{"id":190000,"date":"2017-04-27T09:33:09","date_gmt":"2017-04-27T12:33:09","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=190000"},"modified":"2017-04-27T09:33:09","modified_gmt":"2017-04-27T12:33:09","slug":"primeira-greve-geral-brasil-completa-100-anos-em-2017","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/primeira-greve-geral-brasil-completa-100-anos-em-2017\/","title":{"rendered":"Primeira greve geral do Brasil completa 100 anos em 2017"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"bigtitle\" style=\"text-align: justify;\" data-section=\"GREVE GERAL\"><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><time class=\"time d-b\" datetime=\"2017-04-27BRT09:04\">Eduardo Alves Siqueira\u00a0<\/time><\/p>\n<div class=\"subtitle\" style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Em 1917, quando mulheres e crian\u00e7as labutavam at\u00e9 16 horas di\u00e1rias, irrompeu em S\u00e3o Paulo a primeira grande luta oper\u00e1ria brasileira, dirigida por anarquistas. Como come\u00e7ou. Quais suas conquistas e atualidade<\/strong><\/em><\/div>\n<div class=\"social pc\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"descript\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o dia 28 de abril de 2017 est\u00e1 marcada uma greve geral em todo o Brasil. A \u201creforma\u201d da previd\u00eancia e o projeto de terceiriza\u00e7\u00e3o, propostos pelo governo de Michel Temer e apoiados pela maioria do Congresso Nacional, motivaram a convoca\u00e7\u00e3o por parte dos sindicatos, centrais sindicais e movimentos sociais. Ainda n\u00e3o se sabe a amplitude que ter\u00e1 a greve, sua necessidade \u00e9 indiscut\u00edvel. H\u00e1 100 anos, em julho de 1917, eclodiram greves capitaneadas por anarquistas na cidade de S\u00e3o Paulo, que culminaram em uma greve geral que paralisou a capital, espalhando-se depois pelos estados de S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A chamada Greve Anarquista de 1917 foi considerada a primeira greve geral do Brasil. Ao longo de meados do s\u00e9culo XIX, at\u00e9 a d\u00e9cada de 1910, as primeiras greves se restringiam a categorias isoladas de oper\u00e1rios da embrion\u00e1ria ind\u00fastria brasileira. A partir da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, em 1888, os pequenos e grandes empres\u00e1rios da \u00e9poca passaram a utilizar m\u00e3o de obra estrangeira e assalariada para substituir os escravos. Os estrangeiros, na maioria italianos, portugueses e espanh\u00f3is, deixavam sua terra natal em busca de oportunidades, para fugir da pobreza e de eventuais persegui\u00e7\u00f5es. Traziam consigo as ideias que come\u00e7aram a dominar o pensamento europeu a partir da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789, entre elas, as de liberalismo, socialismo, comunismo e anarquismo. Foi nesse contexto de interc\u00e2mbio cultural que floresceram, no seio da nascente classe trabalhadora brasileira, os conceitos de sindicato, direitos trabalhistas, luta de classes, livre-mercado, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas d\u00e9cadas de 1900 e 1910, o sindicalismo mundial era disputado pelas vertentes socialista, comunista e anarquista. Desta \u00faltima surgiu o termo \u201canarcossindicalismo\u201d, que se caracterizava por uma atua\u00e7\u00e3o direta dos sindicalistas na organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, seja nas fazendas ou nas f\u00e1bricas, sem um car\u00e1ter institucional. Ent\u00e3o, em 1917, com a difus\u00e3o dessas ideias pelos imigrantes europeus, os princ\u00edpios do anarcossindicalismo ganharam visibilidade e for\u00e7a no Brasil, justificando o t\u00edtulo de Greve Anarquista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse per\u00edodo, n\u00e3o havia no pa\u00eds uma legisla\u00e7\u00e3o que protegesse ou garantisse direitos aos trabalhadores, apenas leis avulsas que tangenciavam a quest\u00e3o trabalhista. Na cidade de S\u00e3o Paulo, por exemplo, trabalhava-se nas f\u00e1bricas de 11 a 16 horas por dia e a maior parte da m\u00e3o de obra era composta por mulheres e crian\u00e7as. A explora\u00e7\u00e3o intensiva do trabalho e o emprego de m\u00e3o de obra feminina e infantil propiciava grande margem de lucro ao empresariado emergente. No entanto, a prosperidade da burguesia industrial n\u00e3o se refletiu em melhorias nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho insalubres enfrentadas pelo operariado. Greves ou reivindica\u00e7\u00f5es trabalhistas eram encaradas pelo governo e pelas classes dominantes como \u201ccaso de pol\u00edcia\u201d. Assim, al\u00e9m das jornadas de trabalho extenuantes e das condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de trabalho, oper\u00e1rios, mulheres, crian\u00e7as, imigrantes e ex-escravos que trabalhavam nas f\u00e1bricas ainda tinham que suportar o alto custo de vida e a mis\u00e9ria que se alastrou pelo Brasil durante a Rep\u00fablica Velha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.operamundi.com.br\/media\/images\/greve1917.png\" alt=\"\" \/><br \/>\nPrimeira greve geral do Brasil aconteceu em 1917, e parou f\u00e1bricas por aumento salarial e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em escala internacional, as grandes pot\u00eancias se digladiavam na 1\u00aa Guerra Mundial (1914-1918) pelas conquistas territoriais na \u00c1frica e na \u00c1sia . Enquanto isso, o M\u00e9xico, em 1910, e a R\u00fassia, em 1917, deram in\u00edcio a revolu\u00e7\u00f5es que marcaram profundamente o s\u00e9culo XX e repercutem at\u00e9 os dias de hoje, colocando em evid\u00eancia temas como reforma agr\u00e1ria, reforma urbana, nacionaliza\u00e7\u00e3o, coletiviza\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a social, direitos trabalhistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns desses conceitos eram defendidos por Edgard Leuenroth, tip\u00f3grafo e jornalista brasileiro que fundou os jornais \u201cTerra Livre\u201d, \u201cA Lanterna\u201d e \u201cA Plebe\u201d para disseminar suas ideias anarquistas e as reivindica\u00e7\u00f5es do operariado. Inspiradas nessas ideais, formaram-se as Ligas Oper\u00e1rias em diversos bairros de S\u00e3o Paulo. As ligas consistiam em conselhos de oper\u00e1rios que se organizaram em defesa de seus interesses coletivos. Como paradigma desse tipo de organiza\u00e7\u00e3o, sob o influxo da Internacional Socialista, podemos citar os conselhos de bairro surgidos na Comuna de Paris em 1871 e os sovietes russos nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ponto de partida para a Greve Geral foram as greves parciais por aumento salarial e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, que se espalharam por S\u00e3o Paulo nos meses de maio e junho de 1917, tendo apoio de parte da grande imprensa e sobretudo da imprensa anarquista. Na paralisa\u00e7\u00e3o de 9 de julho do mesmo ano, na F\u00e1brica Mari\u00e2ngela, a interven\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia resultou na morte do sapateiro espanhol Jos\u00e9 Martinez, membro da Federa\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria de S\u00e3o Paulo (FOSP) e da Confedera\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria Brasileira (COB). O incidente foi o estopim para a greve geral que se seguiu a 10 de julho, data do cortejo f\u00fanebre de Jos\u00e9 Martinez, contando com a ades\u00e3o gradual de v\u00e1rias categorias de oper\u00e1rios, a come\u00e7ar pelos trabalhadores da tecelagem Cotonif\u00edcio Crespi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fim de manter a unidade do movimento grevista, formou-se o Comit\u00ea de Defesa Prolet\u00e1ria (CDP), tendo como um dos l\u00edderes Edgard Leuenroth. Diante do aumento da repress\u00e3o policial e da falta de um acordo entre operariado, patronato e governo, uma comiss\u00e3o composta por membros da imprensa tomou a frente das negocia\u00e7\u00f5es, com a participa\u00e7\u00e3o do CDP. Em 16 de julho, foram firmados acordos que atendiam parcialmente \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es dos oper\u00e1rios, entre elas, um incremento salarial de 20%, a liberdade de associa\u00e7\u00e3o sindical e a n\u00e3o demiss\u00e3o dos grevistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora os acordos n\u00e3o tenham sido totalmente cumpridos e muitos dos militantes anarquistas fossem presos e expulsos do pa\u00eds de modo arbitr\u00e1rio, a Greve Geral de 1917 despertou nos oper\u00e1rios a consci\u00eancia de pertencimento a uma classe, a classe trabalhadora. A organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores em sindicatos, federa\u00e7\u00f5es e confedera\u00e7\u00f5es sindicais, desde ent\u00e3o, foram cruciais