1 uma parte juvenil de sua atividade jornal\u00edstica que tem um valor puramente documental, de forma alguma liter\u00e1rio. O cruzamento entre as duas atividades se d\u00e1 j\u00e1 na revista\u00a0<em>Senhor<\/em>, quando cria a se\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Children&#8217;s Corner<\/em>, onde \u00e9 vis\u00edvel sua t\u00e9cnica de escrita em fragmentos, fragmentos com os quais mais tarde constru\u00eda os romances. Da mesma forma trabalha no\u00a0<em>Caderno B<\/em>\u00a0do\u00a0<em>Jornal do Brasil<\/em>, sempre avisando os leitores de sua dist\u00e2ncia formal da cr\u00f4nica, de seu \u201cn\u00e3o estar fazendo\u201d cr\u00f4nica, de seu n\u00e3o saber sequer o que, exatamente, estava fazendo. E no entanto sabia: estava fazendo literatura.<\/p>\n<p>Fonte: Estado de S. Paulo<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Obra apresenta perfil da escritora a partir do conv\u00edvio com os amigos Marina e Affonso Ubiratan Brasil Clarice Lispector (1920-1977) sempre foi devotada aos amigos, especialmente escritores. Diante deles, n\u00e3o era um ser fechado, amargurado, como se perfilava a partir de sua escrita intimista \u2013 na verdade, Clarice mostrava-se atenciosa e invariavelmente convidava as pessoas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":18891,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3],"tags":[6150],"class_list":["post-18890","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","tag-clarice-lispector"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/ImageProxy-125.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18890","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18890"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18890\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18891"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18890"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18890"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18890"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}