para as conquistas pol\u00edticas, sociais e trabalhistas nas d\u00e9cadas subsequentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como fruto dessas lutas e da press\u00e3o popular, Get\u00falio Vargas sancionou em 1943 a Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho (CLT). Entre os objetivos de Vargas, estava uma pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes, visando atender em partes \u00e0 demanda dos trabalhadores, sem que isto prejudicasse demasiadamente os interesses dos empres\u00e1rios. Outro objetivo era manter sob controle estatal a atividade dos sindicatos, submetendo-os financeiramente \u00e0 tutela do Estado e \u00e0s normas restritivas do Minist\u00e9rio do Trabalho. Tais medidas, somadas \u00e0 intensa vigil\u00e2ncia e \u00e0 repress\u00e3o das pol\u00edcias pol\u00edticas, foram minando aos poucos, nesse per\u00edodo, o movimento sindical \u2014 que s\u00f3 retornaria com for\u00e7a durante o governo de Jo\u00e3o Goulart (1961-1964), apresentando novas configura\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ditadura civil-militar, instaurada a partir de 1964, fortaleceu e ampliou os mecanismos de controle e repress\u00e3o concebidos na Era Vargas. Assim, as grandes greves de Contagem e Osasco em 1968 foram sufocadas pelos militares e serviram, junto com outras motiva\u00e7\u00f5es, para decretar o Ato Institucional n\u00ba5 (AI-5). Somente a partir de 1978, com as greves dos metal\u00fargicos do ABC paulista, o movimento sindical voltou a influir de modo decisivo nos avan\u00e7os da classe trabalhadora e nos rumos da pol\u00edtica nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De 1917 at\u00e9 os dias atuais, existiram e ainda existem in\u00fameras disputas dentro dos grupos da esquerda e entre os governantes para domesticar os sindicatos ou monopolizar a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, de forma oficial e legalista. No entanto, a hist\u00f3ria tem mostrado que o vi\u00e9s institucional dos sindicatos oficiais, reconhecidos por governos e liderados muitas vezes por \u201cpelegos\u201d, n\u00e3o trazem reais benef\u00edcios \u00e0 classe trabalhadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, as ligas de bairro, as comiss\u00f5es internas de f\u00e1brica, as organiza\u00e7\u00f5es por local de trabalho (OLTs), a participa\u00e7\u00e3o expressiva das mulheres nas paralisa\u00e7\u00f5es e a atua\u00e7\u00e3o dos sindicatos em sintonia com os trabalhadores do \u201cch\u00e3o de f\u00e1brica\u201d, sem o dom\u00ednio absoluto de uma c\u00fapula sindical, demonstram que a Greve Geral Anarquista de 1917 tem muito a ensinar sobre a realidade atual. Foi essa modalidade de trabalho org\u00e2nico, subterr\u00e2neo, que tornou poss\u00edvel as greves de Contagem e Osasco, em 1968, no auge da repress\u00e3o do regime militar. Foi o trabalho org\u00e2nico, de resist\u00eancia, com lideran\u00e7as na clandestinidade, que permitiu aos metal\u00fargicos do ABC paulista se manifestarem por seus direitos e abrirem caminho para a redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds nos anos 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A meu ver, a abrang\u00eancia e a legitimidade da greve geral programada para 28 de abril de 2017 dependem essencialmente dessa forma de organiza\u00e7\u00e3o aut\u00eantica, por local de trabalho, atrav\u00e9s do convencimento e da conscientiza\u00e7\u00e3o de que trabalhadores rurais, urbanos, servidores p\u00fablicos, prestadores de servi\u00e7os e todos os outros fazem parte de uma mesma classe trabalhadora, detentora de direitos e deveres que precisam ser respeitados por empregados, empregadores e governos. Portanto, abril de 2017 deveria prestar homenagem aos ensinamentos de julho de 1917. Deveria mostrar que as decis\u00f5es arbitr\u00e1rias da oligarquia pol\u00edtica e econ\u00f4mica que tomou o poder, na figura de Michel Temer e seus asseclas, n\u00e3o ser\u00e3o toleradas pela maioria da popula\u00e7\u00e3o, formada por trabalhadores, e n\u00e3o por patr\u00f5es.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1917, quando mulheres e crian\u00e7as labutavam at\u00e9 16 horas di\u00e1rias, irrompeu em S\u00e3o Paulo a primeira grande luta oper\u00e1ria brasileira, dirigida por anarquistas. Como come\u00e7ou. 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